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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Conto do Xande

 


Xande jogava peteca em casa e pinball na praia. Seu nome mesmo era Alexandresco, mas todo mundo chamava de Xande. Menos seu finado pai quando estava bravo. O pai não tinha morrido ainda. Finado era como sua mãe chamava o ex-marido. Aliás os ex-maridos. Xande era o mais velho. Dos filhos de Dona Maria Rosa e dos habitantes daquela cidade. Muita gente já tinha ido embora muito mais novo.

Diz a lenda que muitos aproveitaram de nascer na maternidade que era numa cidade próxima pra já ficar por lá. Dizem que o pessoal lá aprende a nadar cedo, o que parece ser verdade. Pra atravessar o Rio do Sono e fugir da cidade, o que é um fato controverso. Os anciões da cidade se dividem quanto a veracidade ou não dessas lendas. Xande tinha quase trinta. Era um dos habitantes mais velhos da cidade, tirando os anciões quarentões e cinquentões que já tinham perdido toda a oportunidade na vida e se acomodariam por lá.

A cidade vivia de desesperança. Vez por outra alguém plantava alguma coisa, cuidava de um animal pra ver se vendia. Às vezes dava certo. Mas era talvez melhor nem ter dado certo dado o prejuízo obtido. Tudo tinha que buscar longe e comprar de quem já havia comprado de outro. Era fácil cuidar das coisas e os vizinhos até ajudavam. O que complicava mais porque pra ser certo tinha que dar uma parte pra eles.

O certo mesmo era eles fazer mutirão de extrativismo. Procurar frutas e cocos e dividir entre eles. Organizar de cuidar das trilhas, das arvores, xaxins e palmeiras. Vez por outra caçar um animal silvestre pra ter carne e salgar pra durar bom tempo porque só pode caçar ás vezes. De qualquer forma, na praia tinha um fliperama que a prefeitura colocou pra ver se dá tempo de convencer ou prender o adolescente antes dele fugir pelo rio.

No quintal ou varanda de casa Xande brincava de peteca com as crianças. Isso quando não estava consertando as casas da cidade. Reforçando a calagem das paredes. Refazendo as palhas do telhado. Trocando os caibros. Xande não sabia se já estava condenado ou ainda era tempo de fugir. Se fugisse ia virar lenda. De longe o cara mais velho a fugir da cidade. Inventariam que ele deixou as muletas pra entrar no rio. Floreamento. Ele andava muito bem. Nunca precisou de apoio.

Se ficasse seria algo estranho nos últimos tempos, mas não no passado. Muita gente foi ficando e quando percebeu já era um idoso de quarenta, cinquenta anos naquela cidade. Xande não sabia ao certo que tipo era ele. E ninguém sabia pra lhe contar. Os que ficaram, se deixaram e se perderam numa outra época, num passado idílico. Os que fugiram eram de fugir daquele chove não molha. Xande não tinha ideia, nem modelo pra saber de que tipo era.

Acho que era do tipo que fica...

confuso.

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