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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Fanatismo



Nascera na maternidade modelo nas idas dos anos noventa. Naquela maternidade perto do Lago das Rosas. Não nasceu dotado de muitos fios de cabelos quase não chorou pra desespero dos médicos e dos pais. Quem chorava era uma menina cheia de cabelos. Nunca tinham visto um bebê nascer com tantos fios de cabelo. Nunca tinham ouvido também um bebe chorar tanto, tão alto e initerruptamente. Era um desespero. Nem por dó do bebê, mas por pena do ouvido dos que estavam por aí.

Tiveram que experimentar inúmeras soluções incomuns quando as soluções normais como incubadoras, banhos de sol, uma série de testes que nada revelavam não interrompiam a constante lamúria. A solução foi colocar pele a pele a bebê para sentir o calor de outro bebê. Uma ideia ridícula, mas que ao colocar aqueles dois bebes juntos instantaneamente deu paz ao hospital.

O bebê masculino o qual desconfiaram inicialmente que era mudo ou surdo-mudo não se afligia com a situação. Alias aparentemente não se importava com nada. A bebê não queria sair de lá. Toda saída pra fazer um exame ou qualquer outra coisa era um pampeiro. Assim foram os quinze dias passados no hospital. Depois por quinze ou dezesseis anos cada um viveu a sua vida sem se encontrarem em nenhum momento. Ou pelo menos nunca notaram a presença do outro.

Se reencontraram no cursinho pré-vestibular sem se recordarem um do outro quando bebê. Foi paixão à primeira vista do rapaz pela moça. A moça, encantadora, estava focada em chamar a atenção não notou a atenção em particular do rapaz. Havia tantos rapazes naquela sala com o coração ou outras coisas pulsando por ela. A moça era muito vaidosa, mas isso não queria dizer que ela não cultivava outros valores. Era uma estudante muito esforçada e devido a isto tinha excelentes notas. 

Ela gostava de se destacar no ambiente, mas as pessoas a notavam porque queriam. Ela não podia obrigar ninguém a observá-la, muito menos deseja-la, o qual nem passava por sua cabeça. O rapaz era cônscio de tudo isso. Também não desejava ter tanta concorrência. Pior ainda: tinha certeza que não tinha a menor chance com ela. Mas desde que a viu, ela virou sua monomania, sua religião da qual era fundamentalista e fanático.

Ele fez psicologia. Ela fez medicina. Ela se especializou em psiquiatria. Ele em epistemologia filosófica. Se encontraram várias vezes por aí e até ficaram várias vezes, mas nunca mais que quinze dias. Segundo ele, porque ela é demais pra ele. Ele nunca mereceu, nem merecerá ela. Segundo ela, que por mais que ele seduza maravilhosamente. Ele é um chato de galochas.    

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sincretismo

 


Morreu ali como se tivesse nascido. Essa seria sua história se tivesse história. Não foi abortada a sua questão, mas seria melhor dizer que ele voltou do que ressuscitou. Não era um Lazaro, era um lazarento. Um maldito necessário. Arbitrava todas as partidas. Também as chegadas. Embarcavam e desembarcavam em seu terminal vans e micro-ônibus com direção a todos os pontos cardeais. Arcebispos e bispos excomungavam aquela confusão perto da sede paroquial.

Todas madrugadas o padre Zé rezava um rosário no terminal à pretexto de abençoar motoristas, cobradores e passageiros, mas na verdade gostaria de poder amaldiçoar aquilo tudo. A pipoca doce caída alguns passageiros diziam que era para Ogum, Oxum, mas a maioria sabia que eram acidentes porque ninguém queria perder uma pipoca. A lavagem do terminal, essa sim, era feita por mães e filhas de santo.

 Alguns reencarnacionistas diziam que o terminal era sim um grande ponto de passagem. Insistiam que ali havia uma energia fenomenal e fundamental. Ou seja, fenômeno e fundamento estavam presentes ali. Nesse caso o ingresso era gratuito ou quase. O bilhete no terminal dependia da empresa e do destino. O local era apenas um agregador. Abraçava tudo: empresas, motoristas, cobradores, passageiros. Um verdadeiro sincretismo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Verbal

 


Corredeiras correm

Namoradeiras namoram ou vegetam?

Penteadeiras penteiam ou fixam?(-se)?

