Acompanham

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O pessimista

 


Se tivesse duas ou três chances preferia só uma. Vivia de uma esperança alucinante. Exercia um culto à próxima oportunidade. Tudo o que não deu certo um dia magicamente daria. Bastava ser resiliente: nunca deixar de lutar. O mundo era uma reação direta aos seus ensejos. Se tivesse o habito da leitura seria um mau leitor de Nietzsche ou um péssimo de Schopenhauer. Mas era somente um cristão de má consciência.

Sua vida era uma espera ou esperança do paraíso terreno. Havia sequestrado seu Deus pessoal e o torturava diariamente com cobranças como a de uma chinchila a seu dono. Ele que era tão bom, tão justo, tinha direito a retribuição. Do mesmo modo que uma lêndea cobra retribuição ao cabelo por o decorar.

Era uma poeirinha a decorar um universo. Uma poeirinha que mesmo intensamente amada como imagina não tem um infinitésimo da importância que julga ter. poeirinhas aparecem e desaparecem do nada. A lei da entropia é o caos, a desordem, a desorganização. Não há esperança no imprevisto. Só há esperança na ordem e não existe cosmos mais.

O que precede a desilusão é a ilusão. Não se trata de cair em conversa de malandro, mas de ser o malandro que faz de trouxa a si mesmo. Assim nosso personagem vivia de esperar o melhor, de se considerar probo, correto, honesto. Mesmo que não existam critérios para tal. Onde não há lógica, as regras não tem eficácia.

Seu anti-herói era o pessimismo, digo a consciência, o realismo, pragmatismo, seja lá o que for. Ao duro aceite de que não há chão mesmo, de verdade. E que estamos presos em frágeis teias que nos impedem de cair no abismo eterno. Quem quer ser livre tem que aprender a voar ou apostar na queda eterna se impacto.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Resignação

 


Aviou a receita: Correr sem parar. Correr como nunca. E lá vem bala, lá vem bala. Não podia mais comer tanta bala.  Seria melhor colher as frutas do campo. Algumas eram venenosas. Conhecia a maioria delas. Comer a farinha do tempo era inegociável. Não porque quisesse ou precisasse. Mas no caminho se livrar de absorver a poeira solta nos redemoinhos a lhe seguir (a seguir a todos) era impossível.

Desceu para o rio. Em suas bordas caudalosas comeria um peixe assado. Não um pirarucu ou um pirara, nem mesmo uma traíra. No máximo um pacu ou piau. Seria só o peixe com um pirão de farinha de mandioca tostada.  Tinha muito o que correr no dia: organizar o estoque da vendinha e vender todo o possível pra adiar o inevitável fechamento. O motivo: falta de clientes.

Embora quase todo mundo do distrito comprasse em sua loja. Tudo era muito pequeno e muito distante de qualquer outra gente. Tudo ali era uma lembrança de uma era de ouro terminada. Ninguém mais morava na região. Ninguém usava o rio. O parco movimento de um barco por semana outro por mês e alguém que errou o caminho.

Já foi uma região de grandes latifúndios, mas a agricultura vertical deslocou a exportação para as cidades criadas nas bordas das regiões metropolitanas. Poderia viver de turismo e até vivia, mas era tudo muito longe de tudo. Ou melhor, tudo muito distante do nada. Era uma região de modicas casas com jardins maravilhosos, muito lindos. Mas quem se deslocaria tanto pra ver. Fazia muito sucesso na internet. Talvez pudesse vender cartões postais. Mas enviar gastaria tempo. Tempo, o distrito tinha? Uma coisa era óbvia que tinha: resignação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Não éramos mais os mesmos

 


Alterou-se repentinamente após um pequeno copinho de cachaça, mas não com aguardente. Estava cheio de absinto. Não do novo com as restrições de 2000, mas do antigo com grau alcoólico ilimitado.  O ministro das comunicações de Cabo Verde virou uma garrafa de gole-gole e nem se alterou. O alterado era fraco? De jeito nenhum! Era capaz de beber caixas de cerveja sem se alterar durante um dia.  Frouxo sou eu que não aguento três copos cerveja.

