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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Vagabundo

 


Nasceu numa família rica, muito austera. Trabalhou desde os dois anos. A família fazia questão de que todos os dias ele arrumasse sua cama apesar das dezenas de empregados na casa. Trabalhou duro mesmo desde muito cedo: aos cinco anos já estava travado numa mesa com um homebroker comprando e vendendo ações e dólares.

Trabalhou duro de domingo a domingo. Sempre se manteve frio mesmo quando algumas vezes deixava de ser bilionário para ser multimilionário. Sabia que era questão de tempo para voltar a ser bilionário. Uma aposta correta devolveria os milhões perdidos ou caso sua aposta fosse errada bastava pressionar o governo para devolver suas perdas com correção monetária e juros.

Era um cara muito frugal e simples. Nunca comprou uma mansão ou casa de praia. Apenas usou as herdadas da família. Sempre comprava os melhores planos de internet pra poder trabalhar arduamente de cada uma das casas herdadas. Era trágico. Não conseguia todo dia pegar seu jatinho e ir para a praia. Mas, felizmente essa rotina se deu apenas dos dois aos trinta e cinco anos.

Ele se deu alforria. Não importava se para isso ele se tornasse apenas mais milionário. Foi realizar seu sonho de vagar pelo mundo. Tornou-se um vagabundo, aquele que vaga. Começou a atravessar fronteiras de país a país e sinceramente nem sempre num hotel cinco estrelas. Muitas vezes foi obrigado a se abrigar num quatro estrelas e não tem problema nenhum.

Nessas viagens começou a criar um blog com dica de viagens, de onde ficar, onde ficam os restaurantes mais impressionantes, o que visitar, etc. Essas coisas que um vagabundo pode fazer com maestria. Em seus momentos de ócio aprendeu a afiar lâminas de trenó, pescar no gelo, até mesmo salgar carnes no ártico. Desenvolveu a musculatura da perna. Nunca pensou que conseguiria andar tantas esquinas de uma vez.

Era muito mais exaustivo ser um vagabundo. Nunca pensou que dava tanto trabalho. Tinha até por alguns momentos a saudade de quando trabalhava. Mas... bobagem... sua nova vida de vagabundo era muito melhor.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Modernidade e o Vagabundo

 


A chegada da Idade Moderna nos termos em que foi defendida como a era das luzes. O aumento da liberdade mesmo nos mais infames despotismos porque agora o castigo, até mesmo a morte, se restringe a esse mundo.  É um grande salto porque para quem acredita na vida após a morte ou na imortalidade não existe mais um fim definitivo. Isso é apenas um detalhe: a modernidade trouxe regras laicas muito mais ligadas ao funcionamento ou rotina que a proibição das ações em si. As paredes foram trocadas por corredores que em algumas vezes se tornaram labirintos, mas de toda forma tem um percurso com entrada e saída. Paredes que interrompiam o percurso eram definitivas. Poderiam ser derrubadas? Com imensa dificuldade, mas poderiam. Outra seria construída pois a ideia é proteger uma hierarquia. Labirintos protegem? Protegem, mas não impossibilitam.

A modernidade evoluiu de um jardim troiano para uma maquina com o seu auge napoleônico. Do escape de jaulas por trilhas cheias de perigo para uma associação (principalmente com a ideia de sociedade civil rousseauniana) na qual todo mundo tem sua função para possibilitar o funcionamento da máquina (que é o plano geral, muito além do Estado). Cria-se uma sociedade (esse termo claramente econômico) em que todos tem seu oficio. Quem tem um oficio disfuncional precisa ser corrigido ou eliminado. Uma boa comparação é dizer que é uma doença.

O sábio é meio que morto. A figura do vagabundo (aquele que vaga, viaja) é intensamente combatida pois ele é uma peça que falta nas engrenagens, pois está sempre indo de uma maquina a outra. O vagabundo toma uma acepção de desocupado, quando ele está sempre quebrando galho e no inicio da modernidade fazer o que quase ninguém sabia fazer pois ele tinha estado em lugares e situações que quase todos os outros não estiveram. Há um ódio ao ócio. Sem o ócio, pensadores e pesquisadores não existem. O próprio pensamento se torna colonizado. Tudo precisa estar encaixotado para facilitar o uso. Troca-se a excelência pela rapidez. Ou, pelo nome atual, eficiência.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A modernidade é uma maravilha e uma tragédia

 




A modernidade é uma maravilha e uma tragédia. Quanto ao fato de ser uma tragedia, há pouco a fazer. A maior lição da própria modernidade é que a história não volta. Não voltaremos ao escravismo para que os cidadãos livres tenham ócio e possam discutir os problemas na praça pública. Eu espero que ninguém tenha essa expectativa nefasta. É preciso construir outras maneiras de nos libertar da economia.

