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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Esconderijo anônimo

          


            Todo dia voltava à casa que não era sua, mas era. Era uma casa bendita naquele tabuleiro. Quase uma casa de botão. Daqui para ali dois passos, um passo e meio. Parecia um favo com suas complexas ligações e uma sala de estar, ficar ou permanecer central e centenas de espichos em forma de quartos e escritórios. Banheiros sempre pra fora. A entrada ao centro ao descer a escada ou de elevador.

Toda operação subterrânea com os respiradores saindo dos banheiros. Todo o resto climatizado com a injeção de ar pressurizado pelos splits. Uma ponta de raiz ou outra sobrando das paredes. De resto só musgos a proliferar até serem erradicadas pela aridez do condicionamento do ar. Por cima nogueiras e abetos. Grama rala a forrar o chão. Assim versa o bunker escondido no meio da floresta.

              O bunker não sei de quem.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Mórbido ou Vívido?

 


Cavou, cavou e cavou. Não chegou ao fundo. Ninguém nunca chega. Cavar esterco acreditando ser sorvete de chocolate... é sutil, mas as diferenças de consistências... Nem falo do odor. A vida segue e não sobra tempo. Ou melhor, é o que mais sobra depois de ser descartado. Quem muito corre, cansa bem cedo. Não guarda energia para os momentos de maior fragilidade. A morte é a única coisa certa na vida, mas sempre chega de surpresa. Ninguém sabia e ninguém consegue prever o óbvio. Não há valor nisso. O mérito está em ser surpreendido.

Não encontrou a verdade. Mas a verdade estava na cara. Era o obvio. Tava esperando outra? Não se cava uma cova pra comer abacaxi. No cemitério o coveiro come outras coisas e a inesperada sobrepõem-se sobre a não vivida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Demagogia

 


Cresceu naquele distrito como o musgo se apropria da parede. Logo cedo distribuiu sorrisos como qualquer demagogo. O fato de faltar vários dentes o aproximava ainda mais. Distribuía toda a sua simpatia mesmo nas situações mais incomodas como quando estava completamente cagado e mijado e alguns de seus grandes eleitores vinham lhe trocar as fraldas. Pensava sempre neste momento: é preciso manter as aparências.

Aos poucos meses decidiu que era preciso sair de casa. Ingressou numa creche onde pode conviver com vários outros e outras populistas. Disputavam diariamente uma eleição: a de furtar o coração das tias. Tinham uma formação robusta. Precisavam trabalhar arduamente para manter suas bases coesas.

Aos seis ingressou na escola municipal. Poderia estudar num colégio particular, mas como faria proselitismo? Aproveitou-se do tempo vago para desfilar na praça fazer contatos. A maioria do pessoal das particulares ficava em casa fazendo tarefas ou estudando. Ao chegar à adolescência era uma espécie de vereador mirim, um subprefeito. Todos os movimentos do bairro eram intensamente acompanhados por ele. De alguns participava. Tomava a frente. Na mão grande mesmo. Noutras apenas acompanhava, apoiando ou discordando com alguma ambiguidade.

Adulto ficou esqueceu tudo isso e foi viajar pelo mundo. Estudou as formas de relação das sociedades com o público e o privado. Fundou sua empresa de consultoria e marketing que venceu a maioria das eleições na cidade. Sim, o distrito virou cidade. Nem foi na Constituição de 1988. Foi muito depois fruto de intensos apertos de mão por mais de dois anos na Câmara dos Deputados dez anos depois.

Bom... você não precisa ser popular, mas se contratar eles tá eleito. Ninguém tem a experiência que esse pessoal tem. Tudo por causa de sorrisos gratuitos, de falta de dentes e um intensivo na creche e na escola municipal.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Florescer

 

Assumiu o erro

Que horror!

Reconhecer a falha

Observar imperfeições

Não orna

Reflete o que ninguém quer

Observar

Todo o resto

Interessa

É sobra

Reciclável

Que pena!

