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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

É preciso acabar com a esperança oportunista

 

Todo começo de ano é a mesma coisa: malditamente a esperança começa a dominar o mundo com suas promessas maravilhosas. Nenhum problema se a coisa funcionasse dentro da concepção política de Hannah Arendt onde é preciso prometer, mas também cumprir para ter credibilidade para a próxima promessa. Política para Arendt tem um mecanismo, uma ação primordial que é prometer. É a promessa que cumprida leva a promessa seguinte que move o seu mundo.

Mas, inoportunamente as promessas são maquiavélicas, simples meios economicistas para finalidades maiores e quase nunca se cumprem, pois a finalidade não é nunca o cumprimento da promessa, mas acalmar, entreter, desviar a atenção para possibilitar a implantação do desagradável. A esperança imobiliza as pessoas com o seu canto de sereia, uma promessa de glória sem esforço.

Creio, que por mais dolorido que seja, é preciso instaurar a desesperança geral e absoluta, o ceticismo profundo. É preciso não esperar nada porque como diz o grande filósofo de bar João Babão: "de onde mais se espera, não vem nada. De onde menos se espera é que não vem mesmo, mas qualquer ação ou resultado que vem de onde não se espera, é uma boa surpresa. Um resultado esperado é no máximo uma decepção".

Andar pela vida sem nada esperar, é um tanto desesperador, mas costuma gerar menos decepções e mais surpresas positivas. Por isto, mesmo sofrendo por vezes desse mal, procuro logo me vacinar, pois foi nada menos que o grande pensador italiano Antonio Gramsci que aconselhava ter um “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”, isto pensar esperando o pior, mesmo desejando o melhor, se consigo assim explicar o que Gramsci resumiu. Em suma, o pessimismo está longe daqueles que querem o pior para o mundo, mas é metódico para aqueles que não desejam se surpreender com expectativas ingênuas.

É bem verdade que a ingenuidade já fez muita coisa por esse mundo e por nós quando acreditamos que o impossível era fácil, ou que não existia impossibilidade. Mas o pessimismo, lido sobre uma ótica crítica e até cínica, parece muito mais otimista que qualquer otimismo. Artur Schopenhauer, o pai do pessimismo se referia ao nosso mundo como "o pior dos mundos possíveis". O pai do otimismo Leibniz afirmava o oposto: "o melhor dos mundos possíveis". Se o nosso mundo, na existência de outros, é o pior possível, então existem outros ainda melhores. Isso pra mim é o mais exaltado otimismo. Leibniz, ao contrário, nos condena a nunca conhecer realidade melhor. Portanto questão de pessimismo metódico.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Delírio

 


Um passo à frente

Outro ao lado

Outro a frente

Ao lado novamente

Assim ginga as plantas ao caminho

Eu, cá, no meu canto parado

A observar o balé

Das flores

Dos pássaros

A corredeira segue o seu ritmo

Eu sigo o meu

Capto o que a objetiva não vê

domingo, 28 de dezembro de 2025

Invicto

 


Quem quiser entender, entenda. Não recomendo. Desentenda. Tenha alucinações teatrais. O texto está aí. Não é pra se levar a sério. O texto vai pra academia. Não é marombeiro. Mas gosta de se contorcer. O texto deseja flexibilidade, mas também deseja ficar definido. O texto é contraditório.

O texto pega no peso. Acha sempre que tá demais. Tá sempre pegando pesado. Por isso faz inúmeras repetições nunca da mesma forma com a maior leveza possível. O texto quer ficar esbelto, mas tem sempre umas sobrinhas. Como escapar da tentação de um advérbio ou adjetivo. Gosta de um pronome gasto às vezes. Outras vezes busca um lugar pra um termo neófito.

Corre sempre o seu circuito como se fosse correr mil e quinhentos metros, mas acaba andando uma maratona. Tenta por mil vezes interromper o percurso, mas não consegue para por ali. Contorna uma esquina e sente-se um farsante se não mostrar a rua inteira. Tenta mostrar o impercebível e aí está sua poesia. Não fala do que expressa, mas do que não relata. Permite o leitor achar seu bar, seu restaurante, sua mercearia, sua biblioteca no caminho. Abandonar o percurso e ressignificar o texto segundo o bar, a biblioteca, a boate.

O livro segue não sendo ele mesmo. Difamado pelos fofoqueiros. E diz falem mal, mas falem de mim. O autor morre de desgosto. Mas o texto não se importa com o autor, mero instrumento para vir ao mundo. Isso, isso, continuem a me discutir. Tornem-me eterno! Tirem-me da vigência da temporalidade. Que o tempo dissolva e eu invicto.

sábado, 27 de dezembro de 2025

O furo é o novo

 


Já que eu já comecei a repetidamente deturpar um aspecto da interpretação sobre a teoria histórica de Walter Benjamin. Deixa-me aprofundar ainda mais explorando um aspecto da minha interpretação. A essa altura é mais uma teoria minha com crença de ter base benjaminiana do que um neobenjamismo (a palavra não existe, mas por similaridade tenho certeza que entendem).

Vou me focar num único aspecto do texto passado (Natal): o novo ser um furo no sistema, um desvio da regra estrita. Se nos debruçarmos nessa ideia de que o novo é o que escapa, o que possibilita uma fuga poderíamos pensar que seria um universo anarquista em plena ordem burocrática. De outro modo poderia dizer que é um espaço de liberdade em plena opressão.

Em epistemologia talvez não possamos falar nem de longe em mudança de paradigma, mas pra dar uma imagem forte: imaginem uma dobra do plano. O papel esticado mostra um universo organizado, um cosmos. Uma dobra muda significativamente a lógica. Parte do que está escrito no verso veio pra frente. O que estava escrito a frente foi condensado e recortado. O universo novo é fruto do novo arranjo.

Não houve transformação. Houve reacomodação. É o desafio de montar um novo quebra-cabeça com menos peças por um lado, mais peças por outro formando a nova imagem possível. Somente é possível porque não compromisso de reproduzir o existente, o passado. É factível porque pretende-se o novo. O defeito do piano ocasiona um novo instrumento (um órgão? Algo ainda não descrito?).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Conto de Viktor

 


Viktor com k não era parente de nenhuma Carol. Já tinha investigado. Investigar não era nem de longe sua especialidade. Uma irmã dele nasceu Carolina, mas hoje seu nome é artístico é Fênix do Sertão. Ele que é açougueiro de profissão. É como chamam aqueles que tem versátil manejo de lâminas como a navalha ou a peixeira.

