Acompanham

terça-feira, 21 de abril de 2026

Destino

 


Cercas são cercas, não delimitam nada, não são fronteiras. São meros empecilhos. Não são nem muros. São meras redes a prender quem quer ficar. O arame farpado é uma mera agressão. Não proíbe nada. Apenas te agride e deixa ir. Ele sabia que a realidade era abarrotada de porcos-espinhos que nem cercas de arame farpado são.

Bastava fugir deles, abrigar-se sempre que possível na solidão. Não porque acreditava ser sábio como Nietzsche ou Schopenhauer. Não fugia dos tolos porque era impossível se comunicar com eles, mas fugia porque eram muito ferozes, agressivos. É preciso de abrigar ou usar escudos num mundo cheio de porcos-espinhos.

Ganhou com isso muita reflexão. Pode remoer, ruminar o pouco que observava repetidamente. Lapidar varias pedras preciosas, semipreciosas e comuns. Pode além de saber quase conhecer as coisas. Só não conhecia porque as coisas não tem essência. Não há coisa em si, existem as coisas das coisas, os trens do trem.

Percebeu que o mundo fora de si era inteiramente superficial. Formado por impressões. Quando mais profundo cheio de anseios, sentimentos e desejos. Um mundo fenomênico para cada um. Meras banalidades. Gente discutindo se a banqueta quebrada era uma banqueta ou lenha para a lareira. Obviamente era madeira. A forma dada a esta definia seu uso. A discussão era inútil? Não. Inteiramente válida. Mas não há discussão, somente agressões.

Pessoas cheias de certezas e vazias de duvidas mergulham num fundamentalismo e quando cheias de esperança e na fé gerada por ela num fundamentalismo messiânico. A desesperança também pode gerar um messianismo, mas dificilmente gera e não gera fundamentalismo porque ela é negativa, nega um fundamento, acreditando ser qualquer outro sem geralmente delimitar qual.

Nesse mundo o eremita passeia sensível a tudo, mas sem se influenciar pois duvida de tudo. Atravessa os caminhos, comendo quando dá. Bebendo o orvalho. Sonhando com qualquer chegada, que nunca chega, não é esperança porque andar é seu destino, não chegar. Então o eremita vive. Não passa a vida esperando viver. O eremita não é um grego antigo, não acredita em destino.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Coletivo

 


Ele era todos. Mas todos não eram ele. Foi sempre um ser coletivo. Passou a infância nas ruas. Não porque não tivesse casa. Tinha. Morava numa mansão com kitnet no fundo para cada família de colaborador(a) da casa. Vinha desde a nascença de um universo de nunca estar sozinho. Sua vida era estar entre no mínimo duas ou três pessoas.

Aprendeu desde cedo estar sempre entre pessoas. O que lhe servia muito para o futuro que até então ignorava. Logo que pode dar os primeiros passos fora de casa percebeu como o ambiente domestico era opressivo. Até então o mundo lhe servia. Decidiu servir o mundo. Foi para as ruas conviver com as mais diferentes pessoas.

Decidiu trabalhar nas mais diferentes atividades. Não precisava do dinheiro. Já tinha o bastante para sobreviver mais umas duas ou três vidas. O primeiro oficio foi de engraxate nas praças. Queria ouvir as pessoas, conhece-las. Não havia um oficio melhor que esse para isso. Nem o de barbeiro. Passou uns dois ou três anos conhecendo as comunidades da sua cidade. Depois foi ser estivador no porto para conhecer a interação dos de fora com os seus. Também foi vários tipos de vendedor: foi ambulante, de loja, visitador e atrás de um computador na internet.

Passou a estudar mapas e conhecer as ruas. Aprendeu que o ambiente convenciona as massas, multidões, nem tanto as pessoas. Havia um negocio perfeito para cada localidade. Tão perfeito que logo faliria. As interações que dão certo são sempre imperfeitas. Poderia ser um analista ou um espião por sua variada e extensa rede de contatos, mas parecia mais integrador de informações. Trabalhava incessantemente para desatar os nós em pingo d’água.

