Aviou a receita: Correr sem parar. Correr como nunca. E lá vem bala, lá
vem bala. Não podia mais comer tanta bala.
Seria melhor colher as frutas do campo. Algumas eram venenosas. Conhecia
a maioria delas. Comer a farinha do tempo era inegociável. Não porque quisesse
ou precisasse. Mas no caminho se livrar de absorver a poeira solta nos
redemoinhos a lhe seguir (a seguir a todos) era impossível.
Desceu para o rio. Em suas bordas caudalosas comeria um peixe assado. Não
um pirarucu ou um pirara, nem mesmo uma traíra. No máximo um pacu ou piau. Seria
só o peixe com um pirão de farinha de mandioca tostada. Tinha muito o que correr no dia: organizar o
estoque da vendinha e vender todo o possível pra adiar o inevitável fechamento.
O motivo: falta de clientes.
Embora quase todo mundo do distrito comprasse em sua loja. Tudo era muito
pequeno e muito distante de qualquer outra gente. Tudo ali era uma lembrança de
uma era de ouro terminada. Ninguém mais morava na região. Ninguém usava o rio. O
parco movimento de um barco por semana outro por mês e alguém que errou o
caminho.
Já foi uma região de grandes latifúndios, mas a agricultura vertical
deslocou a exportação para as cidades criadas nas bordas das regiões
metropolitanas. Poderia viver de turismo e até vivia, mas era tudo muito longe
de tudo. Ou melhor, tudo muito distante do nada. Era uma região de modicas
casas com jardins maravilhosos, muito lindos. Mas quem se deslocaria tanto pra
ver. Fazia muito sucesso na internet. Talvez pudesse vender cartões postais. Mas
enviar gastaria tempo. Tempo, o distrito tinha? Uma coisa era óbvia que tinha:
resignação.
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