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sábado, 4 de abril de 2026

Latifundio

 


Nadou, nadou e não saiu do lugar. Um redemoinho de terra as pessoas da cidade grande não veem no centro antigo da cidade. Não tinha uma duna de areia pra nadar. Pouco sinalizavam aqueles coqueiros exóticos onde estavam. A meio quilometro dali um canavial. Terra preta, muito boa. Muita calagem.

Era um deserto de gente aquele espaço. Uma comunidade de maquinas. Colheitadeiras e plantadeiras dos mais variados tipos. Uma pequena casa de paredes grossas cheia de fios a entrar e antenas a sair. Lá dentro uma ou duas pessoas. Cinco pessoas se revezavam pelo mês para coordenar a modernidade.

Robusta refrigeração quase frigorifica obrigava o uso de vários casacos intensamente revistados na entrada a na saída. Chuveiros químicos nas saídas monitores infravermelhos e raios-x. Vigilância aguda por vídeo vê todos/todas desnudos/desnudas. Clausulas que praticamente anulam os direitos dos funcionários sobre os próprios corpos. Biopolítica na veia.

Todos muitíssimo bem pagos com direito a micro moradia da mais alta qualidade e automação intensamente monitorada com limpeza automática da casa, das roupas, geladeira sempre completa por automação, televisão com todos os streamings. Mas do trabalho até a casa nenhum acompanhamento, nenhuma segurança, um vazio.

Não era comum, mas vez outra acreditavam que algum deles tinha morrido. Evitavam criticar a empresa. Eles próprios não se conheciam. Nem mesmo as equipes atuam juntas no trabalho. Está cada um em seu segmento. Mas não importa: não podem se prender a conjecturas, suposições.

Melhor seguir a vida e não se prender a teorias da conspiração. A empresa garante a segurança deles tanto no trabalho como em casa. O percurso embora dentro dos limites do latifúndio (cada um vai para seu canto) não é responsabilidade da empresa. Se for o caso de morrer já teriam vivido uma vida muito boa.  Trabalhavam um dia e folgavam dois nas casas da empresa. Só podiam sair de lá nas férias a cada dois anos por quarenta e cinco dias. Quinze eram comprados. Embora fosse ilegal todos topavam. Não queriam perder seus ótimos empregos. Ou talvez até algo mais como se podia ouvir a boca pequena.

Tudo teoria. A única coisa certa é que ao morrer seriam cremados e suas cinzas seriam usadas para calafetar a plantação. Continuariam sua eternidade por ali já não mais, nem teoricamente, donos de si. Estariam plenamente integrados seriam a própria empresa. Não mais empregados.

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