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terça-feira, 30 de junho de 2026

Labirintite

 


O rio corre fluentemente. Os riachos um pouco menos. A vida do nosso personagem transbordava. Se houvesse alguma corrente essa era de um redemoinho. Sim, a vida era consumida como qualquer outra. Mas não exatamente como uma qualquer. Nem toda vida era tão baseada num marasmo.

Pense numa pessoa que fazia de tudo para que sua vida fosse um cotidiano intensamente marcado. Cronometrasse metodicamente a vida.  Acordava no mesmo horário. esticava-se a porta de casa no mesmo poste. Tomava café na padaria da esquina na mesma hora e no mesmo banco. Geralmente era o primeiro a sentar. Todo o resto do dia era tão igual quanto possível. Um desvio aqui e ali.

Os desvios é que marcavam os respiros, davam vida a vida tão organicamente orquestrada. A rotina era tão automática que parecia um algoritmo, um script de programa de computador. Tudo era tão ensaiado, treinado que nem sentia, nem precisava pensar para agir. Agia tão levemente quanto respirava. Até os batimentos cardíacos eram mais artificiais, levemente descompensados.

Atravessava de dez a doze córregos por dia.  Não os via. Estavam todos soterrados naquela metrópole. Tudo fluía invisivelmente. Não fluíam tão magistralmente como nosso personagem. Fundações de edifícios construídos e reconstruídos na área interferiam nos cursos dos rios. A eventual passagem de um metrô praticamente espalha todos os leitos possíveis.

Nosso personagem seguia sua vida. Havia perdido toda a família para o relógio. Era o filho mais novo e tardio dos últimos remanescentes de uma nobreza comprada qualquer. Pessoas cheias de ofícios e etiquetas, compromissos e rapapés. Pessoas que sabiam muito bem como se comportar. Não ele. Confiava incessantemente num diário onde traçou sua vida do início ao fim. Queria morrer dormindo. Não pode prever ser atropelado pelo metrô. Não contava, embora soubesse com os efeitos de uma labirintite. Achava melhor ignorá-la.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Paradoxo de Antístenes

Não dormiu, nem acordou aquela tarde. Seguia sonambulo a dita noite. Logo dormiria. Precisava um longo período acordado para curar a ressaca daquelas férias numa casa de descanso. Sua vida era assim: oito ou oito. A mesma vivencia repetida de sempre. Tanto faz se dormindo ou acordado. Pensava no paradoxo de Antístenes. Não tinha menor importância e, justamente por isso pensava entusiasticamente e compulsivamente.

A inexistência do falso implica na impossibilidade de contraditório? Uma questão bastante resolvida após as primeiras criticas ao iluminismo kantiano dentre outros. A verdade há pelo menos dois séculos não é questão. Já se convenceram os filósofos continentais de somente há verdades particulares. Nenhuma geral. Se não há uma verdade, não há mentira. Melhor pensar em consistência e inconsistência. Há muitos outros modos também de pensar, mas nosso espelho refletia assim.

Não era um arguto leitor de Schopenhauer, nem de Marx ou Freud. Nunca lera Nietsche, Proust ou Dostoievski. Era perspicaz em Machado de Assis e Fernando Sabino. Desconfiava das aparências como se fosse um apostolo de Sócrates ou Platão. Por ser um moderno precisava ter a mente alargada. Não podia acreditar na busca pelo verdadeiro, pelo real.  Mas podia buscar similaridades, verossimilhanças.

Nunca pensar em escrever um livro até ser necessário. Era necessário, mas e a preguiça? Internou-se voluntariamente numa casa de repouso por um ano. Não foi muito útil: o paradoxo não lhe saia da cabeça. Incrustrado numa pedra como o lodo ou o mofo nas paredes. Saiu de lá sem dinheiro. Gastara sua fortuna fugindo do inevitável. Agora além do suplicio mental precisava escrever para ganhar algum.

