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domingo, 25 de janeiro de 2026

O que é isso?

 


Quem planta sabe o que colhe, dizem alguns a repetir chavões. Mas quem age, quem semeia uma ideia não sabe que arvore, vegetação sua ação vai produzir. A semente parece ser de alguma coisa, pode até ser, mas o progresso da planta é coletivo. Pode produzir um bonsai de feijão ou de aroeira. Pode ser cega-machado ou ipê rosa. Plantas completamente diferentes com flores diferentes de cores inconfundíveis, mas próximas.

Talvez a melhor sacada de Hegel é a constatação de que uma ideia lançada ao mundo não tem efeitos determinados. Há tantas variantes, tantos termos a serem levados em conta, tantas variáveis desconhecidas que mesmo que fosse previsível, uma formula física conhecendo todos os dados é impossível conhece-los. Além disso são sistemas complexos nos quais todas as formulas parciais são aproximações frágeis.

As ações como as sementes estão por ai sendo semeadas a cada instante dando origem a grama, capim, mato, arvores, mutações e hibridizações aleatórias e probabilísticas. A maioria não é colhida porque ninguém teve ciência, ninguém pensou refltiu. Ninguém parou, olhou e pensou: o que é isso?

 

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A modernidade é uma maravilha e uma tragédia

 




A modernidade é uma maravilha e uma tragédia. Quanto ao fato de ser uma tragedia, há pouco a fazer. A maior lição da própria modernidade é que a história não volta. Não voltaremos ao escravismo para que os cidadãos livres tenham ócio e possam discutir os problemas na praça pública. Eu espero que ninguém tenha essa expectativa nefasta. É preciso construir outras maneiras de nos libertar da economia.

Quem leu A Condição Humana, de Hannah Arendt (não é um livro baba, mas importantíssimo de ler) percebe o tanto que o trabalho deixou de ser a construção de algo, criação ou manutenção de algo fora da própria vida. Existe criação ainda? Existe. Obvio! Mas quem são as mentes criativas? Hoje nas empresas existe até setor criativo para diferenciar do trabalho maquinal, automático que fatalmente será substituído por maquinas como robôs e inteligência artificial. O trabalho é majoritariamente condição de sobrevivência. Se a pessoa não trabalhar, morre.

Assim a economia conseguiu capturar a biopolítica e se tornar fundamental, se manter com mais força no centro das discussões. Mas é um caminho da captura, da submissão. O caminho da liberdade é a política. Temos que devolver a ação à política. Agir deve ser o fato político. Nada de procurações. Se nós queremos e é possível porque há um consenso pelo menos regional, territorial, nós mesmos fazemos ou provocamos. Não procuramos representantes para agir com procuração junto a outros representantes nossos. Basta de buscar o poder para ter o poder de buscar o poder.

Napoleão quando instaurou a burocracia racional nunca pensou nisso. Ele pensou numa escada, talvez essas pirâmides com níveis, não nos labirintos que criamos. Uma maquina que não intercede, não é uma alavanca para mover o mundo, mas um conjunto de paredes para conter as pessoas (ou povo, mesmo nas diversas acepções que tomou). Não contem a sociedade porque a sociedade faz parte do mesmo mecanismo, mesma máquina. Quanto a isso. Nada mais importante que ler Kafka. Não só um livro dele, mas muitos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Contra a modernidade

 


A modernidade trouxe a absorção da política pela economia. Aristóteles nunca pensaria nisso pois viveu na idade antiga ou no escravismo onde a economia (as coisas da casa) não seria nem considerada. A família, a casa eram coisas privadas, portanto necessitavam de privacidade. Essa privacidade era inquestionável.

Outra questão que não discutirei aqui é que política e ética eram inseparáveis porque ambas eram “ciências” da ação. No mínimo epistemologias da ação. A ideia de que a política era constituída pela ação, de que a política era o modo de alcançar algum fim diretamente colocava a política no centro (coração) a polis.

A ideia moderna de economia nasce na idade média sob o efeito das doutrinas ou ensinamentos de Santo Agostinho de Hipona, filosofo ainda da idade antiga.   Santo Agostinho consagra uma interpretação neoplatônica das cartas de Paulo. Uma ideia do Espirito Santo como fluido, meio que, por distribuição dos dons dentre outros, liga os seres humanos, estabelece uma comunicação. Ou seja, cria a ideia moderna de economia.

Estamos imersos na economia. Existem outras coisas como a política, mas são meros meios para interferir na economia ou serem usadas por ela. Nasce a economia politica para substituir a política. As duas mais importantes ideologias (tanto faz a interpretação napoleônica ou marxista nesse caso), no caso o liberalismo e o marxismo nascem sob égide da modernidade e o domínio da economia. Apenas o anarquismo (me refiro ao anarcossindicalismo ou ao  anarco-socialismo) nasce de um contraponto a isso. Mas não importa, este não floresceu, nem florescerá tão cedo em algum lugar.

Essa ideologia (já disse, usem qualquer acepção que cabe por motivos diferentes)  nos vitima pois pensem meu simples exemplo besta: há uma praça. Desejamos que fosse bonita, que fosse agradável. Mas como ocorrem furtos na praça evitamos frequentá-la. Frequentar a praça vazia é perigoso e por isso ela é vazia.   Assim reclamamos, falamos absurdos e algumas vezes até conseguimos uma ronda na praça. Mas nosso temor a mantém vazia e propícia para pequenos furtos e até para o comercio de entorpecentes.

Se agíssemos, ocupássemos a praça como nossa (espaço público). Cobrássemos melhorias constantes. O próprio movimento diminuiria o furto não só pelo fluxo de pessoas, mas também pela cobrança que mostraria a administração que o espaço é importante. O fluxo de policiamento se torna natural porque é um espaço eleito como importante. Não estamos falando de um objeto mais do qual ninguém se importa.

Ou seja, trocar uma atitude econômica (medo de ser assaltado) por uma atitude política (agir) resolve múltiplos problemas interligados. É preciso trocar o particular (economia) pelo público (política).

Pulei uma coisinha no meio, Maquiavel (um moderno lá do início) transformou a política em um meio para outro meio. A política, deturpando muito ele, mas menos que a maioria, é um meio de adquirir poder, para só assim com o poder, poder fazer o que é necessário. Na idade antiga não existia esse intermediário: agir era fazer diretamente o que se desejava, o que era necessário

Nós estamos imersos nessa ideologia da intermediação. Votamos em representantes. Escolhidos para nos representarem. Nas poucas possibilidades de uma democracia direta como propor uma lei ou lutar para trocar as lâmpadas da rua, as quais nos competem diretamente preferimos correr atras de nossos representantes que são muito menos potentes que nós. Pensa em dez caras uma semana azucrinando o prefeito. Só dez, nem precisa mais. Toda democracia direta precisa ser cultuada, salva, idolatrada. Mas preferimos a economia, sermos representados, termos representantes comerciais.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

É preciso acabar com a esperança oportunista

 

Todo começo de ano é a mesma coisa: malditamente a esperança começa a dominar o mundo com suas promessas maravilhosas. Nenhum problema se a coisa funcionasse dentro da concepção política de Hannah Arendt onde é preciso prometer, mas também cumprir para ter credibilidade para a próxima promessa. Política para Arendt tem um mecanismo, uma ação primordial que é prometer. É a promessa que cumprida leva a promessa seguinte que move o seu mundo.

