Ele era todos. Mas todos não eram ele. Foi sempre um ser coletivo. Passou
a infância nas ruas. Não porque não tivesse casa. Tinha. Morava numa mansão com
kitnet no fundo para cada família de colaborador(a) da casa. Vinha desde a
nascença de um universo de nunca estar sozinho. Sua vida era estar entre no mínimo
duas ou três pessoas.
Aprendeu desde cedo estar sempre entre pessoas. O que lhe servia muito
para o futuro que até então ignorava. Logo que pode dar os primeiros passos
fora de casa percebeu como o ambiente domestico era opressivo. Até então o
mundo lhe servia. Decidiu servir o mundo. Foi para as ruas conviver com as mais
diferentes pessoas.
Decidiu trabalhar nas mais diferentes atividades. Não precisava do
dinheiro. Já tinha o bastante para sobreviver mais umas duas ou três vidas. O primeiro
oficio foi de engraxate nas praças. Queria ouvir as pessoas, conhece-las. Não havia
um oficio melhor que esse para isso. Nem o de barbeiro. Passou uns dois ou três
anos conhecendo as comunidades da sua cidade. Depois foi ser estivador no porto
para conhecer a interação dos de fora com os seus. Também foi vários tipos de
vendedor: foi ambulante, de loja, visitador e atrás de um computador na
internet.
Passou a estudar mapas e conhecer as ruas. Aprendeu que o ambiente convenciona
as massas, multidões, nem tanto as pessoas. Havia um negocio perfeito para cada
localidade. Tão perfeito que logo faliria. As interações que dão certo são sempre
imperfeitas. Poderia ser um analista ou um espião por sua variada e extensa
rede de contatos, mas parecia mais integrador de informações. Trabalhava incessantemente
para desatar os nós em pingo d’água.
Aprendeu a jogar e devolver com uma desenvoltura de maquina de bolinhas
de tênis, mas sempre devolvendo na zona melhor para a recepção. Ou de outro
modo se tornou uma rendeira de máxima categoria construindo redes com destreza
e cuidado. Ora reconstruía fios, ora tecia os fios necessários. Aprendeu a não
ligar o desnecessário. Unir apenas as extremidades possíveis. Alienando e
isolando as estragadas até serem recondicionadas.
Entendeu que civilização é a opressão das individualidades pelas regras mínimas
de convivência. Que comunidade é a aceitação que todos diferentes somos um único
conjunto e que as diferenças são meros cosméticos, tonalidades de um mesmo
quadro. Uma não exclui a outra. Quem se exclui das regras continua incluso
nelas. Mas quem se exclui da compreensão deve ser excluído da comunidade.
Soube que a sociedade é a união de pessoas que estão preparadas para
esfaquear asa costas do sócio. Que se contrato fosse bom, não haveria clausulas
de punição por quebra do mesmo. Desse modo só acreditava em comunicação, em ética
em contraponto a moral. Em anarquia, pois as pessoas tem direito de discutir e
agir conforme suas próprias consciências fugindo de toda opressão possível. Só o
respeito a todos torna tudo coletivo.
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