Era constantemente chamado para descarnar um boi ou um bode. Mas de vez em quando também um desafeto. O preço era o mesmo. Baseado no quilo de carne do animal. Todo mundo, inclusive o delegado, compreendia que esse era o afazer dele. Tudo muito profissional. Teve um promotor que quis encrespar com ele, mas o juiz não gostou e pediu um favor a ele.

O juiz, aliás, era o único que podia pedir um favor pra ele. Mas sabia que não podia pedir mais que um. O segundo já tinha que pagar. O delegado também já tinha gasto os favores dele. Era impressionante o corte! Ele sabia separar as carnes com uma destreza impressionante. Filé era completamente filé. A picanha estava completamente separada. Os colchões duro e mole tudo a seu lugar.

Não era barato pagar o serviço. Mas não havia nenhum açougueiro como ele na região. Aliás na cidade não tinha outro. Na capital tinha um monte, mas esses só vendiam carne. Cortavam e desossavam, mas muito mal e de peças já compradas. Na cidade tinha um hospital até razoável para a população dela. Mas no campo quando o medico não chegaria a tempo, era Viktor que cortava. Tirava bala, botava intestino pra dentro, costurava com barbante até algumas coisas.

Carregava uma matula com todas as suas lâminas pra tirar uma lasquinha a qualquer momento necessário. Mas o seu dia-a-dia era muito tranquilo. Pouco precisavam dele. Matar um animal ou dois por semana e já era carne suficiente. Passeava pela rua e tirava sonecas na rede. Quando não era dia de amolar suas lâminas. Aí acordava de madrugada e virava até o outro dia desempenando e afiando.

 Todo dia, menos esse depois da afiação, abria o açougue. Mas era raro o cliente. Não expunha as carnes. Carne só por encomenda e pra uso imediato. Tinha uma salinha frigorifica, mas não armazenava carne mais que três dias. Passado isso, a prefeitura arranjava uma desculpa pra fazer churrasco com a sobra do açougue. Aí nesse caso ele dava um desconto. O preço era só um pouco acima do praticado na capital.

As encomendas de carne por quilo pra Viktor eram no mínimo o dobro do preço praticado na capital. Mas mais do que valia devido o capricho e a precisão dele. Qualquer que fosse o animal a ser sacrificado compensava chamar Viktor. Mesmo um animal armado do que quer que fosse não escaparia dos cortes certeiros dele.

Corta! Corta! Essa era a vida de Viktor. Vamos embora antes que ele mesmo decida cortar. Fui embora... tchau!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal

 


Natal é nascimento. O natal cristão no caso é o nascimento de Cristo, a oferta imolada de Deus à humanidade. Mas Natal, em suma é nascimento. O surgimento do novo no mundo. Hannah Arendt depositava suas esperanças nisso, na ação (política) como a indução, formação, surgimento do novo na humanidade. Walter Benjamin, na minha ingênua, ignorante e paupérrima interpretação acreditava no fundo que nada poderia mudar se continuássemos a nos guiar por nossas experiencias no mundo. Para mudar é preciso partir do novo. O novo surge do nascimento, do insight que muda o fundamental de uma compreensão, um método.

O novo irrompe no mundo, revoluciona, quase sempre sem uma revolução que muda nobreza por burgueses ou por uma burocracia. Ou seja, com uma mudança no sistema, não de quem manda em quem na pirâmide. A manutenção da opressão. O novo é geralmente um desvio, um furo no sistema, um sistema de estradas clandestino, uma fuga. Que pode se tornar um novo modo de dominação e será necessário novamente nascer o novo. O novo sempre está nascendo. Cada novo nascimento é uma nova potencialidade, nova possibilidade.

Trindade Tocantinense

 


Nos primeiros anos do mais novo estado do Brasil diziam que o Tocantins era do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora seja um dito aparentemente religioso por referir se a Santa Trindade, mistério consagrado em um concílio, a proclamação tinha uma outra camada (irônica?):

Se for irônica estou lascado porque ninguém mais consegue identificar ironia por reflexos da luta mais justa que existe: a contra as discriminações. Uma luta que se é naturalmente e justamente muito raivosa. O que a tornou politicamente débil porque (eu tô falando de política mesmo) se não existe chance de acordo a política não tem utilidade: nada pode ser construído, nada acordado.

Voltemos a sentença de que o Tocantins é da Santa Trindade. O Pai é uma claríssima referencia ao dito criador do estado: José Wilson Siqueira Campos. Que se notabilizou como criador do estado mesmo tendo sido criado por uma assembleia constitucional na qual se o governador de Goiás, Henrique Antônio Santilo, fosse contrário não haveria a menor possibilidade de existir o estado. Também não foi uma luta isolada. Deputados federais como Totó Cavalcante brigaram pela criação e fizeram “greve de fome” como ele.

O filho é a citação de seu filho preferido, José Eduardo Siqueira Campos, ao qual fez tudo para que fosse seu herdeiro político. Infelizmente, pelas coisas da vida, só o tempo lhe deu a experiencia necessária para perto da morte de seu pai se tornasse um político muito hábil, não apenas relevante. Relevante sempre foi pela influência que tinha ao pai.

Fiz um prólogo enorme pra chegar ao que queria dizer. Desculpem-me. O Espírito Santo da Santa Trindade tocantinense é Pedro Iram Pereira do Espírito Santo (PIPES), que é dono provavelmente de todas travessias de balsas no rio Tocantins. Da Trindade é o único que é comprovadamente rico. Os outros dois também devem ser, mas não se pode provar. Dois textos fundamentais mostram como a construção do Espírito Santo na idade média (embora a construção comece com Santo Agostinho na idade antiga) formam a ideia de economia doravante: O conceito de amor em Santo Agostinho (tese de doutorado de Hannah Arendt) e o Reino e a Glória de Giorgio Agamben.

Os dois textos, o segundo lendo muito do primeiro e o aprimorando, mostram como a ideia de distribuição, alastramento formam o que seria mais evidente na economia moderna: a economia se alastra por toda parte de modo que não exista nada fora da economia. A tal modo que se torne impossível diferenciar o que é economia porque não há limites, forma. De modo que se possa afirmar racionalmente que qualquer coisa não é economia porque está tão introjetado que pode afirmar isso é cultura, por exemplo.

