Cresceu naquele distrito como o musgo se apropria da parede. Logo cedo distribuiu
sorrisos como qualquer demagogo. O fato de faltar vários dentes o aproximava
ainda mais. Distribuía toda a sua simpatia mesmo nas situações mais incomodas como
quando estava completamente cagado e mijado e alguns de seus grandes eleitores
vinham lhe trocar as fraldas. Pensava sempre neste momento: é preciso manter as
aparências.
Aos poucos meses decidiu que era preciso sair de casa. Ingressou numa creche
onde pode conviver com vários outros e outras populistas. Disputavam diariamente
uma eleição: a de furtar o coração das tias. Tinham uma formação robusta. Precisavam
trabalhar arduamente para manter suas bases coesas.
Aos seis ingressou na escola municipal. Poderia estudar num colégio particular,
mas como faria proselitismo? Aproveitou-se do tempo vago para desfilar na praça
fazer contatos. A maioria do pessoal das particulares ficava em casa fazendo tarefas
ou estudando. Ao chegar à adolescência era uma espécie de vereador mirim, um subprefeito.
Todos os movimentos do bairro eram intensamente acompanhados por ele. De alguns
participava. Tomava a frente. Na mão grande mesmo. Noutras apenas acompanhava,
apoiando ou discordando com alguma ambiguidade.
Adulto ficou esqueceu tudo isso e foi viajar pelo mundo. Estudou as
formas de relação das sociedades com o público e o privado. Fundou sua empresa de
consultoria e marketing que venceu a maioria das eleições na cidade. Sim, o distrito
virou cidade. Nem foi na Constituição de 1988. Foi muito depois fruto de intensos
apertos de mão por mais de dois anos na Câmara dos Deputados dez anos depois.
Bom... você não precisa ser popular, mas se contratar eles tá eleito. Ninguém
tem a experiência que esse pessoal tem. Tudo por causa de sorrisos gratuitos, de
falta de dentes e um intensivo na creche e na escola municipal.
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