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terça-feira, 12 de maio de 2026

Bicho-do-mato

 


“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vida, decididamente, não era contar histórias. Era ser tragada por acontecimentos. Ele se precavia o quanto podia para não cair em armadilhas, mas elas estavam ali bem camufladas. Se não fosse ele, outros cairiam. Não caia por querer, mas se comprazia de evitar que outros caíssem desavisados. Não conseguia evitar as quedas dos outros, por óbvio, mas não eram vítimas desavisadas.

Dos imprevistos suas incontáveis estórias. Quase não precisava as enfeitar. A maioria brilhava por si só. Não sentia orgulho nenhum em contar as estórias. Não eram aventuras, histórias meritórias. Eram simples acontecimentos, desventuras. Nada sistemático. Tudo anedótico. Não desejava compartilhar. Seu intuito era desabafar. Não poque as histórias o afligissem, mas eram muitas, excessivas, pesavam.

Procurava alongar ao máximo as atividades para não narrar seus causos. Tudo o que podia fazia com a máxima paciência. Mas sempre era interrompido para que contasse uma estória. Fazia o possível para ignorar os primeiros pedidos, o que tornava tudo mais precioso. Algumas vezes ao perceber isso, fazia o contrário: insistia pra contar uma história com o desejo de fulanizá-las. Não adiantava tinha um dom saboroso de saber narrar.

Não conseguia sentar num bar ou restaurante sem reunir um bom grupo a sua mesa. Sem agrupar muita gente, sem conturbar o ambiente. Se tornou muito difícil frequentá-los. Não era um astro ou uma estrela, mas tinha um excesso de seguidores, não fãs, mas interessados nas estórias. Foi se tornando ríspido, tido como mal educado por se recusar a contar histórias por exemplo quando estava num banheiro de bar. Indelicado quando se recusava a falar de boca cheia.

Começou a levar a família para acampar no mato cada vez mais regularmente. As pessoas começaram a achar ele um bicho-do-mato. Até que se convenceu de que era isso mesmo. Era um bicho do mato. Lá tinha privacidade com a sua família. Conseguia almoçar e jantar em paz. Brincar com os filhos. Namorar a esposa. Deixou suas histórias impressas num livro na biblioteca da cidade para qualquer um ler. O livro foi muito pouco retirado. Não era tão bom escritor como era contador de estórias. Assim acabaram deixando-o em paz.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Àgua de cachoeira

 


Queria não estar ali. Desejava a estabilidade da estrada. Ousava sonhar com o som do silencio. Meditava cada passo dado. Desejava em cada espasmo um descanso. Era afligido por novas duvidas toda vez que não refletia um novo conhecimento. De modo que quando não tinha algo novo pra pensar o novo nascia.

Alguns chamariam isso de história. Ele denominava de tormento. Alguns poucos pensadores de vida ativa. A maioria de ócio, de vida meditativa. Ele malhava sua mente com maior fervor que qualquer bodybulding desses habituais. Alimentava o seu pensar com disciplina e compasso. Lia compassadamente e ordenadamente os livros conforme os entrelaços que foi encontrando. Juntando referência a referencia foi solidificando as suas.

La estava ele sentado num bar depois de ter descarregado os vagões do dia no porto seco. Seis horas contiguas sem descanso. Breves pausas para beber a água do cantil amarrado â cintura. Tomava suas duas doses da branquinha para ir para casa pensar no escuro por pelo menos quatro horas até dormir.

De manhã tinha seu prêmio. Comeria suas frutas, seus cereais como trigo, arroz e milho. Uma xícara lotada de café. Ainda faria algum alongamento antes de caminhar até o porto antes do sol sair. No porto repetitivos movimentos como se fosse uma maquina de descarregar ou uma linha de montagem. Entendia perfeitamente aquele taylorismo. Pensar era sua fuga daquela ordem toda. Seu pensamento era como água de cachoeira a contornar as pedras para fluir.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Globalização

 


Sentado no banquinho ficou. Pretendia sorver a água da cabaça com uma lentidão homérica, como quem se afoga com gotas. Tinha percorrido quilômetros sem descansar entre Maranhão, Tocantins e Pará. Atravessou cerca de doze cidades no caminho e viu dois biomas e e um sub-bioma: mata dos cocais, cerrado e amazônico. Chegou onde em poucos passos atravessaria pro Mato Grosso ou para o Amazonas.

Ficou ali esperando uma van para voltar ao bico do papagaio. Estava acostumado a cruzar fronteiras. Morava num lugar onde em cinquenta ou sessenta quilômetros pode passar por três ou quatro municípios. Vinte quilômetros bastam para passar por três municípios. Esse era o conceito de interdependência: nenhum município vivia sozinho. A indústria, o comercio e mesmo a administração publica não subsiste sem essa interrelação.

