O rio corre fluentemente. Os riachos um pouco menos. A vida do nosso
personagem transbordava. Se houvesse alguma corrente essa era de um redemoinho.
Sim, a vida era consumida como qualquer outra. Mas não exatamente como uma
qualquer. Nem toda vida era tão baseada num marasmo.
Pense numa pessoa que fazia de tudo para que sua vida fosse um cotidiano
intensamente marcado. Cronometrasse metodicamente a vida. Acordava no mesmo horário. esticava-se a
porta de casa no mesmo poste. Tomava café na padaria da esquina na mesma hora e
no mesmo banco. Geralmente era o primeiro a sentar. Todo o resto do dia era tão
igual quanto possível. Um desvio aqui e ali.
Os desvios é que marcavam os respiros, davam vida a vida tão
organicamente orquestrada. A rotina era tão automática que parecia um algoritmo,
um script de programa de computador. Tudo era tão ensaiado, treinado que nem
sentia, nem precisava pensar para agir. Agia tão levemente quanto respirava. Até
os batimentos cardíacos eram mais artificiais, levemente descompensados.
Atravessava de dez a doze córregos por dia. Não os via. Estavam todos soterrados naquela metrópole.
Tudo fluía invisivelmente. Não fluíam tão magistralmente como nosso personagem.
Fundações de edifícios construídos e reconstruídos na área interferiam nos
cursos dos rios. A eventual passagem de um metrô praticamente espalha todos os
leitos possíveis.
Nosso personagem seguia sua vida. Havia perdido toda a família para o relógio.
Era o filho mais novo e tardio dos últimos remanescentes de uma nobreza
comprada qualquer. Pessoas cheias de ofícios e etiquetas, compromissos e rapapés.
Pessoas que sabiam muito bem como se comportar. Não ele. Confiava incessantemente
num diário onde traçou sua vida do início ao fim. Queria morrer dormindo. Não pode
prever ser atropelado pelo metrô. Não contava, embora soubesse com os efeitos
de uma labirintite. Achava melhor ignorá-la.