Pensou um instante. Cansou. Tinha vinte quilômetros para atravessar, não
de modo incidente, mas radial ou sei lá o que é isso. Em uma volta retangular
chegaria novamente em casa ou no trabalho. Plantara seis bananeiras que não
podiam dar frutos porque apenas se pusera de ponta a cabeça. Na porta de casa
um pomar e uma horta. Um cenário que era um recorte de uma monocultura que era
às vezes soja, outra vez milho.
A cerca do pedaço interno estava intacta. Não havia nenhum corte. Sem invasões
de humanos ou animais. O pomar e a horta continuavam isolados por cerca e por
fosso de todo o resto. Todo o restante estava mecanizado: plantadeiras,
adubadoras, pivôs centrais, colheitadeiras e debulhadoras. A parte interna perto
do casarão era cuidada manualmente por uns três zeladores.
No final de semana iam pra feira vender o excesso de verduras e frutas
não consumidas no período. Ganhar um bom dinheiro com produtos orgânicos não
certificados, mas com altíssima credibilidade. Para tal levam dois semi-caminhões
cheios de mercadorias para preencher umas cinco barraquinhas. Em poucas horas
vendem tudo. Recolhem o resto para levar de volta porque não compensa ficar a
tarde para vender o pouco que sobrou. Algumas vezes distribuíam a sobra mesmo
só pra não ter que levar de volta.
Umas duas vezes por ano com a colheita da soja ou do milho fazia
melhorias no casarão. Também aperfeiçoava o maquinário, replicava a manutenção.
Transformava todo o sistema em mais redundante. Então a feira respondia aos gastos
do dia-a-dia e a colheita da monocultura aos investimentos. Obviamente gostava
muito mais do pomar e da horta do que das outras coisas. Se pudesse transformaria
a fazenda toda em pomar e hortas, mas estava muito cômoda com o status atual. E
sabia que era impossível fazer isso.