Nasceu arfando como se tivesse morrendo. Tomou um ar e prosseguiu. Chorou
como se não houvesse amanhã. Esta era sua vida, negociar. Nunca aceitava a
primeira proposta. Se divertia trucando
e retrucando. Nunca mostrava suas cartas. Nunca desistia, mas se por acaso a
outra parte desistisse manca saberia das cartas. Se aceitasse também. Havia um
certo fetiche em conhecer suas cartas as quais nunca seriam mostradas. Poderia nem
as ter.
É verdade que boa parte da infância até a adolescência acreditava-se que
tinga asma, nunca plenamente comprovada. Alguns diziam que era ansioso. Pelo adulto
que se tornou pouco provável. A paciência exibida para conseguir os melhores
negócios não seria possível para alguém angustiado. Seria manha? Dissimulação
pura provavelmente não deveria ser, mas artimanha essa poderia.
Era mestre nas regras não escritas. Talvez doutor. Conhecia os costumes
de cor como ninguém. Sabia dar nós em pingos d’água e faze-los cair quando
ainda não existiam para então manuseá-los.
Sabia que convencer a contraparte que ela que desejava negociar. Não ele. Criava
dificuldades para vender facilidades. Não visitava as pessoas. Não as queria
incomodar. Elas que importunassem a ele.
Uma vez espalhou o boato de que estava endividado e que precisava vender
algum imóvel para se estabilizar. Foi um chamariz para o melhor negócio que fez
na vida. Precisava atrair um cliente fora de sua alçada, um tubarão. Para atrair
um tubarão precisava espalhar o cheiro de sangue. Então atraiu este acreditando
que iria fazer rapinagem. Que tomaria vários imóveis de alguém que não tinha saída.
Precisava tão somente a oportunidade de conversar para prender o tubarão em sua
rede de aço inoxidável.
Infelizmente não pode mais repetir a ação. Precisou inovar nas ações. Mas
já tinha feito fortuna e só precisava manter o fluxo das contas. Agora era um
tubarão que só precisava estar atento para devorar os peixinhos que a mare leva
a ele. Não precisava mais nadar por aí e seduzir presas. Era só pegar o dinheiro
e fazer render em aplicações finanveiras. Podia até fazer maus negócios e
recuperar nas aplicações. Mas por honestidade nunca faria um negócio ruim na
vida. Tinha uma vida tranquila.
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