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terça-feira, 23 de junho de 2026

Suicídio programado

 


Pé ante pé se aproximou do quarto como alguém que assalta o frigobar. Doninha estava na cama toda derramada. A felina fingia dormir como uma leoa disfarçando a ameaça para abocanhar as previdentes hienas. Quem teria um filhote de jaguatirica como animal de estimação, desculpa, membro da família?

Doninha deveria estar lá fora, mas chovia geladeiras. Não choveu tanto nem no diluvio, pensava nosso personagem que não acreditava em Noé. Viu o buraco na tênue porta de mdf com uma finíssima chapa de aço ao fundo. Esta, a chapa, estava amassada, mas não suficiente para um pequeno felino passar. Alguém tinha aberto a porta. Seria ele um sonâmbulo?

Tinha saído do campo quando cercado pelos vizinhos foi obrigado renunciar a sua ultima rocinha à medida que era progressivamente impingido a vender sua terra para os vários vizinhos que na verdade eram um. Suas terras eram as mais planas. Estava cercado de montanhas. A erosão praticamente adubava suas terras. Achou estranho quando as terras das montanhas foram progressivamente compradas por mineradoras. Ao que sabia não tinha ouro, nem prata na região, tampouco cadmio ou ferro.

Quando começaram a tornar sua terra inacessível. Quando o aprisionaram em suas próprias terras soube que mais cedo ou mais tarde perderia seu quinhão no mundo. Mas era teimoso, excessivamente teimoso. Nenhuma mula era mais teimosa que ele. Ficou lá, foi vendendo as fronteiras das terras por sobrevivência. Até que sobrou somente sua cabana e sua horta pra vender.

Doninha? Doninha o acompanhou. Veio escondida em seu quase caminhão. Dessas caminhonetes cm motor de maior torque. Sua única companhia. Não escolhida. A mulher se separou e casou com um ex-vizinho menos teimoso. Desses que vendeu as terras nas montanhas para a empresa que viria a comprar tudo. O filho e as filhas casaram com gerentes e contadora da empresa.

A primeira vez que viu Doninha foi quando descarregou o veiculo e viu acuado num canto quase um fóssil. Pensou em reestabelecer a onça e chamar o IBAMA. Mas quanto mais cuidou do animal, mais se afeiçoou a ele. A jaguatirica foi ficando como uma espécie de seguro. Ela iria crescer e um dia seria seu fim seguro. Um suicídio programado. E se a jaguatirica se afeiçoasse a ele da mesma forma que se afeiçoou a ela? Seria apenas mais uma decisão errada na vida.

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