Todo começo de ano é a mesma coisa: malditamente a esperança começa a dominar o mundo com suas promessas maravilhosas. Nenhum problema se a coisa funcionasse dentro da concepção política de Hannah Arendt onde é preciso prometer, mas também cumprir para ter credibilidade para a próxima promessa. Política para Arendt tem um mecanismo, uma ação primordial que é prometer. É a promessa que cumprida leva a promessa seguinte que move o seu mundo.
Mas,
inoportunamente as promessas são maquiavélicas, simples meios economicistas
para finalidades maiores e quase nunca se cumprem, pois a finalidade não é
nunca o cumprimento da promessa, mas acalmar, entreter, desviar a atenção para
possibilitar a implantação do desagradável. A esperança imobiliza as pessoas
com o seu canto de sereia, uma promessa de glória sem esforço.
Creio, que por
mais dolorido que seja, é preciso instaurar a desesperança geral e absoluta, o
ceticismo profundo. É preciso não esperar nada porque como diz o grande
filósofo de bar João Babão: "de onde mais se espera, não vem nada. De onde
menos se espera é que não vem mesmo, mas qualquer ação ou resultado que vem de
onde não se espera, é uma boa surpresa. Um resultado esperado é no máximo uma
decepção".
Andar pela
vida sem nada esperar, é um tanto desesperador, mas costuma gerar menos
decepções e mais surpresas positivas. Por isto, mesmo sofrendo por vezes desse
mal, procuro logo me vacinar, pois foi nada menos que o grande pensador
italiano Antonio Gramsci que aconselhava ter um “pessimismo da inteligência,
otimismo da vontade”, isto pensar esperando o pior, mesmo desejando o melhor,
se consigo assim explicar o que Gramsci resumiu. Em suma, o pessimismo está
longe daqueles que querem o pior para o mundo, mas é metódico para aqueles que
não desejam se surpreender com expectativas ingênuas.
É bem verdade
que a ingenuidade já fez muita coisa por esse mundo e por nós quando
acreditamos que o impossível era fácil, ou que não existia impossibilidade. Mas
o pessimismo, lido sobre uma ótica crítica e até cínica, parece muito mais
otimista que qualquer otimismo. Artur Schopenhauer, o pai do pessimismo se
referia ao nosso mundo como "o pior dos mundos possíveis". O pai do
otimismo Leibniz afirmava o oposto: "o melhor dos mundos possíveis".
Se o nosso mundo, na existência de outros, é o pior possível, então existem
outros ainda melhores. Isso pra mim é o mais exaltado otimismo. Leibniz, ao
contrário, nos condena a nunca conhecer realidade melhor. Portanto questão de
pessimismo metódico.
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