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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Uruguaio

 


Vou pro Uruguai, disse-me ele. Não há país mais estável no mundo. Lá tanto faz votar na direita ou na esquerda. As diferenças são marginais, disse-me ela. O casal morou muito tempo nos Estados Unidos onde se podia escolher entre a centro-direita e a direita. Opções muito próximas. Com a tomada dos republicanos pela ultradireita com margem na Klu Klux Kan, a direita foi eliminada pela extrema-direita.

 A Republica Oriental do Uruguai é sem dúvida o deposito de paz do mundo. Talvez pela sua inexpressão em tamanho, mas sua enorme importância geográfica. O país pela sua posição estratégica consegue controlar o acesso entre o Rio da Prata e o Oceano Atlântico. Durante muito tempo foi um protetorado britânico não oficial para garantir as rotas da marinha inglesa, a primeira predominante no mundo. Mas com enorme influencia brasileira do qual foi inclusive território.

Sofreu reivindicações argentinas também, mas a republica platina era menos poderosa que a Inglaterra e o Brasil. Nasceu dessa forma multicultural com brasileiros, ingleses, argentinos, ingleses, holandeses, franceses, etc. Conseguiu ser um grande latifúndio ao mesmo tempo que tem algumas das cidades mais modernas e estruturadas. Feito esse acordo: liberar o espaço para as monoculturas de exportação em troca de poucas cidades grandes ocupando um diminuto território do país.

Eu morro de inveja desse povo que vive sem sobressaltos, sem medo de inovações e com a fama de ter o melhor churrasco do mundo apesar de ser muito ruim. Que se concentra na capital Montevideu. Uma cidade muito estruturada, muito centrada no turismo e na prestação de serviços. Paulo e Júlia, Luís e Camila devem viver muito bem por muitos anos. Seus filhos e netos também. Eu, espero não precisar ir pra lá. Espero que um dia o Brasil ou Chile encontre essa estabilidade. Mas nunca excluirei a necessidade de me tornar uruguaio.  

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bancarrota



Grutas deram origem ao grotesco? Provavelmente não. Mas à palavra, existe alguma relação? Segundo a etimologia ambas descendem de uma palavra que designava cavidade. Grotesco vem da descoberta de um palácio soterrado que foi entendido primeiro como cavernas, grutas.

Ao contrario do que se supõe os humanos pré-históricos não viviam em cavernas. Não tinham uma família nuclear mesmo no início da agricultura. Nem as crianças conheciam seus pais. Apenas suas mães porque nasceram factualmente delas.  De suas grutas.

Entretanto a sociedade evoluiu para o outro lado. Discriminou o grotesco. Tomou o rumo fálico de valorizar o pau, depois a espada, depois a espingarda ou revolver. Trocou o acolhimento pela porrada. Tornou a conquista de territórios, campos livres para colher, caçar e depois plantar primordial. Não o acolhimento. Foi preciso separar os territórios, criar governos.

Cooperar para sobreviver se tornou inócuo até que a realidade obrigue a voltar. Tudo se tornou uma venda de ilusões, sobretudo a maior delas: autonomia. Autonomia não é, nem nunca foi igual a livre-arbítrio. Este nunca garantiu sobrevivência. Autogoverno é precisamente sobreviver sozinho, o que é impossível se essa autogestão não for apenas um simulacro para maior conforto dentro de uma realidade de intensa cooperação.

Mesmo todo mundo sabendo que deseja impor seus desejos aos outros, todo mundo continua jogando de modo a simular meras trocas comerciais para acobertar a incessante cooperação. Assim nasceu nosso Mogli no meio do mato. Que na verdade não era um mato, mas um vilarejo. Que nem era tão isolado. Era um condomínio quase no centro da cidade.

A consciência disso tudo o tornou vendedor da realidade. Trabalhar com pirâmides financeiras tão estruturadas quanto a dos bancos. Sabia que tudo o que o circundava era ilusões. Vendia seu seguro, sua assessoria para que empreendedores não caiam na ilusão fatal do autoengano. Acreditarem-se probos num mundo onde não há inocentes. Dizia que qualquer um poderia se dizer honesto, mas acreditar-se como tal é o autoengano que o conduzirá à bancarrota.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O pessimista

 


Se tivesse duas ou três chances preferia só uma. Vivia de uma esperança alucinante. Exercia um culto à próxima oportunidade. Tudo o que não deu certo um dia magicamente daria. Bastava ser resiliente: nunca deixar de lutar. O mundo era uma reação direta aos seus ensejos. Se tivesse o habito da leitura seria um mau leitor de Nietzsche ou um péssimo de Schopenhauer. Mas era somente um cristão de má consciência.