Aprendeu a jogar e devolver com uma desenvoltura de maquina de bolinhas de tênis, mas sempre devolvendo na zona melhor para a recepção. Ou de outro modo se tornou uma rendeira de máxima categoria construindo redes com destreza e cuidado. Ora reconstruía fios, ora tecia os fios necessários. Aprendeu a não ligar o desnecessário. Unir apenas as extremidades possíveis. Alienando e isolando as estragadas até serem recondicionadas.

Entendeu que civilização é a opressão das individualidades pelas regras mínimas de convivência. Que comunidade é a aceitação que todos diferentes somos um único conjunto e que as diferenças são meros cosméticos, tonalidades de um mesmo quadro. Uma não exclui a outra. Quem se exclui das regras continua incluso nelas. Mas quem se exclui da compreensão deve ser excluído da comunidade.

Soube que a sociedade é a união de pessoas que estão preparadas para esfaquear asa costas do sócio. Que se contrato fosse bom, não haveria clausulas de punição por quebra do mesmo. Desse modo só acreditava em comunicação, em ética em contraponto a moral. Em anarquia, pois as pessoas tem direito de discutir e agir conforme suas próprias consciências fugindo de toda opressão possível. Só o respeito a todos torna tudo coletivo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Vaidade

 


Lavou as pernas. Tinha atravessado pântanos imaginários e reais. Acreditava estar com lodo nas canelas, mas sabia que a altura da lama poderia ser até o pescoço. Não era uma areia movediça. Preso naquele quarto cercado por espelhos nos seis lados enfrentava seu maior inimigo, seu único opositor digno.

Bastava abrir a porta e sair, mas os espelhos... eles refletiam a imagem que mais amava e mais temia. Precisava sair dessa encruzilhada. Resolver o dilema.  Ir para casa e depois pra academia ou ir para academia e depois pra casa. Era tudo questão de andar. Poucos metros até o prédio e lá academia num andar, apartamento em outro.

Nunca admitira a vaidade. Achava que mostrar o extremo auto-apreço era falta de humildade. E ele tinha a certeza que era senão a, uma das pessoas mais humildes do mundo. Embora soubesse que a beleza abre portas e as entradas de shoppings e comércios se abriam para ela, dizia que eram portas automáticas mesmo sabendo que no fundo nem precisava que fossem.

Seu edifício era simples, comum. Não comprava coisas de marca, coisas famosas. Não ficava bem se exibir dizia. Provavelmente a verdade é que não queria distrações, algo que concorresse consigo. Não queria chamar a atenção por algo que não fosse orgânico dele. Seu lema era a simplicidade, humildade, modéstia, embora fosse o poço extremo da vaidade.

sábado, 4 de abril de 2026

Latifundio

 


Nadou, nadou e não saiu do lugar. Um redemoinho de terra as pessoas da cidade grande não veem no centro antigo da cidade. Não tinha uma duna de areia pra nadar. Pouco sinalizavam aqueles coqueiros exóticos onde estavam. A meio quilometro dali um canavial. Terra preta, muito boa. Muita calagem.

Era um deserto de gente aquele espaço. Uma comunidade de maquinas. Colheitadeiras e plantadeiras dos mais variados tipos. Uma pequena casa de paredes grossas cheia de fios a entrar e antenas a sair. Lá dentro uma ou duas pessoas. Cinco pessoas se revezavam pelo mês para coordenar a modernidade.

Robusta refrigeração quase frigorifica obrigava o uso de vários casacos intensamente revistados na entrada a na saída. Chuveiros químicos nas saídas monitores infravermelhos e raios-x. Vigilância aguda por vídeo vê todos/todas desnudos/desnudas. Clausulas que praticamente anulam os direitos dos funcionários sobre os próprios corpos. Biopolítica na veia.