Tomamos tudo nós três. Depois fomos caminhar doze quilômetros de trilhas assimétricas num caminho aberto no mato subindo e descendo uma serra. Ouvimos todo o silencio possível até chegar ao primeiro rancho ao longo do córrego. Sentamos um pouco numas cadeiras de balanço. Um ficou, dois seguiram caminho pelo córrego e além dele para o segundo rancho. Havia um terceiro, mas ninguém foi naquele dia lá.

Na manhã seguinte fomos todos ao ultimo barraco pra descer o riacho cada um no seu caiaque. Descemos em menos de uma hora. Depois de cada um levar o seu caiaque pro seu barraco subimos a serra em busca de cachoeiras. Logo achamos uma quase congelada que era impossível ou extremamente desconfortável colocar qualquer parte do corpo fora da água. Chegada a hora do almoço poderíamos pescar no supermercado a módicos 20 km dali. Mas tinha um restaurante num posto a menos de oito quilômetros de onde estávamos no mesmo sentido, mas direção oposta.

Dentro de um dia e meio precisávamos voltar às nossas cidades e nos restaria somente a experiencia daquelas 18 horas naquele recanto. Cada um voltaria para as suas atividades redundantes no mercado financeiro, na indústria e na comunicação. Em Nova Iorque, Itabirito e Praia. Estes momentos raros influenciariam toda a nosso restante de vida. A calma, o foco, a concentração, o silencio nos permitiu meditar a cada hora como se fosse um século. Não éramos mais os mesmos.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Elitista

 


Costurou os zagueiros como se fossem zangões. Um de costa para o ouro. Ferroando-se mutuamente. Era a vantagem de ser um corredor de média distância. Média distância? Sei lá! Entre 800 e 1500 metros. Lembrou-se desse lance umas duas ou três vezes na vida. Mais era lembrado do que remorava. Aprimorou-se na corrida e foi mais a fundo: se tornou maratonista. Esporte que teve que abandonar pra ser assessor de um ex-esportista que virou deputado estadual.

Foi demitido por ser excessivamente inabalável. Era além de péssimo negociante, um cara que não entendia bulhufas de negociação. Pelo menos de atender um barganhador. Era um cara que diria: é isso se quiser levar, se não quiser... Foi pego publicamente discutindo com o seu chefe por causa de virgulas. Já tinha brigado privadamente indo até o nível físico, mas a cena publica o salvou de trabalhar naquilo que era completamente inadequado.

Se tornou representante de uma multinacional daquelas que não precisa negociar.  Apresentava os produtos em grandes vitrines. Não fazia publicidade além do boca à boca porque era um produto pra quem conhece, um produto pra poucos. Não tinha o mínimo interesse em popularizar o produto, embora tivesse o interesse de vender pra todos desde que pensassem que só eles tinham.

Sim, ele era um elitista.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Renda

 


Amanhã eu vou. Hoje eu ia, mas... Ontem eu fui. Drama diário de quem sempre promete dar a volta no quarteirão. Um quarteirão de arestas de 2,5 km. Perto da entrada, no lado oposto ao que vira na partida, um pequeno quiosque de água de coco.  Acordou duas horas da manhã. Tinha dormido quatro da tarde. Às quatro começou a dar as voltas no quarteirão para verificar a segurança do perímetro e espantar as visitas indesejadas.

Sua vigília terminaria meio dia. Uma hora da tarde estaria em casa almoçando. Leria todos os panfletos que foram colocados de madrugada debaixo da porta de entrada da casa. Alguns ameaçadores como boletos de desconto de lugares onde nunca iria. Sonhava em poder ir onde certamente em algum intervalo iria, mas não ia porque seria terminar um sonho.

Sonhos sempre eram vendidos nas padarias onde não conseguia intervalo para ir. Andava com uma constância incrível, quase cronometrada. O que permitia a quem tivesse costume saber onde estava a qualquer momento de sua ronda. A sua renda só crescia das duas às quatro da tarde quando tricotava para pegar no sono.

Seu salário estava estagnado há uns cinco anos. Não recebia nem correção monetária. Mas ganhava algum com a renda das peças tricodas na banquinha a frente de casa. O preço das peças era constantemente aumentado de acordo com a sua necessidade e a disponibilidade dos clientes em pagar.

