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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Conto de Zyon

 




Zyon tinha uma maldição na vida. Seria sempre o último. Mesmo que pais gazeteiros denominassem seu filho, sua filha de Zureta, ele ainda seria o último nome da lista de chamada. O professor de educação física que tinha a ultima aula na quarta-feira só liberava o pessoal depois de fazer a chamada. Era responder a chamada e poder sair. Advinha quem passava mais fome?

Ele acreditava que os pais tinham colocado seu nome em homenagem a uma constelação, mas ao consultar a União Internacional de Astronomia descobriu que não é o nome de nenhuma das 88 constelações conhecidas. Na verdade, Zion e não Zyon tem raízes semíticas que significam castelo.

Ele estudava muito. Muito mesmo. Desde cedo. Não suportaria passar por ultimo em algum curso. Mesmo que fosse Medicina. Não suportaria fazer medicina. Odiava clínicas e hospitais. Queria estudar física pra estudar o estado da matéria. Desde cedo se interessou pela doideira da física quântica. Não sabia nada, mas agora tudo era quântico. Era fascinado pelo princípio da incerteza de Heisenberg. Um gato vivo e morto numa caixa era demais!

Se fosse astrônomo poderia descobrir uma nova galáxia e resolver seu problema dando seu nome a ela. Mas a sua dúvida mesmo era entre estudar física ou vender coco na praia. Achava vender coco na praia fascinante e, de quebra teria mais tempo pra observar o universo.

Sua matéria preferida na escola era química. Mas... droga! O que fazer com isso? Que aplicação prática tem a matéria? Virar atendente de farmácia? Não ia mal nas outras, tirando artes que era uma perda de tempo e de paciência. Se sujar todo de guache? É muito gauche!

Precisava estudar muito! Não podia ser o ultimo a ser aprovado em um concurso. Já bastava ser o último de qualquer lista ordenada alfabeticamente. Preferia até não passar... que ninguém ouça. Ser físico garantiria que poderia continuar estudando. O pedágio é que teria que dar aulas. Não lhe atraía. Mas pelo menos poderia fazer a chamada ao contrário. De Z pra A e no começo da aula. Ou não fazer chamada.

“Enquanto isso, vou degustar meu almoço que a tarde vai ser longa. Vou começar com matemática e física e terminar com literatura pra ajudar a dormir”, pensava ele determinado. Para química gastava a tarde do sábado toda. Domingo ia à praia vender cocos pra juntar um dinheiro pro cursinho pré-vestibular. Desejava entrar na Universidade de Pernambuco que tinha um dos melhores departamentos de física e astronomia do mundo. Se desse errado, ainda tinha o Rio de Janeiro.

É isso! Vamos deixar Zyon estudar. Vai que descobre um efeito magnético e denomina de Zyon. Resolve alguma coisa. Ou não. Só Zyon vai saber. Tchau!

Nota: em hebraico é correspondente a Sião, o monte do castelo do Rei Davi.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Modernidade e o Vagabundo

 


A chegada da Idade Moderna nos termos em que foi defendida como a era das luzes. O aumento da liberdade mesmo nos mais infames despotismos porque agora o castigo, até mesmo a morte, se restringe a esse mundo.  É um grande salto porque para quem acredita na vida após a morte ou na imortalidade não existe mais um fim definitivo. Isso é apenas um detalhe: a modernidade trouxe regras laicas muito mais ligadas ao funcionamento ou rotina que a proibição das ações em si. As paredes foram trocadas por corredores que em algumas vezes se tornaram labirintos, mas de toda forma tem um percurso com entrada e saída. Paredes que interrompiam o percurso eram definitivas. Poderiam ser derrubadas? Com imensa dificuldade, mas poderiam. Outra seria construída pois a ideia é proteger uma hierarquia. Labirintos protegem? Protegem, mas não impossibilitam.

