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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Elitista

 


Costurou os zagueiros como se fossem zangões. Um de costa para o ouro. Ferroando-se mutuamente. Era a vantagem de ser um corredor de média distância. Média distância? Sei lá! Entre 800 e 1500 metros. Lembrou-se desse lance umas duas ou três vezes na vida. Mais era lembrado do que remorava. Aprimorou-se na corrida e foi mais a fundo: se tornou maratonista. Esporte que teve que abandonar pra ser assessor de um ex-esportista que virou deputado estadual.

Foi demitido por ser excessivamente inabalável. Era além de péssimo negociante, um cara que não entendia bulhufas de negociação. Pelo menos de atender um barganhador. Era um cara que diria: é isso se quiser levar, se não quiser... Foi pego publicamente discutindo com o seu chefe por causa de virgulas. Já tinha brigado privadamente indo até o nível físico, mas a cena publica o salvou de trabalhar naquilo que era completamente inadequado.

Se tornou representante de uma multinacional daquelas que não precisa negociar.  Apresentava os produtos em grandes vitrines. Não fazia publicidade além do boca à boca porque era um produto pra quem conhece, um produto pra poucos. Não tinha o mínimo interesse em popularizar o produto, embora tivesse o interesse de vender pra todos desde que pensassem que só eles tinham.

Sim, ele era um elitista.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Renda

 


Amanhã eu vou. Hoje eu ia, mas... Ontem eu fui. Drama diário de quem sempre promete dar a volta no quarteirão. Um quarteirão de arestas de 2,5 km. Perto da entrada, no lado oposto ao que vira na partida, um pequeno quiosque de água de coco.  Acordou duas horas da manhã. Tinha dormido quatro da tarde. Às quatro começou a dar as voltas no quarteirão para verificar a segurança do perímetro e espantar as visitas indesejadas.

Sua vigília terminaria meio dia. Uma hora da tarde estaria em casa almoçando. Leria todos os panfletos que foram colocados de madrugada debaixo da porta de entrada da casa. Alguns ameaçadores como boletos de desconto de lugares onde nunca iria. Sonhava em poder ir onde certamente em algum intervalo iria, mas não ia porque seria terminar um sonho.

Sonhos sempre eram vendidos nas padarias onde não conseguia intervalo para ir. Andava com uma constância incrível, quase cronometrada. O que permitia a quem tivesse costume saber onde estava a qualquer momento de sua ronda. A sua renda só crescia das duas às quatro da tarde quando tricotava para pegar no sono.

Seu salário estava estagnado há uns cinco anos. Não recebia nem correção monetária. Mas ganhava algum com a renda das peças tricodas na banquinha a frente de casa. O preço das peças era constantemente aumentado de acordo com a sua necessidade e a disponibilidade dos clientes em pagar.

O grosso de sua renda era o salário de vigilante, mas o que fazia diferença eram as peças de tricô. Sem elas dificilmente sobreviveria. O condomínio chegou a propor diminuir seu aluguel, mas como aumentaria a taxa de condomínio nunca foi aprovado. De qualquer maneira estava muito próximo de ganharem uma pequena indústria de tricô e bordados e perderem o vigilante. Sim. Problemas de renda.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A horta e o pomar

 


Pensou um instante. Cansou. Tinha vinte quilômetros para atravessar, não de modo incidente, mas radial ou sei lá o que é isso. Em uma volta retangular chegaria novamente em casa ou no trabalho. Plantara seis bananeiras que não podiam dar frutos porque apenas se pusera de ponta a cabeça. Na porta de casa um pomar e uma horta. Um cenário que era um recorte de uma monocultura que era às vezes soja, outra vez milho.

A cerca do pedaço interno estava intacta. Não havia nenhum corte. Sem invasões de humanos ou animais. O pomar e a horta continuavam isolados por cerca e por fosso de todo o resto. Todo o restante estava mecanizado: plantadeiras, adubadoras, pivôs centrais, colheitadeiras e debulhadoras. A parte interna perto do casarão era cuidada manualmente por uns três zeladores.