Cidades dependiam das outras desrespeitando fronteiras municipais ou estaduais. Cidades fronteiriças de estados diferentes estados muitas vezes eram mais ligadas entre si que cidades do mesmo estado, mesmo vizinhas. Desse modo foi criado um circuito, embora muitas pessoas andem pouco, em que as pessoas circulam constantemente entre vários municípios trabalhando como uma aranha a traçar redes.

Essa interdependência faz com cada município se torne uma parte de uma grande indústria e o produto necessite de circular para ter todas as partes, ser completo o quanto pode ser. Isso liga as regiões, os municípios, as pessoas. Todos são relacionalmente necessários. A mundialização recebe muitos empecilhos atualmente, mas essa e outras regiões são a prova de que o mundo pode ser um e limites não precisam ser valas ou muros.

domingo, 3 de maio de 2026

História

 Tolstói tem uma definição para a história e nem só para a história que merece reflexão tranquila e calma:

"Uma abelha pousada numa flor pica uma criança e a criança receosa passa a afirmar que o propósito da abelha é picar os homens. O poeta admira a abelha que se oculta na corola da flor e pretende que o seu fim é assimilar-lhe o perfume. O apicultor, observando que a abelha extrai o pólen da flor e o transporta para a colmeia, pretende que o seu fim é fabricar mel. Outro, que estudou de mais perto a vida da colmeia, afirma que a abelha colhe o pólen para alimentar as abelhas mais novas e criar a rainha, tendo como propósito a propagação da espécie. O botânico observa que, voando com o pólen de uma flor masculina para uma flor feminina, a abelha fecunda esta última: vê nisso, por seu turno, o papel da abelha. Outro, observando as variações das plantas, vê que a abelha contribui para elas e afirma que nisso consiste o seu papel. Mas o fim principal da abelha não se esgota em qualquer dos fins particulares que o espírito humano alcança. Quanto mais alto se eleva o espírito humano na descoberta do fim, tanto mais evidente se torna para ele o caráter inacessível do derradeiro fim. O homem pode apenas observar a concordância da vida das abelhas com os outros fenómenos da vida. O mesmo acontece quanto à penetração das razões últimas dos factos históricos relativos tanto às personalidades singulares, como aos povos. *** A história tem por objeto a vida dos povos e da humanidade. Mas aprender sem intermediário, abranger por meio de palavras, em suma, descrever a vida não já só da humanidade mas de um único povo, pode afigurar-se tarefa impossível.” (de “Box Grandes Obras de Tolstoi” por “Lev Tolstoi”)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quebra-cabeças

 


Josué acordou assonado como se tivesse dormido muito. Pior que não tivesse dormido. Estranhou não sentir nenhuma dor no corpo. Sem duvida não ficara deitado o suficiente para revelar os incômodos. Por outro seu estomago estava só osso. Precisava comer alguma coisa leve. Quem sabe um pão sírio sem nada ou com um pouquinho de mel só pra forrar o estomago e aí poder ingerir coisas mais elaboradas, mais acidas ou mais básicas.

Trabalhara incessantemente com Javascript e html. Poderia ter usado linguagens mais elaboradas, mais fáceis, mas adorava aquele quebra-cabeça.  Um flash ou sql viriam bem. Phyton seria muito útil.  Mas gostava de encaixar pouco a pouco sua montagem. Gostava de ter sobre seu domínio cada etapa. O que construía não era grande coisa, nada elaborado, mero exercício de criatividade. Estava apenas provando a si mesmo que conseguia.

No meio da semana se dedicaria a calmamente montar seus quebra-cabeças recém-chegados de dez mil peças. Não tinha a menor pressa. Passava alguns minutos a pensar. Juntava umas dez ou vinte peças. Saia pra dar uma volta ou tirar uma soneca e só então voltava lá nas mesas da sala pra montar mais pedaços. Só mesmo nos finais de semanas é que dormia muito pouco enfrentando desafios mais difíceis.

Tinha sido durante toda a vida um exímio e aborrecido contador. Tinha uma vida muito enfadonha. No fundo não agrava ninguém. Nem seus clientes, nem o governo. Pois sempre arranjava uma coisa entre a norma e a conveniência. Sabia esticar os limites, mas sempre havia uma norma. Os governos queriam arrecadar muito e os clientes pagar nada. O segredo sempre estava nos detalhes. Ninguém está atento a todos todo o tempo. Sabia ele e seus clientes que sempre poderia fazer melhor. Detalhes muitas vezes fugiam.

Estava treinado a trabalhar com máxima paciência e cautela. Por isso se especializara em montar quebra-cabeças. Muitas vezes clientes queriam quebrar-lhe a cabeça. Ele também sentiu a vontade de quebrar a de uns dois ou três. Bom... o que fazia agora era muito melhor que administrar os conflitos financeiros entre contribuintes e a burocracia. Podia montar tudo, construir em seu ritmo, sem interferências.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Tubarão

 


Nasceu arfando como se tivesse morrendo. Tomou um ar e prosseguiu. Chorou como se não houvesse amanhã. Esta era sua vida, negociar. Nunca aceitava a primeira proposta.  Se divertia trucando e retrucando. Nunca mostrava suas cartas. Nunca desistia, mas se por acaso a outra parte desistisse manca saberia das cartas. Se aceitasse também. Havia um certo fetiche em conhecer suas cartas as quais nunca seriam mostradas. Poderia nem as ter.

