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quinta-feira, 26 de março de 2026

A morte lhe cai bem

 


Houveram outros. Sim, sempre houveram outros. Mas dessa constatação ela passava. Criara do nada a reinvenção sem esse negócio de reciclagem, reaproveitamento.  Talvez fosse algo teatral. Provavelmente nem teatro fosse. Apenas um ato após o outro se tecia o que era bem tecido. Com alguns reveses comuns a vida, mas com contiguidade nas reviravoltas. Era como se as cambalhotas do ginasta fossem em linha reta.

Se a beleza se revelasse nas concavidades ou convexidades do espirito, os vermes queriam mesmo é comer a carne. Malhou incansavelmente na academia para manter os ossos fortes. Tomou sopa de casca de ovo para fixar o cálcio necessário. Botava umas verduras e legumes para dar sabor, mas o crucial era a dúzia de cascas de ovos trituradas no pilão.

Sentia de seu jazigo que sua carne generosa a cada momento adubava mais a terra. Estava se tornando um alimento saboroso para vegetais. Se desintegrava e cada vez mais abraçava a terra. Se sentia plenamente integrada. Chegara a sua plenitude. Os vermes a adoravam. Ninguém na vida olhou para ela com tanto desejo.

Comera vegetais a vida toda. Agora os vegetais desfrutavam dela. Justo. Os minerais? Mineralizou, desmineralizou. Estes eram inertes, mas inúteis que seu ex-marido. Porém mais integrativos. Tão grudentos quanto o falecido. Sim. Assim como todos os minerais passam ou permanecem inertes, impassíveis as interações.

Ela meio que estava ali como um mineral, impassível, mas disponível a toda interação. Inebriada pelas raízes que trançam na sua carne, quer dizer, ex-carne. Assim era seu descanso definitivo, não acreditava em morte.

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