Lançou um livro que logo se tornou um acontecimento. Um sucesso de crítica. Quase não vendeu. O livro era bom demais para ser devorado rapidamente. Não era um fastfood. Ficou miserável. Morou um mês nas ruas. Mas sua rara sobriedade o salvou. Conseguiu um emprego de provador de cachaças. Tinha avaliações muito sinceras sem medo de errar. Até porque não acreditava no falso.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

Despachante ou Matopiba

 


Cobriu todas as linhas porcamente, mas foi magistral no seu limite. Conferiu todas as entradas. Foi mais uma alfandega que um cônsul. Conhecia seus limites. Não bem os limites dele, mas os limites pelos quais se sentia responsável. Seu lugar no mundo não era uma tríplice fronteira, mas quase uma. Também não era um lugar particular como o triangulo mineiro com aspirações de ser um estado ou lugar particular que dentro de Minas Gerais não quer ser Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro ou São Paulo, nem dono de Guarapari. Tampouco interior de Minas. Muito menos Goiás.

  Felizmente seu posto não era no triangulo mineiro nem no País Basco. Era um mero despachante no Matopiba, região imaginária entre o Maranhão, o Piauí, a Bahia e o Tocantins que faz divisa com todos eles. Mas não ao mesmo tempo. Tem divisa entre Piauí, Maranhão e Tocantins. Tem divisa entre Piauí, Bahia e Tocantins. Mas não tem divisa entre Maranhão, Bahia e Tocantins. A região contigua só existe no Tocantins. Do outro lado há descontinuidade.

Divide-se entre duas vias: a Transbrasiliana e a Ferrovia Norte-Sul o escoamento da produção. Uma de forma majoritariamente interna, embora possa ir pra portos de Santos e Paranavaí: a BR-153. A ferrovia majoritariamente para exportação através de portos no Maranhão e no Pará. A terceira via não veio. A Leste-Oeste passa por Goiás. Todas as movimentações foram em vão. Terceiras vias são quase sempre utopias. Você tem plena escolha entre o pior e o menos horrível. O Matopiba imaginário teria a mais moderna agricultura e inúmeras vias de saída. Na realidade, monocultura de exportação e pecuária extensiva. Pouca, quase irrisória industrialização.

O Estado passou o planejamento para a iniciativa privada como fosse uma única e unificada e não variada e contraditória. Os interesses diversos não conseguem ser estruturados de modo a se tornarem factíveis. É um projeto que não é projeto. Aliás nunca foi um projeto e ele ali tentando estruturar um caminho. Um trabalho difícil pra qualquer diplomata com a estrutura de estado atras de si. Para ele muito mais como um mero administrador, um despachante sem nenhuma estrutura para lhe apoiar.

O Brasil copiando o Brasil. Multiplicando a si mesmo em cada pedaço de si. Parabéns Matopiba!

terça-feira, 23 de junho de 2026

Suicídio programado

 


Pé ante pé se aproximou do quarto como alguém que assalta o frigobar. Doninha estava na cama toda derramada. A felina fingia dormir como uma leoa disfarçando a ameaça para abocanhar as previdentes hienas. Quem teria um filhote de jaguatirica como animal de estimação, desculpa, membro da família?

Doninha deveria estar lá fora, mas chovia geladeiras. Não choveu tanto nem no diluvio, pensava nosso personagem que não acreditava em Noé. Viu o buraco na tênue porta de mdf com uma finíssima chapa de aço ao fundo. Esta, a chapa, estava amassada, mas não suficiente para um pequeno felino passar. Alguém tinha aberto a porta. Seria ele um sonâmbulo?

Tinha saído do campo quando cercado pelos vizinhos foi obrigado renunciar a sua ultima rocinha à medida que era progressivamente impingido a vender sua terra para os vários vizinhos que na verdade eram um. Suas terras eram as mais planas. Estava cercado de montanhas. A erosão praticamente adubava suas terras. Achou estranho quando as terras das montanhas foram progressivamente compradas por mineradoras. Ao que sabia não tinha ouro, nem prata na região, tampouco cadmio ou ferro.

