Amanhã eu vou. Hoje eu ia, mas... Ontem eu fui. Drama diário de quem
sempre promete dar a volta no quarteirão. Um quarteirão de arestas de 2,5 km. Perto
da entrada, no lado oposto ao que vira na partida, um pequeno quiosque de água
de coco. Acordou duas horas da manhã. Tinha
dormido quatro da tarde. Às quatro começou a dar as voltas no quarteirão para
verificar a segurança do perímetro e espantar as visitas indesejadas.
Sua vigília terminaria meio dia. Uma hora da tarde estaria em casa
almoçando. Leria todos os panfletos que foram colocados de madrugada debaixo da
porta de entrada da casa. Alguns ameaçadores como boletos de desconto de
lugares onde nunca iria. Sonhava em poder ir onde certamente em algum intervalo
iria, mas não ia porque seria terminar um sonho.
Sonhos sempre eram vendidos nas padarias onde não conseguia intervalo
para ir. Andava com uma constância incrível, quase cronometrada. O que permitia
a quem tivesse costume saber onde estava a qualquer momento de sua ronda. A sua
renda só crescia das duas às quatro da tarde quando tricotava para pegar no
sono.
Seu salário estava estagnado há uns cinco anos. Não recebia nem correção
monetária. Mas ganhava algum com a renda das peças tricodas na banquinha a
frente de casa. O preço das peças era constantemente aumentado de acordo com a
sua necessidade e a disponibilidade dos clientes em pagar.
O grosso de sua renda era o salário de vigilante, mas o que fazia diferença
eram as peças de tricô. Sem elas dificilmente sobreviveria. O condomínio chegou
a propor diminuir seu aluguel, mas como aumentaria a taxa de condomínio nunca
foi aprovado. De qualquer maneira estava muito próximo de ganharem uma pequena indústria
de tricô e bordados e perderem o vigilante. Sim. Problemas de renda.
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