Comeu um belo pudim de pão adormecido. Não podia fazê-lo. Era pré-diabético.
Não era um desses halterofilistas que tomavam insulina para fins estéticos. Por
isso só comeu “meio pedaço”. Procurou imediatamente dar três voltas no
quarteirão correndo enquanto Seu Messias e Messiinha seguravam o remo no balcão.
Em dez ou doze minutos já estaria de volta pra atender os clientes e servir
café, bolos e doces a eles. Na verdade, muito mais biscoitos fritos, a
especialidade da casa.
Ao sair do turno. Daria três voltas no município. Município, não cidade. O
município minúsculo tinha em torno de 102 km de limites. Três voltas seriam 306
km, mas com alguns atalhos aqui e ali davam 305 km. Chegava em casa para
desmaiar, acordava de madrugada para um desjejum poderoso. Acordava às três horas
e saia as cinco para andar os um quilometro e meio até o trabalho.
Era um hábil argumentador. Sabia vender, mas muito mais que isso sabia
fazer que os clientes experimentassem voluntariamente suas algemas. Ou seja, as
comidas nas quais se viciariam, se tornariam suas prediletas. Não era um bom
negociante. As pessoas tentavam pagar a ele, mas ele dizia para negociarem com
a caixa porque ele tava proibido de receber. Ele e todos do bar. Só a caixa
poderia receber. Esse foi o jeito que acharam de fugir do prejuízo, todos davam
desconto exagerado ou até não recebiam.
A quase gratuidade é que tinha tornado a lanchonete/ panificadora
popular. Mas alguém que pudesse garantir
seus empregos e a própria existência do comercio era vital. Esse conflito
constituiu a existência do local inteiramente. Se existisse essência, essa
seria a do local, do empreendimento.
O público era muito fiel. Cerca de 80% do publico era das pessoas que
passavam por lá todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. Apesar disso, não
tinha mais caderninho. Porque esses sumiam ou tinham paginas rasgadas. Era uma
relação de muita confiança entre os malandros e os ovários. Nesse caso nem os
clientes, nem a caixa eram otários.