Zyon tinha uma maldição na vida. Seria sempre
o último. Mesmo que pais gazeteiros denominassem seu filho, sua filha de Zureta,
ele ainda seria o último nome da lista de chamada. O professor de educação
física que tinha a ultima aula na quarta-feira só liberava o pessoal depois de
fazer a chamada. Era responder a chamada e poder sair. Advinha quem passava
mais fome?
Ele acreditava que os pais tinham colocado seu
nome em homenagem a uma constelação, mas ao consultar a União Internacional de Astronomia
descobriu que não é o nome de nenhuma das 88 constelações conhecidas. Na
verdade, Zion e não Zyon tem raízes semíticas que significam castelo.
Ele estudava muito. Muito mesmo. Desde cedo.
Não suportaria passar por ultimo em algum curso. Mesmo que fosse Medicina. Não
suportaria fazer medicina. Odiava clínicas e hospitais. Queria estudar física
pra estudar o estado da matéria. Desde cedo se interessou pela doideira da
física quântica. Não sabia nada, mas agora tudo era quântico. Era fascinado
pelo princípio da incerteza de Heisenberg. Um gato vivo e morto numa caixa era
demais!
Se fosse astrônomo poderia descobrir uma nova galáxia
e resolver seu problema dando seu nome a ela. Mas a sua dúvida mesmo era entre
estudar física ou vender coco na praia. Achava vender coco na praia fascinante
e, de quebra teria mais tempo pra observar o universo.
Sua matéria preferida na escola era química.
Mas... droga! O que fazer com isso? Que aplicação prática tem a matéria? Virar
atendente de farmácia? Não ia mal nas outras, tirando artes que era uma perda
de tempo e de paciência. Se sujar todo de guache? É muito gauche!
Precisava estudar muito! Não podia ser o
ultimo a ser aprovado em um concurso. Já bastava ser o último de qualquer lista
ordenada alfabeticamente. Preferia até não passar... que ninguém ouça. Ser
físico garantiria que poderia continuar estudando. O pedágio é que teria que
dar aulas. Não lhe atraía. Mas pelo menos poderia fazer a chamada ao contrário.
De Z pra A e no começo da aula. Ou não fazer chamada.
“Enquanto isso, vou degustar meu almoço que a
tarde vai ser longa. Vou começar com matemática e física e terminar com
literatura pra ajudar a dormir”, pensava ele determinado. Para química gastava
a tarde do sábado toda. Domingo ia à praia vender cocos pra juntar um dinheiro
pro cursinho pré-vestibular. Desejava entrar na Universidade de Pernambuco que
tinha um dos melhores departamentos de física e astronomia do mundo. Se desse
errado, ainda tinha o Rio de Janeiro.
É isso! Vamos deixar Zyon estudar. Vai que descobre
um efeito magnético e denomina de Zyon. Resolve alguma coisa. Ou não. Só Zyon
vai saber. Tchau!
Nota: em hebraico é correspondente a Sião, o
monte do castelo do Rei Davi.
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