Ritinha era uma boneca muito imperativa, reclamava a dona. Era sempre
assim: vista-me, dispa-me, dê-me banho. Nas ordens mais diversas. A voz era
sempre da dona. Leve-me para passear. Passeá-la-ei respondia a dona. Devia ser
um cacofono ou um cacófato. A dona não tinha a menor ideia do que seriam isso,
mas eram nomes bonitos, ela achava.
Era uma boneca muito bela. A mais bonita que tivera. Ou melhor, que teve. Essa menina sempre me
confunde, me azucrina. É uma menina elétrica que não consegue concentrar a
atenção em alguma coisa. Só na boneca que muda de ideia toda hora. Estabelece um
império de inconsequências. A moleca e a boneca são tão uma só que são indistinguíveis.
É claro, são distinguíveis, mas ninguém sabe quem move quem. Quem é a
dona? Quem é a boneca? Materialmente é possível saber quem é quem. Mas desse império
quem é a imperatriz? Uma acusa a outra de ser a mandona. Na palavra delas: a
mandriona, o feminino de mandrião. Imagino que adotaram a palavra por simpatia
por ela.
A menina gastava sua mesada toda
comprando roupas para Ritinha. Era uma exigência da boneca. A boneca era
mandriona demais! Nem sobrava dinheiro para comprar um pirulito ou uma pipoca. Mandava
fazer os vestidos de alta costura na vizinha no fim da rua, duas casas da sua.
Comprava os panos do outro lado da rua. Tinha que chorar muito, rolar, fazer
birra pra convencer seu irmão dois anos mais velho atravessar a avenida com ela.
Todo domingo tinha que levar a boneca no parque de diversões, no circo ou
no zoológico. Era verdadeiro infortúnio. A boneca escravizava a casa toda nesse
dia para realizar seus desejos. Ao final do dia todos estavam estafados,
principalmente a dona estirada num estofado. Mas tudo ficava bem porque a
boneca estava muito feliz. A dona aliviada por ter dado conta de agradar sua
exigente boneca.
Na segunda todos os que podiam estavam felizes por sair da casa para
estudar, trabalhar, comprar mantimentos, consertar o carro ou as bicicletas. Tomar
uma injeção na testa seria agradável. Mas ao voltar todos estavam muito felizes
de ver a menina. A menina era linda, graciosa, educada, carinhosa. O problema
era a boneca que infernizava a vida de todos com suas vontades.
Foram varias as vezes que todos tentaram perder a boneca. Mas a menina
ficava sorumbática. Parecia que tinha perdido a si mesma. Não era viável perder
a boneca sem perder a menina. A própria menina tentou uma vez perder a boneca
em um guarda-roupa de outra pessoa. Mas se perdeu completamente. Passou a ficar
impassível, não se importar com nada. Nada a alegrava ou entristecia. Se existentes
e distintos, era um corpo sem alma ou uma alma sem corpo.
A dona implorou para não dizer que seu nome era o mesmo da boneca. Ela pensava
que isso não era coincidência era um fatalismo. O nome determina a
personalidade das pessoas? Ela não acreditava nisso no geral, mas no caso
especifico dela desconfiava. Será que ao invés de dupla personalidade que ela já
ouviu falar uma vez, ela e a boneca sofriam de unipersonalidade? Claro que não!
A boneca fazia gato e sapato dela! Apesar de ser incrível como pareciam ser a
mesma. Mas não eram. Ela nunca faria o que a boneca faz com ela. E nem a boneca
nunca faria o que ela faz com a boneca.
Não tô falando que essa menina me confunde. Melhor terminar por aqui
antes de me internar numa clínica psiquiátrica por não entender mais nada com
nada. Haja imaginação! Haja surrealismo!