Eles eram dois como se fossem um. Pensando melhor, eram três. Um ainda
não era, mas era esperado. O padre dissera que eram um não tinha uma estação. Viviam
onde só havia duas estações: oito meses de inverno sem nenhuma ou muito pouca chuva;
quatro meses de enxurrada. Obviamente casaram no verão. Quem festejaria no
inverno de carestia? Mas a estação que conta é a seca mesma porque se uniram no
final do verão.
Moravam juntos desde o inicio da vida, mas a benção de Deus tinham a
apenas três quase quatro meses. Acredito que a tinham desde sempre, mas aquela
que abençoava a união, não a cada um deles como individuo a tinham a poucos
meses. Francine foi para a casa dos pais para garantir a comida necessária aos
dois. Francisco ficou a cuidar do que restou de sua roça e do cabrito ainda não
vendido.
Eram uma magreza só os Franciscos. Sim, o cabrito tinha o mesmo nome do dono.
Francine não era muito diferente. Precisava de muita farinha com rapadura pra sobreviver.
Vez por outra recebia uma fruta. Quando chegasse a chuva daqui alguns dias
voltava pra casa. A roça começaria a esverdear, amarelar e vermelhar. O mato
serviria as primeiras iguarias e quase imediatamente depois poderia arrancar as
primeiras raízes da terra. Na seguida cortar os primeiros caules e colher as
primeiras frutas.
O rebento viria na estação de chuva. Quando falo isso me refiro tanto a sobrevivência
quanto a descendência. Eram assuntos distintos, mas podiam ser os mesmos. A chuva
traria os alimentos, a subsistência. Mas a descendência também era a subsistência
das duas linhagens. Sobreviviam a mais uma geração. Tantas outras linhagens
cessaram naquele agreste. Procriar era um ato de resistência. Ninguém falava
isso em voz alta, mas todos pensavam boa parte de suas vidas.
A herança que podiam deixar era a
mais bela: o mundão todo. Não tinham uma terra. Poucos tinham e lá pros lados
do litoral. Mas naquele mundão todo era se agarrar a terra e fecundar tudo o
que era possível. Era inebriante riqueza ter sementes. Estas eram recolhidas com
avidez como se fossem um tesouro. Cada água era medida, balanceada. Era uma
economia baseada em água e semente. Terra era pra quem podia comprar. Ninguém podia
ali. Cartórios não se atreviam a ir pra lá. Não seriam bem recebidos. As roças
não tinham limites. Ou melhor, tinham o limite do que tinha sido plantado. Não havia
nem discussão dada a distancia entre uma plantação e outra, um córrego temporão
e outro.
A maior preocupação com o filho era de que aos sete anos seria deixado no
mato por três dias pra aprender a sobreviver do extrativismo no inicio das chuvas.
Ninguém podia interferir nessa sabedoria que herdaram talvez dos índios. Em toda
a historia da vila, em mais de cem anos apenas uma morte e por ataque de animal
exótico. Um leão que fugiu de um circo. Poderia ter acontecido na própria de
confrontação urbano-rural. Em suma, uma história de sobrevivência.
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