A tese da Hannah Arendt é muito mais útil, mas muito menos evidente porque não tem a contextualização feita por Agamben. O conceito de amor em Santo Agostinho mostra como uma distribuição do amor (de Deus aos homens, fraterno entre os homens) conduz a felicidade. Santo Agostinho fala sobre a necessidade e o direcionamento. Se considerarmos o amor uma ação econômica fica evidente: a ideia de selva em que cada que garanta a própria sobrevivência, no máximo de sua família, de seus próximos se muito. O geral, o  público, a política que se...

Um pequeno apêndice (uma morte aparentemente justa da política):

Imaginem que se anuncie um inverno longo de seis meses onde há uma plantação de macieiras. O dono da terra libera a colheita de maçãs pra resistir o inverno, naturalmente com 8 a 10% das maçãs pra ele que é o dono da terra e o resto repartido igualmente entre os funcionários. A lenha igualmente para aquecer durante o longo inverno. Derrubam-se todas as macieiras. A família do dono ao ter mais lenhas e maçãs tem probabilidade de sobreviver mais tempo. Os funcionários que seguiram as ordens devem ser os primeiros a morrer. Os espertinhos que deram um jeito de ter mais maçãs e lenha do que deveriam devem sobreviver mais tempo que os outros funcionários.  Mas todo mundo vai morrer porque não vai crescer nada a tempo de matar a fome deles depois de zerados os estoques. Ou seja, a necessidade (economia) mata a política: não há conversa, não há acordo possível, somente a gestão mais ou menos inteligente pra sobreviver que pode escalar até o canibalismo.  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

É quase Natal


 

Estamos hoje na véspera da segunda data mais importante do calendário cristão, a primeira é a ressurreição do Cristo, cordeiro imolado de Deus para redimir o pecado dos homens. Amanhã comemoraremos o nascimento do Nazereno, Cristo Jesus, aquele que após reduzir as leis mosaicas, os dez mandamentos a dois, teve o poder de síntese de reduzi-los a um só mandamento. Está em João 15,12: “O meu mandamento é este; amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês”, Jesus fala aos seus discípulos.

Amanhã, mais do que qualquer coisa significa a troca da lei bruta e severa do velho testamento pela lei do amor tão repetitivamente assinalada pelo Deus encarnado. Mas Jesus foi severo diversas vezes dirão alguns. Pois bem, amor nunca foi isento de cobranças e nunca existiu sem compromisso. Não, Jesus não casou com a humanidade, tampouco namorou ou noivou, entretanto foi subversivo o bastante para provocar o caos em Roma com a lei dos mansos. Ele já havia dito que os mansos herdarão o mundo. Em Mateus 5,3-12, Jesus proclama o alento que tornarão os primeiros cristãos mais firmes que as rochas: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês”. Nada poderia dar tamanho incentivo aos cristãos para que passivamente subvertessem a lei de Roma, pois a glória lhes era garantida.

O amor nasceu para subverter o mundo, integrar os que seriam naturalmente separados, desintegrados, individualizados. O amor cria as ligações, as comunidades do que é comum, as assembleias do que é incomum. O amor comunica o incomunicável. Une os diversos e comuns. Portanto não razão maior para essa festa que união. Reunir os amados e amar sem consequências, sem limites como pregou o Deus do amor. Nesta véspera estarei pensando em algumas pessoas, em alguns amados e amadas e principalmente em quem nunca sai da minha cabeça: você, meu amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Auto-empreendedorismo ou ser trouxa

 


Cambiaram-se os peixes

Cambetearam-se os parças

Os peixes e os parças

As uvas e as viúvas

Tudo em geral

Tornou-se particular

Público tornou-se sociedade

Anônima porque desconhece-se os sócios

A praça virou shopping

A cantina, comida veloz

Nas mesas fast-foods

Nos copos suco enlatado

Com gás e sem gás.

A cidade virou feudo

O feudo condomínio

O condomínio minha casa

No meu quarto me isolo

De tanta subjetividade

Todo mundo tem razão

Sozinho

Sem um livro-razão

Pra sua firma

Economizaram o mundo

A política

Maldita

Foi esquecida

Não dividimos os infortúnios

Se nosso destino é só perder

Sofremos sozinhos

Pregando a nossa vitória

Nas redes sociais

Nosso empreendedorismo

De trabalhar incessantemente

Pra dar lucro as bigtechs

Somos ordoliberais

Empreendedores de nós mesmos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A uva da viúva

           


            Eva viu a uva. Eva era viúva. Colhia a parreira. Se esperneava com a chuva. Resistia longos dias a breve sol. Repelia os insetos com tabaco. A molecada roubava a fruta e como abelhas espalhavam a notícia: as uvas doces de Eva. Todo mundo queria: uns pra chupar, para azedar ou plantar.

A uva de Eva era muito desejada. Espalhada num prato ou fermentada em uma garrafa. Eva não corava. Eva cobrava. Muito respeito pelas suas uvas. As trouxera de longe. As adaptara ao clima maniqueísta da região: ora muito quente e úmido, ora muito frio e seco. Muitos diziam que as uvas de Eva eram dez por cento jaboticaba. Uma ideia cem por cento jaboticaba porque são de famílias completamente diferentes: Vitaceae e Myrtaceae.

Aliás essas eram apenas uma pequena amostra das variadas ideias jaboticaba. Diziam que a viúva tinha matado o marido para irrigar com sangue a sua vinha. Besteira: o marido morreu na guerra por causa de um estilhaço que gangrenou sua perna e por outras consequências de sua diabete mellitus. No entanto, sim o moribundo havia deixado duas bolsas de sangue que diluídas em uma quantidade abissal de água irrigou as parreiras. Eles acreditavam em homeopatia.

O moribundo acreditava ser filho de Deus de uma maneira pouco eclesiástica. O sangue de um irmão dele era transformado em vinho todo domingo. Resolveu dar o sangue, ou um pouco de seu sangue sagrado, por suas parreiras. A viúva não acreditava nas ideias limítrofes de seu marido, mas...