Mas, inoportunamente as promessas são maquiavélicas, simples meios economicistas para finalidades maiores e quase nunca se cumprem, pois a finalidade não é nunca o cumprimento da promessa, mas acalmar, entreter, desviar a atenção para possibilitar a implantação do desagradável. A esperança imobiliza as pessoas com o seu canto de sereia, uma promessa de glória sem esforço.

Creio, que por mais dolorido que seja, é preciso instaurar a desesperança geral e absoluta, o ceticismo profundo. É preciso não esperar nada porque como diz o grande filósofo de bar João Babão: "de onde mais se espera, não vem nada. De onde menos se espera é que não vem mesmo, mas qualquer ação ou resultado que vem de onde não se espera, é uma boa surpresa. Um resultado esperado é no máximo uma decepção".

Andar pela vida sem nada esperar, é um tanto desesperador, mas costuma gerar menos decepções e mais surpresas positivas. Por isto, mesmo sofrendo por vezes desse mal, procuro logo me vacinar, pois foi nada menos que o grande pensador italiano Antonio Gramsci que aconselhava ter um “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”, isto pensar esperando o pior, mesmo desejando o melhor, se consigo assim explicar o que Gramsci resumiu. Em suma, o pessimismo está longe daqueles que querem o pior para o mundo, mas é metódico para aqueles que não desejam se surpreender com expectativas ingênuas.

É bem verdade que a ingenuidade já fez muita coisa por esse mundo e por nós quando acreditamos que o impossível era fácil, ou que não existia impossibilidade. Mas o pessimismo, lido sobre uma ótica crítica e até cínica, parece muito mais otimista que qualquer otimismo. Artur Schopenhauer, o pai do pessimismo se referia ao nosso mundo como "o pior dos mundos possíveis". O pai do otimismo Leibniz afirmava o oposto: "o melhor dos mundos possíveis". Se o nosso mundo, na existência de outros, é o pior possível, então existem outros ainda melhores. Isso pra mim é o mais exaltado otimismo. Leibniz, ao contrário, nos condena a nunca conhecer realidade melhor. Portanto questão de pessimismo metódico.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal

 


Natal é nascimento. O natal cristão no caso é o nascimento de Cristo, a oferta imolada de Deus à humanidade. Mas Natal, em suma é nascimento. O surgimento do novo no mundo. Hannah Arendt depositava suas esperanças nisso, na ação (política) como a indução, formação, surgimento do novo na humanidade. Walter Benjamin, na minha ingênua, ignorante e paupérrima interpretação acreditava no fundo que nada poderia mudar se continuássemos a nos guiar por nossas experiencias no mundo. Para mudar é preciso partir do novo. O novo surge do nascimento, do insight que muda o fundamental de uma compreensão, um método.

O novo irrompe no mundo, revoluciona, quase sempre sem uma revolução que muda nobreza por burgueses ou por uma burocracia. Ou seja, com uma mudança no sistema, não de quem manda em quem na pirâmide. A manutenção da opressão. O novo é geralmente um desvio, um furo no sistema, um sistema de estradas clandestino, uma fuga. Que pode se tornar um novo modo de dominação e será necessário novamente nascer o novo. O novo sempre está nascendo. Cada novo nascimento é uma nova potencialidade, nova possibilidade.

Trindade Tocantinense

 


Nos primeiros anos do mais novo estado do Brasil diziam que o Tocantins era do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora seja um dito aparentemente religioso por referir se a Santa Trindade, mistério consagrado em um concílio, a proclamação tinha uma outra camada (irônica?):

Se for irônica estou lascado porque ninguém mais consegue identificar ironia por reflexos da luta mais justa que existe: a contra as discriminações. Uma luta que se é naturalmente e justamente muito raivosa. O que a tornou politicamente débil porque (eu tô falando de política mesmo) se não existe chance de acordo a política não tem utilidade: nada pode ser construído, nada acordado.

Voltemos a sentença de que o Tocantins é da Santa Trindade. O Pai é uma claríssima referencia ao dito criador do estado: José Wilson Siqueira Campos. Que se notabilizou como criador do estado mesmo tendo sido criado por uma assembleia constitucional na qual se o governador de Goiás, Henrique Antônio Santilo, fosse contrário não haveria a menor possibilidade de existir o estado. Também não foi uma luta isolada. Deputados federais como Totó Cavalcante brigaram pela criação e fizeram “greve de fome” como ele.

O filho é a citação de seu filho preferido, José Eduardo Siqueira Campos, ao qual fez tudo para que fosse seu herdeiro político. Infelizmente, pelas coisas da vida, só o tempo lhe deu a experiencia necessária para perto da morte de seu pai se tornasse um político muito hábil, não apenas relevante. Relevante sempre foi pela influência que tinha ao pai.

Fiz um prólogo enorme pra chegar ao que queria dizer. Desculpem-me. O Espírito Santo da Santa Trindade tocantinense é Pedro Iram Pereira do Espírito Santo (PIPES), que é dono provavelmente de todas travessias de balsas no rio Tocantins. Da Trindade é o único que é comprovadamente rico. Os outros dois também devem ser, mas não se pode provar. Dois textos fundamentais mostram como a construção do Espírito Santo na idade média (embora a construção comece com Santo Agostinho na idade antiga) formam a ideia de economia doravante: O conceito de amor em Santo Agostinho (tese de doutorado de Hannah Arendt) e o Reino e a Glória de Giorgio Agamben.

Os dois textos, o segundo lendo muito do primeiro e o aprimorando, mostram como a ideia de distribuição, alastramento formam o que seria mais evidente na economia moderna: a economia se alastra por toda parte de modo que não exista nada fora da economia. A tal modo que se torne impossível diferenciar o que é economia porque não há limites, forma. De modo que se possa afirmar racionalmente que qualquer coisa não é economia porque está tão introjetado que pode afirmar isso é cultura, por exemplo.

A tese da Hannah Arendt é muito mais útil, mas muito menos evidente porque não tem a contextualização feita por Agamben. O conceito de amor em Santo Agostinho mostra como uma distribuição do amor (de Deus aos homens, fraterno entre os homens) conduz a felicidade. Santo Agostinho fala sobre a necessidade e o direcionamento. Se considerarmos o amor uma ação econômica fica evidente: a ideia de selva em que cada que garanta a própria sobrevivência, no máximo de sua família, de seus próximos se muito. O geral, o  público, a política que se...

