Acompanham

domingo, 31 de maio de 2026

Pseudo-Moisés

 


Confluía em si vários rios. Ficava, de certa forma, desnorteado. Não porque não conhecesse e localizasse os pontos cardeais e colaterais. Mas porque todas as influências, as mais dispares opiniões vinham a si.  Precisava aprofundar, construir cavernas e desfiladeiros para deliberar. Ponderar com calma e sozinho através da abstração mais enganadora chamada razão.

Não era nem de longe um cacique daquela tribo. Estava mais para um pajé, embora lhe faltasse experiencia para tal. Também não era um Rasputin. Não era dado a superstições, artifícios. Era uma espécie de conselheiro-geral não pela experiencia, mas pela sorte de tomar as decisões mais acertadas. Pessoas crédulas diriam que ele tinha ótimos instintos. Ele tinha muito medo. Escolhia sempre a decisão menos arriscada a qual pouco coincidia com a mais covarde.  Geralmente era a decisão corajosa. Não a temerária que confundiam com esta.

Não dava conselhos de graça a não ser quando desejava que não fossem acolhidos. Cobrava abusadamente por eles não só financeiramente. Evitava de todos os modos tecer comentários sobre o que quisessem que fora. Tentava de todo modo não emitir nenhum juizo. Somente quando se tornava impossível, excessivamente incomodo não emitir um veredito, o promulgava de modo quase silencioso e dado a múltipla interpretação.

Impunha-se longos períodos de silencio não porque não desejava falar, mas para que não lhe ouvissem. Fazia ver a todos que não tinha uma conclusão ainda. Dizia sempre que a conclusão é a morte. Não podia concluir ainda e concluir não dependia dele. A morte chegaria inevitável.  Instruía todos a esperar mais um pouco. Talvez a morte não chegasse antes da convicção. Era uma situação vexatória. Ter certeza de algo era vergonhoso. Ele exibia sempre que possível suas duvidas como uma bandeira de cruzada.

Tinha sua maiêutica moderna para amassar, triturar todas as convicções. Destruir certezas e eriçar duvidas como cânticos ritualísticos. Exaltava sua ignorância bem acima de si: venham, chicoteiem minha idiotice! Aceitava como um castigo andar pelas ruas e observar a excessiva emotividade. Aqueles tomados de infindáveis chagas diziam a ele: coitado! Com esse único buraco tao grande vai morrer logo. Nem se afligiam da insuportável dor que carregavam por não morrer logo.

Tinham discípulos. Ele só tinha contrapontos que erigiam suas teorias ao refletir sobre o debate. Não desejava ensinar nada, construir nada. Apenas desejava por um porem em tudo. Destruir a ingenuidade adquirida pela fé. Era preciso acreditar desacreditando. Nada era certo, conclusivo. Tudo estava em construção. Não confundia cimento com concreto. Era preciso regar e esperar nascer o chão.

Quanto mais o procuravam, mas fugia. Sabia não ter a resposta pra nada e que cada um tinha suas próprias respostas. Precisavam de ajuda para alcançá-las. Mas quanto mais ajudasse, piores seriam. Precisavam imergir no problema e considerar as soluções propostas para gerar outras originais a partir do fenômeno narrado. Era necessário dar sedutibilidade a história nova sem negar nenhuma materialidade.

Assim, no meio do deserto lhe viam caravanas para consultar sobre o tempo, a vida, a morte, hereditariedade ou sobrevivência.  Mudava sempre de lugar, nunca se instalando num oásis. Aguçava a sede de todos e os obrigava a ir ao limite da sobrevivência. Mandava avisar as vilas que estava indo embora mesmo quando nunca fosse. Espalhava boatos de que estava morto e quem atendia era um falsário.

Seis meses por ano se abrigava num barquinho no meio do mar morto e não atendia ninguém, mesmo os que lhe levavam alimentos e voltavam com respostas que eles mesmos haviam alcançado sozinhos.  Era a famosa didática do silencio. A pessoa consigo mesma ás vezes e nada mais. Quanto mais fazia a alma, mais certeiros são os caminhos. Não porque são certos ou errados, mas porque simplesmente o são.

Seu nome era Aarão, mas podem chamar de Pseudo-Moisés.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Diplomacia

  Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava ...