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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Demagogia

 


Cresceu naquele distrito como o musgo se apropria da parede. Logo cedo distribuiu sorrisos como qualquer demagogo. O fato de faltar vários dentes o aproximava ainda mais. Distribuía toda a sua simpatia mesmo nas situações mais incomodas como quando estava completamente cagado e mijado e alguns de seus grandes eleitores vinham lhe trocar as fraldas. Pensava sempre neste momento: é preciso manter as aparências.

Aos poucos meses decidiu que era preciso sair de casa. Ingressou numa creche onde pode conviver com vários outros e outras populistas. Disputavam diariamente uma eleição: a de furtar o coração das tias. Tinham uma formação robusta. Precisavam trabalhar arduamente para manter suas bases coesas.

Aos seis ingressou na escola municipal. Poderia estudar num colégio particular, mas como faria proselitismo? Aproveitou-se do tempo vago para desfilar na praça fazer contatos. A maioria do pessoal das particulares ficava em casa fazendo tarefas ou estudando. Ao chegar à adolescência era uma espécie de vereador mirim, um subprefeito. Todos os movimentos do bairro eram intensamente acompanhados por ele. De alguns participava. Tomava a frente. Na mão grande mesmo. Noutras apenas acompanhava, apoiando ou discordando com alguma ambiguidade.

Adulto ficou esqueceu tudo isso e foi viajar pelo mundo. Estudou as formas de relação das sociedades com o público e o privado. Fundou sua empresa de consultoria e marketing que venceu a maioria das eleições na cidade. Sim, o distrito virou cidade. Nem foi na Constituição de 1988. Foi muito depois fruto de intensos apertos de mão por mais de dois anos na Câmara dos Deputados dez anos depois.

Bom... você não precisa ser popular, mas se contratar eles tá eleito. Ninguém tem a experiência que esse pessoal tem. Tudo por causa de sorrisos gratuitos, de falta de dentes e um intensivo na creche e na escola municipal.

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