Passava o dia a atirar sua espingarda de sal para espantar pássaros e rezar suas novenas. Mandou construir uma capelinha no fundo do terreno, até invadindo besteirinha do vizinho de fundo, para Santa Doroteia de Cesareia, uma santa da Capadócia. Toda sexta-feira um dominicano rezava uma missa lá pras pessoas da quadra. Depois podia ganhar dois ou três cachos da uva de Eva. Não mais.

               Eva ainda não morreu. Talvez vá pro céu. Talvez pro inferno. Talvez vague indefinidamente no purgatório. Eva sabe salgar a terra. Não passa o segredo pra ninguém. Já questionaram o padre, o bispo e o arcebispo se ela pode voltar desses lugares para continuar salgando a terra. Esse é o mistério que nos interessa. Será que se contrariarmos sua vontade e a enterrarmos junto às parreiras e não no jazigo da família ela continuaria a salgar? Ou pararia por estar contrariada? Isso é que interessa.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Otimismo

 Andava arrastadamente. Como quem corria em câmara lenta. Não tinha tempo de olhar para os lados. Não olhou e correu cegamente para a linha de chegada. Que linha de chegada? Não via nada. Atravessou o rubicão e morreu livre. Ao lado desmaiaram uns. Resistiram outros. Saltaram tapas. A linha de chegada era a de partida. A esperança era o caminho. Ou seja, ligava a ilusão à desilusão. O caminho estava feito. Fim.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Averiguação

            Quisera nascer nascendo como todo mundo. Mas nascera sem nascer. Era uma ideia que se concretizara. Tão substancial quanto o roxo de um olho maculado. Um evento tão duradouro como a forma de uma nuvem. Na memória são eternos. Mas ser eterno é estar fora da temporalidade. A locomotiva come o tempo sem parar. Come estrada, come estrada, come trilho sem parar.

Apareceu no mundo como isso mesmo. Uma aparição. Como um susto. O pai teve que pedir aumento ao chefe pra contornar o imprevisto do nascimento do filho que não nasceu. Ou melhor, até nasceu natimorto enrolado no cordão umbilical do filho que não estava lá. Não apareceu no ultrassom. Ou apareceu, mas parecia outra coisa. Um mioma?

O pedido imprevisto surpreendeu o chefe que nada sabia da situação.  O funcionário que era da administração ficou malvisto por não ter um planejamento apesar de quase sete meses de conhecimento. A esposa se descobriu gravida de nove semanas. Mas, como relatei o me contado, ninguém sabia de nada na realidade visto que o planejado morreu. Nasceu a surpresa.

Segundo uma enfermeira muito bem informada, o bebe não chorou ao levar palmadas. Chorou ao sentir o deslocamento de ar que a prenunciava. Chorou com tanto afinco que precisou com três dias ser calado por uma chupeta para o horror das odontologistas do hospital. Foi um imenso alívio diminuir o vai e vem da polícia e dos bombeiros atendendo pedidos de emergência das ligações de vizinhos do hospital.

Nosso personagem passou três dias no hospital que tinha um excelente isolamento acústico, mas infelizmente ainda inútil para a potencia do solfejar do garoto. Poucos minutos depois de ganhar a chupeta foi pra casa e nunca mais chorou. Quinze minutos depois deixou a chupeta para mamar. Com cinco anos se tornou especialista em chupar cana e mastigar favo de mel com zangão e tudo.

Assim foi para a escola. Fez ensino básico, médio e superior e continuou por lá embora ninguém saiba dele. Dizem que está num programa de extensão em Angola. Outros afirmam que é na Nigéria. Alguns dizem que foi encarregado de copiar o modelo coreano. Os mais frequentes juram que ele anda pelos corredores da biológicas ou da humanas. Concretamente, na grade de Letras, ele é professor de línguas neolatinas.

Não me cabe saber onde está, nem sou fofoqueiro pra contar. Quem for a Luanda pode até descobrir. Se a Luanda é capital ou mulher, não sei. Boa noite para vocês!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Conto de Ulices

 


Ulices não foi pra ilha de Creta. Nunca pretendeu tomar uma rainha. Quer dizer, uma vez no xadrez sim. Na Dama nunca chamou a dama de rainha, então não. Já esteve dentro de um carro durante um cavalo de pau. Já deu presentes de grego. Mas nunca construiu um cavalo de madeira. Quando era pequeno ajudava (ou atrapalhava) seu avô fazer caminhõezinhos de madeira.

Nunca se candidatou a parlamentar, nem a vereador. Odiava discutir as coisas sabendo que tudo era mera retorica de todos os lados. Como ninguém convenceria ninguém, todos balbuciavam coisas sem o menor sentido. Criavam mitologias de dar inveja aos gregos da antiguidade. Ulices fugia disso. Quando era inevitável dava o seu parecer e corria, corria sem fim pra não prolongar a conversa mais do que o insuportável que já tinha acontecido.

Mesmo que se candidatasse Ulices não teria nenhum voto. Nem o seu. Não conseguiria ficar num partido, pois discordava de todos. Todos não se refere a partidos, mas a todos. Todos mesmo! Inclusive ele mesmo. Tinha orgulho de não conhecer verdades por mais angustiante que fosse isso. Não sabia ele que René Descartes seria seu discípulo se tivesse nascido hoje. Kant seria seu maior fã.

Mas pra seu imenso azar, Ulices nasceu no século limiar do século XXI. Não na época de Kant ou Descartes. Mas depois de Nietzsche, Freud e Marx. A plena confusão entre modéstia e soberba. Um mundo de infinitas verdades, de democratização, de uma verdade pra cada um. Na verdade, múltiplas verdades pra cada um escolher a conveniente ao momento.

Não quero dizer que Ulices era sincero. Sabia mentir muito bem. Mas evitava mentir pra não se entregar na esquina. Buscava ter um limiar de lógica. Não buscava ter razão. Os supracitados filósofos mostraram que é impossível ter razão. Ter emoção é mais fácil. Mas isso até os gregos sabiam. Apenas acreditavam que impor uma ordem, uma cosmogonia era possível. Bobinhos eles.

Ulices não fez filosofia ou história. Era carpinteiro. Profissão do pai de Jesus. Santo segundo a igreja universal, digo católica. Mas no mínimo comum pra quem lê os evangelhos apócrifos. Já fizera mesas, cadeiras, armários, até mesmo brinquedos por encomenda de uma loja de brinquedos pedagógicos. Daquelas que só os novos ricos frequentam por causa do preço extorsivo. Fizera até uns dois altares para seu companheiro de profissão santo. Mais comum era fazer altares pra mulher dele, a mãe de Jesus, que é muito mais popular. Se tivesse uma conta no Instagram ia espocar de ganhar dinheiro.

