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terça-feira, 12 de maio de 2026

Bicho-do-mato

 


“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vida, decididamente, não era contar histórias. Era ser tragada por acontecimentos. Ele se precavia o quanto podia para não cair em armadilhas, mas elas estavam ali bem camufladas. Se não fosse ele, outros cairiam. Não caia por querer, mas se comprazia de evitar que outros caíssem desavisados. Não conseguia evitar as quedas dos outros, por óbvio, mas não eram vítimas desavisadas.

Dos imprevistos suas incontáveis estórias. Quase não precisava as enfeitar. A maioria brilhava por si só. Não sentia orgulho nenhum em contar as estórias. Não eram aventuras, histórias meritórias. Eram simples acontecimentos, desventuras. Nada sistemático. Tudo anedótico. Não desejava compartilhar. Seu intuito era desabafar. Não poque as histórias o afligissem, mas eram muitas, excessivas, pesavam.

Procurava alongar ao máximo as atividades para não narrar seus causos. Tudo o que podia fazia com a máxima paciência. Mas sempre era interrompido para que contasse uma estória. Fazia o possível para ignorar os primeiros pedidos, o que tornava tudo mais precioso. Algumas vezes ao perceber isso, fazia o contrário: insistia pra contar uma história com o desejo de fulanizá-las. Não adiantava tinha um dom saboroso de saber narrar.

Não conseguia sentar num bar ou restaurante sem reunir um bom grupo a sua mesa. Sem agrupar muita gente, sem conturbar o ambiente. Se tornou muito difícil frequentá-los. Não era um astro ou uma estrela, mas tinha um excesso de seguidores, não fãs, mas interessados nas estórias. Foi se tornando ríspido, tido como mal educado por se recusar a contar histórias por exemplo quando estava num banheiro de bar. Indelicado quando se recusava a falar de boca cheia.

Começou a levar a família para acampar no mato cada vez mais regularmente. As pessoas começaram a achar ele um bicho-do-mato. Até que se convenceu de que era isso mesmo. Era um bicho do mato. Lá tinha privacidade com a sua família. Conseguia almoçar e jantar em paz. Brincar com os filhos. Namorar a esposa. Deixou suas histórias impressas num livro na biblioteca da cidade para qualquer um ler. O livro foi muito pouco retirado. Não era tão bom escritor como era contador de estórias. Assim acabaram deixando-o em paz.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Àgua de cachoeira

 


Queria não estar ali. Desejava a estabilidade da estrada. Ousava sonhar com o som do silencio. Meditava cada passo dado. Desejava em cada espasmo um descanso. Era afligido por novas duvidas toda vez que não refletia um novo conhecimento. De modo que quando não tinha algo novo pra pensar o novo nascia.

Alguns chamariam isso de história. Ele denominava de tormento. Alguns poucos pensadores de vida ativa. A maioria de ócio, de vida meditativa. Ele malhava sua mente com maior fervor que qualquer bodybulding desses habituais. Alimentava o seu pensar com disciplina e compasso. Lia compassadamente e ordenadamente os livros conforme os entrelaços que foi encontrando. Juntando referência a referencia foi solidificando as suas.

La estava ele sentado num bar depois de ter descarregado os vagões do dia no porto seco. Seis horas contiguas sem descanso. Breves pausas para beber a água do cantil amarrado â cintura. Tomava suas duas doses da branquinha para ir para casa pensar no escuro por pelo menos quatro horas até dormir.

De manhã tinha seu prêmio. Comeria suas frutas, seus cereais como trigo, arroz e milho. Uma xícara lotada de café. Ainda faria algum alongamento antes de caminhar até o porto antes do sol sair. No porto repetitivos movimentos como se fosse uma maquina de descarregar ou uma linha de montagem. Entendia perfeitamente aquele taylorismo. Pensar era sua fuga daquela ordem toda. Seu pensamento era como água de cachoeira a contornar as pedras para fluir.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Globalização

 


Sentado no banquinho ficou. Pretendia sorver a água da cabaça com uma lentidão homérica, como quem se afoga com gotas. Tinha percorrido quilômetros sem descansar entre Maranhão, Tocantins e Pará. Atravessou cerca de doze cidades no caminho e viu dois biomas e e um sub-bioma: mata dos cocais, cerrado e amazônico. Chegou onde em poucos passos atravessaria pro Mato Grosso ou para o Amazonas.

