Sentado na cadeira viu o mundo. Tudo parecia muito confuso. Precisava
criar varias abstrações, ilusões. Iluminuras para colocar ordem no mundo. Poderia
separar os animais entre os que tinham vertebras ou não, mas poderia ser mais múltiplo
ao separar pela cor dos olhos ou pela quantidade de olhos. Outra possibilidade
era separar os animais entre os que sorriem ou não. Ou até entre os que choram.
Mas não era biólogo ou biomédico. Ecologia e zoologia não eram seus
estudos principais. Se interessava por algo de certa forma homologo: a
filologia. Não era um filólogo, nem tinha tanto reconhecimento como tal. Nem os
de fato tem ou tinham tal reconhecimento. Era um obtuso ortografo e por isso
nem esse, nem nenhum outro texto meu será apresentado a ele.
Era um estudioso da grafia correta e por isso sabia que haviam incontáveis
convenções da melhor grafia que tentavam ser unificadas. Conceitos tão dispares
que impossibilitavam a reunião numa só norma. Apesar disso existe a norma oficial.
Uma das acepções escolhidas com adaptações cosméticas.
Ele sabia disso, trabalhava com isso. O que o tornou extremamente cético.
Praticamente apenas como um sério desconforto interno. Não era um cético militante.
Não desejava que outros tivessem o mesmo desconforto dele. Preferiam que fossem
crédulos cordeirinhos mesmo que tivessem fé nos maiores absurdos.
Não era um fã de Kierkegaard ou Pascal. Seu caminho até essa conclusão
foi bastante diferente. Não era uma aposta ou um consolo. Era, na verdade, puro
desespero. Não encontrava alento nenhum nessa posição. Era a escolha entre
morrer esfaqueado multiplamente ou diluído por projeteis.
Observar de fora o mundo como objeto significava não tomar parte do
mundo. Um mundo como abjeto seria tomar uma posição sobre ele. Desfrutar inocentemente
da roseira enquanto os acúleos mordem a carne. Morrer infeccionado pela beleza
parece um destino melhor, mas não ético. Não segundo a ética aceita por ele. Precisaria
se abster de julgar. Um ortografo pode se abster de julgar? Maldito orto!!!!
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