Geladeiras gelam

Choradeiras choram ou crescem?

Limadeiras limam

Não sei

Quem souber não me diz

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Teoria da pirâmide invertida

 


Germinou muito cedo. Floresceu muito tarde. No interim, folhas e folhas pra construir o cerne, o tronco. Era uma história muito difícil. Sabia o que fazer. Mas como fazer? Fazer o impossível, o que ninguém espera, é muito fácil. Difícil é realizar o esperado. Sempre se espera muito mais. O time montado pra não cair é decepcionante porque não foi campeão. Quem sabia que nem seria eleito vereador é um fracassado por dez vezes mais votos do que precisava para ser vereador e ficou como suplente de deputado federal.

É muito complicado escrever. Muito mais sobre isso. As expectativas matam a história. Se um personagem secundário se torna o principal, que grande presente! Na vida é muito difícil prever alguma coisa. Se surpreender é o normal. Na ficção é muito difícil copiar essa característica da realidade. Porque a vovó do chapeuzinho vermelho não matou o lobo com uma arma branca? Porque o caçador entra dentro de uma propriedade particular isolada? Seria ele um psicopata? Um degenerado?

As histórias ignoram quase tudo pra se focar num enredo. As noticias muito pior. Até reportagens são limitadas. Se fossem contar tudo, um mero encontro, amoroso ou comercial, daria um livro todo. Lamento muito isso! Mas tudo bem... o que é realmente ruim é as pessoas darem veracidade a visões parciais não no sentido ideológico apenas, mas no sentido de omitir quase tudo. As pessoas querem mostrar a flor ou o tronco. As folhas necessárias pra crescer ou as descartadas não interessam. O oxigênio ou o carbono descartado nem mesmo fazem parte da árvore. O pragmatismo é reducionista. Quem gostaria de conhecer a história inteira?

domingo, 25 de janeiro de 2026

O que é isso?

 


Quem planta sabe o que colhe, dizem alguns a repetir chavões. Mas quem age, quem semeia uma ideia não sabe que arvore, vegetação sua ação vai produzir. A semente parece ser de alguma coisa, pode até ser, mas o progresso da planta é coletivo. Pode produzir um bonsai de feijão ou de aroeira. Pode ser cega-machado ou ipê rosa. Plantas completamente diferentes com flores diferentes de cores inconfundíveis, mas próximas.

Talvez a melhor sacada de Hegel é a constatação de que uma ideia lançada ao mundo não tem efeitos determinados. Há tantas variantes, tantos termos a serem levados em conta, tantas variáveis desconhecidas que mesmo que fosse previsível, uma formula física conhecendo todos os dados é impossível conhece-los. Além disso são sistemas complexos nos quais todas as formulas parciais são aproximações frágeis.

As ações como as sementes estão por ai sendo semeadas a cada instante dando origem a grama, capim, mato, arvores, mutações e hibridizações aleatórias e probabilísticas. A maioria não é colhida porque ninguém teve ciência, ninguém pensou refltiu. Ninguém parou, olhou e pensou: o que é isso?

 

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Parada

 


Contra o tempo, tudo!

Assim desencavo a eternidade

Ergo muros nas autopistas

Parem! Parem!

Resetem tudo

E depois reflitam

Tudo já foi feito

É preciso nos reconstruir

Fugir do mundo

Fugir de nós mesmos

Mas sem subterfúgios

Sem velocidade

É preciso caminhar

Com paciência

Quase parando a cada passo

É preciso abandonar as convenções

Ninguém é candidato

A eternidade é aquele milésimo

Em que tudo converge

E que se colhe até o que não se plantou

Que surgiu da soma de todos os produtos

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Conto de Zyon

 




Zyon tinha uma maldição na vida. Seria sempre o último. Mesmo que pais gazeteiros denominassem seu filho, sua filha de Zureta, ele ainda seria o último nome da lista de chamada. O professor de educação física que tinha a ultima aula na quarta-feira só liberava o pessoal depois de fazer a chamada. Era responder a chamada e poder sair. Advinha quem passava mais fome?

Ele acreditava que os pais tinham colocado seu nome em homenagem a uma constelação, mas ao consultar a União Internacional de Astronomia descobriu que não é o nome de nenhuma das 88 constelações conhecidas. Na verdade, Zion e não Zyon tem raízes semíticas que significam castelo.