No final de semana iam pra feira vender o excesso de verduras e frutas não consumidas no período. Ganhar um bom dinheiro com produtos orgânicos não certificados, mas com altíssima credibilidade. Para tal levam dois semi-caminhões cheios de mercadorias para preencher umas cinco barraquinhas. Em poucas horas vendem tudo. Recolhem o resto para levar de volta porque não compensa ficar a tarde para vender o pouco que sobrou. Algumas vezes distribuíam a sobra mesmo só pra não ter que levar de volta.

Umas duas vezes por ano com a colheita da soja ou do milho fazia melhorias no casarão. Também aperfeiçoava o maquinário, replicava a manutenção. Transformava todo o sistema em mais redundante. Então a feira respondia aos gastos do dia-a-dia e a colheita da monocultura aos investimentos. Obviamente gostava muito mais do pomar e da horta do que das outras coisas. Se pudesse transformaria a fazenda toda em pomar e hortas, mas estava muito cômoda com o status atual. E sabia que era impossível fazer isso.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Folhetins do dia

 


Alugou minha mente a ideia do viver. A ideia de curtir o momento era meramente contraditória. Dependia da finitude da vida. Da existência da morte. O que me levou a pensar na morte. Que não era nada. Completamente nula. Apenas um ponto final. Sem mais nada a frente. Um niilismo só que auto anulador, pois incide sobre o vazio. É um zero elevado a zero. Só serve para calcular limites. Não tem área. Não pode ser calculada por uma integral.

Comecei a ler poesia com voracidade. Geralmente livros pequenos como O pequeno livro dos poemas em prosa do Baudelaire. Mas as vezes livros maiores, coletâneas como Os melhores poemas de Manuel Bandeira. Não costumava ler prosa, mas foi seduzido pelo estilo kafkiano.

Nunca conseguiria ler Dostoievski, Nietzsche ou Sartre. Eles não conseguiriam explicar o mundo de modo a que entendesse. Não era o seu tipo de ontologia. O coração para bombear sangue precisa de ritmo. Sem uma ordem, um ordenamento era difícil pensar. Uma cadencia musical ou uma logica cartorial ajudavam muito.

Assim alienou-se da morte e ganhou vida gastando o tempo em longas divagações à bordo de um trem entre as conurbações de sua metrópole. Algumas horas por dia tinha que dar aula de sociologia ou filosofia, por vezes educação artística onde gastava sua pequena compreensão de estética, ética ou ontologia. Mas o que gostava mesmo eram das viagens da casa para o trabalho e do trabalho para casa onde poderia ler e refletir sobre os folhetins do dia.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

A Caixa

 


Comeu um belo pudim de pão adormecido. Não podia fazê-lo. Era pré-diabético. Não era um desses halterofilistas que tomavam insulina para fins estéticos. Por isso só comeu “meio pedaço”. Procurou imediatamente dar três voltas no quarteirão correndo enquanto Seu Messias e Messiinha seguravam o remo no balcão. Em dez ou doze minutos já estaria de volta pra atender os clientes e servir café, bolos e doces a eles. Na verdade, muito mais biscoitos fritos, a especialidade da casa.

Ao sair do turno. Daria três voltas no município. Município, não cidade. O município minúsculo tinha em torno de 102 km de limites. Três voltas seriam 306 km, mas com alguns atalhos aqui e ali davam 305 km. Chegava em casa para desmaiar, acordava de madrugada para um desjejum poderoso. Acordava às três horas e saia as cinco para andar os um quilometro e meio até o trabalho.

Era um hábil argumentador. Sabia vender, mas muito mais que isso sabia fazer que os clientes experimentassem voluntariamente suas algemas. Ou seja, as comidas nas quais se viciariam, se tornariam suas prediletas. Não era um bom negociante. As pessoas tentavam pagar a ele, mas ele dizia para negociarem com a caixa porque ele tava proibido de receber. Ele e todos do bar. Só a caixa poderia receber. Esse foi o jeito que acharam de fugir do prejuízo, todos davam desconto exagerado ou até não recebiam.

