Quem lê Yasmin pensa provavelmente numa sereia
ou princesa. Se pensarmos em beleza, de fato. Mas se pensarmos em fome... a
moça comia como uma ogra daquelas de desenho infantil. Que metabolismo!
Todo dia chegava cedinho na praia. Umas quatro
e meia. Aproveitava para ajudar a recolher as redes e as mesas. Das redes de
pesca, ganhava um peixe ou outro pra mais tarde. Das mesas, juntava o orgânico pro
seu biodigestor. E assim lá pras cinco, cinco e meia começava a arrumar sua
barraca na praia.
Às seis já começava algum movimento. Assim que
as outras barracas abriam, fechava a sua. Só abriria oito horas. Passava de
barraca em barraca pra comer algum petisco, saber o que fariam no dia, que
novidades. Tinha perna e barriga pra andar toda a praia. As duas, aliás muito
bem torneadas.
Umas sete e meia voltava. Fazia correndo
apoios e abdominais pra correr bem o dia. Oito horas sua barraca estava aberta.
Os primeiros visitantes preferiam beber algum drink, uma água de coco. Já
começava a preparar os peixes que havia ganhado pra fazer isca. Partia os cocos
pra tirar a castanha pra usar mais tarde.
Não era a única barraca a fechar na hora do
almoço. Mas, provavelmente era a única com alguém dentro. Usava a hora do
almoço pra fazer a cocada baiana que aprendeu numa viagem ao Espirito Santo. Só
iria vender a cocada de tardezinha quando os turistas saiam da praia. A maioria
pela entrada principal e no caminho passavam pela mini choupana dela.
De tarde, vendia isca de peixe-frito, peixe no
molho, batatas e mandiocas fritas e buchada. Mas o que mais vendia eram cervejas.
O caminhão tinha que entregar no deposito comum da praia umas três vezes ao dia.
Os barraqueiros tinham que se organizar pra descarregar o caminhão.
Antigamente era cada um pra si, mas desde que
Yasmin ficou órfã do pai eles tiveram meio que adotar a criança/adolescente. A mãe
morreu no nascimento dela. A necessidade de ajudar Yasmin fez o perceber que
cooperando a praia era melhor. Então há uns dez anos formaram uma espécie de
cooperativa. Compram as bebidas em conjunto. Até melhorias na praia discutem e
fazem em conjunto. Fazem empréstimo uns aos outros com juros bem lucrativos,
mas muito inferiores aos dos bancos.
Todos cuidaram de Yasmin. Agora Yasmin cuidava
deles. Era uma espécie de prefeita da praia. Fez acordo com os pescadores
determinando horários para a pesca e para abertura da praia às barracas e aos
visitantes. Conseguiu até organizar os pescadores que montaram sua própria
cooperativa e agora até barcos novos eles compram pra pescar em conjunto e tem
fundo pra época da piracema.
Assim de deixada na praia, Yasmin se tornou a
rainha da praia. Com direito a comer o que quisesse e o quanto
desejasse em cada quiosque da praia. O que ela valorizava bastante pra
compensar sua correria diária. Pensaram em colocar uma estatua de sereia
estilizando Yasmin na entrada da praia. Mas Yasmin é a prefeita da praia e ela
vetou. “A praia é de rio! As sereias vivem no mar”, decretou ela. É... melhor
terminar aqui.
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