Sua vida era uma espera ou esperança do paraíso terreno. Havia sequestrado seu Deus pessoal e o torturava diariamente com cobranças como a de uma chinchila a seu dono. Ele que era tão bom, tão justo, tinha direito a retribuição. Do mesmo modo que uma lêndea cobra retribuição ao cabelo por o decorar.

Era uma poeirinha a decorar um universo. Uma poeirinha que mesmo intensamente amada como imagina não tem um infinitésimo da importância que julga ter. poeirinhas aparecem e desaparecem do nada. A lei da entropia é o caos, a desordem, a desorganização. Não há esperança no imprevisto. Só há esperança na ordem e não existe cosmos mais.

O que precede a desilusão é a ilusão. Não se trata de cair em conversa de malandro, mas de ser o malandro que faz de trouxa a si mesmo. Assim nosso personagem vivia de esperar o melhor, de se considerar probo, correto, honesto. Mesmo que não existam critérios para tal. Onde não há lógica, as regras não tem eficácia.

Seu anti-herói era o pessimismo, digo a consciência, o realismo, pragmatismo, seja lá o que for. Ao duro aceite de que não há chão mesmo, de verdade. E que estamos presos em frágeis teias que nos impedem de cair no abismo eterno. Quem quer ser livre tem que aprender a voar ou apostar na queda eterna se impacto.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Resignação

 


Aviou a receita: Correr sem parar. Correr como nunca. E lá vem bala, lá vem bala. Não podia mais comer tanta bala.  Seria melhor colher as frutas do campo. Algumas eram venenosas. Conhecia a maioria delas. Comer a farinha do tempo era inegociável. Não porque quisesse ou precisasse. Mas no caminho se livrar de absorver a poeira solta nos redemoinhos a lhe seguir (a seguir a todos) era impossível.

Desceu para o rio. Em suas bordas caudalosas comeria um peixe assado. Não um pirarucu ou um pirara, nem mesmo uma traíra. No máximo um pacu ou piau. Seria só o peixe com um pirão de farinha de mandioca tostada.  Tinha muito o que correr no dia: organizar o estoque da vendinha e vender todo o possível pra adiar o inevitável fechamento. O motivo: falta de clientes.

Embora quase todo mundo do distrito comprasse em sua loja. Tudo era muito pequeno e muito distante de qualquer outra gente. Tudo ali era uma lembrança de uma era de ouro terminada. Ninguém mais morava na região. Ninguém usava o rio. O parco movimento de um barco por semana outro por mês e alguém que errou o caminho.

Já foi uma região de grandes latifúndios, mas a agricultura vertical deslocou a exportação para as cidades criadas nas bordas das regiões metropolitanas. Poderia viver de turismo e até vivia, mas era tudo muito longe de tudo. Ou melhor, tudo muito distante do nada. Era uma região de modicas casas com jardins maravilhosos, muito lindos. Mas quem se deslocaria tanto pra ver. Fazia muito sucesso na internet. Talvez pudesse vender cartões postais. Mas enviar gastaria tempo. Tempo, o distrito tinha? Uma coisa era óbvia que tinha: resignação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Não éramos mais os mesmos

 


Alterou-se repentinamente após um pequeno copinho de cachaça, mas não com aguardente. Estava cheio de absinto. Não do novo com as restrições de 2000, mas do antigo com grau alcoólico ilimitado.  O ministro das comunicações de Cabo Verde virou uma garrafa de gole-gole e nem se alterou. O alterado era fraco? De jeito nenhum! Era capaz de beber caixas de cerveja sem se alterar durante um dia.  Frouxo sou eu que não aguento três copos cerveja.

Tomamos tudo nós três. Depois fomos caminhar doze quilômetros de trilhas assimétricas num caminho aberto no mato subindo e descendo uma serra. Ouvimos todo o silencio possível até chegar ao primeiro rancho ao longo do córrego. Sentamos um pouco numas cadeiras de balanço. Um ficou, dois seguiram caminho pelo córrego e além dele para o segundo rancho. Havia um terceiro, mas ninguém foi naquele dia lá.

Na manhã seguinte fomos todos ao ultimo barraco pra descer o riacho cada um no seu caiaque. Descemos em menos de uma hora. Depois de cada um levar o seu caiaque pro seu barraco subimos a serra em busca de cachoeiras. Logo achamos uma quase congelada que era impossível ou extremamente desconfortável colocar qualquer parte do corpo fora da água. Chegada a hora do almoço poderíamos pescar no supermercado a módicos 20 km dali. Mas tinha um restaurante num posto a menos de oito quilômetros de onde estávamos no mesmo sentido, mas direção oposta.

