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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Conto de Yasmin


 

Quem lê Yasmin pensa provavelmente numa sereia ou princesa. Se pensarmos em beleza, de fato. Mas se pensarmos em fome... a moça comia como uma ogra daquelas de desenho infantil. Que metabolismo!

Todo dia chegava cedinho na praia. Umas quatro e meia. Aproveitava para ajudar a recolher as redes e as mesas. Das redes de pesca, ganhava um peixe ou outro pra mais tarde. Das mesas, juntava o orgânico pro seu biodigestor. E assim lá pras cinco, cinco e meia começava a arrumar sua barraca na praia.

Às seis já começava algum movimento. Assim que as outras barracas abriam, fechava a sua. Só abriria oito horas. Passava de barraca em barraca pra comer algum petisco, saber o que fariam no dia, que novidades. Tinha perna e barriga pra andar toda a praia. As duas, aliás muito bem torneadas.

Umas sete e meia voltava. Fazia correndo apoios e abdominais pra correr bem o dia. Oito horas sua barraca estava aberta. Os primeiros visitantes preferiam beber algum drink, uma água de coco. Já começava a preparar os peixes que havia ganhado pra fazer isca. Partia os cocos pra tirar a castanha pra usar mais tarde.

Não era a única barraca a fechar na hora do almoço. Mas, provavelmente era a única com alguém dentro. Usava a hora do almoço pra fazer a cocada baiana que aprendeu numa viagem ao Espirito Santo. Só iria vender a cocada de tardezinha quando os turistas saiam da praia. A maioria pela entrada principal e no caminho passavam pela mini choupana dela.

De tarde, vendia isca de peixe-frito, peixe no molho, batatas e mandiocas fritas e buchada. Mas o que mais vendia eram cervejas. O caminhão tinha que entregar no deposito comum da praia umas três vezes ao dia. Os barraqueiros tinham que se organizar pra descarregar o caminhão.

Antigamente era cada um pra si, mas desde que Yasmin ficou órfã do pai eles tiveram meio que adotar a criança/adolescente. A mãe morreu no nascimento dela. A necessidade de ajudar Yasmin fez o perceber que cooperando a praia era melhor. Então há uns dez anos formaram uma espécie de cooperativa. Compram as bebidas em conjunto. Até melhorias na praia discutem e fazem em conjunto. Fazem empréstimo uns aos outros com juros bem lucrativos, mas muito inferiores aos dos bancos.

Todos cuidaram de Yasmin. Agora Yasmin cuidava deles. Era uma espécie de prefeita da praia. Fez acordo com os pescadores determinando horários para a pesca e para abertura da praia às barracas e aos visitantes. Conseguiu até organizar os pescadores que montaram sua própria cooperativa e agora até barcos novos eles compram pra pescar em conjunto e tem fundo pra época da piracema.

Assim de deixada na praia, Yasmin se tornou a rainha da praia. Com direito a comer o que quisesse e o quanto desejasse em cada quiosque da praia. O que ela valorizava bastante pra compensar sua correria diária. Pensaram em colocar uma estatua de sereia estilizando Yasmin na entrada da praia. Mas Yasmin é a prefeita da praia e ela vetou. “A praia é de rio! As sereias vivem no mar”, decretou ela. É... melhor terminar aqui.

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