A modernidade evoluiu de um jardim troiano para uma maquina com o seu auge napoleônico. Do escape de jaulas por trilhas cheias de perigo para uma associação (principalmente com a ideia de sociedade civil rousseauniana) na qual todo mundo tem sua função para possibilitar o funcionamento da máquina (que é o plano geral, muito além do Estado). Cria-se uma sociedade (esse termo claramente econômico) em que todos tem seu oficio. Quem tem um oficio disfuncional precisa ser corrigido ou eliminado. Uma boa comparação é dizer que é uma doença.

O sábio é meio que morto. A figura do vagabundo (aquele que vaga, viaja) é intensamente combatida pois ele é uma peça que falta nas engrenagens, pois está sempre indo de uma maquina a outra. O vagabundo toma uma acepção de desocupado, quando ele está sempre quebrando galho e no inicio da modernidade fazer o que quase ninguém sabia fazer pois ele tinha estado em lugares e situações que quase todos os outros não estiveram. Há um ódio ao ócio. Sem o ócio, pensadores e pesquisadores não existem. O próprio pensamento se torna colonizado. Tudo precisa estar encaixotado para facilitar o uso. Troca-se a excelência pela rapidez. Ou, pelo nome atual, eficiência.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A modernidade é uma maravilha e uma tragédia

 




A modernidade é uma maravilha e uma tragédia. Quanto ao fato de ser uma tragedia, há pouco a fazer. A maior lição da própria modernidade é que a história não volta. Não voltaremos ao escravismo para que os cidadãos livres tenham ócio e possam discutir os problemas na praça pública. Eu espero que ninguém tenha essa expectativa nefasta. É preciso construir outras maneiras de nos libertar da economia.

Quem leu A Condição Humana, de Hannah Arendt (não é um livro baba, mas importantíssimo de ler) percebe o tanto que o trabalho deixou de ser a construção de algo, criação ou manutenção de algo fora da própria vida. Existe criação ainda? Existe. Obvio! Mas quem são as mentes criativas? Hoje nas empresas existe até setor criativo para diferenciar do trabalho maquinal, automático que fatalmente será substituído por maquinas como robôs e inteligência artificial. O trabalho é majoritariamente condição de sobrevivência. Se a pessoa não trabalhar, morre.

Assim a economia conseguiu capturar a biopolítica e se tornar fundamental, se manter com mais força no centro das discussões. Mas é um caminho da captura, da submissão. O caminho da liberdade é a política. Temos que devolver a ação à política. Agir deve ser o fato político. Nada de procurações. Se nós queremos e é possível porque há um consenso pelo menos regional, territorial, nós mesmos fazemos ou provocamos. Não procuramos representantes para agir com procuração junto a outros representantes nossos. Basta de buscar o poder para ter o poder de buscar o poder.

Napoleão quando instaurou a burocracia racional nunca pensou nisso. Ele pensou numa escada, talvez essas pirâmides com níveis, não nos labirintos que criamos. Uma maquina que não intercede, não é uma alavanca para mover o mundo, mas um conjunto de paredes para conter as pessoas (ou povo, mesmo nas diversas acepções que tomou). Não contem a sociedade porque a sociedade faz parte do mesmo mecanismo, mesma máquina. Quanto a isso. Nada mais importante que ler Kafka. Não só um livro dele, mas muitos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Contra a modernidade

 


A modernidade trouxe a absorção da política pela economia. Aristóteles nunca pensaria nisso pois viveu na idade antiga ou no escravismo onde a economia (as coisas da casa) não seria nem considerada. A família, a casa eram coisas privadas, portanto necessitavam de privacidade. Essa privacidade era inquestionável.

Outra questão que não discutirei aqui é que política e ética eram inseparáveis porque ambas eram “ciências” da ação. No mínimo epistemologias da ação. A ideia de que a política era constituída pela ação, de que a política era o modo de alcançar algum fim diretamente colocava a política no centro (coração) a polis.

A ideia moderna de economia nasce na idade média sob o efeito das doutrinas ou ensinamentos de Santo Agostinho de Hipona, filosofo ainda da idade antiga.   Santo Agostinho consagra uma interpretação neoplatônica das cartas de Paulo. Uma ideia do Espirito Santo como fluido, meio que, por distribuição dos dons dentre outros, liga os seres humanos, estabelece uma comunicação. Ou seja, cria a ideia moderna de economia.