Dentro de um dia e meio precisávamos voltar às nossas cidades e nos restaria somente a experiencia daquelas 18 horas naquele recanto. Cada um voltaria para as suas atividades redundantes no mercado financeiro, na indústria e na comunicação. Em Nova Iorque, Itabirito e Praia. Estes momentos raros influenciariam toda a nosso restante de vida. A calma, o foco, a concentração, o silencio nos permitiu meditar a cada hora como se fosse um século. Não éramos mais os mesmos.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Elitista

 


Costurou os zagueiros como se fossem zangões. Um de costa para o ouro. Ferroando-se mutuamente. Era a vantagem de ser um corredor de média distância. Média distância? Sei lá! Entre 800 e 1500 metros. Lembrou-se desse lance umas duas ou três vezes na vida. Mais era lembrado do que remorava. Aprimorou-se na corrida e foi mais a fundo: se tornou maratonista. Esporte que teve que abandonar pra ser assessor de um ex-esportista que virou deputado estadual.

Foi demitido por ser excessivamente inabalável. Era além de péssimo negociante, um cara que não entendia bulhufas de negociação. Pelo menos de atender um barganhador. Era um cara que diria: é isso se quiser levar, se não quiser... Foi pego publicamente discutindo com o seu chefe por causa de virgulas. Já tinha brigado privadamente indo até o nível físico, mas a cena publica o salvou de trabalhar naquilo que era completamente inadequado.

Se tornou representante de uma multinacional daquelas que não precisa negociar.  Apresentava os produtos em grandes vitrines. Não fazia publicidade além do boca à boca porque era um produto pra quem conhece, um produto pra poucos. Não tinha o mínimo interesse em popularizar o produto, embora tivesse o interesse de vender pra todos desde que pensassem que só eles tinham.

Sim, ele era um elitista.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Renda

 


Amanhã eu vou. Hoje eu ia, mas... Ontem eu fui. Drama diário de quem sempre promete dar a volta no quarteirão. Um quarteirão de arestas de 2,5 km. Perto da entrada, no lado oposto ao que vira na partida, um pequeno quiosque de água de coco.  Acordou duas horas da manhã. Tinha dormido quatro da tarde. Às quatro começou a dar as voltas no quarteirão para verificar a segurança do perímetro e espantar as visitas indesejadas.

Sua vigília terminaria meio dia. Uma hora da tarde estaria em casa almoçando. Leria todos os panfletos que foram colocados de madrugada debaixo da porta de entrada da casa. Alguns ameaçadores como boletos de desconto de lugares onde nunca iria. Sonhava em poder ir onde certamente em algum intervalo iria, mas não ia porque seria terminar um sonho.

Sonhos sempre eram vendidos nas padarias onde não conseguia intervalo para ir. Andava com uma constância incrível, quase cronometrada. O que permitia a quem tivesse costume saber onde estava a qualquer momento de sua ronda. A sua renda só crescia das duas às quatro da tarde quando tricotava para pegar no sono.

Seu salário estava estagnado há uns cinco anos. Não recebia nem correção monetária. Mas ganhava algum com a renda das peças tricodas na banquinha a frente de casa. O preço das peças era constantemente aumentado de acordo com a sua necessidade e a disponibilidade dos clientes em pagar.

O grosso de sua renda era o salário de vigilante, mas o que fazia diferença eram as peças de tricô. Sem elas dificilmente sobreviveria. O condomínio chegou a propor diminuir seu aluguel, mas como aumentaria a taxa de condomínio nunca foi aprovado. De qualquer maneira estava muito próximo de ganharem uma pequena indústria de tricô e bordados e perderem o vigilante. Sim. Problemas de renda.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A horta e o pomar

 


Pensou um instante. Cansou. Tinha vinte quilômetros para atravessar, não de modo incidente, mas radial ou sei lá o que é isso. Em uma volta retangular chegaria novamente em casa ou no trabalho. Plantara seis bananeiras que não podiam dar frutos porque apenas se pusera de ponta a cabeça. Na porta de casa um pomar e uma horta. Um cenário que era um recorte de uma monocultura que era às vezes soja, outra vez milho.

A cerca do pedaço interno estava intacta. Não havia nenhum corte. Sem invasões de humanos ou animais. O pomar e a horta continuavam isolados por cerca e por fosso de todo o resto. Todo o restante estava mecanizado: plantadeiras, adubadoras, pivôs centrais, colheitadeiras e debulhadoras. A parte interna perto do casarão era cuidada manualmente por uns três zeladores.

No final de semana iam pra feira vender o excesso de verduras e frutas não consumidas no período. Ganhar um bom dinheiro com produtos orgânicos não certificados, mas com altíssima credibilidade. Para tal levam dois semi-caminhões cheios de mercadorias para preencher umas cinco barraquinhas. Em poucas horas vendem tudo. Recolhem o resto para levar de volta porque não compensa ficar a tarde para vender o pouco que sobrou. Algumas vezes distribuíam a sobra mesmo só pra não ter que levar de volta.