Ficou ali esperando uma van para voltar ao bico do papagaio. Estava acostumado a cruzar fronteiras. Morava num lugar onde em cinquenta ou sessenta quilômetros pode passar por três ou quatro municípios. Vinte quilômetros bastam para passar por três municípios. Esse era o conceito de interdependência: nenhum município vivia sozinho. A indústria, o comercio e mesmo a administração publica não subsiste sem essa interrelação.

Cidades dependiam das outras desrespeitando fronteiras municipais ou estaduais. Cidades fronteiriças de estados diferentes estados muitas vezes eram mais ligadas entre si que cidades do mesmo estado, mesmo vizinhas. Desse modo foi criado um circuito, embora muitas pessoas andem pouco, em que as pessoas circulam constantemente entre vários municípios trabalhando como uma aranha a traçar redes.

Essa interdependência faz com cada município se torne uma parte de uma grande indústria e o produto necessite de circular para ter todas as partes, ser completo o quanto pode ser. Isso liga as regiões, os municípios, as pessoas. Todos são relacionalmente necessários. A mundialização recebe muitos empecilhos atualmente, mas essa e outras regiões são a prova de que o mundo pode ser um e limites não precisam ser valas ou muros.

domingo, 3 de maio de 2026

História

 Tolstói tem uma definição para a história e nem só para a história que merece reflexão tranquila e calma:

"Uma abelha pousada numa flor pica uma criança e a criança receosa passa a afirmar que o propósito da abelha é picar os homens. O poeta admira a abelha que se oculta na corola da flor e pretende que o seu fim é assimilar-lhe o perfume. O apicultor, observando que a abelha extrai o pólen da flor e o transporta para a colmeia, pretende que o seu fim é fabricar mel. Outro, que estudou de mais perto a vida da colmeia, afirma que a abelha colhe o pólen para alimentar as abelhas mais novas e criar a rainha, tendo como propósito a propagação da espécie. O botânico observa que, voando com o pólen de uma flor masculina para uma flor feminina, a abelha fecunda esta última: vê nisso, por seu turno, o papel da abelha. Outro, observando as variações das plantas, vê que a abelha contribui para elas e afirma que nisso consiste o seu papel. Mas o fim principal da abelha não se esgota em qualquer dos fins particulares que o espírito humano alcança. Quanto mais alto se eleva o espírito humano na descoberta do fim, tanto mais evidente se torna para ele o caráter inacessível do derradeiro fim. O homem pode apenas observar a concordância da vida das abelhas com os outros fenómenos da vida. O mesmo acontece quanto à penetração das razões últimas dos factos históricos relativos tanto às personalidades singulares, como aos povos. *** A história tem por objeto a vida dos povos e da humanidade. Mas aprender sem intermediário, abranger por meio de palavras, em suma, descrever a vida não já só da humanidade mas de um único povo, pode afigurar-se tarefa impossível.” (de “Box Grandes Obras de Tolstoi” por “Lev Tolstoi”)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quebra-cabeças

 


Josué acordou assonado como se tivesse dormido muito. Pior que não tivesse dormido. Estranhou não sentir nenhuma dor no corpo. Sem duvida não ficara deitado o suficiente para revelar os incômodos. Por outro seu estomago estava só osso. Precisava comer alguma coisa leve. Quem sabe um pão sírio sem nada ou com um pouquinho de mel só pra forrar o estomago e aí poder ingerir coisas mais elaboradas, mais acidas ou mais básicas.

Trabalhara incessantemente com Javascript e html. Poderia ter usado linguagens mais elaboradas, mais fáceis, mas adorava aquele quebra-cabeça.  Um flash ou sql viriam bem. Phyton seria muito útil.  Mas gostava de encaixar pouco a pouco sua montagem. Gostava de ter sobre seu domínio cada etapa. O que construía não era grande coisa, nada elaborado, mero exercício de criatividade. Estava apenas provando a si mesmo que conseguia.

No meio da semana se dedicaria a calmamente montar seus quebra-cabeças recém-chegados de dez mil peças. Não tinha a menor pressa. Passava alguns minutos a pensar. Juntava umas dez ou vinte peças. Saia pra dar uma volta ou tirar uma soneca e só então voltava lá nas mesas da sala pra montar mais pedaços. Só mesmo nos finais de semanas é que dormia muito pouco enfrentando desafios mais difíceis.

Tinha sido durante toda a vida um exímio e aborrecido contador. Tinha uma vida muito enfadonha. No fundo não agrava ninguém. Nem seus clientes, nem o governo. Pois sempre arranjava uma coisa entre a norma e a conveniência. Sabia esticar os limites, mas sempre havia uma norma. Os governos queriam arrecadar muito e os clientes pagar nada. O segredo sempre estava nos detalhes. Ninguém está atento a todos todo o tempo. Sabia ele e seus clientes que sempre poderia fazer melhor. Detalhes muitas vezes fugiam.

