Eva viu a uva. Eva era viúva. Colhia a parreira. Se esperneava com a chuva. Resistia longos dias a breve sol. Repelia os insetos com tabaco. A molecada roubava a fruta e como abelhas espalhavam a notícia: as uvas doces de Eva. Todo mundo queria: uns pra chupar, para azedar ou plantar.
A uva de Eva
era muito desejada. Espalhada num prato ou fermentada em uma garrafa. Eva não corava.
Eva cobrava. Muito respeito pelas suas uvas. As trouxera de longe. As adaptara
ao clima maniqueísta da região: ora muito quente e úmido, ora muito frio e
seco. Muitos diziam que as uvas de Eva eram dez por cento jaboticaba. Uma ideia
cem por cento jaboticaba porque são de famílias completamente diferentes: Vitaceae
e Myrtaceae.
Aliás essas eram apenas uma pequena amostra das variadas ideias jaboticaba. Diziam que a viúva tinha matado o marido para irrigar com sangue a sua vinha. Besteira: o marido morreu na guerra por causa de um estilhaço que gangrenou sua perna e por outras consequências de sua diabete mellitus. No entanto, sim o moribundo havia deixado duas bolsas de sangue que diluídas em uma quantidade abissal de água irrigou as parreiras. Eles acreditavam em homeopatia.
O moribundo
acreditava ser filho de Deus de uma maneira pouco eclesiástica. O sangue de um
irmão dele era transformado em vinho todo domingo. Resolveu dar o sangue, ou um
pouco de seu sangue sagrado, por suas parreiras. A viúva não acreditava nas
ideias limítrofes de seu marido, mas...
Passava o dia
a atirar sua espingarda de sal para espantar pássaros e rezar suas novenas. Mandou
construir uma capelinha no fundo do terreno, até invadindo besteirinha do vizinho
de fundo, para Santa Doroteia de Cesareia, uma santa da Capadócia. Toda sexta-feira
um dominicano rezava uma missa lá pras pessoas da quadra. Depois podia ganhar
dois ou três cachos da uva de Eva. Não mais.
Eva ainda não morreu. Talvez vá pro céu. Talvez pro inferno. Talvez vague indefinidamente no purgatório. Eva sabe salgar a terra. Não passa o segredo pra ninguém. Já questionaram o padre, o bispo e o arcebispo se ela pode voltar desses lugares para continuar salgando a terra. Esse é o mistério que nos interessa. Será que se contrariarmos sua vontade e a enterrarmos junto às parreiras e não no jazigo da família ela continuaria a salgar? Ou pararia por estar contrariada? Isso é que interessa.
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