Umas duas vezes por ano com a colheita da soja ou do milho fazia melhorias no casarão. Também aperfeiçoava o maquinário, replicava a manutenção. Transformava todo o sistema em mais redundante. Então a feira respondia aos gastos do dia-a-dia e a colheita da monocultura aos investimentos. Obviamente gostava muito mais do pomar e da horta do que das outras coisas. Se pudesse transformaria a fazenda toda em pomar e hortas, mas estava muito cômoda com o status atual. E sabia que era impossível fazer isso.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Folhetins do dia

 


Alugou minha mente a ideia do viver. A ideia de curtir o momento era meramente contraditória. Dependia da finitude da vida. Da existência da morte. O que me levou a pensar na morte. Que não era nada. Completamente nula. Apenas um ponto final. Sem mais nada a frente. Um niilismo só que auto anulador, pois incide sobre o vazio. É um zero elevado a zero. Só serve para calcular limites. Não tem área. Não pode ser calculada por uma integral.

Comecei a ler poesia com voracidade. Geralmente livros pequenos como O pequeno livro dos poemas em prosa do Baudelaire. Mas as vezes livros maiores, coletâneas como Os melhores poemas de Manuel Bandeira. Não costumava ler prosa, mas foi seduzido pelo estilo kafkiano.

Nunca conseguiria ler Dostoievski, Nietzsche ou Sartre. Eles não conseguiriam explicar o mundo de modo a que entendesse. Não era o seu tipo de ontologia. O coração para bombear sangue precisa de ritmo. Sem uma ordem, um ordenamento era difícil pensar. Uma cadencia musical ou uma logica cartorial ajudavam muito.

Assim alienou-se da morte e ganhou vida gastando o tempo em longas divagações à bordo de um trem entre as conurbações de sua metrópole. Algumas horas por dia tinha que dar aula de sociologia ou filosofia, por vezes educação artística onde gastava sua pequena compreensão de estética, ética ou ontologia. Mas o que gostava mesmo eram das viagens da casa para o trabalho e do trabalho para casa onde poderia ler e refletir sobre os folhetins do dia.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

A Caixa

 


Comeu um belo pudim de pão adormecido. Não podia fazê-lo. Era pré-diabético. Não era um desses halterofilistas que tomavam insulina para fins estéticos. Por isso só comeu “meio pedaço”. Procurou imediatamente dar três voltas no quarteirão correndo enquanto Seu Messias e Messiinha seguravam o remo no balcão. Em dez ou doze minutos já estaria de volta pra atender os clientes e servir café, bolos e doces a eles. Na verdade, muito mais biscoitos fritos, a especialidade da casa.

Ao sair do turno. Daria três voltas no município. Município, não cidade. O município minúsculo tinha em torno de 102 km de limites. Três voltas seriam 306 km, mas com alguns atalhos aqui e ali davam 305 km. Chegava em casa para desmaiar, acordava de madrugada para um desjejum poderoso. Acordava às três horas e saia as cinco para andar os um quilometro e meio até o trabalho.

Era um hábil argumentador. Sabia vender, mas muito mais que isso sabia fazer que os clientes experimentassem voluntariamente suas algemas. Ou seja, as comidas nas quais se viciariam, se tornariam suas prediletas. Não era um bom negociante. As pessoas tentavam pagar a ele, mas ele dizia para negociarem com a caixa porque ele tava proibido de receber. Ele e todos do bar. Só a caixa poderia receber. Esse foi o jeito que acharam de fugir do prejuízo, todos davam desconto exagerado ou até não recebiam.

A quase gratuidade é que tinha tornado a lanchonete/ panificadora popular.  Mas alguém que pudesse garantir seus empregos e a própria existência do comercio era vital. Esse conflito constituiu a existência do local inteiramente. Se existisse essência, essa seria a do local, do empreendimento.

O público era muito fiel. Cerca de 80% do publico era das pessoas que passavam por lá todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. Apesar disso, não tinha mais caderninho. Porque esses sumiam ou tinham paginas rasgadas. Era uma relação de muita confiança entre os malandros e os ovários. Nesse caso nem os clientes, nem a caixa eram otários.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Realidade Alternativa

 


Assuntou todo o ocorrido, mesmo que o fosse só na sua imaginação. Aquilo era um preludio para a pasmaceira. Imaginava-se rei de um reino distante, daqueles outrora nunca vistos. Um desses inventados por refazedores de histórias com bases em documentos verídicos instigadores de teses minoritárias como a de que a inconfidência minera não era mineira, mas fluminense e provocada pelos plutonianos.

Os plutonianos eram habitantes do ex-planeta Plutão que trouxeram, obviamente, o plutônio para o planeta Terra. Tudo envasado em documentos internos de embaixadas de países que nunca se envolveram um guerras ou golpes. Ou escritos de recém fechados sanatórios.   Coisas de países alinhados, quer dizer, pelo menos não ortogonais.