Todos muitíssimo bem pagos com direito a micro moradia da mais alta qualidade e automação intensamente monitorada com limpeza automática da casa, das roupas, geladeira sempre completa por automação, televisão com todos os streamings. Mas do trabalho até a casa nenhum acompanhamento, nenhuma segurança, um vazio.

Não era comum, mas vez outra acreditavam que algum deles tinha morrido. Evitavam criticar a empresa. Eles próprios não se conheciam. Nem mesmo as equipes atuam juntas no trabalho. Está cada um em seu segmento. Mas não importa: não podem se prender a conjecturas, suposições.

Melhor seguir a vida e não se prender a teorias da conspiração. A empresa garante a segurança deles tanto no trabalho como em casa. O percurso embora dentro dos limites do latifúndio (cada um vai para seu canto) não é responsabilidade da empresa. Se for o caso de morrer já teriam vivido uma vida muito boa.  Trabalhavam um dia e folgavam dois nas casas da empresa. Só podiam sair de lá nas férias a cada dois anos por quarenta e cinco dias. Quinze eram comprados. Embora fosse ilegal todos topavam. Não queriam perder seus ótimos empregos. Ou talvez até algo mais como se podia ouvir a boca pequena.

Tudo teoria. A única coisa certa é que ao morrer seriam cremados e suas cinzas seriam usadas para calafetar a plantação. Continuariam sua eternidade por ali já não mais, nem teoricamente, donos de si. Estariam plenamente integrados seriam a própria empresa. Não mais empregados.

quinta-feira, 26 de março de 2026

A morte lhe cai bem

 


Houveram outros. Sim, sempre houveram outros. Mas dessa constatação ela passava. Criara do nada a reinvenção sem esse negócio de reciclagem, reaproveitamento.  Talvez fosse algo teatral. Provavelmente nem teatro fosse. Apenas um ato após o outro se tecia o que era bem tecido. Com alguns reveses comuns a vida, mas com contiguidade nas reviravoltas. Era como se as cambalhotas do ginasta fossem em linha reta.

Se a beleza se revelasse nas concavidades ou convexidades do espirito, os vermes queriam mesmo é comer a carne. Malhou incansavelmente na academia para manter os ossos fortes. Tomou sopa de casca de ovo para fixar o cálcio necessário. Botava umas verduras e legumes para dar sabor, mas o crucial era a dúzia de cascas de ovos trituradas no pilão.

Sentia de seu jazigo que sua carne generosa a cada momento adubava mais a terra. Estava se tornando um alimento saboroso para vegetais. Se desintegrava e cada vez mais abraçava a terra. Se sentia plenamente integrada. Chegara a sua plenitude. Os vermes a adoravam. Ninguém na vida olhou para ela com tanto desejo.

Comera vegetais a vida toda. Agora os vegetais desfrutavam dela. Justo. Os minerais? Mineralizou, desmineralizou. Estes eram inertes, mas inúteis que seu ex-marido. Porém mais integrativos. Tão grudentos quanto o falecido. Sim. Assim como todos os minerais passam ou permanecem inertes, impassíveis as interações.

Ela meio que estava ali como um mineral, impassível, mas disponível a toda interação. Inebriada pelas raízes que trançam na sua carne, quer dizer, ex-carne. Assim era seu descanso definitivo, não acreditava em morte.

terça-feira, 17 de março de 2026

Os campos não são saudáveis

 


Atravessar os campos é muito mais que recolher sementes grudadas na meia, na calça ou na bermuda. Não necessita os desvios de transpassar uma floresta. Pode-se estabelecer uma reta sem desviar das arvores, atravessar rios e colher trufas. Dos campos, difícil mesmo é nadar no arrozal ou emparedar os trigueiros. Campos de sorgo são perigosos, envenenados sem ser uma máquina.

Cruzar uma avenida é muito mais temeroso que passar por uma campina. Os lobos não são automotivos. Abocanham, mas não atropelam. Um pedaço a menos, dependendo do pedaço, é muito menos mortal que um amasso. O transeunte não se apaixonará pelo carro ou moto. A dança com lobos é muito mais sensual.