Um pequeno apêndice (uma morte aparentemente justa da política):

Imaginem que se anuncie um inverno longo de seis meses onde há uma plantação de macieiras. O dono da terra libera a colheita de maçãs pra resistir o inverno, naturalmente com 8 a 10% das maçãs pra ele que é o dono da terra e o resto repartido igualmente entre os funcionários. A lenha igualmente para aquecer durante o longo inverno. Derrubam-se todas as macieiras. A família do dono ao ter mais lenhas e maçãs tem probabilidade de sobreviver mais tempo. Os funcionários que seguiram as ordens devem ser os primeiros a morrer. Os espertinhos que deram um jeito de ter mais maçãs e lenha do que deveriam devem sobreviver mais tempo que os outros funcionários.  Mas todo mundo vai morrer porque não vai crescer nada a tempo de matar a fome deles depois de zerados os estoques. Ou seja, a necessidade (economia) mata a política: não há conversa, não há acordo possível, somente a gestão mais ou menos inteligente pra sobreviver que pode escalar até o canibalismo.  

terça-feira, 23 de setembro de 2025

É hora de política

         


 

      O Congresso brasileiro durante os governos Temer e Bolsonaro foi muito sensível aos Lobbys econômicos empresariais aprovando pautas que além de danosas são absurdamente impopulares mesmo com ajuda da mídia cujo os donos são parte de uma mesma elite financista. De dezembro do primeiro ano de Bolsonaro o Congresso foi libertando de qualquer amarra e até mesmo progressivamente dos lobbys porque percebeu que não precisa mais do apoio dos grupos organizados porque podem ser eleitos na base do dinheiro bruto inclusive inflacionando o mercado propositalmente para restringir a oferta. Ou seja, os deputados estão fazendo dumping.

É preciso que os grupos populares, que a base organize seus lobbys não só pra fazer lobbies, mas para fazer abaixo-assinados, realizar protestos... constranger os parlamentares. É preciso pipocar pelo Brasil vaquinhas para colocar os rostos dos traidores apoiadores da PEC das Quadrilhas de cada estado no seu domicilio eleitoral. Se alugarmos outdoors por uma semana pra expor os Joãos Silverios e os Judas e ameaçarmos fazer outras vezes... os legislativos vão se tornar mais cautelosos.

Hannah Arendt em Condição Humana foi mestra em nos mostrar como fomos regredindo de majoritariamente construir coisas, inovar para trabalhar para sobreviver. Ocupar todo o nosso tempo com a própria sobrevivência ficando sem tempo para agir. Agir na gramatica arendtiana é colocar algo novo mundo tanto que o nascimento é uma espécie de ação. Agir é uma atividade pública por excelência em contraponto a economia que cuida do privado. A praça publica tem sido as redes antissociais que são no mínimo tuteladas pela economia. Na melhor das hipóteses capitalista. Na mais provável tecno-feudalista. É preciso tornar as ruas e praças o espaço público novamente.

sábado, 7 de junho de 2025

Da Política à Economia Política: da democracia à poliarquia

 




A Política na Antiguidade, ou no discurso presente ainda em boa parte da Idade Média, visava ou pregava a república, onde o bem era visado por todos e este se sobrepunha a qualquer interesse individual ou de grupos. Até porque se tinha a noção evidente de que o cidadão só existe por causa da cidade, assim como a política dependia fundamentalmente da polis. Assim, deste modo, as primeiras frases de A Política são:

 

§ 1. Sabemos que toda cidade é uma espécie de associação, e que toda associação se forma tendo por alvo algum bem; porque o homem só trabalha pelo que ele tem em conta de um bem. Todas as comunidades, pois, se propõem qualquer bem – sobretudo a mais importante delas, pois visa a um bem maior, envolvendo todas as demais: a cidade ou sociedade política. (ARISTÒTELES, 2009, p.13).

 

Tanto na Idade Antiga, quanto na Idade Média (quem preferir pode substituir os termos por Escravismo e Feudalismo) ainda imperam modelos políticos centralizadores: Monarquia, Aristocracia, Democracia... todos modelos que por mais participantes que tivessem  sempre desejavam no uno, na única ideia aceita esta ora pelo medo, pelo respeito ou pelo consenso. Os homens em seus múltiplos desejos, múltiplas necessidades tinham que se submeter a um único agir porque quem agia era a polis, melhor dizendo, o Estado e não o individuo dentro deste.

Para se mudar um modo de agir mudava-se o Estado. Esse é praticamente o pano de fundo de muitas obras antes de Nicolau Maquiavel, sobretudo em A política, de Aristóteles: cada povo tem o estado que merece, cada cultura tem um tipo diferente de governo adequado, resumindo até de forma bastante perigosa, mas tornando bastante clara a importância vital do Estado nesses momentos históricos.

Mas com o surgimento do capitalismo no fim da Idade Média e sua pungente consolidação na Idade Moderna, aos poucos a política vai perdendo a importância para a economia política. Basta analisarmos lexicamente a troca do termo comunidade, que ressalta o que é comum, pelo termo sociedade, termo econômico e contratual, durante a idade média e sua consolidação na idade moderna instaurando uma grande hegemonia hoje.

Quanto mais os interesses divergentes e ao mesmo tempo em que consolidavam a própria hegemonia em sua diversidade, mais o Estado perde a sua importância como agente, como promotor da política; mais se torna mais evidente a vida fora do Estado: a sociedade civil. Mais se torna evidente o homo laborans de Hannah Arendt que necessita trabalhar em uma tarefa sem sentido para ele pois não domina o que faz, ao contrário é dominado pelo mesmo e o faz unicamente para sobreviver (isso num sentido duro) e, que portanto não tem tempo para agir, não tem tempo para a política.

Mas essa mesma sociedade (é bom lembrar a carga do termo) cria a sociedade civil onde as pessoas se associam em nome de interesses comuns, mas não mais comuns a todos nem à polis ou Estado como um todo. Nasce assim uma “democracia pluralista (poliárquica e policêntrica) , em contraste com o ideal da democracia monística ou monocrática” (BOBBIO, 2000, p.85). Desse modo a democracia tem seu significado substituído, agora ela precisa ser plural, abranger e respeitar todos os pontos de vista, não precisa mais construir necessariamente o consenso.

Assim a política, assim como o capitalismo vive da pluralidade, do dissenso. Não tem outra razão de existir que não a de um grupo conseguir o poder para impor seus desejos aos outros e da esperteza para se manter no poder. É claramente uma economia política com a consolidação das ideias de competição, de funcionalidade, de eficiência.

Aliás, em nosso tempo, a imposição de um consenso desagrada a todos. Prefere-se um impasse permanente que nos impossibilite agir do que um consenso forçado por qualquer necessidade. Tem-se a impressão de ‘engolir a seco’. Assim em nosso tempo o não-político tem muito mais importância em nossas vidas.  A política como o espaço da ação por excelência, essa é uma definição clássica de política, acaba acontecendo muito mais fora do Estado, na sociedade civil, onde está o não-político. As fronteiras entre o político e o não-político à medida que a sociedade civil cresce de importância vão se tornando mais tênues até que a política invada de vez através da biopolítica.

