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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Saboneteiras

 


Cruzou as saboneteiras, como chamava a série de pequenos montes que ornavam a região. Não era de tudo um caminho impossível, nem mesmo difícil. Era tão somente um caminho inesperado para quem poderia navegar num pequeno barco as confluências entre os riachos, descer poucas cachoeiras.

Aquilo era como tomar um ar, refrescar a cabeça. Sair de sua lida diária de pendurar quartos. Destrinchar ovinos e caprinos no seu frigorifico regional. Limpar extensa área fechada antes que o liquido solidifique. Pra exportar é preciso um ambiente quase estéril.  Deixar todos azulejos brancos sumamente alvos e o metal como um espelho é necessario.

Chuveiros químicos na entrada e na saída. Estar inteiramente vestido de branco para que cada mancha seja notada. da cabeça aos pés, cada detalhe importa. Para uma produção pequena e. portanto muito bem controlada apenas dez funcionários contando com os administrativos. Dentro do frigorifico apenas três.

Não trabalhavam todos os dias lá. Quem criava os ovinos e caprinos, estes sim trabalhavam todos os dias, mas apenas uma pequena parte do dia. Quem dava ração pela manhã e levava os animais para passear não era o mesmo pessoal que os recolhia aos cochos a noite. O manuseio das carnes ocorria apenas cinco ou seis dias por mês. Eram rotinas exaustivas de dez a doze horas para realizar todos os preparos necessários e embalagens para transportar o material pronto e fresco obtendo a maior valorização possível.

Quando possível nosso personagem ia para as montanhas para observar o manuseio dos animais vivos e também lembrar um pouco da infância nas saboneteiras. Às vezes até dormia por lá porque no outro dia não precisava trabalhar. Levava suas facas e navalhas para afiar o corte. Também para lavar. Na volta seriam esterilizadas. As usava apenas para detalhar os cortes. O bruto sempre era feito por uma espécie de serra elétrica, não destas de cortar madeira, mas muito próxima.

Na volta descia observando tudo. Marcava as áreas perigosas por gps e passava as informações a quem criava e engordava os animais. A cidade em volta do matadouro e do cemitério era muito pequena. Hoje não teria se emancipado. Desde sempre a família comandava a cidade. Eram governo e oposição na câmara municipal. De fora da família só duas casas abandonadas. Uma delas foi um açougue. Como a exportação leva todas as carnes da cidade precisam ir a cidade vizinha fazer as compras.

O cemitério tem mais covas de habitantes da cidade vizinha que da própria cidade. O da cidade vizinha é muito pequeno. Na cidade em volta da saboneteira, do cemitério e do frigorifico há tão pouca gente que até hoje só deu duas covas. Quando recebem o salário ou as vendas precisam ir na capital, distante uns duzentos quilômetros para receber ou guardar seus dólares euros ou reais. Ninguém tem lá cotidianamente onde gastar, mas de vez em quando compram um atacado de coisas.  Não é incomum alguém derrubar e construir nova casa.  E o churrasco da família com carne importada da cidade vizinha ou da capital reúne a cidade toda. Não há como deixar de chamar alguém da família.

Eventualmente alguém falta. Muito raramente. Diz que estava nas saboneteiras. Ninguém trabalha no dia. O prefeito deu ponto facultativo e o que tinha que ser feito foi resolvido antes de acender o carvão. No final do dia qualquer um recolhe os caprinos e ovinos ainda soltos.  Ou seja, tudo flui como se os riachos fizessem parte do relevo da região. Como se tudo estivesse integrado. Como se todas as catracas do sistema estivessem lubrificadas.

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