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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quebra-cabeças

 


Josué acordou assonado como se tivesse dormido muito. Pior que não tivesse dormido. Estranhou não sentir nenhuma dor no corpo. Sem duvida não ficara deitado o suficiente para revelar os incômodos. Por outro seu estomago estava só osso. Precisava comer alguma coisa leve. Quem sabe um pão sírio sem nada ou com um pouquinho de mel só pra forrar o estomago e aí poder ingerir coisas mais elaboradas, mais acidas ou mais básicas.

Trabalhara incessantemente com Javascript e html. Poderia ter usado linguagens mais elaboradas, mais fáceis, mas adorava aquele quebra-cabeça.  Um flash ou sql viriam bem. Phyton seria muito útil.  Mas gostava de encaixar pouco a pouco sua montagem. Gostava de ter sobre seu domínio cada etapa. O que construía não era grande coisa, nada elaborado, mero exercício de criatividade. Estava apenas provando a si mesmo que conseguia.

No meio da semana se dedicaria a calmamente montar seus quebra-cabeças recém-chegados de dez mil peças. Não tinha a menor pressa. Passava alguns minutos a pensar. Juntava umas dez ou vinte peças. Saia pra dar uma volta ou tirar uma soneca e só então voltava lá nas mesas da sala pra montar mais pedaços. Só mesmo nos finais de semanas é que dormia muito pouco enfrentando desafios mais difíceis.

Tinha sido durante toda a vida um exímio e aborrecido contador. Tinha uma vida muito enfadonha. No fundo não agrava ninguém. Nem seus clientes, nem o governo. Pois sempre arranjava uma coisa entre a norma e a conveniência. Sabia esticar os limites, mas sempre havia uma norma. Os governos queriam arrecadar muito e os clientes pagar nada. O segredo sempre estava nos detalhes. Ninguém está atento a todos todo o tempo. Sabia ele e seus clientes que sempre poderia fazer melhor. Detalhes muitas vezes fugiam.

Estava treinado a trabalhar com máxima paciência e cautela. Por isso se especializara em montar quebra-cabeças. Muitas vezes clientes queriam quebrar-lhe a cabeça. Ele também sentiu a vontade de quebrar a de uns dois ou três. Bom... o que fazia agora era muito melhor que administrar os conflitos financeiros entre contribuintes e a burocracia. Podia montar tudo, construir em seu ritmo, sem interferências.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Tubarão

 


Nasceu arfando como se tivesse morrendo. Tomou um ar e prosseguiu. Chorou como se não houvesse amanhã. Esta era sua vida, negociar. Nunca aceitava a primeira proposta.  Se divertia trucando e retrucando. Nunca mostrava suas cartas. Nunca desistia, mas se por acaso a outra parte desistisse manca saberia das cartas. Se aceitasse também. Havia um certo fetiche em conhecer suas cartas as quais nunca seriam mostradas. Poderia nem as ter.

É verdade que boa parte da infância até a adolescência acreditava-se que tinga asma, nunca plenamente comprovada. Alguns diziam que era ansioso. Pelo adulto que se tornou pouco provável. A paciência exibida para conseguir os melhores negócios não seria possível para alguém angustiado. Seria manha? Dissimulação pura provavelmente não deveria ser, mas artimanha essa poderia.

Era mestre nas regras não escritas. Talvez doutor. Conhecia os costumes de cor como ninguém. Sabia dar nós em pingos d’água e faze-los cair quando ainda não existiam para então manuseá-los. Sabia que convencer a contraparte que ela que desejava negociar. Não ele. Criava dificuldades para vender facilidades. Não visitava as pessoas. Não as queria incomodar. Elas que importunassem a ele.