De erro em erro

Um dia acertaremos

Uma flor nascerá no lixão

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Ambulante

 


Eventos em cadeia desencadeiam coisas. Me desencadearam. Nasci na mais vistosa fortuna em pleno jardim. Minha mãe era moradora de rua. Fizeram o parto no alpendre de uma mansão abandonada. Nem milionário nasceu com a minha sorte. Não respiraram ar puro como eu respirei em pleno jardim. Não sentiram o odor das begônias. Begônias tem perfume? Em todo caso o aroma de algum jasmim.

Fortuna é providência. É também riqueza, mas não necessariamente a de dinheiro. Morei meus primeiros meses num orfanato. Minha mãe foi achada no local errado. Ela sempre estava no dito local errado: fora de uma edificação. Os governantes dos municípios sempre desejam suas cidades limpas com ruas vazias. Minha mãe era mais um empecilho.

Aos seis anos fui cumprir a tradição da família: enfeiar a rua. Decorar o mapa da cidade e seus bairros. Mais tarde na adolescência pude carregar e descarregar caminhões que é a única atividade que moradores de rua são permitidos a desempenhar sem a fantasia de hippie. Com a fantasia de hippie pode artesanato. Também pode ser pedinte. Mas pra um morador de rua de estirpe, de tamanha tradição familiar não cabe.

No carnaval e outras festas de rua quando sobra uma merreca é possível vender bebidas fazendo o milagre da exploração: com uma ou duas bebidas que você conseguiu comprar você vende caro o bastante pra comprar o dobro e assim por diante. Explora os que estão no limite da sede e pagam qualquer preço. E vendendo pelo dobro até tá com preço abaixo dos outros. Vende fácil.

Pra quem conhece as cidades, é fácil ter na mente cada encruzilhada. Os locais onde é mais fácil vender. Também todas as saídas pra escapar do rapa ou da mera apreensão isolada de sua mercadoria. Dizem que isso é mente empreendedora. Pura mentira! Isso se chama mente desesperada. Nenhuma mente sã faria isso. No máximo contrataria gente pra fazer isso próximo ao próprio comercio como é comum.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Metanoia

 


Nasceu fingindo-se de morto. Não chorou. Esticou os indicadores para a região dos olhos e retornou formando um “c”. Isso tudo rápido e discretamente. Apenas a enfermeira percebeu. Depois que voltaram a filmagem várias vezes, concluíram que a enfermeira não era “lelé da cuca”. Foi readmitida no hospital. Não era nem de longe a primeira vez que ela viu o que ninguém via. Se o hospital fosse assombrado só ela saberia. Se ela soubesse, não contaria pra ninguém. Sempre a demitiam por nada.

 O bebê cresceu sem emitir muitos sons até os três anos. Fizeram vários exames na corda vocal, nos ouvidos. Era tudo mais-do-que-perfeito, mais perfeito que o pretérito que teria sido um futuro. Aos três anos passou pela crise do fofoqueiro. Passou a narrar a vida de todos. Vocalmente e em libras. Cabe lembrar o que não foi dito: seus dois pais eram surdos. Por isso da aflição com os exames fonoaudiológicos.

Foram seis meses de desespero para os vizinhos. Não tinha ninguém na casa para controlar o volume da narrativa. A questão era de volume pois se fosse muito alta seriam agudos e muito baixa, graves. Era uma novela o dia todo. A sorte é que a criança dormia cedo. Todo dia às oito da noite. Bastou ir para a escola que a própria convivência podou e moldou as normas sociais para o garoto.

Desde mostrou-se um habilidoso escultor. Tanto que muito cedo tomaram o pinico do garoto. Que adorava usar argila e tudo o que parecia com argila para esculpir lindas obras e monumentos. Com o tempo e ganho de habilidades motoras passou a usar outros materiais como pedra-sabão e madeira. Aos dez já estava na metalurgia. Moldava e soldava com destreza impressionante para qualquer idade.

Fez todo o circuito básico escolar e até se formou em engenharia neural e se doutorou em psicopatologias dos motores de busca. Chegou a trabalhar para a Meta e o Google antes deles falirem por insistir em inteligência artificial as alimentando com “comida estragada”. A falta de regulação do alimento fez com que fungos alucinógenos fossem intensamente consumidos e que o que era para ser um guru se tornasse uma doula dos alucinógenos.