Ulices ia na igreja todo domingo pra pedir pra não entrar farpas no seu dedo, dentre outras coisas. Todo sábado ia na farmácia pra fazer curativos nos dedos e lixar o portal nunca terminado. Precisava ir no meio da semana lá passar esmalte. No portal, pra estabilizar o desgaste. “Todo mundo que vai lá tira uma lasquinha do portal”, dizia ele. Assim vivia Ulices. Assim tocava Ulices. Melhor! Ia empurrando a vida com a barriga que era pouca.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Conto do Théo


 

A história de Théo seria uma teogonia? Se a questão se refere a um demiurgo, certamente não. Mas é uma história do todo-poderoso, onisciente, sim seria uma teogonia. Quando Théo nasceu certamente o universo, o sistema solar e o planeta Terra já existiam. Então, de fato ele não criou nada disso. Embora algumas vezes insinue que sim.

Se ele não criou o mundo como o descrevemos. É evidente que ele criou um mundo ipso facto, pelo próprio fato: o mundo dele. Em seu mundo tinha o poder absoluto: só ele poderia conceder. E concedia abundantemente para demonstrar sua magnanimidade. Seu mundo era formado todo de súditos babões. Bastava conceder um sorriso de dois dentes para alegrar toda a sala ou quarto.

Conseguia controlar a todos mesmo com linguagens e gestos primitivos. Todos lhe atendiam. A mãe lhe cedia alimento do próprio corpo. O pai, a mãe, o irmão mais velho trocavam suas vestes clericais. Clericais? Clericais achava ele na sua modéstia. Aquele pano ou era clerical ou papal.

Não entendia porque tinha tanto sono. Mal dava tempo de brincar com objetos coloridos e barulhentos que colocavam a sua volta. Do mesmo modo que tinha tanto sono não entendia como dormia tão pouco. Dormia, acordava, dormia, era tão rápido as coisas que nem dormia, nem conseguia ver tudo a sua volta.

Tinha uma cisma de que trocavam as coisas a sua volta. Parece que dormia um pouquinho, trocavam tudo e fingiam que está tudo igual antes. Até a veste papal era colocada diferente. Parece que só mamãe entendia a etiqueta do cargo. Papai falou que etiqueta é pequena ética, algo como bons modos. Algo que o irmão do meio falou que eu não tenho. Mas eu já notei que ninguém se importa.

Minha vó que daqui a seis meses vou fazer um ano e vai ter um bolo de chocolate que mamãe falou que só eu não vou comer. Disse que só vou comer doce depois dos dois anos. Mas acho que dá pra fazer um esquema com minha vó e meu irmão do meio para comer antes disso. Se eu chorar com gosto, pelo menos uma dedada do recheio vovó me arranja.

Já tentei engatinhar a sala toda, mas quando estou quase conseguindo bate um sono ou uma fome. Parece que a vida é me distrair do que eu queria fazer. Outra coisa que eu percebi é que quase sempre que eu durmo me colocam no xilindró. Acordo cercado de grades. Ainda colocam uns trens barulhentos para me distrair e não olhar as grades.  Já tentei passar entre as grades. Não dá. Tentei subir, pular. É muito alto.

Queria dormir sempre no colo da mamãe. Lá é o lugar mais acolchoado do mundo. Mais acolchoado até que o carpete que vez por outra acho alguns petiscos. Mamãe tem horror, fica brava.  Manda passarem aspirador no carpete umas três vezes por dia. Mas eu sempre acho algum petisco se dá tempo e como escondido da mamãe pra ela não ficar triste.

A casa é grande. Não conheci nem um decimo dela, acho. Mas... como eu falei... nunca dá tempo. Já veio o sono de novo. Boa noite! Bom dia! Boa tarde! Seja lá o que for. É melhor terminar por aqui mesmo antes de desmaiar outra vez.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A vida segue

 


Atravessei dois ou três prédios pela rua

Inspirou-me confiança

Acenei efusivamente para o nada

Recolhi todos ou louros da ação

Escolhi recolher-me

Esperar o inevitável

Recolhida a eternidade

A vida segue

A goteira continua a pingar

Faz poça, não rio

Quem ri da areia que flui da ampulheta quebrada?

Novas eternidades virão?

A vida segue

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O sabiá sabia assobiar

 


Assim cantou o sabiá

Como sempre

Sabia assobiar

Com a melodia assombrar

E o ritmo encadear

O sol sobe e a lua baixa

As estrelas virão

Mas o maestro

De fraque espera

O momento da condução

Com um assovio

Conduz a orquestra em ascensão

domingo, 14 de dezembro de 2025

O muro

 


Murei o muro.

Impedi-lo de ir pra lá e pra cá

Fez-se atravessar a divisória

Poucos se equilibram

Caem os outros pra um lado e pro outro

O chão abraça

A grama afaga

A memória apaga

O rio segue

O barquinho vaga

Rumo ao inesperado

Sólido mesmo só o muro

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Conta de Sebastian

 


Convidaram Sebastiana para dançar um xaxado na Paraíba... Tocava no rádio. Sebastian não tocava guitarra. Tocava bodes. E tinha um bode bem na sua sala: mudara da chácara para a cidade. Resolveram que a melhor coisa que podiam fazer era afogar seu vilarejo.

Resolveram assim do nada. Não perguntaram ninguém. Não fizeram um plebiscito. Chegaram a conclusão de que faltava energia lá no sul e que tinham que fazer uma usina no seu estado que por assim dizer já produzia umas dez vezes a energia que consumia.

Não deu muito tempo de vender seus cinco bodes. Teve que soltar dois no mato e torcer pra não se afogar. Três vendeu para um restaurante da capital que é pra onde desgostosamente foi.  As galinhas foi tudo numa galinhada pra despedir dos vizinhos antes de todos terem que capar o gato. Expressão infeliz de quem nunca teve que capar um gato.

O arroz foi da mercearia do Seu Zé, que na verdade chamava Dêmocles, mas era mais fácil chamar de Zé mesmo. As mercadorias que tinham prazo ele revendeu a preço de custo para uns supermercados da capital. O arroz que estava vencendo foi todo pra galinhada. Por sorte Sebastian tinha muitas galinhas.