Uma vez espalhou o boato de que estava endividado e que precisava vender algum imóvel para se estabilizar. Foi um chamariz para o melhor negócio que fez na vida. Precisava atrair um cliente fora de sua alçada, um tubarão. Para atrair um tubarão precisava espalhar o cheiro de sangue. Então atraiu este acreditando que iria fazer rapinagem. Que tomaria vários imóveis de alguém que não tinha saída. Precisava tão somente a oportunidade de conversar para prender o tubarão em sua rede de aço inoxidável.

Infelizmente não pode mais repetir a ação. Precisou inovar nas ações. Mas já tinha feito fortuna e só precisava manter o fluxo das contas. Agora era um tubarão que só precisava estar atento para devorar os peixinhos que a mare leva a ele. Não precisava mais nadar por aí e seduzir presas. Era só pegar o dinheiro e fazer render em aplicações finanveiras. Podia até fazer maus negócios e recuperar nas aplicações. Mas por honestidade nunca faria um negócio ruim na vida. Tinha uma vida tranquila.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sedentário em exercício

 


Pesou a mão na pedra, pesou na perda de tranquilidade. Caminhava por aí como quem desejava parar a qualquer momento. Não seria uma pausa, um descanso. Mas um destino, algo permanente. Armaria uma rede em dois coqueiros e dos cocos caídos beberia a agua. Não morava perto da praia ou de uma plantação de coqueiros.

Morava numa conurbação de várias cidades. Fora das cidades, o cerrado, pouca mata. Sempre que podia escalava os pirineus. Escalou uma vez quando pode ir a França. Como não podia, subia e descia as ladeiras de Pirenópolis. Sempre ficava amargurado e feliz após suas longas caminhadas. Amargurado pela perda de tempo e feliz pela reação química provocada inadvertidamente pelo exercício.

Também ampliava a felicidade poder parar e beber água de coco ou garapa antes de caminhar pra casa onde encontraria problemas e soluções. Mas soluções do que problemas porque seus quebra-cabeças de três mil, cinco mil, dez mil peças estavam quase todos montados. Passava horas do dia em frente a um homebroker comprando e vendendo ações e moedas. Especulando sobre o filme que veria a noite de dormir.

 Se tivesse tempo abriria a academia mais cedo pra treinar bastante as pernas e só o necessário os braços. Tomar um café na padaria da esquina antes de chegar em casa. A velha média com pão com manteiga na chapa. Talvez algum pão de queijo. Assim passava o tempo sobre ele aumentando sua segurança e decrescendo sua vitalidade. Não que não tivesse noção do tempo, mas se auto-enganava.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Destino

 


Cercas são cercas, não delimitam nada, não são fronteiras. São meros empecilhos. Não são nem muros. São meras redes a prender quem quer ficar. O arame farpado é uma mera agressão. Não proíbe nada. Apenas te agride e deixa ir. Ele sabia que a realidade era abarrotada de porcos-espinhos que nem cercas de arame farpado são.

Bastava fugir deles, abrigar-se sempre que possível na solidão. Não porque acreditava ser sábio como Nietzsche ou Schopenhauer. Não fugia dos tolos porque era impossível se comunicar com eles, mas fugia porque eram muito ferozes, agressivos. É preciso de abrigar ou usar escudos num mundo cheio de porcos-espinhos.

Ganhou com isso muita reflexão. Pode remoer, ruminar o pouco que observava repetidamente. Lapidar varias pedras preciosas, semipreciosas e comuns. Pode além de saber quase conhecer as coisas. Só não conhecia porque as coisas não tem essência. Não há coisa em si, existem as coisas das coisas, os trens do trem.

Percebeu que o mundo fora de si era inteiramente superficial. Formado por impressões. Quando mais profundo cheio de anseios, sentimentos e desejos. Um mundo fenomênico para cada um. Meras banalidades. Gente discutindo se a banqueta quebrada era uma banqueta ou lenha para a lareira. Obviamente era madeira. A forma dada a esta definia seu uso. A discussão era inútil? Não. Inteiramente válida. Mas não há discussão, somente agressões.

