Estava no
meio da selva. Era uma formiga em seu próprio jardim. Ervas daninhas não
incomodavam. Ele próprio se reconhecia como uma. Sugara o conhecimento de todos
os sábios que conhecera. Uns dois ou três. De todo modo era um ser perdido numa
amplitude infindável. Era um camelo perdido no deserto, longe de qualquer
oásis. Ou não, perto da foz do Nilo.
Era um ser
humano qualquer, nem mais, nem menos privilegiado. Apenas plenamente consciente.
Apavoradamente consciente. Um pingo de ordem num oceano de caos, poderiam
dizer. Mas era um pingo de caos mergulhado em infinitas outras desordens. Percebia
que nada daquilo poderia ser racionalizado. Não adiantava ir com a corrente ou
contra a corrente. Aquilo estava mais para um redemoinho.
Pensando bem,
redemoinho tem uma ordem. A vida real não tem nenhuma. Saber disso é muito fácil.
Ter consciência disso é desesperador. Sabia que ser cínico era impossível. Era possível
a ilusão da hipocrisia. Era preciso se alienar. Fingir existir alguma ordem mesmo
que grupal, comunitária ou só individual.
Saber desse
pouco impediria qualquer um de viver, sabia. As pessoas alienavam a própria
alienação. Viver era um apesar de todo o resto das coisas. Consciente ela
sublimava suas verdades pintando, escrevendo... fazendo o possível. Pois sabia que
só a arte pode expressar a realidade em forma de ficção. Ou essa ficção chamada
de realidade só pode ser retratada pela arte.
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