Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se
acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava recuperar
a força daquela conurbação toda na sua mente. Passara dias negociando as
realidades kantianas com as ilusões hegelianas. Tentando tornar a convenção
kantiana algo mais substancial com ajuda da imprevisibilidade hegeliana. A soma
de incontáveis fatores desconhecidos é pretensamente conhecida e sempre errática.
Quase não acordou se não fosse uma forte explosão próxima ao seu ouvido. Quase
queimou sua face. Não convinha acreditar em pazes mal construídas. Também nas
bem costuradas. Já sabia ser impossível a paz perpetua, mas acreditava fielmente
os seus princípios. Era simulando usar a razão que negociava as querelas. Sim,
porque a razão é a convenção. É o que todos fingem ter, embora nem as almas
mais racionais usem prioritariamente.
Precisava tomar logo seu café com bolachas água e sal pra começar o dia
que como sempre seria longo. Nunca esteve à frente das negociações. Era uma espécie
de secretario, um assessor, que embora não atuasse construía todo o arcabouço necessário.
Não tinha a etiqueta suficiente para ser comissão de frente da escola de samba,
mas tinha autoridade para ser mestre da bateria para ditar o ritmo.
Não tinha tempo para almoçar mais uma vez, mas sabia que o dia passaria
agitado ou não, não importa. Chegaria a profunda noite para colocar a cabeça no
travesseiro e resistir a uma avalanche de pensamentos. Desmaiar de exaustão e
torcer para acordar vivo na radiante manhã. Era preciso confeccionar os
diplomas dos acordos multilaterais e consolidar as alianças. Por traz dos corpos
diplomáticos a tal diplomacia.