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terça-feira, 9 de junho de 2026

Diplomacia

 


Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava recuperar a força daquela conurbação toda na sua mente. Passara dias negociando as realidades kantianas com as ilusões hegelianas. Tentando tornar a convenção kantiana algo mais substancial com ajuda da imprevisibilidade hegeliana. A soma de incontáveis fatores desconhecidos é pretensamente conhecida e sempre errática.

Quase não acordou se não fosse uma forte explosão próxima ao seu ouvido. Quase queimou sua face. Não convinha acreditar em pazes mal construídas. Também nas bem costuradas. Já sabia ser impossível a paz perpetua, mas acreditava fielmente os seus princípios. Era simulando usar a razão que negociava as querelas. Sim, porque a razão é a convenção. É o que todos fingem ter, embora nem as almas mais racionais usem prioritariamente.

Precisava tomar logo seu café com bolachas água e sal pra começar o dia que como sempre seria longo. Nunca esteve à frente das negociações. Era uma espécie de secretario, um assessor, que embora não atuasse construía todo o arcabouço necessário. Não tinha a etiqueta suficiente para ser comissão de frente da escola de samba, mas tinha autoridade para ser mestre da bateria para ditar o ritmo.

Não tinha tempo para almoçar mais uma vez, mas sabia que o dia passaria agitado ou não, não importa. Chegaria a profunda noite para colocar a cabeça no travesseiro e resistir a uma avalanche de pensamentos. Desmaiar de exaustão e torcer para acordar vivo na radiante manhã. Era preciso confeccionar os diplomas dos acordos multilaterais e consolidar as alianças. Por traz dos corpos diplomáticos a tal diplomacia.  

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nasceu esquecido

 


Nasceu esquecido. Passou dois meses no hospital. Quando vieram lhe buscar não podia sair. Tinha adquirido uma infecção oportunista. Nasceu plenamente saudável. Passou por todos os testes feitos. Mas era temporada de touros em Barcelona. A maternidade em Madri segurou as pontas. Até porque o erro era deles ao não informar o nascimento a mãe.

Esta pernoitara ali. Havia perdido o recém-nascido. Achou de mau gosto ver o feto natimorto. Saiu o mais rápido possível para evitar o trauma. Para não se fixar na perda festejou o máximo possível. Alienou-se fazendo todo o oposto do que esperado. Esqueceu o celular no hospital um pouco conscientemente, um pouco não para se desligar das notícias, dos questionamentos.

Quando julgou seguro passou a se preocupar com o que lhe fazia falta. Descobriu que perdeu o celular. Tentou se lembrar do número. Perguntou aos conhecidos se alguém se lembrava do número. Se tinham alguma ligação antiga sua. Alguém tinha e deixou ela ligar para o seu celular para tentar reavê-lo.  Ligou e não descobriu apenas o telefone, achou um filho. Ficou imediatamente atônita.

Pediu a pessoa para acompanha-la até o hospital. O natimorto não era dela. Era de alguma outra garota de mesma idade e quase mesmas características. Prometeu não processar o hospital por isso e tinha uma grande dívida. Como se paga dois meses de internação? A infecção clandestina viria a quase nivelar as dívidas. Pagaria menos, mas seriam meses limpando os corredores externos daquela unidade de saúde.

 Havia ganho um enorme presente. Sim, um presente que ela mesma ajudara a confeccionar, pelo qual tinha todo o apreço de sua vida. Passou a viver e respirar a situação. Fortes emoções a dominaram. Devastadoras. Tão enormes que passou a ser dominada por todas elas. Inebriou-se com elas, mas logo veio a ressaca. Como tudo na vida, algo chegou, a tomou completamente e logo se tornou insignificante.

Nosso personagem, não a mãe, viveu aqui e ali. Não chegou a rua, mas passou por varias casas. A primeira infância em casas de enfermeiras que adotaram uma após a outra. Logo que ganhou alguma independência se internou num internato, depois num externato. Depois foi trabalhar no comércio onde tinha muito tino. Sabia conversar com todos, entender os mais variados tipoa.

