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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bancarrota



Grutas deram origem ao grotesco? Provavelmente não. Mas à palavra, existe alguma relação? Segundo a etimologia ambas descendem de uma palavra que designava cavidade. Grotesco vem da descoberta de um palácio soterrado que foi entendido primeiro como cavernas, grutas.

Ao contrario do que se supõe os humanos pré-históricos não viviam em cavernas. Não tinham uma família nuclear mesmo no início da agricultura. Nem as crianças conheciam seus pais. Apenas suas mães porque nasceram factualmente delas.  De suas grutas.

Entretanto a sociedade evoluiu para o outro lado. Discriminou o grotesco. Tomou o rumo fálico de valorizar o pau, depois a espada, depois a espingarda ou revolver. Trocou o acolhimento pela porrada. Tornou a conquista de territórios, campos livres para colher, caçar e depois plantar primordial. Não o acolhimento. Foi preciso separar os territórios, criar governos.

Cooperar para sobreviver se tornou inócuo até que a realidade obrigue a voltar. Tudo se tornou uma venda de ilusões, sobretudo a maior delas: autonomia. Autonomia não é, nem nunca foi igual a livre-arbítrio. Este nunca garantiu sobrevivência. Autogoverno é precisamente sobreviver sozinho, o que é impossível se essa autogestão não for apenas um simulacro para maior conforto dentro de uma realidade de intensa cooperação.

Mesmo todo mundo sabendo que deseja impor seus desejos aos outros, todo mundo continua jogando de modo a simular meras trocas comerciais para acobertar a incessante cooperação. Assim nasceu nosso Mogli no meio do mato. Que na verdade não era um mato, mas um vilarejo. Que nem era tão isolado. Era um condomínio quase no centro da cidade.

A consciência disso tudo o tornou vendedor da realidade. Trabalhar com pirâmides financeiras tão estruturadas quanto a dos bancos. Sabia que tudo o que o circundava era ilusões. Vendia seu seguro, sua assessoria para que empreendedores não caiam na ilusão fatal do autoengano. Acreditarem-se probos num mundo onde não há inocentes. Dizia que qualquer um poderia se dizer honesto, mas acreditar-se como tal é o autoengano que o conduzirá à bancarrota.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O pessimista

 


Se tivesse duas ou três chances preferia só uma. Vivia de uma esperança alucinante. Exercia um culto à próxima oportunidade. Tudo o que não deu certo um dia magicamente daria. Bastava ser resiliente: nunca deixar de lutar. O mundo era uma reação direta aos seus ensejos. Se tivesse o habito da leitura seria um mau leitor de Nietzsche ou um péssimo de Schopenhauer. Mas era somente um cristão de má consciência.

Sua vida era uma espera ou esperança do paraíso terreno. Havia sequestrado seu Deus pessoal e o torturava diariamente com cobranças como a de uma chinchila a seu dono. Ele que era tão bom, tão justo, tinha direito a retribuição. Do mesmo modo que uma lêndea cobra retribuição ao cabelo por o decorar.

Era uma poeirinha a decorar um universo. Uma poeirinha que mesmo intensamente amada como imagina não tem um infinitésimo da importância que julga ter. poeirinhas aparecem e desaparecem do nada. A lei da entropia é o caos, a desordem, a desorganização. Não há esperança no imprevisto. Só há esperança na ordem e não existe cosmos mais.

O que precede a desilusão é a ilusão. Não se trata de cair em conversa de malandro, mas de ser o malandro que faz de trouxa a si mesmo. Assim nosso personagem vivia de esperar o melhor, de se considerar probo, correto, honesto. Mesmo que não existam critérios para tal. Onde não há lógica, as regras não tem eficácia.

