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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Um contramestre em disputa

 


Era um contramestre em disputa. Não porque fosse contra o mestre, muito pelo contrário. O nome era complicado: contramestre é um auxiliar do mestre assim como o servente é auxiliar do pedreiro. Assim como o servente, o contramestre é quem determina o ritmo. Não tão abundantemente quanto os percalços que aceleram e suavizam o andamento da escola, cabendo ao mestre da bateria apenas insinuar a normalidade.

O contramestre é a ligação do ritmo com o andamento. Não só ele. O interprete, antigo puxador é a outra ligação. Por essa maneira que serventes são excelentes interpretes e contramestres. Era um passista por enquanto. Já tocou agogô e berimbau. Sonhou com o surdo, mas não deu. Era cotado obviamente para contramestre.

O edifício evoluía num ritmo constante enquanto era apenas alvenaria. A coisa começava a variar quando os marceneiros começavam o acabamento. Os assentadores de piso eram muito melhor ritmados. Até instaladores de divisórias evoluíam melhor. Emassar e pintar de certa forma liberava seu trabalho. Mesmo que não fosse o caso, o ritmo era massivo e veloz. Edificios tem percalços, mas não são escolas de samba.

E um edifício de escola de samba teria ritmo? Ou seria outro caso? Era o que precisava saber. O que descobriria. Era seu novo trabalho. Passará uns meses nisso. Quem sabe não será contramestre. Talvez se torne marceneiro. Talvez encanador. Com o tempo descobriria tudo. Por enquanto era observar e participar do desfile.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os gatos e os peixes

 


Gatos, gatos, gatos e mais gatos. Uns empilhados sobre os outros. Chegou em casa. Pelos e pelos para limpar. Sentou no tamborete. Tomou coragem e gastou a manhã aspirando os pelos e pós da casa. Achou uma pausa. Na verdade, não achou. Determinou. Tomou um balde d’água e começou a passar o pano na casa.

Saiu de casa para almoçar e deixar secar o chão. Ligou todos os condicionadores de ar para ajudar a evaporar a água. Almoçou um delicioso p.f. no bar da esquina, tomando conhaque no bar da outra esquina. Gastou umas duas horas nesse intercurso ente sair de casa e voltar pra casa. Chegou a tempo de dormir e depois virar a noite para pautar dois dos três principais jornais da cidade: O confiável, cheio de interpretações estrambólicas; O paradigma, inovador e cheio de hermetismo.

Logo cedo poderia cochilar até as seis ou sete horas, enquanto os gatos usavam a casa como parque de diversão. Não era raro encontrar cacos de vidro ou cerâmica de vasilhas que não foram devidamente guardadas. Pensava ardentemente ao acordar comprar um perdigueiro para colocar ordem na casa. Seria melhor comprar um gateiro. Não havia perdizes dentro da casa.

Pensou muito em criar aves no quintal de casa. Gostava de gansos, mas esses são muito barulhentos. Também de patos, mas esses são o demônio. Já correu de patos? Pensou em avestruzes, mas são muito grandes. Nunca pensou em pombos, odiava ratos. Decidiu criar peixes num aquário aberto. Gastava boa energia numa bomba para circular a água. Deste modo, varias placas solares nas telhas da casa.

Assim fotografaram para mim. Mais nada foi me passado. O resto? Tudo tirado do testamento, ainda feito em vida e erroneamente publicado em um dos jornais. Erroneamente replicado nos outros dois. Os peixes foram deixados para os gatos. Os gatos para os dois vizinhos laterais. Causa da morte ainda não ocorrida: provavelmente botulismo. Bom... nada mais a declarar.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Labirintite

 


O rio corre fluentemente. Os riachos um pouco menos. A vida do nosso personagem transbordava. Se houvesse alguma corrente essa era de um redemoinho. Sim, a vida era consumida como qualquer outra. Mas não exatamente como uma qualquer. Nem toda vida era tão baseada num marasmo.

Pense numa pessoa que fazia de tudo para que sua vida fosse um cotidiano intensamente marcado. Cronometrasse metodicamente a vida.  Acordava no mesmo horário. esticava-se a porta de casa no mesmo poste. Tomava café na padaria da esquina na mesma hora e no mesmo banco. Geralmente era o primeiro a sentar. Todo o resto do dia era tão igual quanto possível. Um desvio aqui e ali.

Os desvios é que marcavam os respiros, davam vida a vida tão organicamente orquestrada. A rotina era tão automática que parecia um algoritmo, um script de programa de computador. Tudo era tão ensaiado, treinado que nem sentia, nem precisava pensar para agir. Agia tão levemente quanto respirava. Até os batimentos cardíacos eram mais artificiais, levemente descompensados.

Atravessava de dez a doze córregos por dia.  Não os via. Estavam todos soterrados naquela metrópole. Tudo fluía invisivelmente. Não fluíam tão magistralmente como nosso personagem. Fundações de edifícios construídos e reconstruídos na área interferiam nos cursos dos rios. A eventual passagem de um metrô praticamente espalha todos os leitos possíveis.

Nosso personagem seguia sua vida. Havia perdido toda a família para o relógio. Era o filho mais novo e tardio dos últimos remanescentes de uma nobreza comprada qualquer. Pessoas cheias de ofícios e etiquetas, compromissos e rapapés. Pessoas que sabiam muito bem como se comportar. Não ele. Confiava incessantemente num diário onde traçou sua vida do início ao fim. Queria morrer dormindo. Não pode prever ser atropelado pelo metrô. Não contava, embora soubesse com os efeitos de uma labirintite. Achava melhor ignorá-la.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Paradoxo de Antístenes

Não dormiu, nem acordou aquela tarde. Seguia sonambulo a dita noite. Logo dormiria. Precisava um longo período acordado para curar a ressaca daquelas férias numa casa de descanso. Sua vida era assim: oito ou oito. A mesma vivencia repetida de sempre. Tanto faz se dormindo ou acordado. Pensava no paradoxo de Antístenes. Não tinha menor importância e, justamente por isso pensava entusiasticamente e compulsivamente.