Assim a todo o momento agimos politicamente, mas não fazendo política. Em todo instante somos governados integralmente, inclusive nossos corpos pela política. Desse modo a morte da política na modernidade ou contemporaneidade constitui-se no império totalitarista da política que desse modo não deixa mais espaço para nada ou parafraseando Agamben: a política se tornou teologia e a teologia se tornou política.

 

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I; tradução de Henrique Burigo. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

AGAMBEN, Giorgio. O reino e a glória: uma genealogia teológica da economia e do governo; tradução Selvino G. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2011.

ARISTÓTELES. A política; tradução Nestor Silveira Chaves. 2ª ed. Bauru, SP: EDIPRO, 2009.

BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos; organizado por Michelangelo Bonavero; tradução Daniela Becária Versiani. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

ZINGANO, Marco. Aristóteles: tratado da virtude moral; Ethica Nicomachea I 13-III 8. São Paulo: Odysseus Editora, 2008.

 

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

O DESLOCAMENTO DA POLÍTICA DO OBJETIVO DA POLÍTICA DO ZOÉ



 Pretendemos muito antes de propor qualquer solução possível, expor os efeitos captados por Giorgio Agamben através de sua leitura de mundo, do seu principal influenciador Michel Foucault e de Hannah Arendt ocasionados pela mudança do centro da política do zoé para o bíos.

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Serviam-se de dois termos, semântica e morfologicamente distintos, ainda que reportáveis a um étimo comum: zoé, que exprimia o simples fato de viver comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses) e bíos, que indicava a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou de um grupo. (AGAMBEN, 2010, p.9)

 

Com essa passagem um maior evidenciamento da biopolítica e do controle sobre a ação humana, que classicamente é o que definia a política. O interesse da política na Idade Antiga e boa parte de Idade Média se restringia aos que dela participavam e por ela se interessavam. Portanto tinha enorme importância se interessar e participar das decisões políticas, pois não se legislava pelo interesse geral, ou seja, dos que não participavam dela.

Tal é, pois, o fim principal que eles se propõem comum ou individualmente. Algumas vezes, também, é unicamente para viver juntos que eles se reúnem e estreitam os laços da sociedade política. Porque talvez haja um pouco de felicidade no próprio fato de viver assim , sempre que a vida (bíos) não seja sobrecarregada de males demasiado difíceis de suportar.  O que há de certo é que a maioria dos homens suporta muitos males devido ao seu agarramento à vida (zoé), como se ela encerrasse em si própria uma doçura e um encanto naturais. (ARISTÓTELES, A Política 1278b, 23-31)

 

Portanto em nenhuma hipótese poder-se-ia delegar poder ou esperar que suas demandas fossem atendidas sem agir. Para Aristóteles, os terrenos da ação por excelência eram a política e a ética.

E quando, em um trecho que deveria tornar-se canônico para a tradição política do Ocidente (1252b, 30), define a meta da comunidade perfeita, ele o faz justamente opondo o simples fato de viver (to zên) à vida politicamente qualificada (tó eû zên): ginoméne mèn oûn toû zên béneken, oûsa dè toû eû zên “nascida em vista do viver, mas existente essencialmente em vista do viver bem” (AGAMBEN, 2010, p.10)

Entretanto quando a política passa a se interessar por tudo e todos, desde o seu princípio na Idade Média ainda, mas que alcançou a sua onipresença apenas na Idade Moderna, passa a controlar não só o Estado ou suas leis, mas a absolutamente todos os corpos.

“Por milênios, o homem permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivente e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida de ser vivente” (...) Segundo Foucault, o “limiar de modernidade biológica” de uma sociedade situa-se no ponto em que a espécie e o indivíduo enquanto simples corpo vivente tornam-se a aposta que está em jogo nas suas estratégias políticas. (AGAMBEN, 2010, p.11)

 

Deste modo, toda a ação passa a ser controlável e, mais que isso, controlada. Os cidadãos perdem o seu poder de influenciar os destinos da “polis” por assim dizer. A ação, no sentido arendtidiano torna-se algo raro e precioso e a economia onipresente assim como a vida comum, que não fazia parte das origens da política.

Por outro lado, já no fim dos anos cinquenta (ou seja, quase vinte anos antes de La volonté de savoir) Hannah Arendt havia analisado, em The human condition, o processo que leva o homo laborans e, com este, a vida biológica como tal, a ocupar progressivamente o centro da cena política do moderno. Era justamente a este primado da vida natural sobre a ação política que Arendt fazia, aliás, remontar a transformação e a decadência do espaço público na sociedade moderna. [...] É provável, aliás, que, se a política parece hoje atravessar um duradouro eclipse, isto se dê precisamente porque ela eximiu-se de um confronto com este evento fundador da modernidade. [...] Se  algo caracteriza, portanto, a democracia moderna em relação à clássica, é que ela se apresenta desde o início como uma reinvindicação e uma liberação da zoé, que ela procura constantemente transformar a mesma vida nua em forma de vida e de encontrar, por assim dizer, o bíos da zoé. Daí, também, a sua específica aporia, que consiste em querer colocar em jogo a liberdade e a felicidade dos homens no próprio ponto – a “vida nua” – que indicava a sua submissão. [...] Tomar consciência dessa aporia não significa desvalorizar as conquistas e as dificuldades da democracia, mas tentar de uma vez por todas compreender por que, justamente no instante em que parecia haver definitivamente triunfado sobre seus adversários e atingido seu apogeu, ela se revelou inesperadamente incapaz de salvar de uma ruína sem precedentes aquela zoé a cuja deliberação e felicidade havia dedicado todos seus esforços. (AGAMBEN, 2010, p. 11, 12 e 17)

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Três conceitos - três recortes - dois autores fundamentais sobre Política


 

