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domingo, 26 de janeiro de 2025

O conto do veio - outro desconto

 

Certa vez, ao chegar perto do buraco branco, Coronel Josias desfiava seus rosários de contos, causos e anedotas quando viu o que nunca tinha visto: o invisível, algo que para ele definitivamente não existia. Aquele ocorrido lhe parecia como se ele tivesse fisgado um rio com sua módica vara de pescar. Uma vara cuja linha já tinha estado em contato intimo com praticamente todos os rios daquele sertão.

Vivia ele naquele deserto de gente, oceano de perigos, sem perceber que o isolacionismo era uma doutrina sua. Uma idéia que havia criado para si mesmo. Se às vezes atravessava o muro e se debatia em uma convulsão de vozes era tão somente para se preencher daqueles pequenos ecos do silêncio que precedem e intermeiam as falas. Mas como numa metrópole o silêncio é quase absoluto ao tentarmos impudicamente achar significados para as palavras soltas, ele ia, ficava algum tempo e logo se enfadava. Não conseguia travar qualquer discurso exterior a seu mundo.

Logo voltava a sua selva particular e fechava o portão de qualquer externidade. Sentava-se em sua cama, bem de frente a uma pequena mesa onde se podia facilmente avistar uma pequena máquina de escrever, e retomava seus pesadelos. Era o que tinha de mais orgânico em sua intensa artificialidade. Dizia ele: sonhar é para fracos, quem é digno de se chamar ser humano deve saber enfrentar os pesadelos. E os caçava. E os tinha. Dia-a-dia cada vez mais profundos e desafiadores.

Coronel Josias, cético como era só acreditava no que via ou no que presenciara. Tanto que renegava um filho que nasceu no hospital. Não vira seu nascimento. Não sabia se ele era filho pelo menos de sua ex-mulher. Bom... mas isso pouco importa porque ele renegara a sua família, a qual fazia questão de dizer a todos que quisessem ouvir que não a tinha. A família é que quisera ter ele. Mas isso é outra coisa que não muda nada a nossa história, nem a do personagem, pois ninguém se disporá a ouvir sobre a família dele, nem sobre nada que ele falasse em sua estranha maneira de conceber o mundo.

O certo mesmo é que todo dia ele tentava contato com o mundo exterior e tomava todas as iniciativas para se isolar. Passava toda as manhãs das terças, quartas, quintas, sábados e domingos escrevendo seus pesadelos. Nas tardes de segunda,quarta, quinta, sexta, sábado e domingo os tinha. Nas manhãs de segunda e sexta ele contava seus pesadelos para ninguém e era ovacionado sempre por calorosas palmas de silêncio. Nada lhe agradava mais. À noite ele curtia prazerosamente sua costumeira insônia e aproveitava para ter pesadelos nos breves intervalos que esta lhe cedia. Acreditava ele os pesadelos da noite serem os mais elaborados.

Há anos vivia naquele mundo imaginário. Um mundo intenso da única presença que suportava: a dele mesmo. Criara um deserto humano para seu maior conforto. E desde então, sem nenhum intervencionismo que não seja o dele próprio, começou a brigar com seus monstros internos numa intensa e incessante batalha à qual ele faz questão que não hajam vencidos, nem vencedores.

Ele era considerado uma incógnita por todos que conseguiam se aproximar e desconhecê-lo um pouco. Poucos o conseguiam, é verdade. Mas para os escassos que tiveram acesso algum dia a figura, praticamente nada lhes adiantava senão para terem uma noção do desconhecido, caótico e impreciso.

Já construira e desfizera milhares de contos naquela sua precisa maquina de escrever uma letra sim, outra não. Tinha um intenso orgulho de sua transitoriedade enquanto um ser absoluto em sua existência. Sabia que seu fim não seria tão providencial para ninguém como seria para si mesmo. Enquanto isso curtia intensamente suas dores, temores e medos como causa necessária da particular beleza que criara para si mesmo. Sabia que ninguém em seu mundo solitário poderia ser tão corajoso quanto ele. Não que isso tivesse alguma importância para ele. Classificações, catalogações lhe causavam ate ânsia de vomito. Maniqueísmo então, tinha um nojo profundo dele.

Passava os dias em profunda apreensão, como cabia a seu espírito inquieto e profundamente angustiado. Havia um certo heroísmo em conviver com os inúmeros, seqüentes e renovados temores sem necessitar vencer, nem se dobrar a eles. Ele na verdade não acreditava em vitórias, conseqüentemente também não existiam derrotas para ele. Nada disso lhe era palpável. Nada disso existia então.

Tudo corria muito bem até aquele dia em que ele presenciou o nada existencial. Uma experiência que lhe foi mais profunda do que todas as que tivera até ali. Todo o seu ceticismo caíra diante do nada absoluto. Teve a vontade de sair por aí bradando expressões inexplicáveis e acreditar naquelas vozes exteriores que não diziam nada. A partir daquele momento seus significados não preocupavam mais com o significante e qualquer ruído lhe era um sinal, um aviso. Foi internado em algum desses hospitais psiquiátricos com o diagnóstico de excesso de lucidez.

Bom... pelo menos foi essa a versão da história que contaram pra mim. Embora tenha muitos motivos pra acreditar me reservo o direito de duvidar de qualquer escrito fora das normas da ABNT e que não esteja de acordo com o paradigma positista-funcionalista-estruturalista. Não tem que ter certificação pra ser verdade? Não acredito mais em conversas de falantes não certificados. Aliás ao tomar essa sóbria medida não vou poder acreditar em nada até que alguém venha garantir a qualidade do falante. É até capaz começarem a imprimir data de validade para seres humanos.