Pessoas cheias de certezas e vazias de duvidas mergulham num fundamentalismo e quando cheias de esperança e na fé gerada por ela num fundamentalismo messiânico. A desesperança também pode gerar um messianismo, mas dificilmente gera e não gera fundamentalismo porque ela é negativa, nega um fundamento, acreditando ser qualquer outro sem geralmente delimitar qual.

Nesse mundo o eremita passeia sensível a tudo, mas sem se influenciar pois duvida de tudo. Atravessa os caminhos, comendo quando dá. Bebendo o orvalho. Sonhando com qualquer chegada, que nunca chega, não é esperança porque andar é seu destino, não chegar. Então o eremita vive. Não passa a vida esperando viver. O eremita não é um grego antigo, não acredita em destino.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Coletivo

 


Ele era todos. Mas todos não eram ele. Foi sempre um ser coletivo. Passou a infância nas ruas. Não porque não tivesse casa. Tinha. Morava numa mansão com kitnet no fundo para cada família de colaborador(a) da casa. Vinha desde a nascença de um universo de nunca estar sozinho. Sua vida era estar entre no mínimo duas ou três pessoas.

Aprendeu desde cedo estar sempre entre pessoas. O que lhe servia muito para o futuro que até então ignorava. Logo que pode dar os primeiros passos fora de casa percebeu como o ambiente domestico era opressivo. Até então o mundo lhe servia. Decidiu servir o mundo. Foi para as ruas conviver com as mais diferentes pessoas.

Decidiu trabalhar nas mais diferentes atividades. Não precisava do dinheiro. Já tinha o bastante para sobreviver mais umas duas ou três vidas. O primeiro oficio foi de engraxate nas praças. Queria ouvir as pessoas, conhece-las. Não havia um oficio melhor que esse para isso. Nem o de barbeiro. Passou uns dois ou três anos conhecendo as comunidades da sua cidade. Depois foi ser estivador no porto para conhecer a interação dos de fora com os seus. Também foi vários tipos de vendedor: foi ambulante, de loja, visitador e atrás de um computador na internet.

Passou a estudar mapas e conhecer as ruas. Aprendeu que o ambiente convenciona as massas, multidões, nem tanto as pessoas. Havia um negocio perfeito para cada localidade. Tão perfeito que logo faliria. As interações que dão certo são sempre imperfeitas. Poderia ser um analista ou um espião por sua variada e extensa rede de contatos, mas parecia mais integrador de informações. Trabalhava incessantemente para desatar os nós em pingo d’água.

Aprendeu a jogar e devolver com uma desenvoltura de maquina de bolinhas de tênis, mas sempre devolvendo na zona melhor para a recepção. Ou de outro modo se tornou uma rendeira de máxima categoria construindo redes com destreza e cuidado. Ora reconstruía fios, ora tecia os fios necessários. Aprendeu a não ligar o desnecessário. Unir apenas as extremidades possíveis. Alienando e isolando as estragadas até serem recondicionadas.

Entendeu que civilização é a opressão das individualidades pelas regras mínimas de convivência. Que comunidade é a aceitação que todos diferentes somos um único conjunto e que as diferenças são meros cosméticos, tonalidades de um mesmo quadro. Uma não exclui a outra. Quem se exclui das regras continua incluso nelas. Mas quem se exclui da compreensão deve ser excluído da comunidade.

Soube que a sociedade é a união de pessoas que estão preparadas para esfaquear asa costas do sócio. Que se contrato fosse bom, não haveria clausulas de punição por quebra do mesmo. Desse modo só acreditava em comunicação, em ética em contraponto a moral. Em anarquia, pois as pessoas tem direito de discutir e agir conforme suas próprias consciências fugindo de toda opressão possível. Só o respeito a todos torna tudo coletivo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Vaidade

 


Lavou as pernas. Tinha atravessado pântanos imaginários e reais. Acreditava estar com lodo nas canelas, mas sabia que a altura da lama poderia ser até o pescoço. Não era uma areia movediça. Preso naquele quarto cercado por espelhos nos seis lados enfrentava seu maior inimigo, seu único opositor digno.