A) Hannah Arendt

“A Condição Humana (The Human Condition), publicada em 1958, pretendia, portanto, com base numa antropologia filosófica, responder à pergunta que fora deixada sem resposta em Origens do Totalitarismo: em que condições um universo não totalitário é possível? A análise toma por objeto a vita activa (vida ativa em oposição ao que a filosofia tradicional chamada de vida contemplativa), e a vê segundo três modalidades fundamentais: trabalho, obra e ação. Tomado no processo biológico das necessidades e da sua satisfação, o trabalho é uma atividade indefinidamente repetitiva, voltada para a satisfação das necessidades vitais: só produz o que é perecível. É à obra que cabe produzir coisas duráveis, artefatos e objetos que não sejam aniquilados assim que consumidos. Mas essa durabilidade é ainda relativa e está submetida, em ultima instância, à utilidade e ao ciclo dos meios e dos fins. Resta, pois, a ação única capaz de transcender o ciclo da necessidade vital e da cadeia infinita dos meios e dos fins. Inseparável da palavra, a ação é revelação do quem num espaço público de surgimento em que cada um é visto e ouvido por outros. Embora não seja privilégio apenas do ator político (no sentido estrito do termo), a ação enseja a constituição de um espaço público – distinto do domínio privado – em que se estende a rede das relações humanas. A condição humana de pluralidade, correlata da ação e da palavra, é para Arendt um verdadeiro conceito fundador que se encontra em todas as etapas de sua análise. (...) Mas toda a dificuldade é que a ação que nos insere no mundo não tem outra validação além do seu próprio aparecer. Não deixando atrás de si – como já sabiam os gregos – nenhum produto fabricado, introduzindo os homens num tecido de relações que eles não dominam, a ação é eminentemente frágil, seus resultados são imprevisíveis e não podem ser desfeitos”. (HUISMAN, 2001, p.60 e 61)

 

B) Aristóteles

“O termo ‘política’ é essencial. Vem do grego polis, ‘cidade’, ou ainda ‘Estado’. ‘Política’ é a possibilidade de civilizar, abrandar os costumes do Estado através de instituições, da cultura. O Estado é sem dúvida a forma mais elaborada da sociedade: só ele tem por finalidade a ‘vida bem-aventurada’ dos homens livres. Verdadeiro ‘animal político’, o homem não pode, sozinho ou no seio de uma família ou de uma aldeia, assumir ou realizar seus desejos e aspirações de modo satisfatório; também não pode atingir essa perfeição à qual chega o Estado: este vale em si mesmo e por si mesmo”. (HUISMAN, 2000, p.434 e 435)

 

C) Habermas

“As ações humanas (quando orientadas para o sucesso) têm como mediação o dinheiro (economia) e o poder (Estado). Mas o universo da intercompreensão tem como mediação os ‘atos de fala’. (...) A ação comunicativa remete às interações mediadas pela linguagem, em que, retomando a expressão de Habermas, ‘todos os participantes, por ações de linguagem, perseguem (...) para obterem um acordo que propicie fundamento para uma coordenação consensual dos planos de ação perseguidos individualmente’”. (HUISMAN, 2000, p.524)

quarta-feira, 28 de maio de 2025

A oralidade, a escrita, a máquina de escrever e o computador

              


          Um técnico brasileiro com cidadania na capital mais nova do Brasil. Talvez o maior técnico brasileiro desencavou uma grande verdade: todos os técnicos campeões do mundo pela seleção brasileira eram brasileiros. Notável verdade! Todas as grandes obras do século XX e talvez do XIX foram escritas em máquina de escrever. Outra verdade! Talvez na década passada (e, portanto, muito recentemente) ainda existissem autores que escrevessem em maquinas de escrever. Hoje devem ser incrivelmente raros dada a facilidade que os processadores de texto possibilitam para escrever, reescrever, mexer no texto.

Não há menor dúvida de que a maquina de escrever produz textos melhores que o computador por seu ritmo mais lento e as constantes possibilidades de reflexão. Como não há plena certeza de que a escrita é ainda muito melhor. Produz textos muito mais elaborados pela possibilidade de escolher palavra a palavra dentro da própria escrita, sobretudo para alguns como eu que precisam desenhar as palavras devido a sua péssima ortografia. Os gregos até a sua decadência não aceitavam sequer escrever suas obras. Certamente o Theodor Adorno certamente seria fã disso porque cada exemplar seria de certo modo original por causa do telefone-sem-fio ou fofoca, ou seja, a cada narração de uma obra haveria peculiaridades.

Até a invenção da impressão, as obras eram escritas e copiadas a mão. O que até garantia certa originalidade a cada obra ou conjunto de obras. Depois de Gutemberg imprimir a bíblia, imagino que muita gente protestou contra aquela pasteurização toda das obras. Os autores até gostaram porque as obras passaram a ser mais fidedignas ao que escreveram. Os leitores perderam a originalidade de seus artefatos comprados. A história anda e ninguém escapa das ações dela. Sim, é possível que muitas obras daqui em diante continuem a ser concebidas em escrita manual. Mas é extremamente improvável que o sejam através de maquinas escrever, visto que essas já são uma mediação muito artificial. Nesse nível de artificialidade os computadores são incrivelmente melhores. Na escrita não. Porque a escrita é um exercício e um desenhar ao mesmo tempo.

Ou seja, um fato do passado não é verdade indefinidamente. Até hoje nenhum técnico estrangeiro foi campeão da copa do mundo de futebol. Não quer dizer que não o possam ser. Nem que futuramente haja mais técnicos estrangeiros campeões do mundo que nacionais. Que o Brasil seja o país pioneiro nisto, como já foi em muitas outras coisas. Aliás, acho temerário qualquer ser humano ser profeta. Temos demasiados exemplos de grandes pensadores que foram justamente contestados e até descredibilizados por em algum momento quererem descrever um futuro. O passado só serve para evitar a repetição de erros futuros. Os acertos? Esses precisam sempre ser construídos. As ações, no sentido arendtidiano, é sempre um nascimento. É sempre algo novo.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Vamos conversar sobre política e ética?

 


Como a base da concepção de Hannah Arendt de política é a idéia grega de uma política que primeiramente era uma interação e que não se separava da ética, achei importante discutirmos a relação entre política e ética numa concepção moderna ou pós-moderna, na qual política e ética encontram grandes problemas em conviver.

É por isso que julgo importante tentarmos responder algumas perguntas como: Ética na política, existe? Que ética é válida? Servem-lhe os mesmos parâmetros das outras éticas? Existem éticas particulares? Origens diferentes? O lugar de Nicolau Maquiavel. Poder e Estado. A concorrência de grupos pelo poder. Eleições são representativas? Os partidos o são? Existem partidos?

Pretendo nestas poucas linhas traçar hipóteses, na verdade pra mim várias teses bastantes defensáveis, porém polêmicas por afrontar a visão predominante na sociedade acerca do fenômeno ou dos fenômenos envolvidos. A primeira tese que eu queria afirma que a política não é um ofício, mas sim uma atividade e que, portanto, não lhe pode caber um código de ética em hipótese nenhuma. Aos ofícios da administração pública sim, a eles cabe a ética no desenvolvimento das funções.

Outra consideração necessária, e nesta encontro sólido apoio, é a contestação a éticas específicas. Não adianta um técnico do saber prático respeitar o código de ética de sua profissão e ser eticamente um mau cidadão. Então entendemos que não se poderem usar várias éticas de acordo com a circunstância. Não se pode ter uma ética profissional, outra de cidadão e outra de parlamentar por exemplo. A ética pessoal, geralmente a de cidadão deve servir como orientação em todas as ocasiões. Aliás, o termo código de ética é uma contradição em si porque ética não pode ser imposta. Ética não pode ser lei. Ética deve ser aceita, escolhida, adotada.