A inexistência do falso implica na impossibilidade de contraditório? Uma questão bastante resolvida após as primeiras criticas ao iluminismo kantiano dentre outros. A verdade há pelo menos dois séculos não é questão. Já se convenceram os filósofos continentais de somente há verdades particulares. Nenhuma geral. Se não há uma verdade, não há mentira. Melhor pensar em consistência e inconsistência. Há muitos outros modos também de pensar, mas nosso espelho refletia assim.

Não era um arguto leitor de Schopenhauer, nem de Marx ou Freud. Nunca lera Nietsche, Proust ou Dostoievski. Era perspicaz em Machado de Assis e Fernando Sabino. Desconfiava das aparências como se fosse um apostolo de Sócrates ou Platão. Por ser um moderno precisava ter a mente alargada. Não podia acreditar na busca pelo verdadeiro, pelo real.  Mas podia buscar similaridades, verossimilhanças.

Nunca pensar em escrever um livro até ser necessário. Era necessário, mas e a preguiça? Internou-se voluntariamente numa casa de repouso por um ano. Não foi muito útil: o paradoxo não lhe saia da cabeça. Incrustrado numa pedra como o lodo ou o mofo nas paredes. Saiu de lá sem dinheiro. Gastara sua fortuna fugindo do inevitável. Agora além do suplicio mental precisava escrever para ganhar algum.

Lançou um livro que logo se tornou um acontecimento. Um sucesso de crítica. Quase não vendeu. O livro era bom demais para ser devorado rapidamente. Não era um fastfood. Ficou miserável. Morou um mês nas ruas. Mas sua rara sobriedade o salvou. Conseguiu um emprego de provador de cachaças. Tinha avaliações muito sinceras sem medo de errar. Até porque não acreditava no falso.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

Despachante ou Matopiba

 


Cobriu todas as linhas porcamente, mas foi magistral no seu limite. Conferiu todas as entradas. Foi mais uma alfandega que um cônsul. Conhecia seus limites. Não bem os limites dele, mas os limites pelos quais se sentia responsável. Seu lugar no mundo não era uma tríplice fronteira, mas quase uma. Também não era um lugar particular como o triangulo mineiro com aspirações de ser um estado ou lugar particular que dentro de Minas Gerais não quer ser Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro ou São Paulo, nem dono de Guarapari. Tampouco interior de Minas. Muito menos Goiás.

  Felizmente seu posto não era no triangulo mineiro nem no País Basco. Era um mero despachante no Matopiba, região imaginária entre o Maranhão, o Piauí, a Bahia e o Tocantins que faz divisa com todos eles. Mas não ao mesmo tempo. Tem divisa entre Piauí, Maranhão e Tocantins. Tem divisa entre Piauí, Bahia e Tocantins. Mas não tem divisa entre Maranhão, Bahia e Tocantins. A região contigua só existe no Tocantins. Do outro lado há descontinuidade.

Divide-se entre duas vias: a Transbrasiliana e a Ferrovia Norte-Sul o escoamento da produção. Uma de forma majoritariamente interna, embora possa ir pra portos de Santos e Paranavaí: a BR-153. A ferrovia majoritariamente para exportação através de portos no Maranhão e no Pará. A terceira via não veio. A Leste-Oeste passa por Goiás. Todas as movimentações foram em vão. Terceiras vias são quase sempre utopias. Você tem plena escolha entre o pior e o menos horrível. O Matopiba imaginário teria a mais moderna agricultura e inúmeras vias de saída. Na realidade, monocultura de exportação e pecuária extensiva. Pouca, quase irrisória industrialização.

O Estado passou o planejamento para a iniciativa privada como fosse uma única e unificada e não variada e contraditória. Os interesses diversos não conseguem ser estruturados de modo a se tornarem factíveis. É um projeto que não é projeto. Aliás nunca foi um projeto e ele ali tentando estruturar um caminho. Um trabalho difícil pra qualquer diplomata com a estrutura de estado atras de si. Para ele muito mais como um mero administrador, um despachante sem nenhuma estrutura para lhe apoiar.

O Brasil copiando o Brasil. Multiplicando a si mesmo em cada pedaço de si. Parabéns Matopiba!

terça-feira, 23 de junho de 2026

Suicídio programado

 


Pé ante pé se aproximou do quarto como alguém que assalta o frigobar. Doninha estava na cama toda derramada. A felina fingia dormir como uma leoa disfarçando a ameaça para abocanhar as previdentes hienas. Quem teria um filhote de jaguatirica como animal de estimação, desculpa, membro da família?

Doninha deveria estar lá fora, mas chovia geladeiras. Não choveu tanto nem no diluvio, pensava nosso personagem que não acreditava em Noé. Viu o buraco na tênue porta de mdf com uma finíssima chapa de aço ao fundo. Esta, a chapa, estava amassada, mas não suficiente para um pequeno felino passar. Alguém tinha aberto a porta. Seria ele um sonâmbulo?

Tinha saído do campo quando cercado pelos vizinhos foi obrigado renunciar a sua ultima rocinha à medida que era progressivamente impingido a vender sua terra para os vários vizinhos que na verdade eram um. Suas terras eram as mais planas. Estava cercado de montanhas. A erosão praticamente adubava suas terras. Achou estranho quando as terras das montanhas foram progressivamente compradas por mineradoras. Ao que sabia não tinha ouro, nem prata na região, tampouco cadmio ou ferro.