Seu anti-herói era o pessimismo, digo a consciência, o realismo, pragmatismo, seja lá o que for. Ao duro aceite de que não há chão mesmo, de verdade. E que estamos presos em frágeis teias que nos impedem de cair no abismo eterno. Quem quer ser livre tem que aprender a voar ou apostar na queda eterna se impacto.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Resignação

 


Aviou a receita: Correr sem parar. Correr como nunca. E lá vem bala, lá vem bala. Não podia mais comer tanta bala.  Seria melhor colher as frutas do campo. Algumas eram venenosas. Conhecia a maioria delas. Comer a farinha do tempo era inegociável. Não porque quisesse ou precisasse. Mas no caminho se livrar de absorver a poeira solta nos redemoinhos a lhe seguir (a seguir a todos) era impossível.

Desceu para o rio. Em suas bordas caudalosas comeria um peixe assado. Não um pirarucu ou um pirara, nem mesmo uma traíra. No máximo um pacu ou piau. Seria só o peixe com um pirão de farinha de mandioca tostada.  Tinha muito o que correr no dia: organizar o estoque da vendinha e vender todo o possível pra adiar o inevitável fechamento. O motivo: falta de clientes.

Embora quase todo mundo do distrito comprasse em sua loja. Tudo era muito pequeno e muito distante de qualquer outra gente. Tudo ali era uma lembrança de uma era de ouro terminada. Ninguém mais morava na região. Ninguém usava o rio. O parco movimento de um barco por semana outro por mês e alguém que errou o caminho.

Já foi uma região de grandes latifúndios, mas a agricultura vertical deslocou a exportação para as cidades criadas nas bordas das regiões metropolitanas. Poderia viver de turismo e até vivia, mas era tudo muito longe de tudo. Ou melhor, tudo muito distante do nada. Era uma região de modicas casas com jardins maravilhosos, muito lindos. Mas quem se deslocaria tanto pra ver. Fazia muito sucesso na internet. Talvez pudesse vender cartões postais. Mas enviar gastaria tempo. Tempo, o distrito tinha? Uma coisa era óbvia que tinha: resignação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Não éramos mais os mesmos

 


Alterou-se repentinamente após um pequeno copinho de cachaça, mas não com aguardente. Estava cheio de absinto. Não do novo com as restrições de 2000, mas do antigo com grau alcoólico ilimitado.  O ministro das comunicações de Cabo Verde virou uma garrafa de gole-gole e nem se alterou. O alterado era fraco? De jeito nenhum! Era capaz de beber caixas de cerveja sem se alterar durante um dia.  Frouxo sou eu que não aguento três copos cerveja.

Tomamos tudo nós três. Depois fomos caminhar doze quilômetros de trilhas assimétricas num caminho aberto no mato subindo e descendo uma serra. Ouvimos todo o silencio possível até chegar ao primeiro rancho ao longo do córrego. Sentamos um pouco numas cadeiras de balanço. Um ficou, dois seguiram caminho pelo córrego e além dele para o segundo rancho. Havia um terceiro, mas ninguém foi naquele dia lá.

Na manhã seguinte fomos todos ao ultimo barraco pra descer o riacho cada um no seu caiaque. Descemos em menos de uma hora. Depois de cada um levar o seu caiaque pro seu barraco subimos a serra em busca de cachoeiras. Logo achamos uma quase congelada que era impossível ou extremamente desconfortável colocar qualquer parte do corpo fora da água. Chegada a hora do almoço poderíamos pescar no supermercado a módicos 20 km dali. Mas tinha um restaurante num posto a menos de oito quilômetros de onde estávamos no mesmo sentido, mas direção oposta.

Dentro de um dia e meio precisávamos voltar às nossas cidades e nos restaria somente a experiencia daquelas 18 horas naquele recanto. Cada um voltaria para as suas atividades redundantes no mercado financeiro, na indústria e na comunicação. Em Nova Iorque, Itabirito e Praia. Estes momentos raros influenciariam toda a nosso restante de vida. A calma, o foco, a concentração, o silencio nos permitiu meditar a cada hora como se fosse um século. Não éramos mais os mesmos.

Uruguaio

  Vou pro Uruguai, disse-me ele. Não há país mais estável no mundo. Lá tanto faz votar na direita ou na esquerda. As diferenças são marginai...