Nem os poetas Manuel Bandeira ou Gonçalves Dias descreveriam a sua terra de origem. Era muito melhor que qualquer Passárgada. Embora não houvesse a menor prova de sua existência, tinha que existir porque desejava sua materialidade. Ah! Que sonho! Era uma maravilha que descobrissem que todos os seus desejos eram verdade.

Aquela verdade era muito conveniente. Procurava pregar a boa-nova a todos que encontrava. Muitos invejosos o questionavam. Diziam que era improvável a existência de tal país. Que na região predominava os califados e não os reinados e que, portanto, se por um acaso o improvável país existisse seria uma conurbação de pequenos califados.

Os piores eram os que dominados pelo globalismo diziam que os documentos reivindicados foram desmentidos pelos próprios órgãos redatores. Nossa como tem pessoas iludidas ou invejosas no mundo! Obvio que tudo o que foi escrito até agora foi combinado e é uma mentira combinada pelas quatro famílias que dominam o mundo!

terça-feira, 7 de julho de 2026

Novíssimo Testamento

 


Driblou as pedras e se embaraçou nas águas. A umidade invadiu-o. a humildade foi-se. Nadou como nunca. Nadar era novidade. Se virou como um sobrevivente de desastre. Foram cinquenta metros de desespero. Não se lembrou de que bastava colocar os pés no chão e o pescoço estaria fora das águas.

Jogaram uma boia e o puxaram para a areia. Não sei porque jogaram pois podia-se apenas levar a boia andando para o suplicante. Mas não quiseram ridicularizaram-no. O suplicante voltando a terra implorou para que não contassem pra ninguém. Não contaram, mas a praia estava cheia.

Se tornou muito popular. Tão popular que certamente seria eleito vereador se tivesse um partido para lhe suportar. Era insuportável, diziam muitos, mas na possibilidade de eleger alguém partidos tampam o nariz. Não foi eleito por uma providencia divina. Muitos ateus se tornaram deístas, cristãos ou não.

Baita jogada de marketing evitar um desastre como esse. Talvez agora não venham mais dilúvios, mas dias que nascem sombrios e se iluminam, florescem. Certamente um novíssimo testamento. Sem discípulos, mas com testemunhos, testemunhas por todos os lados. Desatentos a qualquer dogma construindo suas convicções dos modos mais variados para que qualquer um caia num deísmo possível.

Desse modo o Novíssimo Testamento canibalizou a Nova Era não acontecida e se solidificou como a única convicção plural em que qualquer coisa era a mesma coisa e tudo o que surgisse já existia.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Um contramestre em disputa

 


Era um contramestre em disputa. Não porque fosse contra o mestre, muito pelo contrário. O nome era complicado: contramestre é um auxiliar do mestre assim como o servente é auxiliar do pedreiro. Assim como o servente, o contramestre é quem determina o ritmo. Não tão abundantemente quanto os percalços que aceleram e suavizam o andamento da escola, cabendo ao mestre da bateria apenas insinuar a normalidade.

O contramestre é a ligação do ritmo com o andamento. Não só ele. O interprete, antigo puxador é a outra ligação. Por essa maneira que serventes são excelentes interpretes e contramestres. Era um passista por enquanto. Já tocou agogô e berimbau. Sonhou com o surdo, mas não deu. Era cotado obviamente para contramestre.

O edifício evoluía num ritmo constante enquanto era apenas alvenaria. A coisa começava a variar quando os marceneiros começavam o acabamento. Os assentadores de piso eram muito melhor ritmados. Até instaladores de divisórias evoluíam melhor. Emassar e pintar de certa forma liberava seu trabalho. Mesmo que não fosse o caso, o ritmo era massivo e veloz. Edificios tem percalços, mas não são escolas de samba.

E um edifício de escola de samba teria ritmo? Ou seria outro caso? Era o que precisava saber. O que descobriria. Era seu novo trabalho. Passará uns meses nisso. Quem sabe não será contramestre. Talvez se torne marceneiro. Talvez encanador. Com o tempo descobriria tudo. Por enquanto era observar e participar do desfile.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os gatos e os peixes

 


Gatos, gatos, gatos e mais gatos. Uns empilhados sobre os outros. Chegou em casa. Pelos e pelos para limpar. Sentou no tamborete. Tomou coragem e gastou a manhã aspirando os pelos e pós da casa. Achou uma pausa. Na verdade, não achou. Determinou. Tomou um balde d’água e começou a passar o pano na casa.

Saiu de casa para almoçar e deixar secar o chão. Ligou todos os condicionadores de ar para ajudar a evaporar a água. Almoçou um delicioso p.f. no bar da esquina, tomando conhaque no bar da outra esquina. Gastou umas duas horas nesse intercurso ente sair de casa e voltar pra casa. Chegou a tempo de dormir e depois virar a noite para pautar dois dos três principais jornais da cidade: O confiável, cheio de interpretações estrambólicas; O paradigma, inovador e cheio de hermetismo.