Quando começaram a tornar sua terra inacessível. Quando o aprisionaram em suas próprias terras soube que mais cedo ou mais tarde perderia seu quinhão no mundo. Mas era teimoso, excessivamente teimoso. Nenhuma mula era mais teimosa que ele. Ficou lá, foi vendendo as fronteiras das terras por sobrevivência. Até que sobrou somente sua cabana e sua horta pra vender.

Doninha? Doninha o acompanhou. Veio escondida em seu quase caminhão. Dessas caminhonetes cm motor de maior torque. Sua única companhia. Não escolhida. A mulher se separou e casou com um ex-vizinho menos teimoso. Desses que vendeu as terras nas montanhas para a empresa que viria a comprar tudo. O filho e as filhas casaram com gerentes e contadora da empresa.

A primeira vez que viu Doninha foi quando descarregou o veiculo e viu acuado num canto quase um fóssil. Pensou em reestabelecer a onça e chamar o IBAMA. Mas quanto mais cuidou do animal, mais se afeiçoou a ele. A jaguatirica foi ficando como uma espécie de seguro. Ela iria crescer e um dia seria seu fim seguro. Um suicídio programado. E se a jaguatirica se afeiçoasse a ele da mesma forma que se afeiçoou a ela? Seria apenas mais uma decisão errada na vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Pseudopoeta

 


Deu dois passos a frente e caiu desmaiado. Por pouco a cabeça encontrou a cama. Um belo galo se formou. Não era nada. Tinha uma granja inteira de galos na cabeça. Agora precisava avaliar. Fazer um novo check-up que não daria em nada, nenhuma alteração.

Não dormia na parte de cima da treliche. Um beliche de três andares. Também não dormia na de baixo com medo de que os outros andares caírem sobre sua cabeça. Não, não era um gaulês. Não tinha medo da queda do céu. Dormia desconfiado. Até o sono rem abria os olhos de quinze em quinze minutos esperando uma tragedia ou comédia.

Acordou. Tomou um belo café. Exagerado mesmo. Talvez fosse a sua única refeição do dia. Tinha que percorrer inúmeros setores pra conferir para o censo do IBGE. Era andar horas em local afastado, vazio e inóspito verificando os mapas e os percursos a ser feitos pelos recenseadores e também os nomes das ruas.

Era preciso percorrer uma ultramaratona sem correr num prazo de dois ou três dias. Queria fazer em um dia e meio. Tinha outros compromissos. No segundo dia ao terminar a conferencia comeu um churro antes de ir na única psicóloga que teve. Desenhou e escreveu sua vida.

Dali pra frente poderia trabalhar num escritório perto de casa com grandes companheiros até pelo menos final do ano. Embora estivesse na maior parte do tempo preso a uma mesa, aquilo lhe dava muita mobilidade, pois poderia ir e vir muito fácil no espaço entre a casa e o trabalho.

Observou cuidadosamente os hábitos e comportamentos. Pode transmutar em lirismo barato. Nenhum cântico, nem mera poesia. A prosa não veio. Veio sangue pulsante em todas as letras dispostos a dar a vida a qualquer blasfêmia literária.  Descobriu que a poesia não colore a vida. A vida desenha a poesia. Concretando toda ilusão, solidificando os sonhos não como futuro, esperança, mas como presença.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Diplomacia

 


Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava recuperar a força daquela conurbação toda na sua mente. Passara dias negociando as realidades kantianas com as ilusões hegelianas. Tentando tornar a convenção kantiana algo mais substancial com ajuda da imprevisibilidade hegeliana. A soma de incontáveis fatores desconhecidos é pretensamente conhecida e sempre errática.

Quase não acordou se não fosse uma forte explosão próxima ao seu ouvido. Quase queimou sua face. Não convinha acreditar em pazes mal construídas. Também nas bem costuradas. Já sabia ser impossível a paz perpetua, mas acreditava fielmente os seus princípios. Era simulando usar a razão que negociava as querelas. Sim, porque a razão é a convenção. É o que todos fingem ter, embora nem as almas mais racionais usem prioritariamente.

Precisava tomar logo seu café com bolachas água e sal pra começar o dia que como sempre seria longo. Nunca esteve à frente das negociações. Era uma espécie de secretario, um assessor, que embora não atuasse construía todo o arcabouço necessário. Não tinha a etiqueta suficiente para ser comissão de frente da escola de samba, mas tinha autoridade para ser mestre da bateria para ditar o ritmo.

Não tinha tempo para almoçar mais uma vez, mas sabia que o dia passaria agitado ou não, não importa. Chegaria a profunda noite para colocar a cabeça no travesseiro e resistir a uma avalanche de pensamentos. Desmaiar de exaustão e torcer para acordar vivo na radiante manhã. Era preciso confeccionar os diplomas dos acordos multilaterais e consolidar as alianças. Por traz dos corpos diplomáticos a tal diplomacia.  

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nasceu esquecido

 


Nasceu esquecido. Passou dois meses no hospital. Quando vieram lhe buscar não podia sair. Tinha adquirido uma infecção oportunista. Nasceu plenamente saudável. Passou por todos os testes feitos. Mas era temporada de touros em Barcelona. A maternidade em Madri segurou as pontas. Até porque o erro era deles ao não informar o nascimento a mãe.

Esta pernoitara ali. Havia perdido o recém-nascido. Achou de mau gosto ver o feto natimorto. Saiu o mais rápido possível para evitar o trauma. Para não se fixar na perda festejou o máximo possível. Alienou-se fazendo todo o oposto do que esperado. Esqueceu o celular no hospital um pouco conscientemente, um pouco não para se desligar das notícias, dos questionamentos.

Quando julgou seguro passou a se preocupar com o que lhe fazia falta. Descobriu que perdeu o celular. Tentou se lembrar do número. Perguntou aos conhecidos se alguém se lembrava do número. Se tinham alguma ligação antiga sua. Alguém tinha e deixou ela ligar para o seu celular para tentar reavê-lo.  Ligou e não descobriu apenas o telefone, achou um filho. Ficou imediatamente atônita.