Quando começaram a tornar sua terra inacessível. Quando o aprisionaram em suas próprias terras soube que mais cedo ou mais tarde perderia seu quinhão no mundo. Mas era teimoso, excessivamente teimoso. Nenhuma mula era mais teimosa que ele. Ficou lá, foi vendendo as fronteiras das terras por sobrevivência. Até que sobrou somente sua cabana e sua horta pra vender.

Doninha? Doninha o acompanhou. Veio escondida em seu quase caminhão. Dessas caminhonetes cm motor de maior torque. Sua única companhia. Não escolhida. A mulher se separou e casou com um ex-vizinho menos teimoso. Desses que vendeu as terras nas montanhas para a empresa que viria a comprar tudo. O filho e as filhas casaram com gerentes e contadora da empresa.

A primeira vez que viu Doninha foi quando descarregou o veiculo e viu acuado num canto quase um fóssil. Pensou em reestabelecer a onça e chamar o IBAMA. Mas quanto mais cuidou do animal, mais se afeiçoou a ele. A jaguatirica foi ficando como uma espécie de seguro. Ela iria crescer e um dia seria seu fim seguro. Um suicídio programado. E se a jaguatirica se afeiçoasse a ele da mesma forma que se afeiçoou a ela? Seria apenas mais uma decisão errada na vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Pseudopoeta

 


Deu dois passos a frente e caiu desmaiado. Por pouco a cabeça encontrou a cama. Um belo galo se formou. Não era nada. Tinha uma granja inteira de galos na cabeça. Agora precisava avaliar. Fazer um novo check-up que não daria em nada, nenhuma alteração.

Não dormia na parte de cima da treliche. Um beliche de três andares. Também não dormia na de baixo com medo de que os outros andares caírem sobre sua cabeça. Não, não era um gaulês. Não tinha medo da queda do céu. Dormia desconfiado. Até o sono rem abria os olhos de quinze em quinze minutos esperando uma tragedia ou comédia.

Acordou. Tomou um belo café. Exagerado mesmo. Talvez fosse a sua única refeição do dia. Tinha que percorrer inúmeros setores pra conferir para o censo do IBGE. Era andar horas em local afastado, vazio e inóspito verificando os mapas e os percursos a ser feitos pelos recenseadores e também os nomes das ruas.

Era preciso percorrer uma ultramaratona sem correr num prazo de dois ou três dias. Queria fazer em um dia e meio. Tinha outros compromissos. No segundo dia ao terminar a conferencia comeu um churro antes de ir na única psicóloga que teve. Desenhou e escreveu sua vida.

Dali pra frente poderia trabalhar num escritório perto de casa com grandes companheiros até pelo menos final do ano. Embora estivesse na maior parte do tempo preso a uma mesa, aquilo lhe dava muita mobilidade, pois poderia ir e vir muito fácil no espaço entre a casa e o trabalho.

Observou cuidadosamente os hábitos e comportamentos. Pode transmutar em lirismo barato. Nenhum cântico, nem mera poesia. A prosa não veio. Veio sangue pulsante em todas as letras dispostos a dar a vida a qualquer blasfêmia literária.  Descobriu que a poesia não colore a vida. A vida desenha a poesia. Concretando toda ilusão, solidificando os sonhos não como futuro, esperança, mas como presença.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Diplomacia

 


Depois da janta foi dormir. Não como um descanso, mas sem saber se acordaria vivo amanhã. Não teve dificuldade. Caiu desmaiado. Precisava recuperar a força daquela conurbação toda na sua mente. Passara dias negociando as realidades kantianas com as ilusões hegelianas. Tentando tornar a convenção kantiana algo mais substancial com ajuda da imprevisibilidade hegeliana. A soma de incontáveis fatores desconhecidos é pretensamente conhecida e sempre errática.

Quase não acordou se não fosse uma forte explosão próxima ao seu ouvido. Quase queimou sua face. Não convinha acreditar em pazes mal construídas. Também nas bem costuradas. Já sabia ser impossível a paz perpetua, mas acreditava fielmente os seus princípios. Era simulando usar a razão que negociava as querelas. Sim, porque a razão é a convenção. É o que todos fingem ter, embora nem as almas mais racionais usem prioritariamente.