Cômodos e Alpendres - um velho desconto

Sacada

 

Este vivera sempre em seu lugar. Bom isso não me parece um bom começo de história...

Um dia sem qualquer aviso o tiraram do lugar. Vixe!!! Parece que o começo piorou!!!

Bom... agora qualquer começo eu aceito. Não sei é se o personagem vai aceitar. Quem me dera se não aceitasse e tivesse um começo mágico na manga de seu palitó.

Aquele lugar onde sempre vivera já não era mais o mesmo. Ele havia ruidosamente mudado de lugar. Não entendia. Realmente não conseguia entender essas idéias malucas de mudar as coisas de lugar. Também não compreendia nem lhe agradava a idéia daquele moço estranho de escrever a sua história. Certamente ele daria uma dinâmica àquilo que foi sempre estático: a sua vida. Tenho horror a mudanças, a movimentos, pensava ele. Ainda se perguntava por que mudar algo ao qual já estava acostumado. Aquilo era como se lhe dissessem que o sol não é o centro do universo.

Bom que sol não fosse o centro do universo, isso nada lhe importava. Somente lhe importava que os sacrílegos não viessem, incomodar a sua estabilidade. Sabia que mais dia, menos dia alguma coisa mudaria, mas esperava estar morto antes disso. Aquela mudança o inquietava. Era uma mera mudança do ângulo de visão, mas uma mudança em sua vida tão certinha, tão perfeita, certamente teria efeitos catastróficos.

Estava muito confuso. Agora toda a sua esquerda lhe parecia a direita antiga e a sua nova direita, a perfeita visão de uma esquerda anterior. Todo o seu mundo havia rodado sem lhe pedir permissão. Ele, um metódico por excelência, nunca faria aquilo a outro, mesmo se a nova posição lhe aprouvesse um melhor panorama, pois sabia que mudar é algo inquietante e desconfortável.

Como lhe diria um Camelo, preferia não arriscar ganhar novas coisas pra não correr o risco de perder algo que já possuía. Esse era o âmago de seu conformismo: nunca arriscar, pois arriscar é arriscado, revelava redundantemente ele.

Aliás, aquela mudança era extremamente inoportuna. Descobrira que agora tinha medo de altura ao estar na sacada para o alpendre a três metros e vinte de altura. Nunca tivera tamanho temor, medo que só era inferior ao de mudanças. Dessas cada vez fica mais evidente o pavor que ele possui.

 

Alpendre

Aquele local denominado de alpendre ou varanda era muito pequeno para ela, que ansiava por liberdade. Aqueles muros a dez metros de distancia a sufocavam, embora fossem vazados. Sentia que tinha pouco espaço naquele lugar e volta e meia estava sempre por cima da cerca, ou melhor, de cerca em cerca para ver se sentia ou apreendia algo novo que pudesse acabar com a monotonia daquele lugar ao qual sempre voltava: o alpendre.

Jurava que seu próximo passo era pra longe daquela prisão com muros abertos de concreto, muretas e cercas de metal e madeira. Mas algo sempre a trazia de volta àquele local incomodo, ou melhor, cômodo e confortável demais. Odiava comodidade. Era uma espécie de morte em vida.

Não importava sua desilusão com as necessárias paradas. Odiava dormir. Ah se pudesse dormir correndo e pulando as muretas. Um dia vira o siamês de cima no alpendre. Ele parecia petrificado. Não conseguia entender como alguém de sua natureza vivia tanto tempo imóvel, impassível às mudanças. As mudanças sempre lhe remexiam, lhe dava uma espécie de gastura por alguma ação.

 

Cômodos e Alpendres

Nessa nossa recortada história, aliás, nossa não porque é mais sua que minha. Eu não consigo ver lógica nenhuma nessa história então deixei ao seu encargo, incauto, de dar um nexo a essa narrativa (narrativa ou descritiva?). Bom... é fato que cômodo um dia caiu da sacada e se estilhaçaria no chão se não o fosse a técnica, malandragem e experiência da gata manchada.

Todos os gatos sempre caem de pé. Aquela peça de tão acomodada caía de qualquer jeito. Talvez esse excesso de comodismo fosse a causa de um corte longitudinal nas suas costas e algumas rodas de metal que aparentemente ele tinha comido na falta de outro cardápio. É um gato belíssimo, pensava a gata. O angorá não pensava nada, nem agia, nenhuma reação se apreendia do gato.

A gata se engraçava, se enveredava em volta daquele coração pétreo. De certa forma o couro do gato também era muito consistente. Apesar da maciez dos pêlos, seu couro ou seu corpo se mantinha imóvel e imoldável mesmo a um aperto mais consistente da gata vadia. A felina logo se estressava diante da imutabilidade do siamês. Pensava: é um esnobe. Mas como o alpendre, depois de suas incontáveis voltas sempre estava lá de volta a ele.

Um dia o dono da casa, ou um de seus pequenos filhos, ao sair de casa sem querer pisoteou aquele cofrinho em forma de siamês. O gato se fez em pedaços. Quando a gata voltou já não havia mais nada por lá. Apenas o alpendre que já não era mais o suficiente. E a gata sumiu dali. A partir desse dia eu aprendi que cômodos em alpendres não dão certo e que muitas vezes o resultado disso é desastroso.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...