Pediu a pessoa para acompanha-la até o hospital. O natimorto não era dela. Era de alguma outra garota de mesma idade e quase mesmas características. Prometeu não processar o hospital por isso e tinha uma grande dívida. Como se paga dois meses de internação? A infecção clandestina viria a quase nivelar as dívidas. Pagaria menos, mas seriam meses limpando os corredores externos daquela unidade de saúde.

 Havia ganho um enorme presente. Sim, um presente que ela mesma ajudara a confeccionar, pelo qual tinha todo o apreço de sua vida. Passou a viver e respirar a situação. Fortes emoções a dominaram. Devastadoras. Tão enormes que passou a ser dominada por todas elas. Inebriou-se com elas, mas logo veio a ressaca. Como tudo na vida, algo chegou, a tomou completamente e logo se tornou insignificante.

Nosso personagem, não a mãe, viveu aqui e ali. Não chegou a rua, mas passou por varias casas. A primeira infância em casas de enfermeiras que adotaram uma após a outra. Logo que ganhou alguma independência se internou num internato, depois num externato. Depois foi trabalhar no comércio onde tinha muito tino. Sabia conversar com todos, entender os mais variados tipoa.

Não era dos melhores negociantes, mas por compreender os clientes vendia como nenhum outro. Não obtinha os melhores lucros, mas como vendia uma quantidade colossal, mais do que se pagava. Até falia concorrentes por falta de a quem vender. Era uma espécie de vendedor preferido. Não fazia os melhores preços, mas também não os piores. Esses muito menos. Cobrava o valor da tabela sempre.

Vivia incólume firme em viver a vida mais comum possível não porque se preocupasse com isso, mas porque não se preocupava com nada. Tomava seu café na mesma padaria e bebia após o serviço no mesmo bar. Ao chegar em qualquer um dos lugares não precisavam saber o que pediria. Foi essa a historia que me contaram.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Manifesto Anarquista da Neo-Modernidade Tardia

 


A primeira declaração é que quem escreve é ex e futuro anarquista. Nunca um anarquista no momento. Essa nem vou numerar porque é óbvia. Tão evidente quanto o anarquismo. O anarquismo não é prioritariamente uma recusa a autoridade, mas uma ojeriza a submissão.

 Os anarquistas são pessoas geralmente que não se iludem com efeitos. Deste modo um anarcossindicalista, geralmente porque os anarquistas são geralmente os mais múltiplos, não lutaria por um aumento salarial simplesmente porque seria uma troca de chicote por um menos dolorido com a manutenção do tronco. A luta seria contra a estrutura de submissão. Tomar o capital como sugerem os marxistas seria somente mudar quem submete o outro. Anarquistas quebrariam as maquinas para impossibilitar a continuidade do sistema exploratório.

Deste modo quando se apregoam que os anarquistas boicotam individualmente as eleições e, muitos tem o feito, parece uma atitude de quem se preocupa muito mais com ser virtuoso do que de fato tomar partido lutar. Anarquistas deveriam fazer protestos e tentar impedir as votações. Não conseguiriam ter teria efeito pedagógico a reiteração.

Anarcocapitalismo é uma contradição em si a não ser que criem um capitalismo sem indústria e comercio só com profissionais liberais no setor de serviços. O primeiro problema do anarquismo é a submissão. Ele é contra a arquia porque a arquia diz que alguém domina alguém. O primeiro problema do Estado é o monopólio da força. Se as pessoas não aceitam submissão a primeira e obvia atitude é desmontar exércitos, polícias para não lhe forçarem a nada. E o judiciário para que não decidam nada sobre ele.

A mais importante de todas é que não existe anarquista de verdade porque são tão múltiplos que ao contrario de liberais e marxistas é impossível coloca-los numa caixinha por algum critério. Decorrente disso, nenhum anarquista concordará comigo ou com qualquer outro. Essa liberdade é talvez a única coisa que uma os anarquista embora venham de construções diferentes e cheguem a conclusões mais dispares ainda.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Orto

 


Sentado na cadeira viu o mundo. Tudo parecia muito confuso. Precisava criar varias abstrações, ilusões. Iluminuras para colocar ordem no mundo. Poderia separar os animais entre os que tinham vertebras ou não, mas poderia ser mais múltiplo ao separar pela cor dos olhos ou pela quantidade de olhos. Outra possibilidade era separar os animais entre os que sorriem ou não. Ou até entre os que choram.

Mas não era biólogo ou biomédico. Ecologia e zoologia não eram seus estudos principais. Se interessava por algo de certa forma homologo: a filologia. Não era um filólogo, nem tinha tanto reconhecimento como tal. Nem os de fato tem ou tinham tal reconhecimento. Era um obtuso ortografo e por isso nem esse, nem nenhum outro texto meu será apresentado a ele.

Era um estudioso da grafia correta e por isso sabia que haviam incontáveis convenções da melhor grafia que tentavam ser unificadas. Conceitos tão dispares que impossibilitavam a reunião numa só norma. Apesar disso existe a norma oficial. Uma das acepções escolhidas com adaptações cosméticas.

Ele sabia disso, trabalhava com isso. O que o tornou extremamente cético. Praticamente apenas como um sério desconforto interno. Não era um cético militante. Não desejava que outros tivessem o mesmo desconforto dele. Preferiam que fossem crédulos cordeirinhos mesmo que tivessem fé nos maiores absurdos.

Não era um fã de Kierkegaard ou Pascal. Seu caminho até essa conclusão foi bastante diferente. Não era uma aposta ou um consolo. Era, na verdade, puro desespero. Não encontrava alento nenhum nessa posição. Era a escolha entre morrer esfaqueado multiplamente ou diluído por projeteis.