É verdade que boa parte da infância até a adolescência acreditava-se que tinga asma, nunca plenamente comprovada. Alguns diziam que era ansioso. Pelo adulto que se tornou pouco provável. A paciência exibida para conseguir os melhores negócios não seria possível para alguém angustiado. Seria manha? Dissimulação pura provavelmente não deveria ser, mas artimanha essa poderia.

Era mestre nas regras não escritas. Talvez doutor. Conhecia os costumes de cor como ninguém. Sabia dar nós em pingos d’água e faze-los cair quando ainda não existiam para então manuseá-los. Sabia que convencer a contraparte que ela que desejava negociar. Não ele. Criava dificuldades para vender facilidades. Não visitava as pessoas. Não as queria incomodar. Elas que importunassem a ele.

Uma vez espalhou o boato de que estava endividado e que precisava vender algum imóvel para se estabilizar. Foi um chamariz para o melhor negócio que fez na vida. Precisava atrair um cliente fora de sua alçada, um tubarão. Para atrair um tubarão precisava espalhar o cheiro de sangue. Então atraiu este acreditando que iria fazer rapinagem. Que tomaria vários imóveis de alguém que não tinha saída. Precisava tão somente a oportunidade de conversar para prender o tubarão em sua rede de aço inoxidável.

Infelizmente não pode mais repetir a ação. Precisou inovar nas ações. Mas já tinha feito fortuna e só precisava manter o fluxo das contas. Agora era um tubarão que só precisava estar atento para devorar os peixinhos que a mare leva a ele. Não precisava mais nadar por aí e seduzir presas. Era só pegar o dinheiro e fazer render em aplicações finanveiras. Podia até fazer maus negócios e recuperar nas aplicações. Mas por honestidade nunca faria um negócio ruim na vida. Tinha uma vida tranquila.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sedentário em exercício

 


Pesou a mão na pedra, pesou na perda de tranquilidade. Caminhava por aí como quem desejava parar a qualquer momento. Não seria uma pausa, um descanso. Mas um destino, algo permanente. Armaria uma rede em dois coqueiros e dos cocos caídos beberia a agua. Não morava perto da praia ou de uma plantação de coqueiros.

Morava numa conurbação de várias cidades. Fora das cidades, o cerrado, pouca mata. Sempre que podia escalava os pirineus. Escalou uma vez quando pode ir a França. Como não podia, subia e descia as ladeiras de Pirenópolis. Sempre ficava amargurado e feliz após suas longas caminhadas. Amargurado pela perda de tempo e feliz pela reação química provocada inadvertidamente pelo exercício.

Também ampliava a felicidade poder parar e beber água de coco ou garapa antes de caminhar pra casa onde encontraria problemas e soluções. Mas soluções do que problemas porque seus quebra-cabeças de três mil, cinco mil, dez mil peças estavam quase todos montados. Passava horas do dia em frente a um homebroker comprando e vendendo ações e moedas. Especulando sobre o filme que veria a noite de dormir.

 Se tivesse tempo abriria a academia mais cedo pra treinar bastante as pernas e só o necessário os braços. Tomar um café na padaria da esquina antes de chegar em casa. A velha média com pão com manteiga na chapa. Talvez algum pão de queijo. Assim passava o tempo sobre ele aumentando sua segurança e decrescendo sua vitalidade. Não que não tivesse noção do tempo, mas se auto-enganava.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Destino

 


Cercas são cercas, não delimitam nada, não são fronteiras. São meros empecilhos. Não são nem muros. São meras redes a prender quem quer ficar. O arame farpado é uma mera agressão. Não proíbe nada. Apenas te agride e deixa ir. Ele sabia que a realidade era abarrotada de porcos-espinhos que nem cercas de arame farpado são.

Bastava fugir deles, abrigar-se sempre que possível na solidão. Não porque acreditava ser sábio como Nietzsche ou Schopenhauer. Não fugia dos tolos porque era impossível se comunicar com eles, mas fugia porque eram muito ferozes, agressivos. É preciso de abrigar ou usar escudos num mundo cheio de porcos-espinhos.

Ganhou com isso muita reflexão. Pode remoer, ruminar o pouco que observava repetidamente. Lapidar varias pedras preciosas, semipreciosas e comuns. Pode além de saber quase conhecer as coisas. Só não conhecia porque as coisas não tem essência. Não há coisa em si, existem as coisas das coisas, os trens do trem.