Ele estudava muito. Muito mesmo. Desde cedo. Não suportaria passar por ultimo em algum curso. Mesmo que fosse Medicina. Não suportaria fazer medicina. Odiava clínicas e hospitais. Queria estudar física pra estudar o estado da matéria. Desde cedo se interessou pela doideira da física quântica. Não sabia nada, mas agora tudo era quântico. Era fascinado pelo princípio da incerteza de Heisenberg. Um gato vivo e morto numa caixa era demais!

Se fosse astrônomo poderia descobrir uma nova galáxia e resolver seu problema dando seu nome a ela. Mas a sua dúvida mesmo era entre estudar física ou vender coco na praia. Achava vender coco na praia fascinante e, de quebra teria mais tempo pra observar o universo.

Sua matéria preferida na escola era química. Mas... droga! O que fazer com isso? Que aplicação prática tem a matéria? Virar atendente de farmácia? Não ia mal nas outras, tirando artes que era uma perda de tempo e de paciência. Se sujar todo de guache? É muito gauche!

Precisava estudar muito! Não podia ser o ultimo a ser aprovado em um concurso. Já bastava ser o último de qualquer lista ordenada alfabeticamente. Preferia até não passar... que ninguém ouça. Ser físico garantiria que poderia continuar estudando. O pedágio é que teria que dar aulas. Não lhe atraía. Mas pelo menos poderia fazer a chamada ao contrário. De Z pra A e no começo da aula. Ou não fazer chamada.

“Enquanto isso, vou degustar meu almoço que a tarde vai ser longa. Vou começar com matemática e física e terminar com literatura pra ajudar a dormir”, pensava ele determinado. Para química gastava a tarde do sábado toda. Domingo ia à praia vender cocos pra juntar um dinheiro pro cursinho pré-vestibular. Desejava entrar na Universidade de Pernambuco que tinha um dos melhores departamentos de física e astronomia do mundo. Se desse errado, ainda tinha o Rio de Janeiro.

É isso! Vamos deixar Zyon estudar. Vai que descobre um efeito magnético e denomina de Zyon. Resolve alguma coisa. Ou não. Só Zyon vai saber. Tchau!

Nota: em hebraico é correspondente a Sião, o monte do castelo do Rei Davi.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Modernidade e o Vagabundo

 


A chegada da Idade Moderna nos termos em que foi defendida como a era das luzes. O aumento da liberdade mesmo nos mais infames despotismos porque agora o castigo, até mesmo a morte, se restringe a esse mundo.  É um grande salto porque para quem acredita na vida após a morte ou na imortalidade não existe mais um fim definitivo. Isso é apenas um detalhe: a modernidade trouxe regras laicas muito mais ligadas ao funcionamento ou rotina que a proibição das ações em si. As paredes foram trocadas por corredores que em algumas vezes se tornaram labirintos, mas de toda forma tem um percurso com entrada e saída. Paredes que interrompiam o percurso eram definitivas. Poderiam ser derrubadas? Com imensa dificuldade, mas poderiam. Outra seria construída pois a ideia é proteger uma hierarquia. Labirintos protegem? Protegem, mas não impossibilitam.

A modernidade evoluiu de um jardim troiano para uma maquina com o seu auge napoleônico. Do escape de jaulas por trilhas cheias de perigo para uma associação (principalmente com a ideia de sociedade civil rousseauniana) na qual todo mundo tem sua função para possibilitar o funcionamento da máquina (que é o plano geral, muito além do Estado). Cria-se uma sociedade (esse termo claramente econômico) em que todos tem seu oficio. Quem tem um oficio disfuncional precisa ser corrigido ou eliminado. Uma boa comparação é dizer que é uma doença.