Precisava tomar logo seu café com bolachas água e sal pra começar o dia que como sempre seria longo. Nunca esteve à frente das negociações. Era uma espécie de secretario, um assessor, que embora não atuasse construía todo o arcabouço necessário. Não tinha a etiqueta suficiente para ser comissão de frente da escola de samba, mas tinha autoridade para ser mestre da bateria para ditar o ritmo.

Não tinha tempo para almoçar mais uma vez, mas sabia que o dia passaria agitado ou não, não importa. Chegaria a profunda noite para colocar a cabeça no travesseiro e resistir a uma avalanche de pensamentos. Desmaiar de exaustão e torcer para acordar vivo na radiante manhã. Era preciso confeccionar os diplomas dos acordos multilaterais e consolidar as alianças. Por traz dos corpos diplomáticos a tal diplomacia.  

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nasceu esquecido

 


Nasceu esquecido. Passou dois meses no hospital. Quando vieram lhe buscar não podia sair. Tinha adquirido uma infecção oportunista. Nasceu plenamente saudável. Passou por todos os testes feitos. Mas era temporada de touros em Barcelona. A maternidade em Madri segurou as pontas. Até porque o erro era deles ao não informar o nascimento a mãe.

Esta pernoitara ali. Havia perdido o recém-nascido. Achou de mau gosto ver o feto natimorto. Saiu o mais rápido possível para evitar o trauma. Para não se fixar na perda festejou o máximo possível. Alienou-se fazendo todo o oposto do que esperado. Esqueceu o celular no hospital um pouco conscientemente, um pouco não para se desligar das notícias, dos questionamentos.

Quando julgou seguro passou a se preocupar com o que lhe fazia falta. Descobriu que perdeu o celular. Tentou se lembrar do número. Perguntou aos conhecidos se alguém se lembrava do número. Se tinham alguma ligação antiga sua. Alguém tinha e deixou ela ligar para o seu celular para tentar reavê-lo.  Ligou e não descobriu apenas o telefone, achou um filho. Ficou imediatamente atônita.

Pediu a pessoa para acompanha-la até o hospital. O natimorto não era dela. Era de alguma outra garota de mesma idade e quase mesmas características. Prometeu não processar o hospital por isso e tinha uma grande dívida. Como se paga dois meses de internação? A infecção clandestina viria a quase nivelar as dívidas. Pagaria menos, mas seriam meses limpando os corredores externos daquela unidade de saúde.

 Havia ganho um enorme presente. Sim, um presente que ela mesma ajudara a confeccionar, pelo qual tinha todo o apreço de sua vida. Passou a viver e respirar a situação. Fortes emoções a dominaram. Devastadoras. Tão enormes que passou a ser dominada por todas elas. Inebriou-se com elas, mas logo veio a ressaca. Como tudo na vida, algo chegou, a tomou completamente e logo se tornou insignificante.

Nosso personagem, não a mãe, viveu aqui e ali. Não chegou a rua, mas passou por varias casas. A primeira infância em casas de enfermeiras que adotaram uma após a outra. Logo que ganhou alguma independência se internou num internato, depois num externato. Depois foi trabalhar no comércio onde tinha muito tino. Sabia conversar com todos, entender os mais variados tipoa.

Não era dos melhores negociantes, mas por compreender os clientes vendia como nenhum outro. Não obtinha os melhores lucros, mas como vendia uma quantidade colossal, mais do que se pagava. Até falia concorrentes por falta de a quem vender. Era uma espécie de vendedor preferido. Não fazia os melhores preços, mas também não os piores. Esses muito menos. Cobrava o valor da tabela sempre.

Vivia incólume firme em viver a vida mais comum possível não porque se preocupasse com isso, mas porque não se preocupava com nada. Tomava seu café na mesma padaria e bebia após o serviço no mesmo bar. Ao chegar em qualquer um dos lugares não precisavam saber o que pediria. Foi essa a historia que me contaram.

Um contramestre em disputa

  Era um contramestre em disputa. Não porque fosse contra o mestre, muito pelo contrário. O nome era complicado: contramestre é um auxiliar ...