Percebeu que o mundo fora de si era inteiramente superficial. Formado por impressões. Quando mais profundo cheio de anseios, sentimentos e desejos. Um mundo fenomênico para cada um. Meras banalidades. Gente discutindo se a banqueta quebrada era uma banqueta ou lenha para a lareira. Obviamente era madeira. A forma dada a esta definia seu uso. A discussão era inútil? Não. Inteiramente válida. Mas não há discussão, somente agressões.

Pessoas cheias de certezas e vazias de duvidas mergulham num fundamentalismo e quando cheias de esperança e na fé gerada por ela num fundamentalismo messiânico. A desesperança também pode gerar um messianismo, mas dificilmente gera e não gera fundamentalismo porque ela é negativa, nega um fundamento, acreditando ser qualquer outro sem geralmente delimitar qual.

Nesse mundo o eremita passeia sensível a tudo, mas sem se influenciar pois duvida de tudo. Atravessa os caminhos, comendo quando dá. Bebendo o orvalho. Sonhando com qualquer chegada, que nunca chega, não é esperança porque andar é seu destino, não chegar. Então o eremita vive. Não passa a vida esperando viver. O eremita não é um grego antigo, não acredita em destino.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Coletivo

 


Ele era todos. Mas todos não eram ele. Foi sempre um ser coletivo. Passou a infância nas ruas. Não porque não tivesse casa. Tinha. Morava numa mansão com kitnet no fundo para cada família de colaborador(a) da casa. Vinha desde a nascença de um universo de nunca estar sozinho. Sua vida era estar entre no mínimo duas ou três pessoas.

Aprendeu desde cedo estar sempre entre pessoas. O que lhe servia muito para o futuro que até então ignorava. Logo que pode dar os primeiros passos fora de casa percebeu como o ambiente domestico era opressivo. Até então o mundo lhe servia. Decidiu servir o mundo. Foi para as ruas conviver com as mais diferentes pessoas.

Decidiu trabalhar nas mais diferentes atividades. Não precisava do dinheiro. Já tinha o bastante para sobreviver mais umas duas ou três vidas. O primeiro oficio foi de engraxate nas praças. Queria ouvir as pessoas, conhece-las. Não havia um oficio melhor que esse para isso. Nem o de barbeiro. Passou uns dois ou três anos conhecendo as comunidades da sua cidade. Depois foi ser estivador no porto para conhecer a interação dos de fora com os seus. Também foi vários tipos de vendedor: foi ambulante, de loja, visitador e atrás de um computador na internet.

Passou a estudar mapas e conhecer as ruas. Aprendeu que o ambiente convenciona as massas, multidões, nem tanto as pessoas. Havia um negocio perfeito para cada localidade. Tão perfeito que logo faliria. As interações que dão certo são sempre imperfeitas. Poderia ser um analista ou um espião por sua variada e extensa rede de contatos, mas parecia mais integrador de informações. Trabalhava incessantemente para desatar os nós em pingo d’água.

Aprendeu a jogar e devolver com uma desenvoltura de maquina de bolinhas de tênis, mas sempre devolvendo na zona melhor para a recepção. Ou de outro modo se tornou uma rendeira de máxima categoria construindo redes com destreza e cuidado. Ora reconstruía fios, ora tecia os fios necessários. Aprendeu a não ligar o desnecessário. Unir apenas as extremidades possíveis. Alienando e isolando as estragadas até serem recondicionadas.

Entendeu que civilização é a opressão das individualidades pelas regras mínimas de convivência. Que comunidade é a aceitação que todos diferentes somos um único conjunto e que as diferenças são meros cosméticos, tonalidades de um mesmo quadro. Uma não exclui a outra. Quem se exclui das regras continua incluso nelas. Mas quem se exclui da compreensão deve ser excluído da comunidade.

Soube que a sociedade é a união de pessoas que estão preparadas para esfaquear asa costas do sócio. Que se contrato fosse bom, não haveria clausulas de punição por quebra do mesmo. Desse modo só acreditava em comunicação, em ética em contraponto a moral. Em anarquia, pois as pessoas tem direito de discutir e agir conforme suas próprias consciências fugindo de toda opressão possível. Só o respeito a todos torna tudo coletivo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Vaidade

 


Lavou as pernas. Tinha atravessado pântanos imaginários e reais. Acreditava estar com lodo nas canelas, mas sabia que a altura da lama poderia ser até o pescoço. Não era uma areia movediça. Preso naquele quarto cercado por espelhos nos seis lados enfrentava seu maior inimigo, seu único opositor digno.

Bastava abrir a porta e sair, mas os espelhos... eles refletiam a imagem que mais amava e mais temia. Precisava sair dessa encruzilhada. Resolver o dilema.  Ir para casa e depois pra academia ou ir para academia e depois pra casa. Era tudo questão de andar. Poucos metros até o prédio e lá academia num andar, apartamento em outro.