Bastava abrir a porta e sair, mas os espelhos... eles refletiam a imagem que mais amava e mais temia. Precisava sair dessa encruzilhada. Resolver o dilema.  Ir para casa e depois pra academia ou ir para academia e depois pra casa. Era tudo questão de andar. Poucos metros até o prédio e lá academia num andar, apartamento em outro.

Nunca admitira a vaidade. Achava que mostrar o extremo auto-apreço era falta de humildade. E ele tinha a certeza que era senão a, uma das pessoas mais humildes do mundo. Embora soubesse que a beleza abre portas e as entradas de shoppings e comércios se abriam para ela, dizia que eram portas automáticas mesmo sabendo que no fundo nem precisava que fossem.

Seu edifício era simples, comum. Não comprava coisas de marca, coisas famosas. Não ficava bem se exibir dizia. Provavelmente a verdade é que não queria distrações, algo que concorresse consigo. Não queria chamar a atenção por algo que não fosse orgânico dele. Seu lema era a simplicidade, humildade, modéstia, embora fosse o poço extremo da vaidade.

sábado, 4 de abril de 2026

Latifundio

 


Nadou, nadou e não saiu do lugar. Um redemoinho de terra as pessoas da cidade grande não veem no centro antigo da cidade. Não tinha uma duna de areia pra nadar. Pouco sinalizavam aqueles coqueiros exóticos onde estavam. A meio quilometro dali um canavial. Terra preta, muito boa. Muita calagem.

Era um deserto de gente aquele espaço. Uma comunidade de maquinas. Colheitadeiras e plantadeiras dos mais variados tipos. Uma pequena casa de paredes grossas cheia de fios a entrar e antenas a sair. Lá dentro uma ou duas pessoas. Cinco pessoas se revezavam pelo mês para coordenar a modernidade.

Robusta refrigeração quase frigorifica obrigava o uso de vários casacos intensamente revistados na entrada a na saída. Chuveiros químicos nas saídas monitores infravermelhos e raios-x. Vigilância aguda por vídeo vê todos/todas desnudos/desnudas. Clausulas que praticamente anulam os direitos dos funcionários sobre os próprios corpos. Biopolítica na veia.

Todos muitíssimo bem pagos com direito a micro moradia da mais alta qualidade e automação intensamente monitorada com limpeza automática da casa, das roupas, geladeira sempre completa por automação, televisão com todos os streamings. Mas do trabalho até a casa nenhum acompanhamento, nenhuma segurança, um vazio.

Não era comum, mas vez outra acreditavam que algum deles tinha morrido. Evitavam criticar a empresa. Eles próprios não se conheciam. Nem mesmo as equipes atuam juntas no trabalho. Está cada um em seu segmento. Mas não importa: não podem se prender a conjecturas, suposições.

Melhor seguir a vida e não se prender a teorias da conspiração. A empresa garante a segurança deles tanto no trabalho como em casa. O percurso embora dentro dos limites do latifúndio (cada um vai para seu canto) não é responsabilidade da empresa. Se for o caso de morrer já teriam vivido uma vida muito boa.  Trabalhavam um dia e folgavam dois nas casas da empresa. Só podiam sair de lá nas férias a cada dois anos por quarenta e cinco dias. Quinze eram comprados. Embora fosse ilegal todos topavam. Não queriam perder seus ótimos empregos. Ou talvez até algo mais como se podia ouvir a boca pequena.

Tudo teoria. A única coisa certa é que ao morrer seriam cremados e suas cinzas seriam usadas para calafetar a plantação. Continuariam sua eternidade por ali já não mais, nem teoricamente, donos de si. Estariam plenamente integrados seriam a própria empresa. Não mais empregados.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...