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sexta-feira, 31 de julho de 2026

A Caixa

 


Comeu um belo pudim de pão adormecido. Não podia fazê-lo. Era pré-diabético. Não era um desses halterofilistas que tomavam insulina para fins estéticos. Por isso só comeu “meio pedaço”. Procurou imediatamente dar três voltas no quarteirão correndo enquanto Seu Messias e Messiinha seguravam o remo no balcão. Em dez ou doze minutos já estaria de volta pra atender os clientes e servir café, bolos e doces a eles. Na verdade, muito mais biscoitos fritos, a especialidade da casa.

Ao sair do turno. Daria três voltas no município. Município, não cidade. O município minúsculo tinha em torno de 102 km de limites. Três voltas seriam 306 km, mas com alguns atalhos aqui e ali davam 305 km. Chegava em casa para desmaiar, acordava de madrugada para um desjejum poderoso. Acordava às três horas e saia as cinco para andar os um quilometro e meio até o trabalho.

Era um hábil argumentador. Sabia vender, mas muito mais que isso sabia fazer que os clientes experimentassem voluntariamente suas algemas. Ou seja, as comidas nas quais se viciariam, se tornariam suas prediletas. Não era um bom negociante. As pessoas tentavam pagar a ele, mas ele dizia para negociarem com a caixa porque ele tava proibido de receber. Ele e todos do bar. Só a caixa poderia receber. Esse foi o jeito que acharam de fugir do prejuízo, todos davam desconto exagerado ou até não recebiam.

A quase gratuidade é que tinha tornado a lanchonete/ panificadora popular.  Mas alguém que pudesse garantir seus empregos e a própria existência do comercio era vital. Esse conflito constituiu a existência do local inteiramente. Se existisse essência, essa seria a do local, do empreendimento.

O público era muito fiel. Cerca de 80% do publico era das pessoas que passavam por lá todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. Apesar disso, não tinha mais caderninho. Porque esses sumiam ou tinham paginas rasgadas. Era uma relação de muita confiança entre os malandros e os ovários. Nesse caso nem os clientes, nem a caixa eram otários.

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