Andava todo dia. Passo a passo. Dobrando esquinas como origamis. Colhia por
aí todos os odores. Nem sempre os de jasmim. Quase nunca o de alecrim. Em nenhum
lugar o cheiro de terra. Quase sempre um vapor de asfalto nas ruas límpidas. Nas
partes sujas do lixo não recolhido nem compensa falar.
Sua vida era um pra lá e pra cá. Cruzando bairro. Fiscalizando cada passo
da administração municipal. Tomava café em frente a casa do prefeito. Sobrinho dele
era mais austero que a própria oposição. Não fazia discursos. Não atacava o governo.
Mas sabia de tudo o que ocorria. Não ignorava os problemas na hora de votar. Combatia
os erros do prefeito e acusava as hipocrisias da oposição.
Era o motivo da câmara municipal não virar circo por muito tempo nem por
conta do governo, nem por causa da oposição. Era um frustrador. Baixava a bola
de todos. Era irritantemente ponderado, metódico e racional. Ninguém entendia
como era sempre eleito sendo menos emocional que um boneco de posto. Mas frustrantemente
sempre estava por ali. Provavelmente era o medo de quem sabe de tudo.
Assim me contaram. O personagem avaliou que houve muito exagero, excesso,
mas me disse que não tinha porque mudar alguma coisa num texto sobre um
personagem tão desimportante. Eu não sei se concordo, mas o panorama geral
exprime uma veracidade, mesmo que algo em particular não seja tão verossímil.
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