Nunca admitira a vaidade. Achava que mostrar o extremo auto-apreço era falta de humildade. E ele tinha a certeza que era senão a, uma das pessoas mais humildes do mundo. Embora soubesse que a beleza abre portas e as entradas de shoppings e comércios se abriam para ela, dizia que eram portas automáticas mesmo sabendo que no fundo nem precisava que fossem.

Seu edifício era simples, comum. Não comprava coisas de marca, coisas famosas. Não ficava bem se exibir dizia. Provavelmente a verdade é que não queria distrações, algo que concorresse consigo. Não queria chamar a atenção por algo que não fosse orgânico dele. Seu lema era a simplicidade, humildade, modéstia, embora fosse o poço extremo da vaidade.

sábado, 4 de abril de 2026

Latifundio

 


Nadou, nadou e não saiu do lugar. Um redemoinho de terra as pessoas da cidade grande não veem no centro antigo da cidade. Não tinha uma duna de areia pra nadar. Pouco sinalizavam aqueles coqueiros exóticos onde estavam. A meio quilometro dali um canavial. Terra preta, muito boa. Muita calagem.

Era um deserto de gente aquele espaço. Uma comunidade de maquinas. Colheitadeiras e plantadeiras dos mais variados tipos. Uma pequena casa de paredes grossas cheia de fios a entrar e antenas a sair. Lá dentro uma ou duas pessoas. Cinco pessoas se revezavam pelo mês para coordenar a modernidade.

Robusta refrigeração quase frigorifica obrigava o uso de vários casacos intensamente revistados na entrada a na saída. Chuveiros químicos nas saídas monitores infravermelhos e raios-x. Vigilância aguda por vídeo vê todos/todas desnudos/desnudas. Clausulas que praticamente anulam os direitos dos funcionários sobre os próprios corpos. Biopolítica na veia.

Todos muitíssimo bem pagos com direito a micro moradia da mais alta qualidade e automação intensamente monitorada com limpeza automática da casa, das roupas, geladeira sempre completa por automação, televisão com todos os streamings. Mas do trabalho até a casa nenhum acompanhamento, nenhuma segurança, um vazio.

Não era comum, mas vez outra acreditavam que algum deles tinha morrido. Evitavam criticar a empresa. Eles próprios não se conheciam. Nem mesmo as equipes atuam juntas no trabalho. Está cada um em seu segmento. Mas não importa: não podem se prender a conjecturas, suposições.

Melhor seguir a vida e não se prender a teorias da conspiração. A empresa garante a segurança deles tanto no trabalho como em casa. O percurso embora dentro dos limites do latifúndio (cada um vai para seu canto) não é responsabilidade da empresa. Se for o caso de morrer já teriam vivido uma vida muito boa.  Trabalhavam um dia e folgavam dois nas casas da empresa. Só podiam sair de lá nas férias a cada dois anos por quarenta e cinco dias. Quinze eram comprados. Embora fosse ilegal todos topavam. Não queriam perder seus ótimos empregos. Ou talvez até algo mais como se podia ouvir a boca pequena.

Tudo teoria. A única coisa certa é que ao morrer seriam cremados e suas cinzas seriam usadas para calafetar a plantação. Continuariam sua eternidade por ali já não mais, nem teoricamente, donos de si. Estariam plenamente integrados seriam a própria empresa. Não mais empregados.

quinta-feira, 26 de março de 2026

A morte lhe cai bem

 


Houveram outros. Sim, sempre houveram outros. Mas dessa constatação ela passava. Criara do nada a reinvenção sem esse negócio de reciclagem, reaproveitamento.  Talvez fosse algo teatral. Provavelmente nem teatro fosse. Apenas um ato após o outro se tecia o que era bem tecido. Com alguns reveses comuns a vida, mas com contiguidade nas reviravoltas. Era como se as cambalhotas do ginasta fossem em linha reta.

Se a beleza se revelasse nas concavidades ou convexidades do espirito, os vermes queriam mesmo é comer a carne. Malhou incansavelmente na academia para manter os ossos fortes. Tomou sopa de casca de ovo para fixar o cálcio necessário. Botava umas verduras e legumes para dar sabor, mas o crucial era a dúzia de cascas de ovos trituradas no pilão.

Sentia de seu jazigo que sua carne generosa a cada momento adubava mais a terra. Estava se tornando um alimento saboroso para vegetais. Se desintegrava e cada vez mais abraçava a terra. Se sentia plenamente integrada. Chegara a sua plenitude. Os vermes a adoravam. Ninguém na vida olhou para ela com tanto desejo.

Comera vegetais a vida toda. Agora os vegetais desfrutavam dela. Justo. Os minerais? Mineralizou, desmineralizou. Estes eram inertes, mas inúteis que seu ex-marido. Porém mais integrativos. Tão grudentos quanto o falecido. Sim. Assim como todos os minerais passam ou permanecem inertes, impassíveis as interações.

