Se tivesse duas ou três chances preferia só uma. Vivia de uma esperança
alucinante. Exercia um culto à próxima oportunidade. Tudo o que não deu certo
um dia magicamente daria. Bastava ser resiliente: nunca deixar de lutar. O mundo
era uma reação direta aos seus ensejos. Se tivesse o habito da leitura seria um
mau leitor de Nietzsche ou um péssimo de Schopenhauer. Mas era somente um
cristão de má consciência.
Sua vida era uma espera ou esperança do paraíso terreno. Havia
sequestrado seu Deus pessoal e o torturava diariamente com cobranças como a de
uma chinchila a seu dono. Ele que era tão bom, tão justo, tinha direito a
retribuição. Do mesmo modo que uma lêndea cobra retribuição ao cabelo por o
decorar.
Era uma poeirinha a decorar um universo. Uma poeirinha que mesmo
intensamente amada como imagina não tem um infinitésimo da importância que julga
ter. poeirinhas aparecem e desaparecem do nada. A lei da entropia é o caos, a
desordem, a desorganização. Não há esperança no imprevisto. Só há esperança na
ordem e não existe cosmos mais.
O que precede a desilusão é a ilusão. Não se trata de cair em conversa de
malandro, mas de ser o malandro que faz de trouxa a si mesmo. Assim nosso personagem
vivia de esperar o melhor, de se considerar probo, correto, honesto. Mesmo que
não existam critérios para tal. Onde não há lógica, as regras não tem eficácia.
Seu anti-herói era o pessimismo, digo a consciência, o realismo,
pragmatismo, seja lá o que for. Ao duro aceite de que não há chão mesmo, de
verdade. E que estamos presos em frágeis teias que nos impedem de cair no
abismo eterno. Quem quer ser livre tem que aprender a voar ou apostar na queda
eterna se impacto.
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