O maior desserviço
que as notícias fazem é o sensacionalismo, a polêmica para chamar a atenção. Elas
impossibilitam a reflexão pois ignoram as nuances que poderiam estar lá e que
muitas vezes ate ampliariam o absurdo. Transformam seres humanos falhos em
personagens, em vilões e heróis, idiotas completos e sábios seguros. Recortam qualidades
e defeitos e muito pior omitem suas origens.
Para falar
sobre isso não preciso nem de um herói, nem de um vilão. Basta um idiota como eu.
O Brasil é um país recém saído da colônia, da monarquia e do escravismo. Portanto,
somos um país autoritário, antiliberal e preconceituoso por razões diferentes da
Europa que foi nossa matriz por mais tempo. Somos uma sociedade de castas disfarçada
de democracia. Ao contrário do que afirmam (o povo não sabe votar, os pobres
não sabem votar, a classe média não tem consciência, por exemplo), no Brasil
todo mundo sabe votar muito bem: os miseráveis votam a favor de quem os ajuda,
os pobres votam naqueles que garantem seus privilégios com relação aos miseráveis,
a classe média em quem os diferencia dos pobres, os ricos da classe média, os
ricos refinados, dos novos ricos cafonas.
Todos herdamos
todos os preconceitos possíveis. A diferença entre o democrata e o preconceituoso
está na consciência dos defeitos que tem e na necessária luta contra as
próprias imperfeições. O racista, misógino, etarista, homofóbico ou xenófobo nutre
mentiras ou pseudociências para justificar seus desejos. Aquele que não
acredita ter preconceitos em si ou na sociedade está condenado a diferenciar os
seres humanos. Então uma matéria se referir a um preconceituoso como se ele
tivesse vindo de marte, fosse uma exceção transforma o ônibus atropelou o
cachorro em o cachorro atropelou o ônibus. Algo muito raro, que não merece
preocupação porque dificilmente volta a acontecer. Mantem a sociedade em uma pirâmide
de castas como algo natural e desejável.