Observar de fora o mundo como objeto significava não tomar parte do mundo. Um mundo como abjeto seria tomar uma posição sobre ele. Desfrutar inocentemente da roseira enquanto os acúleos mordem a carne. Morrer infeccionado pela beleza parece um destino melhor, mas não ético. Não segundo a ética aceita por ele. Precisaria se abster de julgar. Um ortografo pode se abster de julgar? Maldito orto!!!!

domingo, 31 de maio de 2026

Pseudo-Moisés

 


Confluía em si vários rios. Ficava, de certa forma, desnorteado. Não porque não conhecesse e localizasse os pontos cardeais e colaterais. Mas porque todas as influências, as mais dispares opiniões vinham a si.  Precisava aprofundar, construir cavernas e desfiladeiros para deliberar. Ponderar com calma e sozinho através da abstração mais enganadora chamada razão.

Não era nem de longe um cacique daquela tribo. Estava mais para um pajé, embora lhe faltasse experiencia para tal. Também não era um Rasputin. Não era dado a superstições, artifícios. Era uma espécie de conselheiro-geral não pela experiencia, mas pela sorte de tomar as decisões mais acertadas. Pessoas crédulas diriam que ele tinha ótimos instintos. Ele tinha muito medo. Escolhia sempre a decisão menos arriscada a qual pouco coincidia com a mais covarde.  Geralmente era a decisão corajosa. Não a temerária que confundiam com esta.

Não dava conselhos de graça a não ser quando desejava que não fossem acolhidos. Cobrava abusadamente por eles não só financeiramente. Evitava de todos os modos tecer comentários sobre o que quisessem que fora. Tentava de todo modo não emitir nenhum juizo. Somente quando se tornava impossível, excessivamente incomodo não emitir um veredito, o promulgava de modo quase silencioso e dado a múltipla interpretação.

Impunha-se longos períodos de silencio não porque não desejava falar, mas para que não lhe ouvissem. Fazia ver a todos que não tinha uma conclusão ainda. Dizia sempre que a conclusão é a morte. Não podia concluir ainda e concluir não dependia dele. A morte chegaria inevitável.  Instruía todos a esperar mais um pouco. Talvez a morte não chegasse antes da convicção. Era uma situação vexatória. Ter certeza de algo era vergonhoso. Ele exibia sempre que possível suas duvidas como uma bandeira de cruzada.

Tinha sua maiêutica moderna para amassar, triturar todas as convicções. Destruir certezas e eriçar duvidas como cânticos ritualísticos. Exaltava sua ignorância bem acima de si: venham, chicoteiem minha idiotice! Aceitava como um castigo andar pelas ruas e observar a excessiva emotividade. Aqueles tomados de infindáveis chagas diziam a ele: coitado! Com esse único buraco tao grande vai morrer logo. Nem se afligiam da insuportável dor que carregavam por não morrer logo.

Tinham discípulos. Ele só tinha contrapontos que erigiam suas teorias ao refletir sobre o debate. Não desejava ensinar nada, construir nada. Apenas desejava por um porem em tudo. Destruir a ingenuidade adquirida pela fé. Era preciso acreditar desacreditando. Nada era certo, conclusivo. Tudo estava em construção. Não confundia cimento com concreto. Era preciso regar e esperar nascer o chão.

Quanto mais o procuravam, mas fugia. Sabia não ter a resposta pra nada e que cada um tinha suas próprias respostas. Precisavam de ajuda para alcançá-las. Mas quanto mais ajudasse, piores seriam. Precisavam imergir no problema e considerar as soluções propostas para gerar outras originais a partir do fenômeno narrado. Era necessário dar sedutibilidade a história nova sem negar nenhuma materialidade.

Assim, no meio do deserto lhe viam caravanas para consultar sobre o tempo, a vida, a morte, hereditariedade ou sobrevivência.  Mudava sempre de lugar, nunca se instalando num oásis. Aguçava a sede de todos e os obrigava a ir ao limite da sobrevivência. Mandava avisar as vilas que estava indo embora mesmo quando nunca fosse. Espalhava boatos de que estava morto e quem atendia era um falsário.

Seis meses por ano se abrigava num barquinho no meio do mar morto e não atendia ninguém, mesmo os que lhe levavam alimentos e voltavam com respostas que eles mesmos haviam alcançado sozinhos.  Era a famosa didática do silencio. A pessoa consigo mesma ás vezes e nada mais. Quanto mais fazia a alma, mais certeiros são os caminhos. Não porque são certos ou errados, mas porque simplesmente o são.

Seu nome era Aarão, mas podem chamar de Pseudo-Moisés.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Saboneteiras

 


Cruzou as saboneteiras, como chamava a série de pequenos montes que ornavam a região. Não era de tudo um caminho impossível, nem mesmo difícil. Era tão somente um caminho inesperado para quem poderia navegar num pequeno barco as confluências entre os riachos, descer poucas cachoeiras.

Aquilo era como tomar um ar, refrescar a cabeça. Sair de sua lida diária de pendurar quartos. Destrinchar ovinos e caprinos no seu frigorifico regional. Limpar extensa área fechada antes que o liquido solidifique. Pra exportar é preciso um ambiente quase estéril.  Deixar todos azulejos brancos sumamente alvos e o metal como um espelho é necessario.

Chuveiros químicos na entrada e na saída. Estar inteiramente vestido de branco para que cada mancha seja notada. da cabeça aos pés, cada detalhe importa. Para uma produção pequena e. portanto muito bem controlada apenas dez funcionários contando com os administrativos. Dentro do frigorifico apenas três.

Não trabalhavam todos os dias lá. Quem criava os ovinos e caprinos, estes sim trabalhavam todos os dias, mas apenas uma pequena parte do dia. Quem dava ração pela manhã e levava os animais para passear não era o mesmo pessoal que os recolhia aos cochos a noite. O manuseio das carnes ocorria apenas cinco ou seis dias por mês. Eram rotinas exaustivas de dez a doze horas para realizar todos os preparos necessários e embalagens para transportar o material pronto e fresco obtendo a maior valorização possível.