Não era dos melhores negociantes, mas por compreender os clientes vendia como nenhum outro. Não obtinha os melhores lucros, mas como vendia uma quantidade colossal, mais do que se pagava. Até falia concorrentes por falta de a quem vender. Era uma espécie de vendedor preferido. Não fazia os melhores preços, mas também não os piores. Esses muito menos. Cobrava o valor da tabela sempre.

Vivia incólume firme em viver a vida mais comum possível não porque se preocupasse com isso, mas porque não se preocupava com nada. Tomava seu café na mesma padaria e bebia após o serviço no mesmo bar. Ao chegar em qualquer um dos lugares não precisavam saber o que pediria. Foi essa a historia que me contaram.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Manifesto Anarquista da Neo-Modernidade Tardia

 


A primeira declaração é que quem escreve é ex e futuro anarquista. Nunca um anarquista no momento. Essa nem vou numerar porque é óbvia. Tão evidente quanto o anarquismo. O anarquismo não é prioritariamente uma recusa a autoridade, mas uma ojeriza a submissão.

 Os anarquistas são pessoas geralmente que não se iludem com efeitos. Deste modo um anarcossindicalista, geralmente porque os anarquistas são geralmente os mais múltiplos, não lutaria por um aumento salarial simplesmente porque seria uma troca de chicote por um menos dolorido com a manutenção do tronco. A luta seria contra a estrutura de submissão. Tomar o capital como sugerem os marxistas seria somente mudar quem submete o outro. Anarquistas quebrariam as maquinas para impossibilitar a continuidade do sistema exploratório.

Deste modo quando se apregoam que os anarquistas boicotam individualmente as eleições e, muitos tem o feito, parece uma atitude de quem se preocupa muito mais com ser virtuoso do que de fato tomar partido lutar. Anarquistas deveriam fazer protestos e tentar impedir as votações. Não conseguiriam ter teria efeito pedagógico a reiteração.

Anarcocapitalismo é uma contradição em si a não ser que criem um capitalismo sem indústria e comercio só com profissionais liberais no setor de serviços. O primeiro problema do anarquismo é a submissão. Ele é contra a arquia porque a arquia diz que alguém domina alguém. O primeiro problema do Estado é o monopólio da força. Se as pessoas não aceitam submissão a primeira e obvia atitude é desmontar exércitos, polícias para não lhe forçarem a nada. E o judiciário para que não decidam nada sobre ele.

A mais importante de todas é que não existe anarquista de verdade porque são tão múltiplos que ao contrario de liberais e marxistas é impossível coloca-los numa caixinha por algum critério. Decorrente disso, nenhum anarquista concordará comigo ou com qualquer outro. Essa liberdade é talvez a única coisa que uma os anarquista embora venham de construções diferentes e cheguem a conclusões mais dispares ainda.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Orto

 


Sentado na cadeira viu o mundo. Tudo parecia muito confuso. Precisava criar varias abstrações, ilusões. Iluminuras para colocar ordem no mundo. Poderia separar os animais entre os que tinham vertebras ou não, mas poderia ser mais múltiplo ao separar pela cor dos olhos ou pela quantidade de olhos. Outra possibilidade era separar os animais entre os que sorriem ou não. Ou até entre os que choram.

Mas não era biólogo ou biomédico. Ecologia e zoologia não eram seus estudos principais. Se interessava por algo de certa forma homologo: a filologia. Não era um filólogo, nem tinha tanto reconhecimento como tal. Nem os de fato tem ou tinham tal reconhecimento. Era um obtuso ortografo e por isso nem esse, nem nenhum outro texto meu será apresentado a ele.

Era um estudioso da grafia correta e por isso sabia que haviam incontáveis convenções da melhor grafia que tentavam ser unificadas. Conceitos tão dispares que impossibilitavam a reunião numa só norma. Apesar disso existe a norma oficial. Uma das acepções escolhidas com adaptações cosméticas.

