Alugou minha mente a ideia do viver. A ideia de curtir o momento era
meramente contraditória. Dependia da finitude da vida. Da existência da morte.
O que me levou a pensar na morte. Que não era nada. Completamente nula. Apenas
um ponto final. Sem mais nada a frente. Um niilismo só que auto anulador, pois
incide sobre o vazio. É um zero elevado a zero. Só serve para calcular limites.
Não tem área. Não pode ser calculada por uma integral.
Comecei a ler poesia com voracidade. Geralmente livros pequenos como O
pequeno livro dos poemas em prosa do Baudelaire. Mas as vezes livros maiores,
coletâneas como Os melhores poemas de Manuel Bandeira. Não costumava ler prosa,
mas foi seduzido pelo estilo kafkiano.
Nunca conseguiria ler Dostoievski, Nietzsche ou Sartre. Eles não
conseguiriam explicar o mundo de modo a que entendesse. Não era o seu tipo de
ontologia. O coração para bombear sangue precisa de ritmo. Sem uma ordem, um
ordenamento era difícil pensar. Uma cadencia musical ou uma logica cartorial
ajudavam muito.
Assim alienou-se da morte e ganhou vida gastando o tempo em longas
divagações à bordo de um trem entre as conurbações de sua metrópole. Algumas
horas por dia tinha que dar aula de sociologia ou filosofia, por vezes educação
artística onde gastava sua pequena compreensão de estética, ética ou ontologia.
Mas o que gostava mesmo eram das viagens da casa para o trabalho e do trabalho
para casa onde poderia ler e refletir sobre os folhetins do dia.
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