Quem leu A Condição Humana, de Hannah Arendt (não é um livro baba, mas importantíssimo de ler) percebe o tanto que o trabalho deixou de ser a construção de algo, criação ou manutenção de algo fora da própria vida. Existe criação ainda? Existe. Obvio! Mas quem são as mentes criativas? Hoje nas empresas existe até setor criativo para diferenciar do trabalho maquinal, automático que fatalmente será substituído por maquinas como robôs e inteligência artificial. O trabalho é majoritariamente condição de sobrevivência. Se a pessoa não trabalhar, morre.

Assim a economia conseguiu capturar a biopolítica e se tornar fundamental, se manter com mais força no centro das discussões. Mas é um caminho da captura, da submissão. O caminho da liberdade é a política. Temos que devolver a ação à política. Agir deve ser o fato político. Nada de procurações. Se nós queremos e é possível porque há um consenso pelo menos regional, territorial, nós mesmos fazemos ou provocamos. Não procuramos representantes para agir com procuração junto a outros representantes nossos. Basta de buscar o poder para ter o poder de buscar o poder.

Napoleão quando instaurou a burocracia racional nunca pensou nisso. Ele pensou numa escada, talvez essas pirâmides com níveis, não nos labirintos que criamos. Uma maquina que não intercede, não é uma alavanca para mover o mundo, mas um conjunto de paredes para conter as pessoas (ou povo, mesmo nas diversas acepções que tomou). Não contem a sociedade porque a sociedade faz parte do mesmo mecanismo, mesma máquina. Quanto a isso. Nada mais importante que ler Kafka. Não só um livro dele, mas muitos.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

A verdade e o verdadeiro

 

É uma obrigação moderna conhecermos a verdade para manifestá-la mesmo quando estamos mentindo, isto é negando-a. Na modernidade, toda a natureza, isto é, todo o ambiente que nos cerca é matéria-prima para ser manipulada por nós. É nossa propriedade, por assim dizer. Sobretudo a verdade, nossa mais trivial matéria-prima. Tornamo-nos donos da verdade.

Poxa! Mas quanta besteira tu falas! Não há verdades universais! Nem que dois mais dois são quatro, pois é pura analítica, uma verdade que encerra a si mesma, que apenas admite verificação. Uma verificação inútil, pois apenas confirma a si mesma. Pois bem... Como é feito nosso pensamento? Nós não pensamos quase sempre através de preconceitos (de antes dos conceitos), de verdades prontas, anátemas, como tudo o que é líquido molha, os cisnes são brancos, nossos genes determinam quem nós somos ou a inversa: nós somos o que aprendemos ser. Mesmo todos sabendo que ninguém é. Tudo flui (panta-rei).

Temos verdades prontas que nos livram da dor de parir um conceito. Conceito não é uma coisa simples. Pode nascer de um insight, “um clique”, mas é preciso trabalhar muito um clique para delimitar seu universo, testar todos os limites, conhecer todo o universo particular “concebido”, conhecer suas propriedades. E mesmo depois de tudo isso, se maravilhar por ter construído um ponto de partida ou uma ponte para o que futuramente poderá ser aí sim um conceito.

As verdades nos dão uma enorme segurança num mundo pós-iluminista no qual as incertezas e o desconhecido são “buracos negros”, sugam-nos e nos jogam no limbo, na estranheza. Não admitimos estar num mundo desconstruído, tudo necessita ser palpável, abaixo de nós sempre terá um chão. É inadmissível andar pelo teto, mesmo que a Terra esteja de cabeça pra baixo. Temos uma orientação universal. Não importa se estamos de um lado ou de outro, acima ou abaixo: sempre abaixo de nós está o chão e acima o teto ou o céu. Alimentamo-nos de verdades inquestionáveis. Ai de quem as examine!

A modernidade morta nas artes e arquitetura, transformada na filosofia e nas ciências ainda é a doutrina nas nobres aplicações das ciências (engenharias e medicina) e da filosofia (pedagogia e direito). A maioria dos engenheiros, médicos, professores, advogados, juízes, promotores sabem que a razão iluminista falhou. No entanto, sabem que o uso delas manteve a eficácia. Um bom médico não pode se importar se a aplicação de um placebo com muito menores efeitos colaterais surte mais efeito que o fármaco indicado para a enfermidade. A não ser que seja um purista disposto a arriscar a saúde do paciente em nome de uma verdade. 

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...