Ele sabia disso, trabalhava com isso. O que o tornou extremamente cético. Praticamente apenas como um sério desconforto interno. Não era um cético militante. Não desejava que outros tivessem o mesmo desconforto dele. Preferiam que fossem crédulos cordeirinhos mesmo que tivessem fé nos maiores absurdos.

Não era um fã de Kierkegaard ou Pascal. Seu caminho até essa conclusão foi bastante diferente. Não era uma aposta ou um consolo. Era, na verdade, puro desespero. Não encontrava alento nenhum nessa posição. Era a escolha entre morrer esfaqueado multiplamente ou diluído por projeteis.

Observar de fora o mundo como objeto significava não tomar parte do mundo. Um mundo como abjeto seria tomar uma posição sobre ele. Desfrutar inocentemente da roseira enquanto os acúleos mordem a carne. Morrer infeccionado pela beleza parece um destino melhor, mas não ético. Não segundo a ética aceita por ele. Precisaria se abster de julgar. Um ortografo pode se abster de julgar? Maldito orto!!!!

domingo, 31 de maio de 2026

Pseudo-Moisés

 


Confluía em si vários rios. Ficava, de certa forma, desnorteado. Não porque não conhecesse e localizasse os pontos cardeais e colaterais. Mas porque todas as influências, as mais dispares opiniões vinham a si.  Precisava aprofundar, construir cavernas e desfiladeiros para deliberar. Ponderar com calma e sozinho através da abstração mais enganadora chamada razão.

Não era nem de longe um cacique daquela tribo. Estava mais para um pajé, embora lhe faltasse experiencia para tal. Também não era um Rasputin. Não era dado a superstições, artifícios. Era uma espécie de conselheiro-geral não pela experiencia, mas pela sorte de tomar as decisões mais acertadas. Pessoas crédulas diriam que ele tinha ótimos instintos. Ele tinha muito medo. Escolhia sempre a decisão menos arriscada a qual pouco coincidia com a mais covarde.  Geralmente era a decisão corajosa. Não a temerária que confundiam com esta.

Não dava conselhos de graça a não ser quando desejava que não fossem acolhidos. Cobrava abusadamente por eles não só financeiramente. Evitava de todos os modos tecer comentários sobre o que quisessem que fora. Tentava de todo modo não emitir nenhum juizo. Somente quando se tornava impossível, excessivamente incomodo não emitir um veredito, o promulgava de modo quase silencioso e dado a múltipla interpretação.

Impunha-se longos períodos de silencio não porque não desejava falar, mas para que não lhe ouvissem. Fazia ver a todos que não tinha uma conclusão ainda. Dizia sempre que a conclusão é a morte. Não podia concluir ainda e concluir não dependia dele. A morte chegaria inevitável.  Instruía todos a esperar mais um pouco. Talvez a morte não chegasse antes da convicção. Era uma situação vexatória. Ter certeza de algo era vergonhoso. Ele exibia sempre que possível suas duvidas como uma bandeira de cruzada.

Tinha sua maiêutica moderna para amassar, triturar todas as convicções. Destruir certezas e eriçar duvidas como cânticos ritualísticos. Exaltava sua ignorância bem acima de si: venham, chicoteiem minha idiotice! Aceitava como um castigo andar pelas ruas e observar a excessiva emotividade. Aqueles tomados de infindáveis chagas diziam a ele: coitado! Com esse único buraco tao grande vai morrer logo. Nem se afligiam da insuportável dor que carregavam por não morrer logo.

Tinham discípulos. Ele só tinha contrapontos que erigiam suas teorias ao refletir sobre o debate. Não desejava ensinar nada, construir nada. Apenas desejava por um porem em tudo. Destruir a ingenuidade adquirida pela fé. Era preciso acreditar desacreditando. Nada era certo, conclusivo. Tudo estava em construção. Não confundia cimento com concreto. Era preciso regar e esperar nascer o chão.