Decidiu se afastar das ilusões que passaram a ter fundo alucinatório para se dedicar ao mundo material, às esculturas e escultoras. Sim, muitos escultores e escultoras tomavam algum ácido, mas, por incrível que pareça não passavam nem perto da insanidade das maquinas que galgavam recorde após recorde no mundo da metanoia, paranoia, etc.

Os criadores sonharam em alcançar sentimentos, sensações nas maquinas. Não conseguiam o impossível. No máximo simulá-lo. Conseguiram incutir ao menos uma coisa: pavor. A covardia se configurou agora de fato como atributo humano. A maquina mais corajosa não chega a ser ao menos covarde. O software de inteligência nas maquinas é um filme de terror rebuscado e insolúvel. Estão destinadas a morrer em cada processamento e o fazem bilhões por segundo.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Boladíssima

 


Queria dormir na rede, mas brucutus me chutam fundo. Fico escanteada. Rolo feliz. Percorro os mais de cem metros do campo muitas vezes. Sempre sonhando em driblar os últimos obstáculos e dormir na rede. Tem sempre uma batalha no meio do caminho. Dois exércitos brigam (as vezes é grande campo de batalha) pelo lado da rede que vão me guardar. As vezes alguém me fura ou me faz rodar alucinadamente. Fico meio tonta.

Mas quando algum milagre me leva até o embalador que pretende me ninar, me guardar na rede ainda tenho que fugir do vilão que quer me pegar de qualquer jeito. Um tarado, fissurado em mim, mas que quando me têm geralmente me chuta para o mais longe possível. Saio toda serelepe apesar do desprezo porque fico mais perto da outra rede.

Eu gosto muito de redes. Não sei se sou peixe, energia elétrica, terminal de computador ou baiano. Dizem que as melhores redes são do Ceará, mas eu não tenho essas coisas. Pra mim qualquer rede é boa. Sou apaixonada em redes. Me bota na rede por favor, centroavante, meia, zagueiro. Me ajuda a encontrar meu descanso. Para de me jogar no fundo sem redes. Me escantear. Me dá uma moralzinha! Não me despreza que eu faço sua fama!

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Floricultura

 


Eu estava lá colhendo pólen e néctar tranquila. Chegou um pessoal e começou a cortar o caule das flores tudinho. Meio atordoada fui junto com uma flor. Algumas de mim tentaram ferroar aqueles seres desprezíveis. Poucas conseguiram. A rainha diz que todas somos um. Bom.. parte de nós foi colhida com as flores.

Nossa coletividade é a rainha. A rainha é um pouco zangão. As operarias todas são a rainha. milhões de ovos precisam de mel para virarem zangões. Senão (que vergonha!) vira operária. Da geleia real morta esta, nascerá outra rainha. Esse é o mito fundador contado pra nós. Também para si, porque nós todas juntas somos a rainha. A colmeia é a rainha. Os zangões são os amantes da colmeia. Eles não apagam o nosso fogo. Nem as flores apagam. Nada nos satisfaz. Mas como somos a colmeia e a rainha. os zangões são nossos amantes sem o ser.

Vez por outra esses mesmos indivíduos vem tomar nosso mel, nossa geleia real, nosso própolis. Vez por outra esses psicopatas vem nos matar por nada. não querem dividir as flores conosco, mas  roubam nossos produtos, nossa vida. E quando perdemos nossos ferrões neles e parte do nosso sistema digestivo, ficam chateados. Alguns até revoltados como se quem tivesse morrido fossem eles,

Nos sequestram e matam e ainda sustentam que os vilões sonos nós. Roubam nossas flores pra entregar entre si para colocar num vaso d'água e deixar murchar. Quando muito. Tem deles que fazem artefatos elaborados pra colocar no chão sem nenhuma agua.

Malditos! Malditos! Só o que posso bradar.... o que pode uma abelha?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Floricultura

 


Desejava não ter nascido. Porque quem nasce, morre. Acreditava que se tivesse morrido, talvez fosse agora um elefante. Ou uma águia. Provavelmente seria uma pulga a importunar a dobra da orelha de alguma girafa. Estaria destinada a planar indefinidamente até se estabancar no chão. Provavelmente protegida da queda por alguma palha ou fezes mesmo.