Sebastian ia morar na Vila da Investco. Mas decidiu que não ia entrar em acordo com a empresa não. Afogaram seu bongô. Isso era inaceitável! Sua cachorra foi ficando doente a medida que chegava o tempo do alagamento. Morreu um dia antes. Era uma espécie de anuncio da tragedia.

A cadela foi perdendo os pelos. Já tinha muitas falhas. Perdeu os dentes também aos poucos. Ficou banguela antes de ficar sem pelos. Era de dá dó, mas não era um caso isolado. Muitos caninos perderam parte dos pelos ou dos dentes ao internalizar a angustia de seus donos. Mas nenhum outro ficou careca e banguela como a Esperança, cadela de Sebastian.

Nunca ia perdoar aquele povo da usina e aqueles políticos por terem feito aquilo. Afogar o povoado era suma maldade. Tirar um povo que vivia lá há muito mais tempo que o pessoal da capital pra umas empresas ter energia pra fabricar cimento, moldar aço... era um absurdo. Acabar com um dos luares mais lindos do mundo pra ligar lâmpadas num galpão de fábrica...

Era revoltante aquilo. O bode estava na sala. Ninguém podia explicar aquilo. Ficou abestalhado como os entreguistas haviam conseguido se reeleger. Mas dinheiro compra tudo, até dignidade. Até a ponte que atravessa o lago que afogou sua localidade ganhou o nome do presidente que soltou dinheiro (verba federal) para construí-la e depois tiraram o nome pra pôr o do governador da época.

Mas bode na sala não chateia tocantinense. Até a sede da FIETO (Federação das Indústrias do Tocantins) tem o nome do presidente da CNI (Confederação Nacional das Indústrias) que liberou o dinheiro pra construí-la. Só mesmo Sebastian é que tinha um bode chifrudo na sala. Que incomodava por demais.

Essa é a história do bode, quer dizer do Sebastian. Não boto nem a canela dentro d’água pra continuar a contá-la. Não acredito em destino, mas parece obvio que tem uns, que não importa a situação, sempre vencem. Sebastian não é um deles. Nem eu. E, provavelmente nem você.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Conto de Rafael


 

Rafael não era um anjo. Mas parecia. Um anjo trincado. Daqueles de porcelana com uns poucos cacos faltando. Voava em seu skate com extrema elegância. Exibia seus arranhões e roxos como cicatrizes de guerra. Dificilmente batia no chão ou na parede. Mas quando chocava... não era só um galo, só umas escoriações, alguns calos e joanetes.

Usava sempre seu velho tênis acolchoado dentro com algodão e penas. Até mesmo joelheiras e cotoveleiras tinham suas proteções extras. Capacete sempre usava. Por um bom tempo usou até protetor de pescoço. As asas, nunca protegeu. Vai ver que é por isso que não se viam. Sei lá se não tinha mais. Ou se ficou só um potoco.

Gostava de viver aventuras. Voar alto. Alcançar velocidades inéditas para ele. Não daqueles de extrema técnica que faziam os lances com aparente naturalidade. O que fazia era por instinto. Acreditava piamente que cada manobra era possível, ia acontecer. Não as fazia pra enfeitar movimentos. So as fazia porque era necessário para se mover na velocidade desejada. Porque precisava voar. Tinha que desviar de algo ou de alguém.

Se deslocava de casa para o trabalho, do trabalho pra casa no velho skate remoldado várias vezes. Seria um paradoxo de Teseu se Rafael entendesse de mitologia grega ou de paradoxos. Shape várias vezes refeito. Rodas constantemente trocadas. Amortecedor constantemente refeito e aperfeiçoado. A pintura trocava constantemente de acordo com sua vibe. Nem tanto assim. Mas digamos, a cada quatro ou cinco meses.

No trabalho usava uma moto para sair por aí pegando, pagando, distribuindo documentos. Era motoboy. Queria ser skateboy, mas não dava. Mas mesmo assim levava o skate consigo. Se tivesse uma brechinha para usá-lo... Também tinha medo de alguém pegar e estragar sua prancha sobre rodas.

Quando sobrava um tempinho no fim de semana pintava seus quadros. Não era lá uma Capela Sistina, mas... pintava até bem. Não era um De Sanzio. Mas tinha suas desproporções nada arbitrarias. Um quadro seu foi arrematado por milhões num leilão. Tanto o leiloeiro quanto o comprador confundiram o autor. Depois ficaram com vergonha de demonstrar a ignorância. Foi a única vez que vendeu um quadro seu. Passou a pintar para si mesmo e para encomendas. Mas toda vez que vinham pechinchar ele ficava ofendido. Daí vociferava sua frase: “Vai. Leva essa merda!”.

No tempo que não sobrava estava a cultivar o jardim do vizinho do fundo. Por uma dessas infelicidades urbanas sua casa não tinha nem quintal, nem varanda. Passava por um corredor exíguo  à esquerda ou direita das casas toda madrugada e alta noite pra regar as bromélias, lírios e alfazemas plantadas. Elas perfumavam seu sono. Sonhava.

Bom deixa sonhar. Não vou atrapalhar os sonhos. É hora de terminar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Antônio e a vida

 


Antônio via a vida. Corria em suas vias suave suco. Bombado ora violentamente, ora compassado. Antônio não pensava nisso. Como eu disse, ele via a vida. A vida floria. A vida secava. A vida se desdobrava. A vida não era um rio. Não tem leito. A vida não tem pulsação. A vida tem ciclos? Tem revolução? Digo: tem frequência?

Antônio observava. Os cenários se desdobravam. Mas tem lógica? Era caos absoluto ou a ordem não foi descoberta? A vida seria um teatro? Uma peça sobre a guerra ou a guerra mesmo? Uma tragédia ou uma comédia? Somos todos atores? O enredo já está escrito? Os gregos ou Espinosa estão certos? Existe destino? Ou existe um livre-arbítrio individual que no conjunto, na soma das forças não altera a providência?