Estava treinado a trabalhar com máxima paciência e cautela. Por isso se especializara em montar quebra-cabeças. Muitas vezes clientes queriam quebrar-lhe a cabeça. Ele também sentiu a vontade de quebrar a de uns dois ou três. Bom... o que fazia agora era muito melhor que administrar os conflitos financeiros entre contribuintes e a burocracia. Podia montar tudo, construir em seu ritmo, sem interferências.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Tubarão

 


Nasceu arfando como se tivesse morrendo. Tomou um ar e prosseguiu. Chorou como se não houvesse amanhã. Esta era sua vida, negociar. Nunca aceitava a primeira proposta.  Se divertia trucando e retrucando. Nunca mostrava suas cartas. Nunca desistia, mas se por acaso a outra parte desistisse manca saberia das cartas. Se aceitasse também. Havia um certo fetiche em conhecer suas cartas as quais nunca seriam mostradas. Poderia nem as ter.

É verdade que boa parte da infância até a adolescência acreditava-se que tinga asma, nunca plenamente comprovada. Alguns diziam que era ansioso. Pelo adulto que se tornou pouco provável. A paciência exibida para conseguir os melhores negócios não seria possível para alguém angustiado. Seria manha? Dissimulação pura provavelmente não deveria ser, mas artimanha essa poderia.

Era mestre nas regras não escritas. Talvez doutor. Conhecia os costumes de cor como ninguém. Sabia dar nós em pingos d’água e faze-los cair quando ainda não existiam para então manuseá-los. Sabia que convencer a contraparte que ela que desejava negociar. Não ele. Criava dificuldades para vender facilidades. Não visitava as pessoas. Não as queria incomodar. Elas que importunassem a ele.

Uma vez espalhou o boato de que estava endividado e que precisava vender algum imóvel para se estabilizar. Foi um chamariz para o melhor negócio que fez na vida. Precisava atrair um cliente fora de sua alçada, um tubarão. Para atrair um tubarão precisava espalhar o cheiro de sangue. Então atraiu este acreditando que iria fazer rapinagem. Que tomaria vários imóveis de alguém que não tinha saída. Precisava tão somente a oportunidade de conversar para prender o tubarão em sua rede de aço inoxidável.

Infelizmente não pode mais repetir a ação. Precisou inovar nas ações. Mas já tinha feito fortuna e só precisava manter o fluxo das contas. Agora era um tubarão que só precisava estar atento para devorar os peixinhos que a mare leva a ele. Não precisava mais nadar por aí e seduzir presas. Era só pegar o dinheiro e fazer render em aplicações finanveiras. Podia até fazer maus negócios e recuperar nas aplicações. Mas por honestidade nunca faria um negócio ruim na vida. Tinha uma vida tranquila.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sedentário em exercício

 


Pesou a mão na pedra, pesou na perda de tranquilidade. Caminhava por aí como quem desejava parar a qualquer momento. Não seria uma pausa, um descanso. Mas um destino, algo permanente. Armaria uma rede em dois coqueiros e dos cocos caídos beberia a agua. Não morava perto da praia ou de uma plantação de coqueiros.

Morava numa conurbação de várias cidades. Fora das cidades, o cerrado, pouca mata. Sempre que podia escalava os pirineus. Escalou uma vez quando pode ir a França. Como não podia, subia e descia as ladeiras de Pirenópolis. Sempre ficava amargurado e feliz após suas longas caminhadas. Amargurado pela perda de tempo e feliz pela reação química provocada inadvertidamente pelo exercício.

Também ampliava a felicidade poder parar e beber água de coco ou garapa antes de caminhar pra casa onde encontraria problemas e soluções. Mas soluções do que problemas porque seus quebra-cabeças de três mil, cinco mil, dez mil peças estavam quase todos montados. Passava horas do dia em frente a um homebroker comprando e vendendo ações e moedas. Especulando sobre o filme que veria a noite de dormir.

 Se tivesse tempo abriria a academia mais cedo pra treinar bastante as pernas e só o necessário os braços. Tomar um café na padaria da esquina antes de chegar em casa. A velha média com pão com manteiga na chapa. Talvez algum pão de queijo. Assim passava o tempo sobre ele aumentando sua segurança e decrescendo sua vitalidade. Não que não tivesse noção do tempo, mas se auto-enganava.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...