Se você puder aceitar esse prelúdio como verdadeiro, pelo menos provisoriamente, poderei desenvolver teses outras mais a frente.

Apesar de não necessitar ser alvo de uma ética específica, se essa pudesse existir, a especificidade e importância da política provocam o desejo dos cidadãos de que algumas normas a norteiem. No entanto por terem naturezas diferentes, uma possível ética na política não pode se servir dos mesmos parâmetros que as éticas funcionais. É bom lembrar que eu estou fazendo uma concessão, não creio em éticas específicas para determinadas profissões, apenas consinto que existam adaptações de uma ética geral à situações específicas.

Nicolau Maquiavel, filósofo estudioso dos romanos e conselheiro de uma forte família florentina, da qual saíram muitos Papas numa época em que a igreja agregou ao seu poder temporal, o poder político, é o criador do mais eficiente, não diria ético, manual de fazer política: O Príncipe. Seus práticos conselhos são acatados por políticos das mais diferentes ideologias, origens e representatividade porque são extremamente eficazes. Ele enumera inúmeros meios, nada probos, para alcançar o fim último de se manter no poder. Então a política que classicamente tem incontáveis fins, nesse caso acaba tendo um principal, quando não único, esdrúxulo fim.

Muitos pensadores como o italiano Antônio Gramsci se dedicaram a estudar o poder e detectaram a necessidade sentida por ditadores personalistas ou grupos em particular de se manterem no poder. Gramsci desenvolve uma teoria interessante baseada na cultura para determinar os mecanismos que estes usam para manter a sua hegemonia, outro notável conceito desenvolvido pelo italiano. Na verdade há todos esses mecanismos e é necessário segurar uma hegemonia, que é sempre muito instável, porque inúmeros grupos concorrem por esse poder.

Todos esses mecanismos, muito melhores desenvolvidos e explicados após Gramsci, estão presentes na política do cotidiano seja num bar, escola, restaurante, teatro, no senado e mais nitidamente ainda nas eleições, onde os mais variados estudos chegam à conclusão de que os mitos e desejos são muito mais importantes para a decisão de voto que a racionalidade. Por essa razão, creio que as eleições, pelo menos racionalmente, não são representativas. Quanto aos partidos, se fossemos observar estritamente as condições necessárias para se constituir uma agremiação do tipo um objetivo em comum, ideologia clara e comum entre os participantes poderíamos taxá-los de massa de manobra, nunca de grupo.

Bom... me desculpem todo o contorno ao tema, o qual demonstrarei que foi válido. Eu já tinha negado a pertinência de éticas particulares. Havia afirmado que uma pessoa só pode ter como regra de conduta um conjunto de princípios que determina todo o seu comportamento seja como pai, filho, irmão, médico, advogado, torcedor de uma equipe esportiva ou senador. Falei da particularidade da política como uma atividade e não um ofício ou função, os quais são denominados pelos cargos públicos aos quais são eleitos. Depois me embrenhei pelo pensador que mais orienta os políticos a exercerem a política com eficácia e potência, mas considerando que embora seus conselhos sejam pertinentes e eficazes, os mesmos são quase sempre contrários a uma ética de convicção. Expliquei também o motivo da utilização do conselho do estudioso romano: a permanência no poder. Usei uma ideia de Gramsci para fazer um complemento do assunto e fechar a seção. Cabe-me explicar o porquê de tudo isso. O objetivo da ética é nortear o sujeito a fazer racionalmente as escolhas de modo a contemplar seu ideal de mundo. Então quando dizemos que o critério de voto nas eleições tem muito pouco de racional estamos tirando a ética do objetivo de todos os candidatos que quando a evocam se referem à imagem ou o mito dela, quando muito.

A política, conforme eu já havia dito, tem se esmerado nos conselhos de Maquiavel e até de Gramsci e seus posteriores para se manter no poder. Isso é de fato uma redução muito mesquinha da política. Creio que a política é a atividade mais ampla e absorsiva do universo. Como uma atividade ampla que abarca de alguma forma tudo, deve ser limitada por pouquíssimas regras. É bom lembrar, regras não são leis, acata-as quem concorda com a justeza destas. Certamente nenhuma atividade pode ter ética específica, muito menos a política como uma atividade negociativa, associativa ampla. Então todos devemos carregar nossas éticas pessoais para qualquer lugar que estejamos. Não creio que os políticos devam ser exceção. Eles devem usar a ética pessoal deles, mesmo estando representando eleitores que votaram neles. Ética não pode ser doada ou emprestada. O que eu gostaria de propor é que uma ética política poderia se fundar em três regras de ouro:

Sempre manter-se aberto ao diálogo;

Dialogar sempre com honestidade de intenções e princípios;

Explicitar sempre com clareza suas intenções e a origem delas.

Creio que o que eu consigo conceber até agora sobre o assunto é isso. Se você puder me ajudar com sugestões para melhorar a concepção, ficarei grato.

sábado, 10 de maio de 2025

Por um paradigma não científico

 


Todos sabemos que o pensamento de cada época foi norteado por seu respectivo paradigma. Pelo menos assim nos parece após o livro Estrutura das Revoluções Científicas, do físico Thomas Kuhn. Os paradigmas são teorias fundamentais que foram baseadas cada qual em um tipo específico e diferenciado de ciência. Primeiro, na fase pré-científica, numa não ciência: a mitologia. Depois numa ciência pura: a matemática. Depois nas ciências aplicadas: uma física predominante sobre a biologia principalmente. Com o advento da psiquiatria, uma acentuação para o lado da biologia. Depois uma desconstrução de teorias universalistas e uma série de teorias específicas com pretensões paradigmáticas: baseadas no cinema, na antropologia cultural, na economia, ressurgimento das teorias mitológicas, teorias nucleares. Finalmente uma tentativa ainda em ação de uma síntese dessas diferentes teorias num paradigma tão abrangente como a ecologia como ciência.

Na verdade eu escrevi tudo isso só pra propor minha visão nesse assunto ( a qual posso mudar após discutirmos, mas creio ser razoável): creio que deveríamos esquecer a construção de um novo paradigma, como tal científico, e em vez disso aceitarmos a política (não a ciência política) como pensamento fundamental. Digo, a política na sua concepção mais clássica, que teve seu significado recuperado por filósofos como Hannah Arendt e Jürgen Habermas, como um domínio do diálogo e da criação de acordos, cuja a coerência não cabe a nenhum outro saber.