O sábio é meio que morto. A figura do vagabundo (aquele que vaga, viaja) é intensamente combatida pois ele é uma peça que falta nas engrenagens, pois está sempre indo de uma maquina a outra. O vagabundo toma uma acepção de desocupado, quando ele está sempre quebrando galho e no inicio da modernidade fazer o que quase ninguém sabia fazer pois ele tinha estado em lugares e situações que quase todos os outros não estiveram. Há um ódio ao ócio. Sem o ócio, pensadores e pesquisadores não existem. O próprio pensamento se torna colonizado. Tudo precisa estar encaixotado para facilitar o uso. Troca-se a excelência pela rapidez. Ou, pelo nome atual, eficiência.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A modernidade é uma maravilha e uma tragédia

 




A modernidade é uma maravilha e uma tragédia. Quanto ao fato de ser uma tragedia, há pouco a fazer. A maior lição da própria modernidade é que a história não volta. Não voltaremos ao escravismo para que os cidadãos livres tenham ócio e possam discutir os problemas na praça pública. Eu espero que ninguém tenha essa expectativa nefasta. É preciso construir outras maneiras de nos libertar da economia.

Quem leu A Condição Humana, de Hannah Arendt (não é um livro baba, mas importantíssimo de ler) percebe o tanto que o trabalho deixou de ser a construção de algo, criação ou manutenção de algo fora da própria vida. Existe criação ainda? Existe. Obvio! Mas quem são as mentes criativas? Hoje nas empresas existe até setor criativo para diferenciar do trabalho maquinal, automático que fatalmente será substituído por maquinas como robôs e inteligência artificial. O trabalho é majoritariamente condição de sobrevivência. Se a pessoa não trabalhar, morre.

Assim a economia conseguiu capturar a biopolítica e se tornar fundamental, se manter com mais força no centro das discussões. Mas é um caminho da captura, da submissão. O caminho da liberdade é a política. Temos que devolver a ação à política. Agir deve ser o fato político. Nada de procurações. Se nós queremos e é possível porque há um consenso pelo menos regional, territorial, nós mesmos fazemos ou provocamos. Não procuramos representantes para agir com procuração junto a outros representantes nossos. Basta de buscar o poder para ter o poder de buscar o poder.

Napoleão quando instaurou a burocracia racional nunca pensou nisso. Ele pensou numa escada, talvez essas pirâmides com níveis, não nos labirintos que criamos. Uma maquina que não intercede, não é uma alavanca para mover o mundo, mas um conjunto de paredes para conter as pessoas (ou povo, mesmo nas diversas acepções que tomou). Não contem a sociedade porque a sociedade faz parte do mesmo mecanismo, mesma máquina. Quanto a isso. Nada mais importante que ler Kafka. Não só um livro dele, mas muitos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Contra a modernidade

 


A modernidade trouxe a absorção da política pela economia. Aristóteles nunca pensaria nisso pois viveu na idade antiga ou no escravismo onde a economia (as coisas da casa) não seria nem considerada. A família, a casa eram coisas privadas, portanto necessitavam de privacidade. Essa privacidade era inquestionável.

Outra questão que não discutirei aqui é que política e ética eram inseparáveis porque ambas eram “ciências” da ação. No mínimo epistemologias da ação. A ideia de que a política era constituída pela ação, de que a política era o modo de alcançar algum fim diretamente colocava a política no centro (coração) a polis.

A ideia moderna de economia nasce na idade média sob o efeito das doutrinas ou ensinamentos de Santo Agostinho de Hipona, filosofo ainda da idade antiga.   Santo Agostinho consagra uma interpretação neoplatônica das cartas de Paulo. Uma ideia do Espirito Santo como fluido, meio que, por distribuição dos dons dentre outros, liga os seres humanos, estabelece uma comunicação. Ou seja, cria a ideia moderna de economia.

Estamos imersos na economia. Existem outras coisas como a política, mas são meros meios para interferir na economia ou serem usadas por ela. Nasce a economia politica para substituir a política. As duas mais importantes ideologias (tanto faz a interpretação napoleônica ou marxista nesse caso), no caso o liberalismo e o marxismo nascem sob égide da modernidade e o domínio da economia. Apenas o anarquismo (me refiro ao anarcossindicalismo ou ao  anarco-socialismo) nasce de um contraponto a isso. Mas não importa, este não floresceu, nem florescerá tão cedo em algum lugar.

Essa ideologia (já disse, usem qualquer acepção que cabe por motivos diferentes)  nos vitima pois pensem meu simples exemplo besta: há uma praça. Desejamos que fosse bonita, que fosse agradável. Mas como ocorrem furtos na praça evitamos frequentá-la. Frequentar a praça vazia é perigoso e por isso ela é vazia.   Assim reclamamos, falamos absurdos e algumas vezes até conseguimos uma ronda na praça. Mas nosso temor a mantém vazia e propícia para pequenos furtos e até para o comercio de entorpecentes.