O silencio da cidade grande não é tão sensível como o canto solitário da graúna. Não é tão belo quanto o assobiar da juriti. É um silencio concreto, bruto, formal, um poema concreto. Sem os sibilos, sem ritmo ou cadencia. Pura formalidade. É causa de toda minha ansiedade. Como? Que barulho virá? Serei surpreendido por coisa boa ou ruim? Mais importante: me assustará?

Viver no silencio da cidade é intranquilo. Confortável é amoldar-se a seus barulhos. Acordar com a sinfonia da praga de canindés ou a buzina dos carros na rua. Ouvir aquela confusão infinita de sons que tranquilizam, mostram que a sinfonia é a de sempre. Sim. Pode atravessar a rua tranquilamente como sempre foi: um desafio de vida ou morte. Sentir-se vencedor por ter superado o desafio.

Morar na cidade é derrotar a morte. Temer ser assaltado ou ser refém da maldade mesmo sabendo que quase certamente morrerá atropelado ou numa briga estupida de bar.  Estressar-se com os vizinhos por fazerem justamente o que desejava fazer. Se morasse numa caverna na floresta poderia fazer. Mas as comodidades? Ninguém da cidade quer ficar sem elas. Fazer o próprio mel? Melhor deixar para as abelhas.

As abelhas parecem aquela multidão sem orientação especifica a se cruzar por todos os ângulos possíveis como se tecesse favos de todos os tamanhos. Todos com uma urgência de que da trilha depende sua vida. Cada passo é uma batida que mantem a perspectiva da sobrevivência. Nessa colmeia de zangões homens e mulheres a ansiedade mata mais do que qualquer outra coisa. Impõe-se a pressa. Quase uma pressa de morrer disfarçada de luta pela vida.

Aquele que para e permanece. Indiferente as sensações e impulsos externos é qualificado de espectro autista em vez de são. Sim, há os autistas cada vez melhor diagnosticados, mas existem os monges, pastores de si mesmos que na gritaria decidiram se isolar no próprio silencio como um estado de paz. Quase como um alienista sabendo que todos estão malucos, o são se interna e torce pela própria redenção. Se fugir para os campos para colher trigo e arroz terá o atestado da loucura, pois estes não são pra comer, mas pra exportar em granel. Se dançar com lobos então... certamente demonstrará algum desvio de personalidade, uma tara.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Persona

 


Andava todo dia. Passo a passo. Dobrando esquinas como origamis. Colhia por aí todos os odores. Nem sempre os de jasmim. Quase nunca o de alecrim. Em nenhum lugar o cheiro de terra. Quase sempre um vapor de asfalto nas ruas límpidas. Nas partes sujas do lixo não recolhido nem compensa falar.

Sua vida era um pra lá e pra cá. Cruzando bairro. Fiscalizando cada passo da administração municipal. Tomava café em frente a casa do prefeito. Sobrinho dele era mais austero que a própria oposição. Não fazia discursos. Não atacava o governo. Mas sabia de tudo o que ocorria. Não ignorava os problemas na hora de votar. Combatia os erros do prefeito e acusava as hipocrisias da oposição.

Era o motivo da câmara municipal não virar circo por muito tempo nem por conta do governo, nem por causa da oposição. Era um frustrador. Baixava a bola de todos. Era irritantemente ponderado, metódico e racional. Ninguém entendia como era sempre eleito sendo menos emocional que um boneco de posto. Mas frustrantemente sempre estava por ali. Provavelmente era o medo de quem sabe de tudo.

Assim me contaram. O personagem avaliou que houve muito exagero, excesso, mas me disse que não tinha porque mudar alguma coisa num texto sobre um personagem tão desimportante. Eu não sei se concordo, mas o panorama geral exprime uma veracidade, mesmo que algo em particular não seja tão verossímil.

Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...