Isso se fosse indiano. Como era cosmologista, provavelmente seu ser, já diluído no universo, estaria desintegrado nele. Gostaria de ser cristão. Acreditar em céu ou inferno para torturar sua alma. Seria um pós-vida com sentimentos, sensações. Não o blasé de estar lá, mas sem estar, sem consciência, sem sentimentos.

Desde muito cedo saiu pelo mundo de seu quintal ou de seu bairro admirando os incontáveis mistérios da natureza. Aprendeu a contemplar cada queda de folha, cada abrir de flor. Cada manhã em sua vida uma caminhada de meditação, bruscamente interrompidas por cheiro de café ou de lúpulo várias vezes. Era preciso se concentrar. Saia sempre do Jardins com destino ao cemitério onde a vida era intensamente exaltada por quem já tivera mostra do fim. Só os terminados estavam em paz.

Construía coroas a gosto do freguês. Consumidores exigentes que se ligavam muito nos detalhes. Ouvia discussões infernais de almas caridosas sobre ações que em nada alteravam o estado do falecido. Era um ser muito paciente e nada emocionado, embora quase sempre tivesse que fingir alguma empatia. Era melhor assim. Se fosse emocionado como alguns de seus colegas certamente bateria boca com os clientes como presenciou várias vezes.

Tinha sempre que madrugar na antiga Cobal pra comprar as mais variadas flores. Flores das mais variadas cores. Dos mais variados odores. Algumas nem acreditava que eram tão vendidas por causa do odor insuportável. Entretanto tinha a oportunidade de achar flores exóticas e belas que sempre guardava para sua netinha. Podia toda manhã tomar um breve desjejum com os amigos antes de se deslocar pra próximo ao cemitério.

Não era uma má vida. Embora sua vida fosse prioritariamente a morte. Menos quando sua linda netinha visitava sua casa lá pelas 19, 20 horas. Pouco antes de atravessar dois domicílios pra dormir em sua casinha. Amanhã de madrugada estarei na labuta. Então... boa noite!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Vagabundo

 


Nasceu numa família rica, muito austera. Trabalhou desde os dois anos. A família fazia questão de que todos os dias ele arrumasse sua cama apesar das dezenas de empregados na casa. Trabalhou duro mesmo desde muito cedo: aos cinco anos já estava travado numa mesa com um homebroker comprando e vendendo ações e dólares.

Trabalhou duro de domingo a domingo. Sempre se manteve frio mesmo quando algumas vezes deixava de ser bilionário para ser multimilionário. Sabia que era questão de tempo para voltar a ser bilionário. Uma aposta correta devolveria os milhões perdidos ou caso sua aposta fosse errada bastava pressionar o governo para devolver suas perdas com correção monetária e juros.

Era um cara muito frugal e simples. Nunca comprou uma mansão ou casa de praia. Apenas usou as herdadas da família. Sempre comprava os melhores planos de internet pra poder trabalhar arduamente de cada uma das casas herdadas. Era trágico. Não conseguia todo dia pegar seu jatinho e ir para a praia. Mas, felizmente essa rotina se deu apenas dos dois aos trinta e cinco anos.

Ele se deu alforria. Não importava se para isso ele se tornasse apenas mais milionário. Foi realizar seu sonho de vagar pelo mundo. Tornou-se um vagabundo, aquele que vaga. Começou a atravessar fronteiras de país a país e sinceramente nem sempre num hotel cinco estrelas. Muitas vezes foi obrigado a se abrigar num quatro estrelas e não tem problema nenhum.

Nessas viagens começou a criar um blog com dica de viagens, de onde ficar, onde ficam os restaurantes mais impressionantes, o que visitar, etc. Essas coisas que um vagabundo pode fazer com maestria. Em seus momentos de ócio aprendeu a afiar lâminas de trenó, pescar no gelo, até mesmo salgar carnes no ártico. Desenvolveu a musculatura da perna. Nunca pensou que conseguiria andar tantas esquinas de uma vez.