Se agíssemos, ocupássemos a praça como nossa (espaço público). Cobrássemos melhorias constantes. O próprio movimento diminuiria o furto não só pelo fluxo de pessoas, mas também pela cobrança que mostraria a administração que o espaço é importante. O fluxo de policiamento se torna natural porque é um espaço eleito como importante. Não estamos falando de um objeto mais do qual ninguém se importa.

Ou seja, trocar uma atitude econômica (medo de ser assaltado) por uma atitude política (agir) resolve múltiplos problemas interligados. É preciso trocar o particular (economia) pelo público (política).

Pulei uma coisinha no meio, Maquiavel (um moderno lá do início) transformou a política em um meio para outro meio. A política, deturpando muito ele, mas menos que a maioria, é um meio de adquirir poder, para só assim com o poder, poder fazer o que é necessário. Na idade antiga não existia esse intermediário: agir era fazer diretamente o que se desejava, o que era necessário

Nós estamos imersos nessa ideologia da intermediação. Votamos em representantes. Escolhidos para nos representarem. Nas poucas possibilidades de uma democracia direta como propor uma lei ou lutar para trocar as lâmpadas da rua, as quais nos competem diretamente preferimos correr atras de nossos representantes que são muito menos potentes que nós. Pensa em dez caras uma semana azucrinando o prefeito. Só dez, nem precisa mais. Toda democracia direta precisa ser cultuada, salva, idolatrada. Mas preferimos a economia, sermos representados, termos representantes comerciais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Vale

 


Frutificou o vale

A montanha incólume

No caminho incertezas

As dúvidas constroem

As dívidas destroem

Qual é a dívida do investimento?

Dará lucro?

Sem incerteza não há futuro

O presente são as ações

Políticas, não econômicas

É preciso melhorar o mundo

Sem temer a própria sobrevivência

domingo, 18 de janeiro de 2026

Realidade Goiana

 


O passado vitima torcedores e administradores de times. Torcedores do meu time acreditam que ele é grande. Acredito que tem modestas chances de voltar a ser. Mas não é grande há no mínimo 40 anos desde que os estaduais perderam a importância. O rival que esteve na Série A por mais tempo no estado talvez tenha se tornado o mais problemático da capital por acreditar ter a potencia que há muito tempo não tem e viver de ilusões gastando dinheiro que ainda tem, mas deve deixar de ter pelo custo/benefício muito alto. Enquanto isso o time que competia com um quarto para não ser o mais insignificante da capital hoje é o que tem mais possibilidade de sonhar com a primeira divisão por não investir abusadamente e tentar fazer mais om menos só que com mais dinheiro que o meu time do coração.

Os times tem que ter consciência de seu tamanho. Esquecer imprensa e torcedores. Tentar ser maiores amanhã do que são hoje.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Dedicatória

 Essa vai ser a dedicatória do meu livrinho em fevereiro:

Dedico este livro a minha professora em Bom Jardim de Minas onde me alfabetizei. Aos professores Alcides Nascimento e Edna Lúcia que me ensinaram a escrever. E, por fim às minhas sobrinhas Júlia e Luísa que inspiraram meu uso da imaginação alongada.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Conto de Yasmin


 

Quem lê Yasmin pensa provavelmente numa sereia ou princesa. Se pensarmos em beleza, de fato. Mas se pensarmos em fome... a moça comia como uma ogra daquelas de desenho infantil. Que metabolismo!

Todo dia chegava cedinho na praia. Umas quatro e meia. Aproveitava para ajudar a recolher as redes e as mesas. Das redes de pesca, ganhava um peixe ou outro pra mais tarde. Das mesas, juntava o orgânico pro seu biodigestor. E assim lá pras cinco, cinco e meia começava a arrumar sua barraca na praia.

Às seis já começava algum movimento. Assim que as outras barracas abriam, fechava a sua. Só abriria oito horas. Passava de barraca em barraca pra comer algum petisco, saber o que fariam no dia, que novidades. Tinha perna e barriga pra andar toda a praia. As duas, aliás muito bem torneadas.