Ela meio que estava ali como um mineral, impassível, mas disponível a toda interação. Inebriada pelas raízes que trançam na sua carne, quer dizer, ex-carne. Assim era seu descanso definitivo, não acreditava em morte.

terça-feira, 17 de março de 2026

Os campos não são saudáveis

 


Atravessar os campos é muito mais que recolher sementes grudadas na meia, na calça ou na bermuda. Não necessita os desvios de transpassar uma floresta. Pode-se estabelecer uma reta sem desviar das arvores, atravessar rios e colher trufas. Dos campos, difícil mesmo é nadar no arrozal ou emparedar os trigueiros. Campos de sorgo são perigosos, envenenados sem ser uma máquina.

Cruzar uma avenida é muito mais temeroso que passar por uma campina. Os lobos não são automotivos. Abocanham, mas não atropelam. Um pedaço a menos, dependendo do pedaço, é muito menos mortal que um amasso. O transeunte não se apaixonará pelo carro ou moto. A dança com lobos é muito mais sensual.

O silencio da cidade grande não é tão sensível como o canto solitário da graúna. Não é tão belo quanto o assobiar da juriti. É um silencio concreto, bruto, formal, um poema concreto. Sem os sibilos, sem ritmo ou cadencia. Pura formalidade. É causa de toda minha ansiedade. Como? Que barulho virá? Serei surpreendido por coisa boa ou ruim? Mais importante: me assustará?

Viver no silencio da cidade é intranquilo. Confortável é amoldar-se a seus barulhos. Acordar com a sinfonia da praga de canindés ou a buzina dos carros na rua. Ouvir aquela confusão infinita de sons que tranquilizam, mostram que a sinfonia é a de sempre. Sim. Pode atravessar a rua tranquilamente como sempre foi: um desafio de vida ou morte. Sentir-se vencedor por ter superado o desafio.

Morar na cidade é derrotar a morte. Temer ser assaltado ou ser refém da maldade mesmo sabendo que quase certamente morrerá atropelado ou numa briga estupida de bar.  Estressar-se com os vizinhos por fazerem justamente o que desejava fazer. Se morasse numa caverna na floresta poderia fazer. Mas as comodidades? Ninguém da cidade quer ficar sem elas. Fazer o próprio mel? Melhor deixar para as abelhas.

As abelhas parecem aquela multidão sem orientação especifica a se cruzar por todos os ângulos possíveis como se tecesse favos de todos os tamanhos. Todos com uma urgência de que da trilha depende sua vida. Cada passo é uma batida que mantem a perspectiva da sobrevivência. Nessa colmeia de zangões homens e mulheres a ansiedade mata mais do que qualquer outra coisa. Impõe-se a pressa. Quase uma pressa de morrer disfarçada de luta pela vida.

Aquele que para e permanece. Indiferente as sensações e impulsos externos é qualificado de espectro autista em vez de são. Sim, há os autistas cada vez melhor diagnosticados, mas existem os monges, pastores de si mesmos que na gritaria decidiram se isolar no próprio silencio como um estado de paz. Quase como um alienista sabendo que todos estão malucos, o são se interna e torce pela própria redenção. Se fugir para os campos para colher trigo e arroz terá o atestado da loucura, pois estes não são pra comer, mas pra exportar em granel. Se dançar com lobos então... certamente demonstrará algum desvio de personalidade, uma tara.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Persona

 


Andava todo dia. Passo a passo. Dobrando esquinas como origamis. Colhia por aí todos os odores. Nem sempre os de jasmim. Quase nunca o de alecrim. Em nenhum lugar o cheiro de terra. Quase sempre um vapor de asfalto nas ruas límpidas. Nas partes sujas do lixo não recolhido nem compensa falar.

Sua vida era um pra lá e pra cá. Cruzando bairro. Fiscalizando cada passo da administração municipal. Tomava café em frente a casa do prefeito. Sobrinho dele era mais austero que a própria oposição. Não fazia discursos. Não atacava o governo. Mas sabia de tudo o que ocorria. Não ignorava os problemas na hora de votar. Combatia os erros do prefeito e acusava as hipocrisias da oposição.

Era o motivo da câmara municipal não virar circo por muito tempo nem por conta do governo, nem por causa da oposição. Era um frustrador. Baixava a bola de todos. Era irritantemente ponderado, metódico e racional. Ninguém entendia como era sempre eleito sendo menos emocional que um boneco de posto. Mas frustrantemente sempre estava por ali. Provavelmente era o medo de quem sabe de tudo.

Assim me contaram. O personagem avaliou que houve muito exagero, excesso, mas me disse que não tinha porque mudar alguma coisa num texto sobre um personagem tão desimportante. Eu não sei se concordo, mas o panorama geral exprime uma veracidade, mesmo que algo em particular não seja tão verossímil.

terça-feira, 10 de março de 2026

A boneca

 


Ritinha era uma boneca muito imperativa, reclamava a dona. Era sempre assim: vista-me, dispa-me, dê-me banho. Nas ordens mais diversas. A voz era sempre da dona. Leve-me para passear. Passeá-la-ei respondia a dona. Devia ser um cacofono ou um cacófato. A dona não tinha a menor ideia do que seriam isso, mas eram nomes bonitos, ela achava.