Quanto mais o procuravam, mas fugia. Sabia não ter a resposta pra nada e que cada um tinha suas próprias respostas. Precisavam de ajuda para alcançá-las. Mas quanto mais ajudasse, piores seriam. Precisavam imergir no problema e considerar as soluções propostas para gerar outras originais a partir do fenômeno narrado. Era necessário dar sedutibilidade a história nova sem negar nenhuma materialidade.

Assim, no meio do deserto lhe viam caravanas para consultar sobre o tempo, a vida, a morte, hereditariedade ou sobrevivência.  Mudava sempre de lugar, nunca se instalando num oásis. Aguçava a sede de todos e os obrigava a ir ao limite da sobrevivência. Mandava avisar as vilas que estava indo embora mesmo quando nunca fosse. Espalhava boatos de que estava morto e quem atendia era um falsário.

Seis meses por ano se abrigava num barquinho no meio do mar morto e não atendia ninguém, mesmo os que lhe levavam alimentos e voltavam com respostas que eles mesmos haviam alcançado sozinhos.  Era a famosa didática do silencio. A pessoa consigo mesma ás vezes e nada mais. Quanto mais fazia a alma, mais certeiros são os caminhos. Não porque são certos ou errados, mas porque simplesmente o são.

Seu nome era Aarão, mas podem chamar de Pseudo-Moisés.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Saboneteiras

 


Cruzou as saboneteiras, como chamava a série de pequenos montes que ornavam a região. Não era de tudo um caminho impossível, nem mesmo difícil. Era tão somente um caminho inesperado para quem poderia navegar num pequeno barco as confluências entre os riachos, descer poucas cachoeiras.

Aquilo era como tomar um ar, refrescar a cabeça. Sair de sua lida diária de pendurar quartos. Destrinchar ovinos e caprinos no seu frigorifico regional. Limpar extensa área fechada antes que o liquido solidifique. Pra exportar é preciso um ambiente quase estéril.  Deixar todos azulejos brancos sumamente alvos e o metal como um espelho é necessario.

Chuveiros químicos na entrada e na saída. Estar inteiramente vestido de branco para que cada mancha seja notada. da cabeça aos pés, cada detalhe importa. Para uma produção pequena e. portanto muito bem controlada apenas dez funcionários contando com os administrativos. Dentro do frigorifico apenas três.

Não trabalhavam todos os dias lá. Quem criava os ovinos e caprinos, estes sim trabalhavam todos os dias, mas apenas uma pequena parte do dia. Quem dava ração pela manhã e levava os animais para passear não era o mesmo pessoal que os recolhia aos cochos a noite. O manuseio das carnes ocorria apenas cinco ou seis dias por mês. Eram rotinas exaustivas de dez a doze horas para realizar todos os preparos necessários e embalagens para transportar o material pronto e fresco obtendo a maior valorização possível.

Quando possível nosso personagem ia para as montanhas para observar o manuseio dos animais vivos e também lembrar um pouco da infância nas saboneteiras. Às vezes até dormia por lá porque no outro dia não precisava trabalhar. Levava suas facas e navalhas para afiar o corte. Também para lavar. Na volta seriam esterilizadas. As usava apenas para detalhar os cortes. O bruto sempre era feito por uma espécie de serra elétrica, não destas de cortar madeira, mas muito próxima.

Na volta descia observando tudo. Marcava as áreas perigosas por gps e passava as informações a quem criava e engordava os animais. A cidade em volta do matadouro e do cemitério era muito pequena. Hoje não teria se emancipado. Desde sempre a família comandava a cidade. Eram governo e oposição na câmara municipal. De fora da família só duas casas abandonadas. Uma delas foi um açougue. Como a exportação leva todas as carnes da cidade precisam ir a cidade vizinha fazer as compras.

O cemitério tem mais covas de habitantes da cidade vizinha que da própria cidade. O da cidade vizinha é muito pequeno. Na cidade em volta da saboneteira, do cemitério e do frigorifico há tão pouca gente que até hoje só deu duas covas. Quando recebem o salário ou as vendas precisam ir na capital, distante uns duzentos quilômetros para receber ou guardar seus dólares euros ou reais. Ninguém tem lá cotidianamente onde gastar, mas de vez em quando compram um atacado de coisas.  Não é incomum alguém derrubar e construir nova casa.  E o churrasco da família com carne importada da cidade vizinha ou da capital reúne a cidade toda. Não há como deixar de chamar alguém da família.