Quando possível nosso personagem ia para as montanhas para observar o manuseio dos animais vivos e também lembrar um pouco da infância nas saboneteiras. Às vezes até dormia por lá porque no outro dia não precisava trabalhar. Levava suas facas e navalhas para afiar o corte. Também para lavar. Na volta seriam esterilizadas. As usava apenas para detalhar os cortes. O bruto sempre era feito por uma espécie de serra elétrica, não destas de cortar madeira, mas muito próxima.

Na volta descia observando tudo. Marcava as áreas perigosas por gps e passava as informações a quem criava e engordava os animais. A cidade em volta do matadouro e do cemitério era muito pequena. Hoje não teria se emancipado. Desde sempre a família comandava a cidade. Eram governo e oposição na câmara municipal. De fora da família só duas casas abandonadas. Uma delas foi um açougue. Como a exportação leva todas as carnes da cidade precisam ir a cidade vizinha fazer as compras.

O cemitério tem mais covas de habitantes da cidade vizinha que da própria cidade. O da cidade vizinha é muito pequeno. Na cidade em volta da saboneteira, do cemitério e do frigorifico há tão pouca gente que até hoje só deu duas covas. Quando recebem o salário ou as vendas precisam ir na capital, distante uns duzentos quilômetros para receber ou guardar seus dólares euros ou reais. Ninguém tem lá cotidianamente onde gastar, mas de vez em quando compram um atacado de coisas.  Não é incomum alguém derrubar e construir nova casa.  E o churrasco da família com carne importada da cidade vizinha ou da capital reúne a cidade toda. Não há como deixar de chamar alguém da família.

Eventualmente alguém falta. Muito raramente. Diz que estava nas saboneteiras. Ninguém trabalha no dia. O prefeito deu ponto facultativo e o que tinha que ser feito foi resolvido antes de acender o carvão. No final do dia qualquer um recolhe os caprinos e ovinos ainda soltos.  Ou seja, tudo flui como se os riachos fizessem parte do relevo da região. Como se tudo estivesse integrado. Como se todas as catracas do sistema estivessem lubrificadas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Uma história de sobrevivência

 


Eles eram dois como se fossem um. Pensando melhor, eram três. Um ainda não era, mas era esperado. O padre dissera que eram um não tinha uma estação. Viviam onde só havia duas estações: oito meses de inverno sem nenhuma ou muito pouca chuva; quatro meses de enxurrada. Obviamente casaram no verão. Quem festejaria no inverno de carestia? Mas a estação que conta é a seca mesma porque se uniram no final do verão.

Moravam juntos desde o inicio da vida, mas a benção de Deus tinham a apenas três quase quatro meses. Acredito que a tinham desde sempre, mas aquela que abençoava a união, não a cada um deles como individuo a tinham a poucos meses. Francine foi para a casa dos pais para garantir a comida necessária aos dois. Francisco ficou a cuidar do que restou de sua roça e do cabrito ainda não vendido.

Eram uma magreza só os Franciscos. Sim, o cabrito tinha o mesmo nome do dono. Francine não era muito diferente. Precisava de muita farinha com rapadura pra sobreviver. Vez por outra recebia uma fruta. Quando chegasse a chuva daqui alguns dias voltava pra casa. A roça começaria a esverdear, amarelar e vermelhar. O mato serviria as primeiras iguarias e quase imediatamente depois poderia arrancar as primeiras raízes da terra. Na seguida cortar os primeiros caules e colher as primeiras frutas.

O rebento viria na estação de chuva. Quando falo isso me refiro tanto a sobrevivência quanto a descendência. Eram assuntos distintos, mas podiam ser os mesmos. A chuva traria os alimentos, a subsistência. Mas a descendência também era a subsistência das duas linhagens. Sobreviviam a mais uma geração. Tantas outras linhagens cessaram naquele agreste. Procriar era um ato de resistência. Ninguém falava isso em voz alta, mas todos pensavam boa parte de suas vidas.

 A herança que podiam deixar era a mais bela: o mundão todo. Não tinham uma terra. Poucos tinham e lá pros lados do litoral. Mas naquele mundão todo era se agarrar a terra e fecundar tudo o que era possível. Era inebriante riqueza ter sementes. Estas eram recolhidas com avidez como se fossem um tesouro. Cada água era medida, balanceada. Era uma economia baseada em água e semente. Terra era pra quem podia comprar. Ninguém podia ali. Cartórios não se atreviam a ir pra lá. Não seriam bem recebidos. As roças não tinham limites. Ou melhor, tinham o limite do que tinha sido plantado. Não havia nem discussão dada a distancia entre uma plantação e outra, um córrego temporão e outro.

A maior preocupação com o filho era de que aos sete anos seria deixado no mato por três dias pra aprender a sobreviver do extrativismo no inicio das chuvas. Ninguém podia interferir nessa sabedoria que herdaram talvez dos índios. Em toda a historia da vila, em mais de cem anos apenas uma morte e por ataque de animal exótico. Um leão que fugiu de um circo. Poderia ter acontecido na própria de confrontação urbano-rural. Em suma, uma história de sobrevivência.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Bicho-do-mato

 


“Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vida, decididamente, não era contar histórias. Era ser tragada por acontecimentos. Ele se precavia o quanto podia para não cair em armadilhas, mas elas estavam ali bem camufladas. Se não fosse ele, outros cairiam. Não caia por querer, mas se comprazia de evitar que outros caíssem desavisados. Não conseguia evitar as quedas dos outros, por óbvio, mas não eram vítimas desavisadas.

