Confluía em si vários rios. Ficava, de certa forma, desnorteado. Não porque
não conhecesse e localizasse os pontos cardeais e colaterais. Mas porque todas
as influências, as mais dispares opiniões vinham a si. Precisava aprofundar, construir cavernas e
desfiladeiros para deliberar. Ponderar com calma e sozinho através da abstração
mais enganadora chamada razão.
Não era nem de longe um cacique daquela tribo. Estava mais para um pajé,
embora lhe faltasse experiencia para tal. Também não era um Rasputin. Não era
dado a superstições, artifícios. Era uma espécie de conselheiro-geral não pela experiencia,
mas pela sorte de tomar as decisões mais acertadas. Pessoas crédulas diriam que
ele tinha ótimos instintos. Ele tinha muito medo. Escolhia sempre a decisão
menos arriscada a qual pouco coincidia com a mais covarde. Geralmente era a decisão corajosa. Não a temerária
que confundiam com esta.
Não dava conselhos de graça a não ser quando desejava que não fossem acolhidos.
Cobrava abusadamente por eles não só financeiramente. Evitava de todos os modos
tecer comentários sobre o que quisessem que fora. Tentava de todo modo não emitir
nenhum juizo. Somente quando se tornava impossível, excessivamente incomodo não
emitir um veredito, o promulgava de modo quase silencioso e dado a múltipla interpretação.
Impunha-se longos períodos de silencio não porque não desejava falar, mas
para que não lhe ouvissem. Fazia ver a todos que não tinha uma conclusão ainda.
Dizia sempre que a conclusão é a morte. Não podia concluir ainda e concluir não
dependia dele. A morte chegaria inevitável. Instruía todos a esperar mais um pouco. Talvez
a morte não chegasse antes da convicção. Era uma situação vexatória. Ter certeza
de algo era vergonhoso. Ele exibia sempre que possível suas duvidas como uma
bandeira de cruzada.
Tinha sua maiêutica moderna para amassar, triturar todas as convicções. Destruir
certezas e eriçar duvidas como cânticos ritualísticos. Exaltava sua ignorância bem
acima de si: venham, chicoteiem minha idiotice! Aceitava como um castigo andar
pelas ruas e observar a excessiva emotividade. Aqueles tomados de infindáveis chagas
diziam a ele: coitado! Com esse único buraco tao grande vai morrer logo. Nem se
afligiam da insuportável dor que carregavam por não morrer logo.
Tinham discípulos. Ele só tinha contrapontos que erigiam suas teorias ao
refletir sobre o debate. Não desejava ensinar nada, construir nada. Apenas desejava
por um porem em tudo. Destruir a ingenuidade adquirida pela fé. Era preciso
acreditar desacreditando. Nada era certo, conclusivo. Tudo estava em construção.
Não confundia cimento com concreto. Era preciso regar e esperar nascer o chão.
Quanto mais o procuravam, mas fugia. Sabia não ter a resposta pra nada e
que cada um tinha suas próprias respostas. Precisavam de ajuda para alcançá-las.
Mas quanto mais ajudasse, piores seriam. Precisavam imergir no problema e considerar
as soluções propostas para gerar outras originais a partir do fenômeno narrado.
Era necessário dar sedutibilidade a história nova sem negar nenhuma
materialidade.
Assim, no meio do deserto lhe viam caravanas para consultar sobre o
tempo, a vida, a morte, hereditariedade ou sobrevivência. Mudava sempre de lugar, nunca se instalando
num oásis. Aguçava a sede de todos e os obrigava a ir ao limite da sobrevivência.
Mandava avisar as vilas que estava indo embora mesmo quando nunca fosse. Espalhava
boatos de que estava morto e quem atendia era um falsário.
Seis meses por ano se abrigava num barquinho no meio do mar morto e não
atendia ninguém, mesmo os que lhe levavam alimentos e voltavam com respostas
que eles mesmos haviam alcançado sozinhos. Era a famosa didática do silencio. A pessoa
consigo mesma ás vezes e nada mais. Quanto mais fazia a alma, mais certeiros são
os caminhos. Não porque são certos ou errados, mas porque simplesmente o são.
Seu nome era Aarão, mas podem chamar de Pseudo-Moisés.
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