Umas sete e meia voltava. Fazia correndo apoios e abdominais pra correr bem o dia. Oito horas sua barraca estava aberta. Os primeiros visitantes preferiam beber algum drink, uma água de coco. Já começava a preparar os peixes que havia ganhado pra fazer isca. Partia os cocos pra tirar a castanha pra usar mais tarde.

Não era a única barraca a fechar na hora do almoço. Mas, provavelmente era a única com alguém dentro. Usava a hora do almoço pra fazer a cocada baiana que aprendeu numa viagem ao Espirito Santo. Só iria vender a cocada de tardezinha quando os turistas saiam da praia. A maioria pela entrada principal e no caminho passavam pela mini choupana dela.

De tarde, vendia isca de peixe-frito, peixe no molho, batatas e mandiocas fritas e buchada. Mas o que mais vendia eram cervejas. O caminhão tinha que entregar no deposito comum da praia umas três vezes ao dia. Os barraqueiros tinham que se organizar pra descarregar o caminhão.

Antigamente era cada um pra si, mas desde que Yasmin ficou órfã do pai eles tiveram meio que adotar a criança/adolescente. A mãe morreu no nascimento dela. A necessidade de ajudar Yasmin fez o perceber que cooperando a praia era melhor. Então há uns dez anos formaram uma espécie de cooperativa. Compram as bebidas em conjunto. Até melhorias na praia discutem e fazem em conjunto. Fazem empréstimo uns aos outros com juros bem lucrativos, mas muito inferiores aos dos bancos.

Todos cuidaram de Yasmin. Agora Yasmin cuidava deles. Era uma espécie de prefeita da praia. Fez acordo com os pescadores determinando horários para a pesca e para abertura da praia às barracas e aos visitantes. Conseguiu até organizar os pescadores que montaram sua própria cooperativa e agora até barcos novos eles compram pra pescar em conjunto e tem fundo pra época da piracema.

Assim de deixada na praia, Yasmin se tornou a rainha da praia. Com direito a comer o que quisesse e o quanto desejasse em cada quiosque da praia. O que ela valorizava bastante pra compensar sua correria diária. Pensaram em colocar uma estatua de sereia estilizando Yasmin na entrada da praia. Mas Yasmin é a prefeita da praia e ela vetou. “A praia é de rio! As sereias vivem no mar”, decretou ela. É... melhor terminar aqui.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Existir

 


Se houvesse um amanhã, lá estaria. Não como condição, mas como contingência. Não por existir somente, mas pela obrigação de permanecer algo que se remeta a mim. Existir como mutante não permite coerência. Não podes ignorar a história e achar a escravidão natural. O tempo muda. As condições mudam. O meio muda. As pessoas tem saudade de uma mentira autocriada. O mundo caminha para uma liberdade e as pessoas morrem de medo de serem livres. São vitimadas pela modernidade tardia. A responsabilidade de escolher pesa por comodismo ou irresponsabilidade. E tá tudo bem. Mas é bom lembrar que o escravismo não foi bom pra todos. Foi bom só pra quem manda até hoje.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Bom dia!

 


Se tivesse nascido seria ali. Se tivesse que morrer não seria lá. Entre alis e acolás sobreviveu á vida. Mas nada poderia o proteger da providencia. Nem mesmo a previdência. Cautela nenhuma poderia o preparar para os acontecimentos.  A realidade é o que é. Nenhuma outra coisa. Viveu e morreu. O resto não interessa. É só uma travessa entre um e outro. Aqui e acolá. Meu ovo frito dentro do pão e o café na xícara. Tudo colhido, frito ou torrado. A a cafeeira e a galinha em luto. Eu pelejando pra começar o dia. É o que é. Bom dia!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Conto do Xande

 


Xande jogava peteca em casa e pinball na praia. Seu nome mesmo era Alexandresco, mas todo mundo chamava de Xande. Menos seu finado pai quando estava bravo. O pai não tinha morrido ainda. Finado era como sua mãe chamava o ex-marido. Aliás os ex-maridos. Xande era o mais velho. Dos filhos de Dona Maria Rosa e dos habitantes daquela cidade. Muita gente já tinha ido embora muito mais novo.