Nós sabemos que todos os paradigmas como científicos tentaram descredenciar suas falhas como o ganso verde que não pode ser ganso porque todos gansos são brancos então vira um fanso pra não estragar a teoria. Algo que viesse da política não teria essa falta de flexibilidade e não necessitaria descredenciar nenhum argumento assim tão facilmente.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

O amor é profundamente político

 


Muitos filósofos orgânicos como Montaigne e Voltaire (há quem não o considere) já incluíram o amor em seus ensaios ou em seus dicionários. Eu, que sou um mero mortal, venho jogar umas ideias que pretendem costurar uma concepção minha que tem bases volúveis em vários pensadores. Acredito ter costurado as bases com uma boa dose de necessário senso comum. Cabe-me propor o caráter estritamente político do amor, concepção que talvez cause algum incômodo (ou não) a algumas pessoas.

O amor é uma atividade política por excelência. Só se define e se traduz pela ação, pelo planejamento da ação e principalmente pelo sentimento da ação. O amor é um sentimento político porque sempre se refere a algo externo, mesmo se tratando do amor narcísico, porque esse se trata do amor à própria imagem, que é, portanto, um objeto externo (Quanto aos outros amores, não paira nenhuma dúvida de que universo, pessoas, deuses, humanidade sejam objetos externos). Outra faceta que demonstra o caráter político do amor é a sua interdependência com a ação, pois o amor só se expressa pelo desejo de alguma ação (ou pela ação), qual seja afagar a amada, fazer amor ou simplesmente estar próximo ou pensar nela ou em sua ideologia. Lembre-se que Hannah Arendt afirma que o planejamento da ação também é uma ação. Ainda outro fator demonstra o caráter político do amor, pois é ele (todos os tipos dele) que agrega as pessoas. É um sentimento eminentemente unitário.

Assim como a política, então, o amor só é factível entre mais de um objeto; palavra que aqui toma a desinência de pessoa, coisa, sentimento, percepção, devaneio ou imagem, um sentido amplo como é tomado em diversas ciências como a filosofia e a psicologia; só existe enquanto relacionada à ação, inexiste fora deste contexto; e a ação política é o que agrega as pessoas, pois as pessoas se unem no agir, no pensar do agir e no sentimento do agir tal qual no amor. É bom lembrar que em Hannah Arendt, bem como em outros, a interação é característica fundamental da política.

sábado, 19 de abril de 2025

A ética, a política e a história pessoal

 


As histórias pessoais são em última análise a base da história universal, a história mais ampla que existe, menos previsível e mais importante porque constitui o ambiente para todas as outras. Como já dissemos, é praticamente impossível prever como se encaixa e que resultado as ações individuais, ou a interação destas, tem na história universal. Mas quanto menor o âmbito da história, mais previsível é o resultado das ações. Como se fossem experimentos: quanto mais numerosos e mais fortes os limites mais determinados são os resultados destes.

Assim, determina-se a importância da ética como a parte da consciência que está sempre ponderando para alcançar o maior bem comum ou bem público. Toda ação na história pessoal, ou na história dos indivíduos ou história individual tem uma consequência direta previsível, embora não determinada. Assim avoluma-se a importância de agir bem. Aí entra a ética tão esquecida.

É verdade que a ética hoje é muito mais pragmática que bem intencionada. Natural numa sociedade em que os fins valem muito mais que os princípios. Assim uma ética da responsabilidade se torna imprescindível para mudar a história. É óbvio também que não podemos deixar para trás nossos princípios. Boa parte deles são inegociáveis por natureza, pois inobservados fatalmente a civilidade descambaria para a barbárie. Creio, na verdade, ser inexistente esse maniqueísmo pregado entre as éticas de convicção e de responsabilidade. É possível e desejável satisfazer as duas.

Agir bem não significa somente ir para as ruas lutar por direitos ou cumprir deveres. A conduta ética se define em cada ação, em cada interação. Por isso a ética é companheira inseparável da política para Sócrates, Aristóteles, Hannah Arendt ou Jüngen Habermas. Assim, o homem político não pode deixar de agir no mundo observando e refletindo sobre seus atos. Se aperfeiçoando para agir melhor. Carregando o fardo de em sua história pessoal criar as melhores peças possíveis do grande quebra-cabeça que será a história universal.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A pequena e a grande história

 


Toda a história do mundo não é composta por grandes atos isolados. Toda a história é fruto de uma contingência histórica anterior. Nada de grandioso acontece sem que se tenha criado um ambiente para o seu aparecimento. Por isso, insisti tanto nos primeiros minutos de hoje no longo texto sobre a dialética histórica. Sobre a ideia de que a síntese histórica é um efeito particular de seus termos anteriores: tese e antítese. Pode ser explicado por estes, mas não como uma adição, mas como uma reação química sobre a qual pouco se conhece dos reagentes e muito menos do ambiente.

A grande história é composta por centenas, talvez milhares, de pequenas historias. As historias individuais interferem à sua maneira nas histórias dos grupos, as dos grupos no das sociedades. Histórias menores são costuradas de maneiras particulares nas historias maiores. Por essa razão toda ação é histórica. Toda reação também o é. Mas o papel ocupado por cada historia menor nas maiores é sempre imprevisível, dado a enorme quantidade de variáveis que tornam imprecisa as análises.

Dessa limitação surge a ideia idealista do espírito da história em Hegel, prontamente refutada por Karl Marx que cai num mesmo fatalismo de Hegel por esse excesso de crença na na racionalidade instrumental. A mesma crença no progresso de Hegel, metamorfoseada num novo esclarecimento  levantamento da massa proletariada criada pelas condições históricas da iminente crise do capitalismo. A crença no progresso de Hegel chegava no fim da história. A de Marx, no fim do capitalismo: o Comunismo.

Mas, pouco importam essas considerações. O importante mesmo é a validade ética de devemos agir pelo bem do todo porque embora desconheçamos os efeitos históricos a médio prazo, sabemos que fizemos a nossa parte e do que depender de nossa pequena história, influenciamos a grande história dentro da nossa capacidade, para obter os melhores resultados possíveis de acordo com as circunstâncias existentes. Assim, a política é o ato público, é interação, sabes que somente a ação pode modificar a história.

terça-feira, 1 de abril de 2025

O imperativo técnico

 


Quando impera o individualismo e a técnica transforma o tempo criado em dinheiro só há pressa, pouca disposição de sentar e conversar. Isso atinge diretamente as ideias de Arendt e de Habermas. Hannah, como dissemos, vê a política como interação. Habermas, provavelmente a partir das constatações de Arendt, tocada pelo ocaso, crepúsculo, desaparecimento da política encontra a solução para o domínio da técnica na comunicação, interação tão pedida por Hannah Arendt.

Arendt vê na perda de importância da política e sua mudança de razão, não mais o bem público construído pela interação (direta ou indiretamente) de todos os cidadãos, passando a servir de pretexto para motivos individuais, o que leva ao totalitarismo como última consequência. Temos como exemplo os desmandos de muitos de nossos governantes visando vantagens individuais ou para seus grupos.

