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terça-feira, 17 de março de 2026

Os campos não são saudáveis

 


Atravessar os campos é muito mais que recolher sementes grudadas na meia, na calça ou na bermuda. Não necessita os desvios de transpassar uma floresta. Pode-se estabelecer uma reta sem desviar das arvores, atravessar rios e colher trufas. Dos campos, difícil mesmo é nadar no arrozal ou emparedar os trigueiros. Campos de sorgo são perigosos, envenenados sem ser uma máquina.

Cruzar uma avenida é muito mais temeroso que passar por uma campina. Os lobos não são automotivos. Abocanham, mas não atropelam. Um pedaço a menos, dependendo do pedaço, é muito menos mortal que um amasso. O transeunte não se apaixonará pelo carro ou moto. A dança com lobos é muito mais sensual.

O silencio da cidade grande não é tão sensível como o canto solitário da graúna. Não é tão belo quanto o assobiar da juriti. É um silencio concreto, bruto, formal, um poema concreto. Sem os sibilos, sem ritmo ou cadencia. Pura formalidade. É causa de toda minha ansiedade. Como? Que barulho virá? Serei surpreendido por coisa boa ou ruim? Mais importante: me assustará?

Viver no silencio da cidade é intranquilo. Confortável é amoldar-se a seus barulhos. Acordar com a sinfonia da praga de canindés ou a buzina dos carros na rua. Ouvir aquela confusão infinita de sons que tranquilizam, mostram que a sinfonia é a de sempre. Sim. Pode atravessar a rua tranquilamente como sempre foi: um desafio de vida ou morte. Sentir-se vencedor por ter superado o desafio.

Morar na cidade é derrotar a morte. Temer ser assaltado ou ser refém da maldade mesmo sabendo que quase certamente morrerá atropelado ou numa briga estupida de bar.  Estressar-se com os vizinhos por fazerem justamente o que desejava fazer. Se morasse numa caverna na floresta poderia fazer. Mas as comodidades? Ninguém da cidade quer ficar sem elas. Fazer o próprio mel? Melhor deixar para as abelhas.

As abelhas parecem aquela multidão sem orientação especifica a se cruzar por todos os ângulos possíveis como se tecesse favos de todos os tamanhos. Todos com uma urgência de que da trilha depende sua vida. Cada passo é uma batida que mantem a perspectiva da sobrevivência. Nessa colmeia de zangões homens e mulheres a ansiedade mata mais do que qualquer outra coisa. Impõe-se a pressa. Quase uma pressa de morrer disfarçada de luta pela vida.

Aquele que para e permanece. Indiferente as sensações e impulsos externos é qualificado de espectro autista em vez de são. Sim, há os autistas cada vez melhor diagnosticados, mas existem os monges, pastores de si mesmos que na gritaria decidiram se isolar no próprio silencio como um estado de paz. Quase como um alienista sabendo que todos estão malucos, o são se interna e torce pela própria redenção. Se fugir para os campos para colher trigo e arroz terá o atestado da loucura, pois estes não são pra comer, mas pra exportar em granel. Se dançar com lobos então... certamente demonstrará algum desvio de personalidade, uma tara.

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