Logo cedo poderia cochilar até as seis ou sete horas, enquanto os gatos usavam a casa como parque de diversão. Não era raro encontrar cacos de vidro ou cerâmica de vasilhas que não foram devidamente guardadas. Pensava ardentemente ao acordar comprar um perdigueiro para colocar ordem na casa. Seria melhor comprar um gateiro. Não havia perdizes dentro da casa.

Pensou muito em criar aves no quintal de casa. Gostava de gansos, mas esses são muito barulhentos. Também de patos, mas esses são o demônio. Já correu de patos? Pensou em avestruzes, mas são muito grandes. Nunca pensou em pombos, odiava ratos. Decidiu criar peixes num aquário aberto. Gastava boa energia numa bomba para circular a água. Deste modo, varias placas solares nas telhas da casa.

Assim fotografaram para mim. Mais nada foi me passado. O resto? Tudo tirado do testamento, ainda feito em vida e erroneamente publicado em um dos jornais. Erroneamente replicado nos outros dois. Os peixes foram deixados para os gatos. Os gatos para os dois vizinhos laterais. Causa da morte ainda não ocorrida: provavelmente botulismo. Bom... nada mais a declarar.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Labirintite

 


O rio corre fluentemente. Os riachos um pouco menos. A vida do nosso personagem transbordava. Se houvesse alguma corrente essa era de um redemoinho. Sim, a vida era consumida como qualquer outra. Mas não exatamente como uma qualquer. Nem toda vida era tão baseada num marasmo.

Pense numa pessoa que fazia de tudo para que sua vida fosse um cotidiano intensamente marcado. Cronometrasse metodicamente a vida.  Acordava no mesmo horário. esticava-se a porta de casa no mesmo poste. Tomava café na padaria da esquina na mesma hora e no mesmo banco. Geralmente era o primeiro a sentar. Todo o resto do dia era tão igual quanto possível. Um desvio aqui e ali.

Os desvios é que marcavam os respiros, davam vida a vida tão organicamente orquestrada. A rotina era tão automática que parecia um algoritmo, um script de programa de computador. Tudo era tão ensaiado, treinado que nem sentia, nem precisava pensar para agir. Agia tão levemente quanto respirava. Até os batimentos cardíacos eram mais artificiais, levemente descompensados.

Atravessava de dez a doze córregos por dia.  Não os via. Estavam todos soterrados naquela metrópole. Tudo fluía invisivelmente. Não fluíam tão magistralmente como nosso personagem. Fundações de edifícios construídos e reconstruídos na área interferiam nos cursos dos rios. A eventual passagem de um metrô praticamente espalha todos os leitos possíveis.

Nosso personagem seguia sua vida. Havia perdido toda a família para o relógio. Era o filho mais novo e tardio dos últimos remanescentes de uma nobreza comprada qualquer. Pessoas cheias de ofícios e etiquetas, compromissos e rapapés. Pessoas que sabiam muito bem como se comportar. Não ele. Confiava incessantemente num diário onde traçou sua vida do início ao fim. Queria morrer dormindo. Não pode prever ser atropelado pelo metrô. Não contava, embora soubesse com os efeitos de uma labirintite. Achava melhor ignorá-la.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Paradoxo de Antístenes

Não dormiu, nem acordou aquela tarde. Seguia sonambulo a dita noite. Logo dormiria. Precisava um longo período acordado para curar a ressaca daquelas férias numa casa de descanso. Sua vida era assim: oito ou oito. A mesma vivencia repetida de sempre. Tanto faz se dormindo ou acordado. Pensava no paradoxo de Antístenes. Não tinha menor importância e, justamente por isso pensava entusiasticamente e compulsivamente.

A inexistência do falso implica na impossibilidade de contraditório? Uma questão bastante resolvida após as primeiras criticas ao iluminismo kantiano dentre outros. A verdade há pelo menos dois séculos não é questão. Já se convenceram os filósofos continentais de somente há verdades particulares. Nenhuma geral. Se não há uma verdade, não há mentira. Melhor pensar em consistência e inconsistência. Há muitos outros modos também de pensar, mas nosso espelho refletia assim.

Não era um arguto leitor de Schopenhauer, nem de Marx ou Freud. Nunca lera Nietsche, Proust ou Dostoievski. Era perspicaz em Machado de Assis e Fernando Sabino. Desconfiava das aparências como se fosse um apostolo de Sócrates ou Platão. Por ser um moderno precisava ter a mente alargada. Não podia acreditar na busca pelo verdadeiro, pelo real.  Mas podia buscar similaridades, verossimilhanças.