A vida vai passar e Antônio não. Antônio vai ficar em algum ponto. Vai virar esterco ou cinza. No final, Antônio passa e a vida não. A vida é que observa Antônio.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Romantismo

 


O rio cruza a mata

Em silêncio

Coaxa um sapo pra lá pra cá

A fênix persiste silenciosa

Escondida

Invisível

O saci perereca

Pra lá e pra cá

Na sombra do sol

A dama da noite

Cresce em direção a luz da lua

A lua e o sol dançam um tango

Mas a selva...

Na floresta é batidão

É pedra rolando...

Poesia concreta

Não romântica

sábado, 6 de dezembro de 2025

Real

 


Aspirou a ser grande

Mas nunca foi pequeno

Fez muita média

e...

ponto final

Nada a acrescentar

Ninguém nasceu

Nem morreu

Existe???

O rei enforcou o antigo rei

O príncipe sempre será

Nunca rei

Das tripas se faz coroas

A educação faz príncipes

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Conto de Queila


 

O que diria Queila? É sempre uma boa pergunta que teria sempre uma resposta inesperada. Queila certamente diria algo que não desejasse dizer. Não pra agradar ninguém. O que, aliás, não agradava. Tinha sempre aquela resposta a uma pergunta não feita disfarçada de má compreensão da pergunta feita. Era como se fosse um exercício de contorcer, torturar as palavras, desfazer rimas e colocar farinha na areia.

Foi assessora da câmara municipal por muito tempo. Sempre deixava todo mundo insatisfeito. Não comprometia os vereadores, mas também não os defendia. Ah! Então ela se limitava aos fatos? Longe disso! Seu discurso até tinha alguma veracidade, mas fato era o que menos tinha ali.

Tudo pra ela era um causo onde em nome de ilustrar a história retirava todos os fatos, as narrativas centrais e amarrava uma serie fuxicos marginais de modo a dar uma interpretação mais justa às coisas. No meio da conversa deslocava uma ou duas rimas de lugar de modo a tirar todo o ritmo da conversa.

Ninguém era mais atenta às seções pra que nenhum fato saísse sem o seu floreio. Bom floreio é uma péssima palavra porque se tivesse qualquer gramínea ali o que ela fazia era passar um dessecante. Tornava tudo aquilo ali desinteressante para quem não tivesse paciência para minerar as histórias. Transformar minutos de conversa em um ano de constatações ao apurar todas as pistas deixadas.

Queila precisava ser compreendida. Quase ninguém a compreendia. Sobretudo os vereadores e funcionários graduados da casa. Se a compreendessem seria sumariamente demitida por vazar tantos indícios. O grande problema é que ninguém tinha um on. Precisava cavoucar os indícios pra achar os fatos denunciados. Quando perguntavam a um vereador não podiam dizer de onde tiraram e muitas vezes estes se indignavam, diziam que é um absurdo e retoricamente perguntavam de onde teriam tirado aquelas perguntas absurdas, aquelas blasfêmias, injurias e difamações.

Certa vez, no meio da conversa, disse que os funcionários de uns vereadores tinham uns meses que não recebia os salários integrais. Uns dias depois que o partido de um tal vereador estava com muito dinheiro pra campanha. Outra oportunidade que outro tinha comprado um barco enorme. Se tivessem perguntado a ela se alguns vereadores estariam desviando dinheiro dos funcionários ela diria que não poderia afirmar, não tinha como saber disso.

Ela só repassava as conversas da câmara. Nada além disso. Sem nenhuma intenção por traz. Apesar de dizer que ninguém ali era ingênuo. Ninguém. Sempre tinha desdobramentos. Toda fala. Ela mesmo não falava mal de ninguém. So repassava o que essas pessoas maldosas falavam pras pessoas saberem como são as coisas. Se tinha uma coisa que odiava era fofoca.

Essa é a Queila que só não era sincera porque é perigoso. Se fosse sincera ninguém suportaria ela, segundo ela mesma não cansava de dizer. Dizia que mentia, mas mentia só pra se defender porque as verdades são muito agressivas. Fiquei com medo! Tchau! Hora de terminar esse relato...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Truco

 


Breve mormaço antecede a chuva. Esvai-se a esperança. Glória!!! Cai a realidade do céu. Nenhuma estrela há de me salvar. Nem de mim mesmo. Nem do outro eu que retruca. Na mesa um par de ases. Outra carta. Tomara que seja um quatro. Um zap. Eu truco! Para acabar com o marasmo. O az era de espadas. Mas não era um quatro. Quase! Era um três. Só uma espadilha é pouco. O que terá meu parceiro? Passo instantes entre a euforia e a dor de barriga.

O destino há de definir o resultado...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Contra a desilusão

 


Queria voar ao chão

Abraçar o mar

Nadar nas nuvens

Colher estrelas sem parar

Chafurdar no mousse

De limão ou chocolate

Ah! Mas só me restam tamarindos

In natura pra apreciar

Tem mel com abelha

Africana no favo pra chupar

E se no campo eu quiser deitar

As urtigas vão me acariciar

Posso rezar pra São Mindinho

Mandar chuva me molhar

Mas o sol em labaredas

Não deixa a água me tocar

Dizem que sou pessimista

Que vivo a praguejar

Mas ninguém sabe da alegria

De não desmoronar

Conto da Pâmela


 

Pamela acordou aquele dia com os olhos melados. Coisa estranha isso! Todo dia tinha que levantar da cama e correr pra fila do banheiro pra poder ver alguma coisa. Depois de lavar o rosto, ou mais especificamente os olhos, voltava pro quarto a enxergar vultos pra pegar seus óculos fundo de garrafa que usaria por pouco tempo.

Ainda sofria os efeitos da operação na vista que fizera pra diminuir sua hipermetropia de periclitante para alta. Foi uma coisa mesmo de pressa porque com o tempo e o aumento natural da miopia sua visão tenderia a melhorar. Tinha dificuldade de atravessar avenidas muito largas. Conseguia ler com dificuldade até sem óculos. Estava trocando um pouco de um por outro com o tempo, mas uma troca muito injusta que dificilmente lhe ajudaria a ver de longe e ia lhe tirando a visão de perto.

Pegava o ônibus do outro lado da rua ou no meio da rua. Não conseguia perceber esses detalhes. O que percebia é que era um flagelo chegar lá. Difícil perceber se estavam lhe sacaneando quando perguntava que ônibus era antes de entrar. Já pegara muitos ônibus errados porque alguém decidia dificultar sua vida. Tinha que por a cabeça na janela para parar no ponto certo, ver a placa bem de perto.

