Cercas são cercas, não delimitam nada, não são fronteiras. São meros empecilhos.
Não são nem muros. São meras redes a prender quem quer ficar. O arame farpado é
uma mera agressão. Não proíbe nada. Apenas te agride e deixa ir. Ele sabia que
a realidade era abarrotada de porcos-espinhos que nem cercas de arame farpado
são.
Bastava fugir deles, abrigar-se sempre que possível na solidão. Não porque
acreditava ser sábio como Nietzsche ou Schopenhauer. Não fugia dos tolos porque
era impossível se comunicar com eles, mas fugia porque eram muito ferozes,
agressivos. É preciso de abrigar ou usar escudos num mundo cheio de
porcos-espinhos.
Ganhou com isso muita reflexão. Pode remoer, ruminar o pouco que
observava repetidamente. Lapidar varias pedras preciosas, semipreciosas e
comuns. Pode além de saber quase conhecer as coisas. Só não conhecia porque as
coisas não tem essência. Não há coisa em si, existem as coisas das coisas, os
trens do trem.
Percebeu que o mundo fora de si era inteiramente superficial. Formado por
impressões. Quando mais profundo cheio de anseios, sentimentos e desejos. Um mundo
fenomênico para cada um. Meras banalidades. Gente discutindo se a banqueta
quebrada era uma banqueta ou lenha para a lareira. Obviamente era madeira. A forma
dada a esta definia seu uso. A discussão era inútil? Não. Inteiramente válida. Mas
não há discussão, somente agressões.
Pessoas cheias de certezas e vazias de duvidas mergulham num
fundamentalismo e quando cheias de esperança e na fé gerada por ela num
fundamentalismo messiânico. A desesperança também pode gerar um messianismo,
mas dificilmente gera e não gera fundamentalismo porque ela é negativa, nega um
fundamento, acreditando ser qualquer outro sem geralmente delimitar qual.
Nesse mundo o eremita passeia sensível a tudo, mas sem se influenciar
pois duvida de tudo. Atravessa os caminhos, comendo quando dá. Bebendo o
orvalho. Sonhando com qualquer chegada, que nunca chega, não é esperança porque
andar é seu destino, não chegar. Então o eremita vive. Não passa a vida
esperando viver. O eremita não é um grego antigo, não acredita em destino.