Nunca pensar em escrever um livro até ser necessário. Era necessário, mas e a preguiça? Internou-se voluntariamente numa casa de repouso por um ano. Não foi muito útil: o paradoxo não lhe saia da cabeça. Incrustrado numa pedra como o lodo ou o mofo nas paredes. Saiu de lá sem dinheiro. Gastara sua fortuna fugindo do inevitável. Agora além do suplicio mental precisava escrever para ganhar algum.

Lançou um livro que logo se tornou um acontecimento. Um sucesso de crítica. Quase não vendeu. O livro era bom demais para ser devorado rapidamente. Não era um fastfood. Ficou miserável. Morou um mês nas ruas. Mas sua rara sobriedade o salvou. Conseguiu um emprego de provador de cachaças. Tinha avaliações muito sinceras sem medo de errar. Até porque não acreditava no falso.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

Despachante ou Matopiba

 


Cobriu todas as linhas porcamente, mas foi magistral no seu limite. Conferiu todas as entradas. Foi mais uma alfandega que um cônsul. Conhecia seus limites. Não bem os limites dele, mas os limites pelos quais se sentia responsável. Seu lugar no mundo não era uma tríplice fronteira, mas quase uma. Também não era um lugar particular como o triangulo mineiro com aspirações de ser um estado ou lugar particular que dentro de Minas Gerais não quer ser Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro ou São Paulo, nem dono de Guarapari. Tampouco interior de Minas. Muito menos Goiás.

  Felizmente seu posto não era no triangulo mineiro nem no País Basco. Era um mero despachante no Matopiba, região imaginária entre o Maranhão, o Piauí, a Bahia e o Tocantins que faz divisa com todos eles. Mas não ao mesmo tempo. Tem divisa entre Piauí, Maranhão e Tocantins. Tem divisa entre Piauí, Bahia e Tocantins. Mas não tem divisa entre Maranhão, Bahia e Tocantins. A região contigua só existe no Tocantins. Do outro lado há descontinuidade.

Divide-se entre duas vias: a Transbrasiliana e a Ferrovia Norte-Sul o escoamento da produção. Uma de forma majoritariamente interna, embora possa ir pra portos de Santos e Paranavaí: a BR-153. A ferrovia majoritariamente para exportação através de portos no Maranhão e no Pará. A terceira via não veio. A Leste-Oeste passa por Goiás. Todas as movimentações foram em vão. Terceiras vias são quase sempre utopias. Você tem plena escolha entre o pior e o menos horrível. O Matopiba imaginário teria a mais moderna agricultura e inúmeras vias de saída. Na realidade, monocultura de exportação e pecuária extensiva. Pouca, quase irrisória industrialização.

O Estado passou o planejamento para a iniciativa privada como fosse uma única e unificada e não variada e contraditória. Os interesses diversos não conseguem ser estruturados de modo a se tornarem factíveis. É um projeto que não é projeto. Aliás nunca foi um projeto e ele ali tentando estruturar um caminho. Um trabalho difícil pra qualquer diplomata com a estrutura de estado atras de si. Para ele muito mais como um mero administrador, um despachante sem nenhuma estrutura para lhe apoiar.

O Brasil copiando o Brasil. Multiplicando a si mesmo em cada pedaço de si. Parabéns Matopiba!

terça-feira, 23 de junho de 2026

Suicídio programado

 


Pé ante pé se aproximou do quarto como alguém que assalta o frigobar. Doninha estava na cama toda derramada. A felina fingia dormir como uma leoa disfarçando a ameaça para abocanhar as previdentes hienas. Quem teria um filhote de jaguatirica como animal de estimação, desculpa, membro da família?

Doninha deveria estar lá fora, mas chovia geladeiras. Não choveu tanto nem no diluvio, pensava nosso personagem que não acreditava em Noé. Viu o buraco na tênue porta de mdf com uma finíssima chapa de aço ao fundo. Esta, a chapa, estava amassada, mas não suficiente para um pequeno felino passar. Alguém tinha aberto a porta. Seria ele um sonâmbulo?

Tinha saído do campo quando cercado pelos vizinhos foi obrigado renunciar a sua ultima rocinha à medida que era progressivamente impingido a vender sua terra para os vários vizinhos que na verdade eram um. Suas terras eram as mais planas. Estava cercado de montanhas. A erosão praticamente adubava suas terras. Achou estranho quando as terras das montanhas foram progressivamente compradas por mineradoras. Ao que sabia não tinha ouro, nem prata na região, tampouco cadmio ou ferro.

Quando começaram a tornar sua terra inacessível. Quando o aprisionaram em suas próprias terras soube que mais cedo ou mais tarde perderia seu quinhão no mundo. Mas era teimoso, excessivamente teimoso. Nenhuma mula era mais teimosa que ele. Ficou lá, foi vendendo as fronteiras das terras por sobrevivência. Até que sobrou somente sua cabana e sua horta pra vender.