Fruto do declínio da política, ninguém mais se interessa por participar dos governos ou das decisões que influenciam a vida das pessoas. Nós sempre estamos interessados por nossas inquietações particulares. Habermas chegou a pensar em pôr no centro das decisões o diálogo com a teoria da ação comunicativa, mas as pessoas preferem delegar às outras especializadas em determinados assuntos à autoridade de decidir para decidir por elas. É só mais um aspecto do comodismo e da cultura da técnica. Assim, à grosso modo, "quem tem que fazer é quem sabe".  Isso acontece até com nossa política, na qual os cidadãos foram substituídos por políticos profissionais, técnicos da politica, portanto.

Assuntos incentivados por nós, mas levantados por eles, como, por exemplo: - eu acho que minha casa deveria ser azul. Eu ficaria muito feliz, confortável se fosse azul, mas vem um arquiteto e diz que tem que ser verde por mil razões técnicas. Eu descontente acato a decisão dele porque ele é um perito no assunto. Afinal quem sou eu? Um pobre coitado com senso estético pra discutir com um urbanista?

Do mesmo modo na política. São os técnicos que decidem. Não a comunidade. Mesmo nos orçamentos participativos (uma grande evolução) dá dó ver como os técnicos ignoram a população e como manipulam as falas. Até porque:

 

O meio da cultura do amoralismo é o treinamento de técnicos que supõem que os fins são dados (ou que não importam), de modo que suas preocupações são simplesmente com os meios, com as táticas, com as técnicas. Se às crianças não é dada a oportunidade de pesar e discutir tanto os fins quanto os meios e suas inter-relações , elas provavelmente tornar-se-ão céticas a respeito de tudo, exceto seu próprio bem-estar. (LIPMAN, 1990. p. 31)

segunda-feira, 24 de março de 2025

Parteiros de ideias

 


Assim como um excesso de individualismo minou a interatividade, o egoísmo dificultou, sobretudo, o aceitamento da pluralidade, conceitos fundamentais de política para a filósofa que melhor traduziu a filosofia política antiga de Aristóteles para a modernidade, a saber, Hannah Arendt. Sem esses dois valores fundamentais, perdemos boa parte de nossa capacidade crítica: não nos interessa entender o outro. Perdemos a capacidade de sermos parteiros e parteiras de ideias. Perdemos a capacidade da Maiêutica, a qual Platão explica muito bem com uma fala de Sócrates, deste modo:

Ora, em todo o resto, a minha arte obstétrica se assemelha à das parteiras, mas difere em uma coisa; ela [...] assiste as almas parturientes e não corpos. E minha maior capacidade é que, através dela, eu consigo discernir seguramente se a alma [...] está parindo fantasmas e mentiras ou alguma coisa vital e real. Pois algo eu tenho em comum com as parteiras: também sou estéril [...] de sabedoria. E a reprovação que tantos já me fizeram, segundo à qual eu interrogo os outros, mas, eu próprio, nunca manifesto meu pensamento sobre nenhuma questão, ignorante que sou, é reprovação muito verdadeira. E a razão é exatamente esta: Deus me leva a agir como obstetra, mas me interdita de gerar. Em mim mesmo, portanto, não sou nada sábio, nem de mim qualquer descoberta sábia que seja geração de minha alma. Entretanto, todos os que gostam de estar comigo, embora alguns deles pareçam inicialmente de todo ignorantes, mais tarde, continuando a frequentar minha companhia, desde que Deus les permita, todos eles extraem disso extraordinário proveito, como eles próprios e os outros podem ver. E está claro que não aprenderam nada de mim, mas de si mesmos encontraram e geraram muitas e belas coisas. (REALE, 1990, p. 99),

 

sábado, 15 de março de 2025

Pelo retorno da Política

 

A política como interação desde o alge da idade média perdeu sua força. Na idade moderna, com a criação dos Estados Nacionais, a política até teve um soluço de poder, mas com o progressivo andar da modernidade foi progressivamente perdendo sua hegemonia e, inclusive, sua autonomia. A economia tomou seu lugar racionalizando o mundo através da técnica que relega a todos uma particular função.

A casa, o domicílio toma uma dimensão vultuosa: a própria sociedade. A própria política se torna um trabalho como outra qualquer atividade econômica. Portanto deixa de ser política onde a pluralidade interage para alcançar um consenso. Creio que se quisermos recuperar a política e, consequentemente a ética, pois ética e política nesse modelo não se separam, é preciso acabar com a figura do político profissional. É necessário trocar seus altos salários por ajudas de custo e as inúteis reuniões diárias por reuniões pontuais para ações efetivas para deliberar sobre as cidades.

É preciso que os cidadãos se autossustentem com seus próprios ofícios e deliberem politicamente por vontade própria e não por necessidade (do salário). Assim, os candidatos serão eleitos pelo desejo dos eleitores e não por seus próprios desejos. Não seriam os candidatos que se apresentariam aos eleitores buscando desfrutar das benesses do poder em favor de si próprios, mas seriam os eleitores que escolheriam alguns para carregarem a responsabilidade de legislar e executar as decisões em prol da sociedade.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Pluralidade novamente

 


Quem expôs mais completamente a relação entre pluralidade, ação e política foi Hannah Arendt, que atualizou sob um contexto extremamente ímpar, o nazismo, as ideias políticas gregas sobre a política. Além do mais, Arendt surge após a modernidade e a hegemonia dos valores ativos sobre os contemplativos. Numa época em que o trabalho torna-se talvez o fator mais forte a influenciar a subjetividade. Aliás, a própria subjetividade Kantiana é um diferencial fundamental dos modernos para os gregos. Mas para se entender bem um conceito é de muito auxílio buscar as origens dele. Sobre a pluralidade, nada melhor para entendê-la que um trecho da crítica de Aristóteles à República de Platão, o qual propõe uma comunidade de tudo assegurada por uma casta dirigente em um regime forte e fechado:

A comunidade política funda-se na colaboração de uma pluralidade de indivíduos diversos por capacidade e recursos, os quais, exatamente por estas diversidades interagem na troca recíproca de bens e serviços; é precisamente esta troca entre diversos que permite à comunidade política um nível de “autossuficiência” superior ao da família e ao do indivíduo. A synphonia política não pode ser transformada em homophonia. O projeto platônico, que pode parecer à primeira vista “belo, mas impossível”, na realidade não é sequer desejável, porque nega a essência pluralística da cidade; mesmo que fosse possível, não deveria ser realizado. “É, portanto, evidente que por natureza não pode haver uma cidade tão unida como alguém defende, e que aquilo que é apresentado como o máximo bem nas cidades é exatamente aquilo que as destrói”. (VEGETI, 2010 p.36 e 37).

Synphonia é a atuação de todos, todos podem discursar ao "mesmo tempo", como uma orquestra. Quer dizer cada qual de maneira diferente constrói um o mesmo objetivo, há sincronia, estão afinados, embora cada um toque um instrumento diferente. Homophonia é como se todos pensassem a mesma coisa, todos iguais, todos tocando um mesmo instrumento.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...