Diz a lenda que muitos aproveitaram de nascer na maternidade que era numa cidade próxima pra já ficar por lá. Dizem que o pessoal lá aprende a nadar cedo, o que parece ser verdade. Pra atravessar o Rio do Sono e fugir da cidade, o que é um fato controverso. Os anciões da cidade se dividem quanto a veracidade ou não dessas lendas. Xande tinha quase trinta. Era um dos habitantes mais velhos da cidade, tirando os anciões quarentões e cinquentões que já tinham perdido toda a oportunidade na vida e se acomodariam por lá.

A cidade vivia de desesperança. Vez por outra alguém plantava alguma coisa, cuidava de um animal pra ver se vendia. Às vezes dava certo. Mas era talvez melhor nem ter dado certo dado o prejuízo obtido. Tudo tinha que buscar longe e comprar de quem já havia comprado de outro. Era fácil cuidar das coisas e os vizinhos até ajudavam. O que complicava mais porque pra ser certo tinha que dar uma parte pra eles.

O certo mesmo era eles fazer mutirão de extrativismo. Procurar frutas e cocos e dividir entre eles. Organizar de cuidar das trilhas, das arvores, xaxins e palmeiras. Vez por outra caçar um animal silvestre pra ter carne e salgar pra durar bom tempo porque só pode caçar ás vezes. De qualquer forma, na praia tinha um fliperama que a prefeitura colocou pra ver se dá tempo de convencer ou prender o adolescente antes dele fugir pelo rio.

No quintal ou varanda de casa Xande brincava de peteca com as crianças. Isso quando não estava consertando as casas da cidade. Reforçando a calagem das paredes. Refazendo as palhas do telhado. Trocando os caibros. Xande não sabia se já estava condenado ou ainda era tempo de fugir. Se fugisse ia virar lenda. De longe o cara mais velho a fugir da cidade. Inventariam que ele deixou as muletas pra entrar no rio. Floreamento. Ele andava muito bem. Nunca precisou de apoio.

Se ficasse seria algo estranho nos últimos tempos, mas não no passado. Muita gente foi ficando e quando percebeu já era um idoso de quarenta, cinquenta anos naquela cidade. Xande não sabia ao certo que tipo era ele. E ninguém sabia pra lhe contar. Os que ficaram, se deixaram e se perderam numa outra época, num passado idílico. Os que fugiram eram de fugir daquele chove não molha. Xande não tinha ideia, nem modelo pra saber de que tipo era.

Acho que era do tipo que fica...

confuso.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ironia

 


Aquele que como filho da humanidade inteira viveu como um homem só desdenhou da origem e focou no destino. Soube curtir sua solidão e se embriagou na multidão. Fez pizza ou ravioli da massa. Não pôde existir porque precisava viver. Sobreviveu as ilusões deitado na cama de pregos da realidade.

Aquele que aceitou a dor pode sorrir porque sentiu. Não estava anestesiado. Não confundiu rocha com travesseiro. Se adentrou o engenho, foi moído e soube a diferença entre afago e cortes. Tentou guiar-se pela razão. Acreditou seguir suas vontades. Mas ignorou que os instintos são muito mais fortes. Se iludiu com as próprias ilusões, mas como Sócrates foi o mais sábio de todos ao saber que tudo ignorava.

Nasceu, morreu e no meio disso. No meio disso niilismo, concretismo, surrealismo fantástico. Infinitas eternidades marcadas por o serem, mas frugais e fugidias. Permanece o conceito. Desaparece a concretitude. O eterno só é eterno por ser irreproduzível. A eternidade passa. Sobra a esperança de vir a próxima. Essa eterna mentira que é a esperança. A causa de todas as desilusões.

 E, sim, ele sorriu, sorriu muito de seus erros, da própria ingenuidade. Aprendeu a rir de si mesmo e tornar a vida uma comédia. Melhor ser um palhaço que não se leva a sério que um dramaturgo angustiado. Assim foi. Assim era. Mas nada continua sendo. O fim? O fim não tem. Só interrupção.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eternidade - Interinidade

 


Dizem que se foi. Não está aqui. Nem nunca esteve. Mas se foi. Como deveria ter ido. Sua ausência é sentida como nunca sua presença foi sentida. Sua ausência é absoluta. Ocupa todos os lugares. É definitiva. Define a situação. Tudo se relaciona. Constrói todo um mundo. É uma ideia imperativa. Tudo se articula em complemento ou oposição. Hegel embora tivesse concebido ideias parelhas, não compreenderia isto. Kant desacreditaria. Nietsche desdenharia. Schopenhauer teria horror. Freud nem de longe entenderia, mas escreveria sobre. Agamben culparia a biopolítica. Benjamin saudaria sua perdição, sua derrota. Malatesta diria que se houve uma vitória, foi esta, mas de nada adiantou.