O grosso de sua renda era o salário de vigilante, mas o que fazia diferença eram as peças de tricô. Sem elas dificilmente sobreviveria. O condomínio chegou a propor diminuir seu aluguel, mas como aumentaria a taxa de condomínio nunca foi aprovado. De qualquer maneira estava muito próximo de ganharem uma pequena indústria de tricô e bordados e perderem o vigilante. Sim. Problemas de renda.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A horta e o pomar

 


Pensou um instante. Cansou. Tinha vinte quilômetros para atravessar, não de modo incidente, mas radial ou sei lá o que é isso. Em uma volta retangular chegaria novamente em casa ou no trabalho. Plantara seis bananeiras que não podiam dar frutos porque apenas se pusera de ponta a cabeça. Na porta de casa um pomar e uma horta. Um cenário que era um recorte de uma monocultura que era às vezes soja, outra vez milho.

A cerca do pedaço interno estava intacta. Não havia nenhum corte. Sem invasões de humanos ou animais. O pomar e a horta continuavam isolados por cerca e por fosso de todo o resto. Todo o restante estava mecanizado: plantadeiras, adubadoras, pivôs centrais, colheitadeiras e debulhadoras. A parte interna perto do casarão era cuidada manualmente por uns três zeladores.

No final de semana iam pra feira vender o excesso de verduras e frutas não consumidas no período. Ganhar um bom dinheiro com produtos orgânicos não certificados, mas com altíssima credibilidade. Para tal levam dois semi-caminhões cheios de mercadorias para preencher umas cinco barraquinhas. Em poucas horas vendem tudo. Recolhem o resto para levar de volta porque não compensa ficar a tarde para vender o pouco que sobrou. Algumas vezes distribuíam a sobra mesmo só pra não ter que levar de volta.

Umas duas vezes por ano com a colheita da soja ou do milho fazia melhorias no casarão. Também aperfeiçoava o maquinário, replicava a manutenção. Transformava todo o sistema em mais redundante. Então a feira respondia aos gastos do dia-a-dia e a colheita da monocultura aos investimentos. Obviamente gostava muito mais do pomar e da horta do que das outras coisas. Se pudesse transformaria a fazenda toda em pomar e hortas, mas estava muito cômoda com o status atual. E sabia que era impossível fazer isso.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Folhetins do dia

 


Alugou minha mente a ideia do viver. A ideia de curtir o momento era meramente contraditória. Dependia da finitude da vida. Da existência da morte. O que me levou a pensar na morte. Que não era nada. Completamente nula. Apenas um ponto final. Sem mais nada a frente. Um niilismo só que auto anulador, pois incide sobre o vazio. É um zero elevado a zero. Só serve para calcular limites. Não tem área. Não pode ser calculada por uma integral.

Comecei a ler poesia com voracidade. Geralmente livros pequenos como O pequeno livro dos poemas em prosa do Baudelaire. Mas as vezes livros maiores, coletâneas como Os melhores poemas de Manuel Bandeira. Não costumava ler prosa, mas foi seduzido pelo estilo kafkiano.

Nunca conseguiria ler Dostoievski, Nietzsche ou Sartre. Eles não conseguiriam explicar o mundo de modo a que entendesse. Não era o seu tipo de ontologia. O coração para bombear sangue precisa de ritmo. Sem uma ordem, um ordenamento era difícil pensar. Uma cadencia musical ou uma logica cartorial ajudavam muito.

Assim alienou-se da morte e ganhou vida gastando o tempo em longas divagações à bordo de um trem entre as conurbações de sua metrópole. Algumas horas por dia tinha que dar aula de sociologia ou filosofia, por vezes educação artística onde gastava sua pequena compreensão de estética, ética ou ontologia. Mas o que gostava mesmo eram das viagens da casa para o trabalho e do trabalho para casa onde poderia ler e refletir sobre os folhetins do dia.

Uruguaio

  Vou pro Uruguai, disse-me ele. Não há país mais estável no mundo. Lá tanto faz votar na direita ou na esquerda. As diferenças são marginai...