A quase gratuidade é que tinha tornado a lanchonete/ panificadora popular.  Mas alguém que pudesse garantir seus empregos e a própria existência do comercio era vital. Esse conflito constituiu a existência do local inteiramente. Se existisse essência, essa seria a do local, do empreendimento.

O público era muito fiel. Cerca de 80% do publico era das pessoas que passavam por lá todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. Apesar disso, não tinha mais caderninho. Porque esses sumiam ou tinham paginas rasgadas. Era uma relação de muita confiança entre os malandros e os ovários. Nesse caso nem os clientes, nem a caixa eram otários.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Realidade Alternativa

 


Assuntou todo o ocorrido, mesmo que o fosse só na sua imaginação. Aquilo era um preludio para a pasmaceira. Imaginava-se rei de um reino distante, daqueles outrora nunca vistos. Um desses inventados por refazedores de histórias com bases em documentos verídicos instigadores de teses minoritárias como a de que a inconfidência minera não era mineira, mas fluminense e provocada pelos plutonianos.

Os plutonianos eram habitantes do ex-planeta Plutão que trouxeram, obviamente, o plutônio para o planeta Terra. Tudo envasado em documentos internos de embaixadas de países que nunca se envolveram um guerras ou golpes. Ou escritos de recém fechados sanatórios.   Coisas de países alinhados, quer dizer, pelo menos não ortogonais.

Nem os poetas Manuel Bandeira ou Gonçalves Dias descreveriam a sua terra de origem. Era muito melhor que qualquer Passárgada. Embora não houvesse a menor prova de sua existência, tinha que existir porque desejava sua materialidade. Ah! Que sonho! Era uma maravilha que descobrissem que todos os seus desejos eram verdade.

Aquela verdade era muito conveniente. Procurava pregar a boa-nova a todos que encontrava. Muitos invejosos o questionavam. Diziam que era improvável a existência de tal país. Que na região predominava os califados e não os reinados e que, portanto, se por um acaso o improvável país existisse seria uma conurbação de pequenos califados.

Os piores eram os que dominados pelo globalismo diziam que os documentos reivindicados foram desmentidos pelos próprios órgãos redatores. Nossa como tem pessoas iludidas ou invejosas no mundo! Obvio que tudo o que foi escrito até agora foi combinado e é uma mentira combinada pelas quatro famílias que dominam o mundo!

terça-feira, 7 de julho de 2026

Novíssimo Testamento

 


Driblou as pedras e se embaraçou nas águas. A umidade invadiu-o. a humildade foi-se. Nadou como nunca. Nadar era novidade. Se virou como um sobrevivente de desastre. Foram cinquenta metros de desespero. Não se lembrou de que bastava colocar os pés no chão e o pescoço estaria fora das águas.

Jogaram uma boia e o puxaram para a areia. Não sei porque jogaram pois podia-se apenas levar a boia andando para o suplicante. Mas não quiseram ridicularizaram-no. O suplicante voltando a terra implorou para que não contassem pra ninguém. Não contaram, mas a praia estava cheia.

Se tornou muito popular. Tão popular que certamente seria eleito vereador se tivesse um partido para lhe suportar. Era insuportável, diziam muitos, mas na possibilidade de eleger alguém partidos tampam o nariz. Não foi eleito por uma providencia divina. Muitos ateus se tornaram deístas, cristãos ou não.

Baita jogada de marketing evitar um desastre como esse. Talvez agora não venham mais dilúvios, mas dias que nascem sombrios e se iluminam, florescem. Certamente um novíssimo testamento. Sem discípulos, mas com testemunhos, testemunhas por todos os lados. Desatentos a qualquer dogma construindo suas convicções dos modos mais variados para que qualquer um caia num deísmo possível.

Desse modo o Novíssimo Testamento canibalizou a Nova Era não acontecida e se solidificou como a única convicção plural em que qualquer coisa era a mesma coisa e tudo o que surgisse já existia.

Uruguaio

  Vou pro Uruguai, disse-me ele. Não há país mais estável no mundo. Lá tanto faz votar na direita ou na esquerda. As diferenças são marginai...