Dos imprevistos suas incontáveis estórias. Quase não precisava as enfeitar. A maioria brilhava por si só. Não sentia orgulho nenhum em contar as estórias. Não eram aventuras, histórias meritórias. Eram simples acontecimentos, desventuras. Nada sistemático. Tudo anedótico. Não desejava compartilhar. Seu intuito era desabafar. Não poque as histórias o afligissem, mas eram muitas, excessivas, pesavam.

Procurava alongar ao máximo as atividades para não narrar seus causos. Tudo o que podia fazia com a máxima paciência. Mas sempre era interrompido para que contasse uma estória. Fazia o possível para ignorar os primeiros pedidos, o que tornava tudo mais precioso. Algumas vezes ao perceber isso, fazia o contrário: insistia pra contar uma história com o desejo de fulanizá-las. Não adiantava tinha um dom saboroso de saber narrar.

Não conseguia sentar num bar ou restaurante sem reunir um bom grupo a sua mesa. Sem agrupar muita gente, sem conturbar o ambiente. Se tornou muito difícil frequentá-los. Não era um astro ou uma estrela, mas tinha um excesso de seguidores, não fãs, mas interessados nas estórias. Foi se tornando ríspido, tido como mal educado por se recusar a contar histórias por exemplo quando estava num banheiro de bar. Indelicado quando se recusava a falar de boca cheia.

Começou a levar a família para acampar no mato cada vez mais regularmente. As pessoas começaram a achar ele um bicho-do-mato. Até que se convenceu de que era isso mesmo. Era um bicho do mato. Lá tinha privacidade com a sua família. Conseguia almoçar e jantar em paz. Brincar com os filhos. Namorar a esposa. Deixou suas histórias impressas num livro na biblioteca da cidade para qualquer um ler. O livro foi muito pouco retirado. Não era tão bom escritor como era contador de estórias. Assim acabaram deixando-o em paz.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Àgua de cachoeira

 


Queria não estar ali. Desejava a estabilidade da estrada. Ousava sonhar com o som do silencio. Meditava cada passo dado. Desejava em cada espasmo um descanso. Era afligido por novas duvidas toda vez que não refletia um novo conhecimento. De modo que quando não tinha algo novo pra pensar o novo nascia.

Alguns chamariam isso de história. Ele denominava de tormento. Alguns poucos pensadores de vida ativa. A maioria de ócio, de vida meditativa. Ele malhava sua mente com maior fervor que qualquer bodybulding desses habituais. Alimentava o seu pensar com disciplina e compasso. Lia compassadamente e ordenadamente os livros conforme os entrelaços que foi encontrando. Juntando referência a referencia foi solidificando as suas.

La estava ele sentado num bar depois de ter descarregado os vagões do dia no porto seco. Seis horas contiguas sem descanso. Breves pausas para beber a água do cantil amarrado â cintura. Tomava suas duas doses da branquinha para ir para casa pensar no escuro por pelo menos quatro horas até dormir.

De manhã tinha seu prêmio. Comeria suas frutas, seus cereais como trigo, arroz e milho. Uma xícara lotada de café. Ainda faria algum alongamento antes de caminhar até o porto antes do sol sair. No porto repetitivos movimentos como se fosse uma maquina de descarregar ou uma linha de montagem. Entendia perfeitamente aquele taylorismo. Pensar era sua fuga daquela ordem toda. Seu pensamento era como água de cachoeira a contornar as pedras para fluir.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Globalização

 


Sentado no banquinho ficou. Pretendia sorver a água da cabaça com uma lentidão homérica, como quem se afoga com gotas. Tinha percorrido quilômetros sem descansar entre Maranhão, Tocantins e Pará. Atravessou cerca de doze cidades no caminho e viu dois biomas e e um sub-bioma: mata dos cocais, cerrado e amazônico. Chegou onde em poucos passos atravessaria pro Mato Grosso ou para o Amazonas.

Ficou ali esperando uma van para voltar ao bico do papagaio. Estava acostumado a cruzar fronteiras. Morava num lugar onde em cinquenta ou sessenta quilômetros pode passar por três ou quatro municípios. Vinte quilômetros bastam para passar por três municípios. Esse era o conceito de interdependência: nenhum município vivia sozinho. A indústria, o comercio e mesmo a administração publica não subsiste sem essa interrelação.

Cidades dependiam das outras desrespeitando fronteiras municipais ou estaduais. Cidades fronteiriças de estados diferentes estados muitas vezes eram mais ligadas entre si que cidades do mesmo estado, mesmo vizinhas. Desse modo foi criado um circuito, embora muitas pessoas andem pouco, em que as pessoas circulam constantemente entre vários municípios trabalhando como uma aranha a traçar redes.

Essa interdependência faz com cada município se torne uma parte de uma grande indústria e o produto necessite de circular para ter todas as partes, ser completo o quanto pode ser. Isso liga as regiões, os municípios, as pessoas. Todos são relacionalmente necessários. A mundialização recebe muitos empecilhos atualmente, mas essa e outras regiões são a prova de que o mundo pode ser um e limites não precisam ser valas ou muros.

domingo, 3 de maio de 2026

História

 Tolstói tem uma definição para a história e nem só para a história que merece reflexão tranquila e calma:

