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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nasceu esquecido

 


Nasceu esquecido. Passou dois meses no hospital. Quando vieram lhe buscar não podia sair. Tinha adquirido uma infecção oportunista. Nasceu plenamente saudável. Passou por todos os testes feitos. Mas era temporada de touros em Barcelona. A maternidade em Madri segurou as pontas. Até porque o erro era deles ao não informar o nascimento a mãe.

Esta pernoitara ali. Havia perdido o recém-nascido. Achou de mau gosto ver o feto natimorto. Saiu o mais rápido possível para evitar o trauma. Para não se fixar na perda festejou o máximo possível. Alienou-se fazendo todo o oposto do que esperado. Esqueceu o celular no hospital um pouco conscientemente, um pouco não para se desligar das notícias, dos questionamentos.

Quando julgou seguro passou a se preocupar com o que lhe fazia falta. Descobriu que perdeu o celular. Tentou se lembrar do número. Perguntou aos conhecidos se alguém se lembrava do número. Se tinham alguma ligação antiga sua. Alguém tinha e deixou ela ligar para o seu celular para tentar reavê-lo.  Ligou e não descobriu apenas o telefone, achou um filho. Ficou imediatamente atônita.

Pediu a pessoa para acompanha-la até o hospital. O natimorto não era dela. Era de alguma outra garota de mesma idade e quase mesmas características. Prometeu não processar o hospital por isso e tinha uma grande dívida. Como se paga dois meses de internação? A infecção clandestina viria a quase nivelar as dívidas. Pagaria menos, mas seriam meses limpando os corredores externos daquela unidade de saúde.

 Havia ganho um enorme presente. Sim, um presente que ela mesma ajudara a confeccionar, pelo qual tinha todo o apreço de sua vida. Passou a viver e respirar a situação. Fortes emoções a dominaram. Devastadoras. Tão enormes que passou a ser dominada por todas elas. Inebriou-se com elas, mas logo veio a ressaca. Como tudo na vida, algo chegou, a tomou completamente e logo se tornou insignificante.

Nosso personagem, não a mãe, viveu aqui e ali. Não chegou a rua, mas passou por varias casas. A primeira infância em casas de enfermeiras que adotaram uma após a outra. Logo que ganhou alguma independência se internou num internato, depois num externato. Depois foi trabalhar no comércio onde tinha muito tino. Sabia conversar com todos, entender os mais variados tipoa.

Não era dos melhores negociantes, mas por compreender os clientes vendia como nenhum outro. Não obtinha os melhores lucros, mas como vendia uma quantidade colossal, mais do que se pagava. Até falia concorrentes por falta de a quem vender. Era uma espécie de vendedor preferido. Não fazia os melhores preços, mas também não os piores. Esses muito menos. Cobrava o valor da tabela sempre.

Vivia incólume firme em viver a vida mais comum possível não porque se preocupasse com isso, mas porque não se preocupava com nada. Tomava seu café na mesma padaria e bebia após o serviço no mesmo bar. Ao chegar em qualquer um dos lugares não precisavam saber o que pediria. Foi essa a historia que me contaram.

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