Chegava no banco e passava a vassoura por todo o lugar porque não conseguia enxergar onde estava sujo. Então era uma espécie de esquadrinhamento para passar a vassoura por todo lugar. Quando derramava alguma coisa no chão era um desespero. Tinha que passar pano molhado com convicção tentando perceber pelos outros se estava limpando o lugar certo.

Mas a maior parte do tempo estava lá na cantina ou na compensação fingindo fazer alguma coisa pra escapar de ter que agir de improviso e perceberem a sua condição. Faltavam ainda cinco anos pra aposentar embora tivesse contribuído por mais de quarenta anos. Daqui cinco anos talvez enxergasse muito melhor e estaria aposentada.

Talvez saísse pelo mundo pra ver as coisas que nunca viu. Talvez refizesse seu cotidiano caminho só pra enxergá-lo. Talvez descansasse sua vista num tricô ou croché. Ou pelo contrário cansasse. Talvez fosse a praia pra enxergar a areia. O mar já estava cansada de ver. Talvez, talvez fosse uma possibilidade.

Pamela via muito futuro nisso. Enxergar melhor fora sempre seu sonho. Isso se a catarata não viesse e enublasse sua visão novamente. Isso se a presbiopia antecedesse o aumento da miopia. Bom... pelo menos tinha essa visão, esse futurismo, esse sonho. Vamos ver...

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Sobre a arte e as hermenêuticas



A arte é muito mais eficiente ao capturar (ou ser capturada) pelo Zeitgeist (o espírito do tempo).  Portanto contar a história geral, humana, dita universal pela arte dos povos, grupos, nações parece ser uma abordagem muito mais rica, plural e sujeita a mais interpretações e mais erros. Quanto mais é possível errar, melhor é o método. Como assim seu idiota??? Você diz que o método menos rigoroso é melhor??? Não!!! Que métodos abertos são melhores que fechados.

 Não é possível descobrir uma verdade quando se sabe há pelo menos um séculoBa que as verdades são particulares. Que as ditas “verdades universais” são verossimilhanças consensuadas, algo que nos dá chão pra pisar. Estar próximo ou muito próximo da verdade é melhor que se prender a fantasias como se fossem realidades. Então você quer dizer que dois mais dois igual a quatro não é uma verdade? É sim. É uma verdade analítica, que é uma autoproclamação: só garante a si mesma.

Não era o propósito, mas estico: duas bananas mais duas laranjas são quatro frutas. Duas mangas mais duas jaboticabas igualmente. Duas bananas e duas laranjas são iguais a duas mangas e duas jaboticabas? As situações, os sujeitos, as interações mudam a reação. Usei uma lógica física ou química. Nem sociologia, nem filosofia, porque para essas é muito mais óbvio. Para qualquer hermenêutica, tudo é muito susceptível.

Textos se tornam eternos porque podem ser reinterpretados. Universais também porque a tradução permite ultrapassar realidades dispares entre as línguas. Não há fidelidade nenhuma nisso. Há a lealdade possível. Para isso há a verossimilhança de criar metáforas e metonímias para mudando tudo mostrar os aspectos primordiais do texto que se julga que deveriam ser preservados.

Somente a arte consegue numa mesma obra se dizer e desdizer do modo de sua época. Mostrar os conflitos não como discurso, as vezes nem como descrição, mas como narrativa. A narrativa do conflito é muito mais complexa: mocinho não é mocinho, nem bandido é bandido. Sem defender um ou outro, em muitas situações fazem o inverso. Na maioria, não é muito claro quem é quem. Salvo os casos limítrofes, as pessoas tendem a variar entre um ou outro, virtuoso e desvirtuado com frequência e precisam de uma narrativa para se estabelecerem como mocinho ou bandido. As melhores obras são as que não tem nem mocinho, nem bandido.

Quanto mais uma obra é particular, tem as dores, os prazeres, o espírito de seu tempo, mais ela é universal. A obra mais universal é a que explora a singularidade, as dores do individuo em seu tempo porque por mais que seja subjetiva (e, portanto, limitada) será lida por sujeitos que se identificarão. Quando se diz que o sertão, a vila isolada é o mundo é uma verdade porque mostra os aspectos essenciais. Embora as metrópoles mostrem muito mais o mundo que é intrinsecamente interligado. Essa é uma visão geral, panorâmica que não alcança as especificidades.

As narrativas particulares (escritas, pintadas ou cantadas) mostram lugares, épocas, ambientes que não vivemos, mas tem maior verossimilhança com nossa realidade do que textos que tentam descrever ou dissertar sobre o real. Não há verdade, mas verossimilhança graça por todo o lado. É muito mais completo descrever uma goteira numa poesia que num relatório técnico. O ultimo tem a virtude ser objetivo, mas deixa escapar quase tudo do que é uma goteira.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A arte



Estava no meio da selva. Era uma formiga em seu próprio jardim. Ervas daninhas não incomodavam. Ele próprio se reconhecia como uma. Sugara o conhecimento de todos os sábios que conhecera. Uns dois ou três. De todo modo era um ser perdido numa amplitude infindável. Era um camelo perdido no deserto, longe de qualquer oásis. Ou não, perto da foz do Nilo.

Era um ser humano qualquer, nem mais, nem menos privilegiado. Apenas plenamente consciente. Apavoradamente consciente. Um pingo de ordem num oceano de caos, poderiam dizer. Mas era um pingo de caos mergulhado em infinitas outras desordens. Percebia que nada daquilo poderia ser racionalizado. Não adiantava ir com a corrente ou contra a corrente. Aquilo estava mais para um redemoinho.

Pensando bem, redemoinho tem uma ordem. A vida real não tem nenhuma. Saber disso é muito fácil. Ter consciência disso é desesperador. Sabia que ser cínico era impossível. Era possível a ilusão da hipocrisia. Era preciso se alienar. Fingir existir alguma ordem mesmo que grupal, comunitária ou só individual.

Saber desse pouco impediria qualquer um de viver, sabia. As pessoas alienavam a própria alienação. Viver era um apesar de todo o resto das coisas. Consciente ela sublimava suas verdades pintando, escrevendo... fazendo o possível. Pois sabia que só a arte pode expressar a realidade em forma de ficção. Ou essa ficção chamada de realidade só pode ser retratada pela arte.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...