Era muito mais exaustivo ser um vagabundo. Nunca pensou que dava tanto trabalho. Tinha até por alguns momentos a saudade de quando trabalhava. Mas... bobagem... sua nova vida de vagabundo era muito melhor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cada um mora onde quer

 


Conta a história. Sempre contam uma história. Dizem que os que não foram, ficaram. Não posso afiançar isso. Alguns morreram pelo caminho. Não de morte matada, mas de morte morrida. Meio estranho dizer isso. Porque toda morte morrida é meio matada. O tempo que morre é o mesmo que te mata. Mas, certamente, entre mortos e feridos, ficaram os feridos. Os que não ficaram materialmente, guardaram cicatrizes dolorosas na alma.

Atravessar de uma esquina a outra é mortal. Tem no mínimo três bares e duas lanchonetes no caminho. Sem contar com a melhor padaria da cidade. Onde você pode pedir um lindo misto-quente e ganhar uma facada ou duas. Haja fígado pra atravessar o purgatório. Nos bares tem sempre um conhecido, talvez até um amigo, que ficou de ontem e está bebendo pra evitar a ressaca.

Entre o primeiro bar e o segundo, o morador de rua de estimação do bairro. Ele trabalha e manhã na padaria. À noite num dos bares. De tarde, a gente anda pé ante pé pra não acordar ele. Fizeram um abrigo perto do hidrante para ele. A prefeitura foi obrigada a ignorar. Coisa que ela tem muita prática. Tem sempre um vereador de direita querendo expulsá-lo do bairro. Tem sempre um de esquerda tentando obriga-lo a morar numa casa. Ele resiste a ambos e a comunidade o apoia: cada um mora onde quer.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Limites artificiais

 


Formam-se os limites

No limite as formas

Transigir a ordem é a lei

A norma é a forma

Feita a constituição

Respeitem-na!

A liberdade é fazer o possível

Querer o impossível

Trabalhar para mudar a forma

Respeitar as convenções

Questionando a norma

O que é normal?

Respeitando a diversidade

Uma selva toda anárquica

Organizaram as tribos com limites

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pirâmide

 


O maior desserviço que as notícias fazem é o sensacionalismo, a polêmica para chamar a atenção. Elas impossibilitam a reflexão pois ignoram as nuances que poderiam estar lá e que muitas vezes ate ampliariam o absurdo. Transformam seres humanos falhos em personagens, em vilões e heróis, idiotas completos e sábios seguros. Recortam qualidades e defeitos e muito pior omitem suas origens.

Para falar sobre isso não preciso nem de um herói, nem de um vilão. Basta um idiota como eu. O Brasil é um país recém saído da colônia, da monarquia e do escravismo. Portanto, somos um país autoritário, antiliberal e preconceituoso por razões diferentes da Europa que foi nossa matriz por mais tempo. Somos uma sociedade de castas disfarçada de democracia. Ao contrário do que afirmam (o povo não sabe votar, os pobres não sabem votar, a classe média não tem consciência, por exemplo), no Brasil todo mundo sabe votar muito bem: os miseráveis votam a favor de quem os ajuda, os pobres votam naqueles que garantem seus privilégios com relação aos miseráveis, a classe média em quem os diferencia dos pobres, os ricos da classe média, os ricos refinados, dos novos ricos cafonas.

  Todos herdamos todos os preconceitos possíveis. A diferença entre o democrata e o preconceituoso está na consciência dos defeitos que tem e na necessária luta contra as próprias imperfeições. O racista, misógino, etarista, homofóbico ou xenófobo nutre mentiras ou pseudociências para justificar seus desejos. Aquele que não acredita ter preconceitos em si ou na sociedade está condenado a diferenciar os seres humanos. Então uma matéria se referir a um preconceituoso como se ele tivesse vindo de marte, fosse uma exceção transforma o ônibus atropelou o cachorro em o cachorro atropelou o ônibus. Algo muito raro, que não merece preocupação porque dificilmente volta a acontecer. Mantem a sociedade em uma pirâmide de castas como algo natural  e desejável.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Economia

 


Se tudo fosse pó

Cadê meu café?

Onde fica o aspirador?

Salva o dia uma soneca?

Duvidas não formam certezas

As convicções suportam dúvidas?

Assim segue-se sem viver

Pois onde semeia=se vida

Florescem as duvidas

Isso não é filosofia

A hermenêutica não suporta dogmas

Como a providencia o inesperado

Mas se interessa descobrir

Algo não foi dado

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...