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quarta-feira, 9 de abril de 2025

O amor na ética de Bento de Espinosa

 


Baruch Spinoza ou Bento de Espinosa, funda sua ética no ser humano e na sua ideia do Criador como ser imanente, “Deus, isto é, Natureza”, ou seja, desdiferenciando a divindade que tudo vê, tudo sabe, da natureza, do universo, de tudo o que existe. Obviamente, despersonalizando o Criador, por um princípio simples: se não havia nada senão Ele, tudo o que foi criado, objetiva-se a partir dele próprio. Por consequência, aos homens é dado o poder criador, pois eles são particularidades da única substância existente: o Criador.

Embora a história recaia num fatalismo, pois o Criador está em todos os tempos e espaços e, assim, já conhece o futuro. E se este já é conhecido, está fatalmente determinado. O homem, substância finita (para Descartes) ou atributo (para Spinoza), não conhece o futuro, para ele não está determinado, por essa razão se torna se torna irremediavelmente artífice de seu futuro ainda desconhecido. Com essa ideia, Spinoza geometrizando ideias de Descartes, retira a ideia de que os homens estariam reféns de um Deus externo para a confecção de seu futuro. Ideia predominante na Idade Média.

No entanto, um aspecto que se destaca nos livros de Spinoza é a sua concepção de um amor político para costurar a ética de fato. Também se destaca a crítica aos que tentam negar a natureza humana em prol de uma concepção humana fictícia na qual o amor é tratado com desdém, quando não com desprezo:

A maioria dos filósofos concebe os afetos que em nós travam combate como vícios em que os homens caem por sua culpa; por isso habituaram-se a rir deles, lamentá-los, maltratá-los e (quando querem parecer mais santos do que todos) detestá-los. Acreditam, assim, fazer coisas divinas e elevarem-se ao cume da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que não existe em parte nenhuma e ferindo com seus discursos aquela que realmente existe. Concebem os homens não tais como são, mas como gostariam que fossem. Eis por que, quase todos, em vez de uma ética, escreveram sátiras, e não tiveram sobre política ideias que pudessem ser postas em uso, concebendo-a como quimera ou utopia. [...] Por esse motivo, acredita-se que, de todas as ciências que têm um uso, é na política que a teoria passa por mais discrepar da prática, não havendo homens que se estimem menos idôneos para dirigir a República do que os teóricos, isto é, os filósofos. (SPINOZA, In Tratado Político).

A própria definição de amor de Spinoza, mostra o quão politico é o papel do amor, se pensarmos a política como a arte de criar relações, de relacionar as pessoas como concebera Aristóteles e, depois de Spinoza, Hannah Arendt e Jüngen Habermas. Assim explicita, Baruch Spinoza:

Amor é fruição de uma coisa e união com ela [...]. Do amor [diversamente da admiração e de outras paixões] é próprio jamais nos esforçarmos para dele nos livrarmos, por impossível. E é necessário que não nos livremos dele. Impossível, porque isso não depende de nós, e sim do que vemos de bom e útil no objeto e, se não quiséssemos amá-lo agora, seria preciso que primeiro não o conhecêssemos, mas isso não está em nossa liberdade ou não depende de nós: se nada conhecêssemos, nada seríamos. Necessário, porque a fraqueza de nossa natureza impediria que existíssemos se não fruirmos de algo que nos fortaleça e a que nos unamos. (SPINOZA, in Breve Tratado).

Que ainda adverte que “toda nossa felicidade ou infelicidade nisto reside: na qualidade do objeto ao qual nos unimos por amor” Baruch Spinoza (in Tratado da emenda do intelecto).

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Entre o desejo e a ética

 


Nós vivemos num mundo de desejos. Digo o nosso mundo humano, porque aos outros animais não é oportuna a concepção de aspirações ou volições. Os animais executam exatamente o que querem e pagam um preço caro, barato ou nenhum por isso. Pouco lhes importa. Não há todo um quadro de valores a sustentar suas convicções, não há previdência. No máximo há providência quando a necessidade encontra a oportunidade. Algo também muito comum e conhecido pelos humanos.

Nós humanos naturalmente desejamos tudo que nos faz bem, que nos afeta sensivelmente (pela visão, tato, olfato, paladar ou audição) ou sentimentalmente (pelo afeto, desprezo, simpatia, heterofilia). Vale lembrar que simpatia, por definição é o gosto ou aproximação por valores iguais ou exaltação deles (sym+pathos). Heterofilia é o gosto pelo diferente. Não creio que há mal intrínseco em desejar. Talvez algum extrínseco, afinal somos seres civilizados e por isso podado de muitos de nossos mais majestosos instintos.