Era uma boneca muito bela. A mais bonita que tivera.  Ou melhor, que teve. Essa menina sempre me confunde, me azucrina. É uma menina elétrica que não consegue concentrar a atenção em alguma coisa. Só na boneca que muda de ideia toda hora. Estabelece um império de inconsequências. A moleca e a boneca são tão uma só que são indistinguíveis.

É claro, são distinguíveis, mas ninguém sabe quem move quem. Quem é a dona? Quem é a boneca? Materialmente é possível saber quem é quem. Mas desse império quem é a imperatriz? Uma acusa a outra de ser a mandona. Na palavra delas: a mandriona, o feminino de mandrião. Imagino que adotaram a palavra por simpatia por ela.

 A menina gastava sua mesada toda comprando roupas para Ritinha. Era uma exigência da boneca. A boneca era mandriona demais! Nem sobrava dinheiro para comprar um pirulito ou uma pipoca. Mandava fazer os vestidos de alta costura na vizinha no fim da rua, duas casas da sua. Comprava os panos do outro lado da rua. Tinha que chorar muito, rolar, fazer birra pra convencer seu irmão dois anos mais velho atravessar a avenida com ela.

Todo domingo tinha que levar a boneca no parque de diversões, no circo ou no zoológico. Era verdadeiro infortúnio. A boneca escravizava a casa toda nesse dia para realizar seus desejos. Ao final do dia todos estavam estafados, principalmente a dona estirada num estofado. Mas tudo ficava bem porque a boneca estava muito feliz. A dona aliviada por ter dado conta de agradar sua exigente boneca.

Na segunda todos os que podiam estavam felizes por sair da casa para estudar, trabalhar, comprar mantimentos, consertar o carro ou as bicicletas. Tomar uma injeção na testa seria agradável. Mas ao voltar todos estavam muito felizes de ver a menina. A menina era linda, graciosa, educada, carinhosa. O problema era a boneca que infernizava a vida de todos com suas vontades.

Foram varias as vezes que todos tentaram perder a boneca. Mas a menina ficava sorumbática. Parecia que tinha perdido a si mesma. Não era viável perder a boneca sem perder a menina. A própria menina tentou uma vez perder a boneca em um guarda-roupa de outra pessoa. Mas se perdeu completamente. Passou a ficar impassível, não se importar com nada. Nada a alegrava ou entristecia. Se existentes e distintos, era um corpo sem alma ou uma alma sem corpo.

A dona implorou para não dizer que seu nome era o mesmo da boneca. Ela pensava que isso não era coincidência era um fatalismo. O nome determina a personalidade das pessoas? Ela não acreditava nisso no geral, mas no caso especifico dela desconfiava. Será que ao invés de dupla personalidade que ela já ouviu falar uma vez, ela e a boneca sofriam de unipersonalidade? Claro que não! A boneca fazia gato e sapato dela! Apesar de ser incrível como pareciam ser a mesma. Mas não eram. Ela nunca faria o que a boneca faz com ela. E nem a boneca nunca faria o que ela faz com a boneca.

Não tô falando que essa menina me confunde. Melhor terminar por aqui antes de me internar numa clínica psiquiátrica por não entender mais nada com nada. Haja imaginação! Haja surrealismo!

quarta-feira, 4 de março de 2026

Filosofia

 


Nasceu tagarela. Angustiado por pensar demais. Intuía várias coisas e observava no usual o incomum. Via o que praticamente ninguém conseguia observar. Deste modo buscava apoio em conhecimentos já testados para ter alguma entrada no debate. Portanto tornou-se um viciado no silencio.

Quanto mais estudava o pensamento estruturado ou desestruturado de outros mais percebeu sua ignorância e a dos outros. Passou a sentir pena de quem tem certezas. Ao mesmo tempo em que sentia inveja dessa ignorância. Sentia inveja de qualquer ignorância. Procurar o conhecimento para ao acumular saber que cada vez sabe menos.

Cada vez mais entendia Sócrates e desentendia a epistemologia. Desse modo, primeiro intuiu, depois compreendeu que o sábio é que se cala. O que não diagnostica e provoca o próprio interrogante a refletir e encontrar sua verdade particular. A única possível e sem possibilidade de universalização. Era como se a filosofia fosse naturalmente antifilosófica. O pensamento estruturado artificial. Um construto humano.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Filosofia

             Nasceu ali, viveu ali. Não queria morrer ali. Aquele era seu lugar na floresta. Não importa se rural ou urbano. Naquele recanto era indistinto, indiferenciado. Tudo ali era urbano e rural ou nem urbano, nem rural. Portanto, nada importa ou tudo importa. Não que alguma coisa importe ou desimporte.  O que vale é o todo ou a negação do todo.