Doninha? Doninha o acompanhou. Veio escondida em seu quase caminhão. Dessas caminhonetes cm motor de maior torque. Sua única companhia. Não escolhida. A mulher se separou e casou com um ex-vizinho menos teimoso. Desses que vendeu as terras nas montanhas para a empresa que viria a comprar tudo. O filho e as filhas casaram com gerentes e contadora da empresa.

A primeira vez que viu Doninha foi quando descarregou o veiculo e viu acuado num canto quase um fóssil. Pensou em reestabelecer a onça e chamar o IBAMA. Mas quanto mais cuidou do animal, mais se afeiçoou a ele. A jaguatirica foi ficando como uma espécie de seguro. Ela iria crescer e um dia seria seu fim seguro. Um suicídio programado. E se a jaguatirica se afeiçoasse a ele da mesma forma que se afeiçoou a ela? Seria apenas mais uma decisão errada na vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Pseudopoeta

 


Deu dois passos a frente e caiu desmaiado. Por pouco a cabeça encontrou a cama. Um belo galo se formou. Não era nada. Tinha uma granja inteira de galos na cabeça. Agora precisava avaliar. Fazer um novo check-up que não daria em nada, nenhuma alteração.

Não dormia na parte de cima da treliche. Um beliche de três andares. Também não dormia na de baixo com medo de que os outros andares caírem sobre sua cabeça. Não, não era um gaulês. Não tinha medo da queda do céu. Dormia desconfiado. Até o sono rem abria os olhos de quinze em quinze minutos esperando uma tragedia ou comédia.

Acordou. Tomou um belo café. Exagerado mesmo. Talvez fosse a sua única refeição do dia. Tinha que percorrer inúmeros setores pra conferir para o censo do IBGE. Era andar horas em local afastado, vazio e inóspito verificando os mapas e os percursos a ser feitos pelos recenseadores e também os nomes das ruas.

Era preciso percorrer uma ultramaratona sem correr num prazo de dois ou três dias. Queria fazer em um dia e meio. Tinha outros compromissos. No segundo dia ao terminar a conferencia comeu um churro antes de ir na única psicóloga que teve. Desenhou e escreveu sua vida.

Dali pra frente poderia trabalhar num escritório perto de casa com grandes companheiros até pelo menos final do ano. Embora estivesse na maior parte do tempo preso a uma mesa, aquilo lhe dava muita mobilidade, pois poderia ir e vir muito fácil no espaço entre a casa e o trabalho.

Observou cuidadosamente os hábitos e comportamentos. Pode transmutar em lirismo barato. Nenhum cântico, nem mera poesia. A prosa não veio. Veio sangue pulsante em todas as letras dispostos a dar a vida a qualquer blasfêmia literária.  Descobriu que a poesia não colore a vida. A vida desenha a poesia. Concretando toda ilusão, solidificando os sonhos não como futuro, esperança, mas como presença.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Diplomacia

 


Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava recuperar a força daquela conurbação toda na sua mente. Passara dias negociando as realidades kantianas com as ilusões hegelianas. Tentando tornar a convenção kantiana algo mais substancial com ajuda da imprevisibilidade hegeliana. A soma de incontáveis fatores desconhecidos é pretensamente conhecida e sempre errática.

Quase não acordou se não fosse uma forte explosão próxima ao seu ouvido. Quase queimou sua face. Não convinha acreditar em pazes mal construídas. Também nas bem costuradas. Já sabia ser impossível a paz perpetua, mas acreditava fielmente os seus princípios. Era simulando usar a razão que negociava as querelas. Sim, porque a razão é a convenção. É o que todos fingem ter, embora nem as almas mais racionais usem prioritariamente.

Precisava tomar logo seu café com bolachas água e sal pra começar o dia que como sempre seria longo. Nunca esteve à frente das negociações. Era uma espécie de secretario, um assessor, que embora não atuasse construía todo o arcabouço necessário. Não tinha a etiqueta suficiente para ser comissão de frente da escola de samba, mas tinha autoridade para ser mestre da bateria para ditar o ritmo.

Não tinha tempo para almoçar mais uma vez, mas sabia que o dia passaria agitado ou não, não importa. Chegaria a profunda noite para colocar a cabeça no travesseiro e resistir a uma avalanche de pensamentos. Desmaiar de exaustão e torcer para acordar vivo na radiante manhã. Era preciso confeccionar os diplomas dos acordos multilaterais e consolidar as alianças. Por traz dos corpos diplomáticos a tal diplomacia.  

 

Uruguaio

  Vou pro Uruguai, disse-me ele. Não há país mais estável no mundo. Lá tanto faz votar na direita ou na esquerda. As diferenças são marginai...