Mas nossos instintos não combinam com nossa civilidade e isso é complicadíssimo. Não combinam nem mesmo com a ética: não posso fazer tudo o que eu quero sem desrespeitar o outro. Nem mesmo se em meu código de responsabilidade e de interação não estaria cometendo um erro. As éticas pessoais (éticas sempre se referem ao coletivo, mas são escolhas pessoais dentre o aceitável e o aprendido) quase nunca são as mesmas. Seria uma novidade se dois sujeitos compartilhassem exatamente de uma mesma visão de mundo.

Nossa condição humana nos leva a um corredor sem fim de desejos mesmo sem a indústria cultural nos inculcar ainda os desejos até então inexistentes e até então desnecessários. Até nos fazer desejar o próprio desejo do desejo. Acabei dando uma volta, mas escrevi esse último parágrafo mesmo só pra lembrar como nós humanos estamos enredados nos “nossos” próprios desejos. Meu foco não são os desejos criados. São os desejos reais e apenas aceitarei os ilusórios criados pelo autoengano, pois quando enganamos a nós mesmos, nada pode ser mais real.

Não pretendo considerar que o desejo é uma coisa boa ou ruim em si. Sem o desejo muita coisa não teria sido inventada ou manufaturada, criada, concebida. Mesmo o desejo do impossível levou o homem a novas épocas, conduziu a novas tecnologias, a novos pensamentos. Toda grande mudança pessoal ou coletiva nasce de uma utopia. Mesmo os desejos mais complicados, difíceis tiveram que ser sublimados e por vezes sua expressão criou expressões de arte magníficas, belas e supremas.

O conflito entre desejo e possibilidade, muitas vezes leva a compreensões éticas e estéticas formidáveis. Se eu colo os lábios no texto (não os meus) é porque não teria melhor compreensão se colasse os ouvidos, os olhos, talvez o magnífico dorso. Não seria possível imaginar melhor leitura do desejo. A vida é uma dura batalha. Felizmente é ética.

sexta-feira, 28 de março de 2025

A Ética, a Razão e a Felicidade

 


Aristóteles em suas Éticas (Ética a Nicômaco e Ética a Eudemo) dizia que o único fim-per-se ou fim-em-si-mesmo é a felicidade. Provavelmente, após a modernidade e o consumismo temos que reconsiderar essa questão da existência de uma finalidade final. Mas a discussão mais interessante, e que nos interessa, é a afirmação dele de que somente os que tem a vida contemplativa poderiam alcançar esse bem último por se guiarem pela racionalidade enquanto os da vida laboral ou produtiva não se guiam e estarem imunes a corrupção da vida material, os da vida política não estão. Portanto, Aristóteles coloca a sabedoria, ou melhor o amor a sabedoria, em condição privilegiada para alcançar a felicidade.

Em vários trechos do evangelho é descrito justamente o contrário: que a felicidade pertence aos ingênuos e aos ignorantes. Em Werther, Goethe descreve muito bem esse contraponto à Aristóteles e faz uma bela síntese:

No entanto, para viver uma vida sob a ética humanista ou sob a inspiração cristã, a busca da felicidade não faz parte da equação. Para os cristãos, em muitas passagens do novo testamento, da boa nova do amor depois da vinda do Messias, a vida na terra é uma vida de provações, de sofrimento para alcançar a redenção após a morte. Para os humanistas, a ética visa o bem comum, não a felicidade pessoal e, esta é, de certa forma, incompatível: é preciso sacrificar os desejos em nome de um bem maior: o bem comum.

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula... tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.

As crianças – todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito – não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos, da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vêm e para onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e vara. E, como agem por essa forma, inconscientemente, parece-me, que se acham subordinados a vida dos sentidos.

Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia-a-dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo as suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mamãe guardou os bombons, e quando conseguem agarrar, enfim as gulodices cobiçadas, devoram com sofreguidão e gritam: “Quero mais!” Eis a gente feliz! Também é ditosa a gente que, emprestando nomes pomposos às suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimento destinados à salvação e prosperidade do gênero humano. (GOETHE, 2003, p. 226 a 228).

Mas não se pode negar que ter uma vida feliz é, razoavelmente fácil: basta viver uma vida egoísta, pautada em seus próprios desejos e ter poder para que sua onipotência particular não seja punida. Algo perfeitamente possível para no mínimo de cinco a quinze por cento do mundo. Muito pouco estatisticamente, mas em números, gente demais; centenas de milhões.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...