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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Coletivo

 


Ele era todos. Mas todos não eram ele. Foi sempre um ser coletivo. Passou a infância nas ruas. Não porque não tivesse casa. Tinha. Morava numa mansão com kitnet no fundo para cada família de colaborador(a) da casa. Vinha desde a nascença de um universo de nunca estar sozinho. Sua vida era estar entre no mínimo duas ou três pessoas.

Aprendeu desde cedo estar sempre entre pessoas. O que lhe servia muito para o futuro que até então ignorava. Logo que pode dar os primeiros passos fora de casa percebeu como o ambiente domestico era opressivo. Até então o mundo lhe servia. Decidiu servir o mundo. Foi para as ruas conviver com as mais diferentes pessoas.

Decidiu trabalhar nas mais diferentes atividades. Não precisava do dinheiro. Já tinha o bastante para sobreviver mais umas duas ou três vidas. O primeiro oficio foi de engraxate nas praças. Queria ouvir as pessoas, conhece-las. Não havia um oficio melhor que esse para isso. Nem o de barbeiro. Passou uns dois ou três anos conhecendo as comunidades da sua cidade. Depois foi ser estivador no porto para conhecer a interação dos de fora com os seus. Também foi vários tipos de vendedor: foi ambulante, de loja, visitador e atrás de um computador na internet.

Passou a estudar mapas e conhecer as ruas. Aprendeu que o ambiente convenciona as massas, multidões, nem tanto as pessoas. Havia um negocio perfeito para cada localidade. Tão perfeito que logo faliria. As interações que dão certo são sempre imperfeitas. Poderia ser um analista ou um espião por sua variada e extensa rede de contatos, mas parecia mais integrador de informações. Trabalhava incessantemente para desatar os nós em pingo d’água.

Aprendeu a jogar e devolver com uma desenvoltura de maquina de bolinhas de tênis, mas sempre devolvendo na zona melhor para a recepção. Ou de outro modo se tornou uma rendeira de máxima categoria construindo redes com destreza e cuidado. Ora reconstruía fios, ora tecia os fios necessários. Aprendeu a não ligar o desnecessário. Unir apenas as extremidades possíveis. Alienando e isolando as estragadas até serem recondicionadas.

Entendeu que civilização é a opressão das individualidades pelas regras mínimas de convivência. Que comunidade é a aceitação que todos diferentes somos um único conjunto e que as diferenças são meros cosméticos, tonalidades de um mesmo quadro. Uma não exclui a outra. Quem se exclui das regras continua incluso nelas. Mas quem se exclui da compreensão deve ser excluído da comunidade.

Soube que a sociedade é a união de pessoas que estão preparadas para esfaquear asa costas do sócio. Que se contrato fosse bom, não haveria clausulas de punição por quebra do mesmo. Desse modo só acreditava em comunicação, em ética em contraponto a moral. Em anarquia, pois as pessoas tem direito de discutir e agir conforme suas próprias consciências fugindo de toda opressão possível. Só o respeito a todos torna tudo coletivo.

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