Não dormiu, nem acordou aquela tarde. Seguia sonambulo a dita noite. Logo
dormiria. Precisava um longo período acordado para curar a ressaca daquelas
férias numa casa de descanso. Sua vida era assim: oito ou oito. A mesma
vivencia repetida de sempre. Tanto faz se dormindo ou acordado. Pensava no
paradoxo de Antístenes. Não tinha menor importância e, justamente por isso
pensava entusiasticamente e compulsivamente.
A inexistência do falso implica na impossibilidade de contraditório? Uma
questão bastante resolvida após as primeiras criticas ao iluminismo kantiano
dentre outros. A verdade há pelo menos dois séculos não é questão. Já se
convenceram os filósofos continentais de somente há verdades particulares.
Nenhuma geral. Se não há uma verdade, não há mentira. Melhor pensar em
consistência e inconsistência. Há muitos outros modos também de pensar, mas
nosso espelho refletia assim.
Não era um arguto leitor de Schopenhauer, nem de Marx ou Freud. Nunca
lera Nietsche, Proust ou Dostoievski. Era perspicaz em Machado de Assis e
Fernando Sabino. Desconfiava das aparências como se fosse um apostolo de
Sócrates ou Platão. Por ser um moderno precisava ter a mente alargada. Não
podia acreditar na busca pelo verdadeiro, pelo real. Mas podia buscar similaridades,
verossimilhanças.
Nunca pensar em escrever um livro até ser necessário. Era necessário, mas
e a preguiça? Internou-se voluntariamente numa casa de repouso por um ano. Não
foi muito útil: o paradoxo não lhe saia da cabeça. Incrustrado numa pedra como
o lodo ou o mofo nas paredes. Saiu de lá sem dinheiro. Gastara sua fortuna
fugindo do inevitável. Agora além do suplicio mental precisava escrever para
ganhar algum.
Lançou um livro que logo se tornou um acontecimento. Um sucesso de crítica.
Quase não vendeu. O livro era bom demais para ser devorado rapidamente. Não era
um fastfood. Ficou miserável. Morou um mês nas ruas. Mas sua rara sobriedade o
salvou. Conseguiu um emprego de provador de cachaças. Tinha avaliações muito
sinceras sem medo de errar. Até porque não acreditava no falso.
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