"Uma abelha pousada numa flor pica uma criança e a criança receosa passa a afirmar que o propósito da abelha é picar os homens. O poeta admira a abelha que se oculta na corola da flor e pretende que o seu fim é assimilar-lhe o perfume. O apicultor, observando que a abelha extrai o pólen da flor e o transporta para a colmeia, pretende que o seu fim é fabricar mel. Outro, que estudou de mais perto a vida da colmeia, afirma que a abelha colhe o pólen para alimentar as abelhas mais novas e criar a rainha, tendo como propósito a propagação da espécie. O botânico observa que, voando com o pólen de uma flor masculina para uma flor feminina, a abelha fecunda esta última: vê nisso, por seu turno, o papel da abelha. Outro, observando as variações das plantas, vê que a abelha contribui para elas e afirma que nisso consiste o seu papel. Mas o fim principal da abelha não se esgota em qualquer dos fins particulares que o espírito humano alcança. Quanto mais alto se eleva o espírito humano na descoberta do fim, tanto mais evidente se torna para ele o caráter inacessível do derradeiro fim. O homem pode apenas observar a concordância da vida das abelhas com os outros fenómenos da vida. O mesmo acontece quanto à penetração das razões últimas dos factos históricos relativos tanto às personalidades singulares, como aos povos. *** A história tem por objeto a vida dos povos e da humanidade. Mas aprender sem intermediário, abranger por meio de palavras, em suma, descrever a vida não já só da humanidade mas de um único povo, pode afigurar-se tarefa impossível.” (de “Box Grandes Obras de Tolstoi” por “Lev Tolstoi”)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quebra-cabeças

 


Josué acordou assonado como se tivesse dormido muito. Pior que não tivesse dormido. Estranhou não sentir nenhuma dor no corpo. Sem duvida não ficara deitado o suficiente para revelar os incômodos. Por outro seu estomago estava só osso. Precisava comer alguma coisa leve. Quem sabe um pão sírio sem nada ou com um pouquinho de mel só pra forrar o estomago e aí poder ingerir coisas mais elaboradas, mais acidas ou mais básicas.

Trabalhara incessantemente com Javascript e html. Poderia ter usado linguagens mais elaboradas, mais fáceis, mas adorava aquele quebra-cabeça.  Um flash ou sql viriam bem. Phyton seria muito útil.  Mas gostava de encaixar pouco a pouco sua montagem. Gostava de ter sobre seu domínio cada etapa. O que construía não era grande coisa, nada elaborado, mero exercício de criatividade. Estava apenas provando a si mesmo que conseguia.

No meio da semana se dedicaria a calmamente montar seus quebra-cabeças recém-chegados de dez mil peças. Não tinha a menor pressa. Passava alguns minutos a pensar. Juntava umas dez ou vinte peças. Saia pra dar uma volta ou tirar uma soneca e só então voltava lá nas mesas da sala pra montar mais pedaços. Só mesmo nos finais de semanas é que dormia muito pouco enfrentando desafios mais difíceis.

Tinha sido durante toda a vida um exímio e aborrecido contador. Tinha uma vida muito enfadonha. No fundo não agrava ninguém. Nem seus clientes, nem o governo. Pois sempre arranjava uma coisa entre a norma e a conveniência. Sabia esticar os limites, mas sempre havia uma norma. Os governos queriam arrecadar muito e os clientes pagar nada. O segredo sempre estava nos detalhes. Ninguém está atento a todos todo o tempo. Sabia ele e seus clientes que sempre poderia fazer melhor. Detalhes muitas vezes fugiam.

Estava treinado a trabalhar com máxima paciência e cautela. Por isso se especializara em montar quebra-cabeças. Muitas vezes clientes queriam quebrar-lhe a cabeça. Ele também sentiu a vontade de quebrar a de uns dois ou três. Bom... o que fazia agora era muito melhor que administrar os conflitos financeiros entre contribuintes e a burocracia. Podia montar tudo, construir em seu ritmo, sem interferências.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Tubarão

 


Nasceu arfando como se tivesse morrendo. Tomou um ar e prosseguiu. Chorou como se não houvesse amanhã. Esta era sua vida, negociar. Nunca aceitava a primeira proposta.  Se divertia trucando e retrucando. Nunca mostrava suas cartas. Nunca desistia, mas se por acaso a outra parte desistisse manca saberia das cartas. Se aceitasse também. Havia um certo fetiche em conhecer suas cartas as quais nunca seriam mostradas. Poderia nem as ter.

É verdade que boa parte da infância até a adolescência acreditava-se que tinga asma, nunca plenamente comprovada. Alguns diziam que era ansioso. Pelo adulto que se tornou pouco provável. A paciência exibida para conseguir os melhores negócios não seria possível para alguém angustiado. Seria manha? Dissimulação pura provavelmente não deveria ser, mas artimanha essa poderia.

Era mestre nas regras não escritas. Talvez doutor. Conhecia os costumes de cor como ninguém. Sabia dar nós em pingos d’água e faze-los cair quando ainda não existiam para então manuseá-los. Sabia que convencer a contraparte que ela que desejava negociar. Não ele. Criava dificuldades para vender facilidades. Não visitava as pessoas. Não as queria incomodar. Elas que importunassem a ele.

Uma vez espalhou o boato de que estava endividado e que precisava vender algum imóvel para se estabilizar. Foi um chamariz para o melhor negócio que fez na vida. Precisava atrair um cliente fora de sua alçada, um tubarão. Para atrair um tubarão precisava espalhar o cheiro de sangue. Então atraiu este acreditando que iria fazer rapinagem. Que tomaria vários imóveis de alguém que não tinha saída. Precisava tão somente a oportunidade de conversar para prender o tubarão em sua rede de aço inoxidável.

Infelizmente não pode mais repetir a ação. Precisou inovar nas ações. Mas já tinha feito fortuna e só precisava manter o fluxo das contas. Agora era um tubarão que só precisava estar atento para devorar os peixinhos que a mare leva a ele. Não precisava mais nadar por aí e seduzir presas. Era só pegar o dinheiro e fazer render em aplicações finanveiras. Podia até fazer maus negócios e recuperar nas aplicações. Mas por honestidade nunca faria um negócio ruim na vida. Tinha uma vida tranquila.

Um contramestre em disputa

  Era um contramestre em disputa. Não porque fosse contra o mestre, muito pelo contrário. O nome era complicado: contramestre é um auxiliar ...