Eventualmente alguém falta. Muito raramente. Diz que estava nas saboneteiras. Ninguém trabalha no dia. O prefeito deu ponto facultativo e o que tinha que ser feito foi resolvido antes de acender o carvão. No final do dia qualquer um recolhe os caprinos e ovinos ainda soltos.  Ou seja, tudo flui como se os riachos fizessem parte do relevo da região. Como se tudo estivesse integrado. Como se todas as catracas do sistema estivessem lubrificadas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Uma história de sobrevivência

 


Eles eram dois como se fossem um. Pensando melhor, eram três. Um ainda não era, mas era esperado. O padre dissera que eram um não tinha uma estação. Viviam onde só havia duas estações: oito meses de inverno sem nenhuma ou muito pouca chuva; quatro meses de enxurrada. Obviamente casaram no verão. Quem festejaria no inverno de carestia? Mas a estação que conta é a seca mesma porque se uniram no final do verão.

Moravam juntos desde o inicio da vida, mas a benção de Deus tinham a apenas três quase quatro meses. Acredito que a tinham desde sempre, mas aquela que abençoava a união, não a cada um deles como individuo a tinham a poucos meses. Francine foi para a casa dos pais para garantir a comida necessária aos dois. Francisco ficou a cuidar do que restou de sua roça e do cabrito ainda não vendido.

Eram uma magreza só os Franciscos. Sim, o cabrito tinha o mesmo nome do dono. Francine não era muito diferente. Precisava de muita farinha com rapadura pra sobreviver. Vez por outra recebia uma fruta. Quando chegasse a chuva daqui alguns dias voltava pra casa. A roça começaria a esverdear, amarelar e vermelhar. O mato serviria as primeiras iguarias e quase imediatamente depois poderia arrancar as primeiras raízes da terra. Na seguida cortar os primeiros caules e colher as primeiras frutas.

O rebento viria na estação de chuva. Quando falo isso me refiro tanto a sobrevivência quanto a descendência. Eram assuntos distintos, mas podiam ser os mesmos. A chuva traria os alimentos, a subsistência. Mas a descendência também era a subsistência das duas linhagens. Sobreviviam a mais uma geração. Tantas outras linhagens cessaram naquele agreste. Procriar era um ato de resistência. Ninguém falava isso em voz alta, mas todos pensavam boa parte de suas vidas.

 A herança que podiam deixar era a mais bela: o mundão todo. Não tinham uma terra. Poucos tinham e lá pros lados do litoral. Mas naquele mundão todo era se agarrar a terra e fecundar tudo o que era possível. Era inebriante riqueza ter sementes. Estas eram recolhidas com avidez como se fossem um tesouro. Cada água era medida, balanceada. Era uma economia baseada em água e semente. Terra era pra quem podia comprar. Ninguém podia ali. Cartórios não se atreviam a ir pra lá. Não seriam bem recebidos. As roças não tinham limites. Ou melhor, tinham o limite do que tinha sido plantado. Não havia nem discussão dada a distancia entre uma plantação e outra, um córrego temporão e outro.

A maior preocupação com o filho era de que aos sete anos seria deixado no mato por três dias pra aprender a sobreviver do extrativismo no inicio das chuvas. Ninguém podia interferir nessa sabedoria que herdaram talvez dos índios. Em toda a historia da vila, em mais de cem anos apenas uma morte e por ataque de animal exótico. Um leão que fugiu de um circo. Poderia ter acontecido na própria de confrontação urbano-rural. Em suma, uma história de sobrevivência.

Um contramestre em disputa

  Era um contramestre em disputa. Não porque fosse contra o mestre, muito pelo contrário. O nome era complicado: contramestre é um auxiliar ...