Ali era possível pensar. Parar, concatenar pensamentos e desdobrar raciocínios. É possível andar sem pressa e perceber as nuances. Ter maior quantidade e qualidade de dados. Uma perda sentida ao sair da ilha para ir ao continente aprimorar as técnicas para processar as informações, conformar os conhecimentos.

Aprender metodologia para tornar universal o que é particular. Ou melhor, perder sua própria língua para conseguir se comunicar. Ela, rapidamente percebeu isso. Todo dialogo é ideológico porque está prenhe de ideias. Possui uma norma bem clara pra ser entendido.  Se muito desrespeitadas essas regras, não há comunicação.

Assim aprendeu a pensar como os continentais, mas passou a usar um antolho como todos eles. Perdeu a pluralidade da visão, embora fosse quase impossível expressá-la para conseguir se exprimir. Deixou de ver tanto as coisas inexplicáveis passou a observar muito raramente e por costume o que não tem nome.

Aprendeu o que é ser um estrangeiro. O que todos pelo menos um pouco são. Mas que a maioria nem percebe ou se auto engana. Linguagem é integração. Também é submissão. O pensamento é colonizado para se tornar universal. E a matriz. A matriz é cada dia mais etérea. As regras estão aí. Mas servem ao nada. Nidificaram.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Esconderijo anônimo

          


            Todo dia voltava à casa que não era sua, mas era. Era uma casa bendita naquele tabuleiro. Quase uma casa de botão. Daqui para ali dois passos, um passo e meio. Parecia um favo com suas complexas ligações e uma sala de estar, ficar ou permanecer central e centenas de espichos em forma de quartos e escritórios. Banheiros sempre pra fora. A entrada ao centro ao descer a escada ou de elevador.

Toda operação subterrânea com os respiradores saindo dos banheiros. Todo o resto climatizado com a injeção de ar pressurizado pelos splits. Uma ponta de raiz ou outra sobrando das paredes. De resto só musgos a proliferar até serem erradicadas pela aridez do condicionamento do ar. Por cima nogueiras e abetos. Grama rala a forrar o chão. Assim versa o bunker escondido no meio da floresta.

              O bunker não sei de quem.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Mórbido ou Vívido?

 


Cavou, cavou e cavou. Não chegou ao fundo. Ninguém nunca chega. Cavar esterco acreditando ser sorvete de chocolate... é sutil, mas as diferenças de consistências... Nem falo do odor. A vida segue e não sobra tempo. Ou melhor, é o que mais sobra depois de ser descartado. Quem muito corre, cansa bem cedo. Não guarda energia para os momentos de maior fragilidade. A morte é a única coisa certa na vida, mas sempre chega de surpresa. Ninguém sabia e ninguém consegue prever o óbvio. Não há valor nisso. O mérito está em ser surpreendido.

Não encontrou a verdade. Mas a verdade estava na cara. Era o obvio. Tava esperando outra? Não se cava uma cova pra comer abacaxi. No cemitério o coveiro come outras coisas e a inesperada sobrepõem-se sobre a não vivida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Demagogia

 


Cresceu naquele distrito como o musgo se apropria da parede. Logo cedo distribuiu sorrisos como qualquer demagogo. O fato de faltar vários dentes o aproximava ainda mais. Distribuía toda a sua simpatia mesmo nas situações mais incomodas como quando estava completamente cagado e mijado e alguns de seus grandes eleitores vinham lhe trocar as fraldas. Pensava sempre neste momento: é preciso manter as aparências.

Aos poucos meses decidiu que era preciso sair de casa. Ingressou numa creche onde pode conviver com vários outros e outras populistas. Disputavam diariamente uma eleição: a de furtar o coração das tias. Tinham uma formação robusta. Precisavam trabalhar arduamente para manter suas bases coesas.

Aos seis ingressou na escola municipal. Poderia estudar num colégio particular, mas como faria proselitismo? Aproveitou-se do tempo vago para desfilar na praça fazer contatos. A maioria do pessoal das particulares ficava em casa fazendo tarefas ou estudando. Ao chegar à adolescência era uma espécie de vereador mirim, um subprefeito. Todos os movimentos do bairro eram intensamente acompanhados por ele. De alguns participava. Tomava a frente. Na mão grande mesmo. Noutras apenas acompanhava, apoiando ou discordando com alguma ambiguidade.

Adulto ficou esqueceu tudo isso e foi viajar pelo mundo. Estudou as formas de relação das sociedades com o público e o privado. Fundou sua empresa de consultoria e marketing que venceu a maioria das eleições na cidade. Sim, o distrito virou cidade. Nem foi na Constituição de 1988. Foi muito depois fruto de intensos apertos de mão por mais de dois anos na Câmara dos Deputados dez anos depois.

Bom... você não precisa ser popular, mas se contratar eles tá eleito. Ninguém tem a experiência que esse pessoal tem. Tudo por causa de sorrisos gratuitos, de falta de dentes e um intensivo na creche e na escola municipal.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...