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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Paradoxo de Antístenes

Não dormiu, nem acordou aquela tarde. Seguia sonambulo a dita noite. Logo dormiria. Precisava um longo período acordado para curar a ressaca daquelas férias numa casa de descanso. Sua vida era assim: oito ou oito. A mesma vivencia repetida de sempre. Tanto faz se dormindo ou acordado. Pensava no paradoxo de Antístenes. Não tinha menor importância e, justamente por isso pensava entusiasticamente e compulsivamente.

A inexistência do falso implica na impossibilidade de contraditório? Uma questão bastante resolvida após as primeiras criticas ao iluminismo kantiano dentre outros. A verdade há pelo menos dois séculos não é questão. Já se convenceram os filósofos continentais de somente há verdades particulares. Nenhuma geral. Se não há uma verdade, não há mentira. Melhor pensar em consistência e inconsistência. Há muitos outros modos também de pensar, mas nosso espelho refletia assim.

Não era um arguto leitor de Schopenhauer, nem de Marx ou Freud. Nunca lera Nietsche, Proust ou Dostoievski. Era perspicaz em Machado de Assis e Fernando Sabino. Desconfiava das aparências como se fosse um apostolo de Sócrates ou Platão. Por ser um moderno precisava ter a mente alargada. Não podia acreditar na busca pelo verdadeiro, pelo real.  Mas podia buscar similaridades, verossimilhanças.

Nunca pensar em escrever um livro até ser necessário. Era necessário, mas e a preguiça? Internou-se voluntariamente numa casa de repouso por um ano. Não foi muito útil: o paradoxo não lhe saia da cabeça. Incrustrado numa pedra como o lodo ou o mofo nas paredes. Saiu de lá sem dinheiro. Gastara sua fortuna fugindo do inevitável. Agora além do suplicio mental precisava escrever para ganhar algum.

Lançou um livro que logo se tornou um acontecimento. Um sucesso de crítica. Quase não vendeu. O livro era bom demais para ser devorado rapidamente. Não era um fastfood. Ficou miserável. Morou um mês nas ruas. Mas sua rara sobriedade o salvou. Conseguiu um emprego de provador de cachaças. Tinha avaliações muito sinceras sem medo de errar. Até porque não acreditava no falso.


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