A eternidade é escapadiça. Sempre existe, mas nunca fica. Está fora da temporalidade. É a conjugação de todos os desejos e oportunidades num único instante que se esvai, pois, a areia é movediça. O tempo destrói tudo. Só de tempos em tempos, em instantes únicos conseguimos reunir as peças da perfeição. Peças vadias que nenhum arranjo pode juntá-las. Elas meio que deslisam uma sobre as outras. Só muito trabalho, perseverança e, sobretudo, acaso pode reuni-las mesmo em movimento irregulares e descoordenados com relação a si, a si mesmo e aos conjuntos possíveis.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Verossimilhança

 


Colocaram o furo no papel. A planilha aceitou. Sobrou a dúvida no meio de tanta certeza. Por lá esvaiu o novo. O acontecimento. A novidade veio a dar na praia? Duvida gera novas dúvidas. Nada mais criativo. Por lá escoam verdades mentirosas que se confirmam nos boatos que asseguram o improvável e o impossível. Deu no jornal a notícia garantida pelo especialista sobre algo que ele não tem a mínima ideia. O autor e o ator morrem no enredo de uma falsidade muito mais evidente que qualquer verdade. Plena verossimilhança.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Conto do Wilian


 

Dizem que Wilian nasceu bretão, quer dizer pobretão. Com essa nobreza toda só podia ter nascido em Filadelfia. Cidade coladinha em Estados Unidos do Maranhão, perto de Carolina e Nova Yorque. O nome do estado já não é mais esse. Nem era quando o bretão nasceu.

Na escola de futebol, o chamavam o príncipe por seu jeito de jogar parecer levemente com o do Ademir da Guia, do qual o dono da escola era muito fã. Jogou junto com Marlone esse ícone que conseguiu jogar em clubes grandes como Vasco e Corinthians. Ele que jogava com muito mais classe não foi pra frente. Era estrela das peladas no bico do papagaio. Ganhava um bom dinheiro com contratos pra jogar semifinais e finais de torneios municipais.

Fez muita fama deixando os marcadores no chão pelos campinhos de Augustinópolis, Tocantinópolis, Praia Norte e Sampaio, dentre outras. Mas suas habilidades não bastavam nem pra jogar nos times regionais. Tentou o Tocantinópolis e o Imperatriz, mas não vingou.

O que mais rendeu mesmo foi seu oficio de motorista de van. Fazia viagens por aquele bico todo. Precisava deixar e carregar gente a cada 20 quilômetros, até menos. É uma cidade colada na outra. De Darcinópolis a Esperantina, passando por Augustinópolis e Tocantinópolis nem sabia que centena de cidades passava e quantas dezenas parava. É desgastante, mas dava pra ir e voltar todo dia. Até tomar uma pinga com murici no final do dia.

Ainda bem que entre um município e outro não tinha porteira pra abrir porque se tivesse era mais que dia. Se tivesse que cumprimentar todos os prefeitos das cidades pelo caminho era coisa pra semana. Isso porque limitaram a criação de cidades senão cada fazenda era uma nova cidade.

Cada dia fazia uma rota diferente. As que mais fazia eram entre Sampaio, Tocantinópolis e Augustinópolis. E destas para Araguaína. Geralmente estava de tarde em casa com folga. Nos dias de pelada em que lhe pagavam um dinheirinho pra ajudar a vencer uma taça nem pegava no volante. Quer dizer no da van. Não tinha dó de volante, meia, zagueiro ou lateral. Mas gostava mesmo era de humilhar atacante metido a besta.

Wilian era a fina flor do futebol segundo o dono da escolinha. Jogava futebol com nobreza. Mas não fugia de confusão não. Nenhum jogador lhe intimidava. Não tinha medo de pegar no volante seja pra dirigir ou para o derrubar. Era muito alegre fazendo o que fazia. Não via presente melhor. Futuro? Jogador não tem futuro, dizia.

É isso! Perdoe Wilian, mas até mentira tem limite! Até a próxima...

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...