Estamos imersos na economia. Existem outras coisas como a política, mas são meros meios para interferir na economia ou serem usadas por ela. Nasce a economia politica para substituir a política. As duas mais importantes ideologias (tanto faz a interpretação napoleônica ou marxista nesse caso), no caso o liberalismo e o marxismo nascem sob égide da modernidade e o domínio da economia. Apenas o anarquismo (me refiro ao anarcossindicalismo ou ao  anarco-socialismo) nasce de um contraponto a isso. Mas não importa, este não floresceu, nem florescerá tão cedo em algum lugar.

Essa ideologia (já disse, usem qualquer acepção que cabe por motivos diferentes)  nos vitima pois pensem meu simples exemplo besta: há uma praça. Desejamos que fosse bonita, que fosse agradável. Mas como ocorrem furtos na praça evitamos frequentá-la. Frequentar a praça vazia é perigoso e por isso ela é vazia.   Assim reclamamos, falamos absurdos e algumas vezes até conseguimos uma ronda na praça. Mas nosso temor a mantém vazia e propícia para pequenos furtos e até para o comercio de entorpecentes.

Se agíssemos, ocupássemos a praça como nossa (espaço público). Cobrássemos melhorias constantes. O próprio movimento diminuiria o furto não só pelo fluxo de pessoas, mas também pela cobrança que mostraria a administração que o espaço é importante. O fluxo de policiamento se torna natural porque é um espaço eleito como importante. Não estamos falando de um objeto mais do qual ninguém se importa.

Ou seja, trocar uma atitude econômica (medo de ser assaltado) por uma atitude política (agir) resolve múltiplos problemas interligados. É preciso trocar o particular (economia) pelo público (política).

Pulei uma coisinha no meio, Maquiavel (um moderno lá do início) transformou a política em um meio para outro meio. A política, deturpando muito ele, mas menos que a maioria, é um meio de adquirir poder, para só assim com o poder, poder fazer o que é necessário. Na idade antiga não existia esse intermediário: agir era fazer diretamente o que se desejava, o que era necessário

Nós estamos imersos nessa ideologia da intermediação. Votamos em representantes. Escolhidos para nos representarem. Nas poucas possibilidades de uma democracia direta como propor uma lei ou lutar para trocar as lâmpadas da rua, as quais nos competem diretamente preferimos correr atras de nossos representantes que são muito menos potentes que nós. Pensa em dez caras uma semana azucrinando o prefeito. Só dez, nem precisa mais. Toda democracia direta precisa ser cultuada, salva, idolatrada. Mas preferimos a economia, sermos representados, termos representantes comerciais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Vale

 


Frutificou o vale

A montanha incólume

No caminho incertezas

As dúvidas constroem

As dívidas destroem

Qual é a dívida do investimento?

Dará lucro?

Sem incerteza não há futuro

O presente são as ações

Políticas, não econômicas

É preciso melhorar o mundo

Sem temer a própria sobrevivência

domingo, 18 de janeiro de 2026

Realidade Goiana

 


O passado vitima torcedores e administradores de times. Torcedores do meu time acreditam que ele é grande. Acredito que tem modestas chances de voltar a ser. Mas não é grande há no mínimo 40 anos desde que os estaduais perderam a importância. O rival que esteve na Série A por mais tempo no estado talvez tenha se tornado o mais problemático da capital por acreditar ter a potencia que há muito tempo não tem e viver de ilusões gastando dinheiro que ainda tem, mas deve deixar de ter pelo custo/benefício muito alto. Enquanto isso o time que competia com um quarto para não ser o mais insignificante da capital hoje é o que tem mais possibilidade de sonhar com a primeira divisão por não investir abusadamente e tentar fazer mais om menos só que com mais dinheiro que o meu time do coração.

Os times tem que ter consciência de seu tamanho. Esquecer imprensa e torcedores. Tentar ser maiores amanhã do que são hoje.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Dedicatória

 Essa vai ser a dedicatória do meu livrinho em fevereiro:

Dedico este livro a minha professora em Bom Jardim de Minas onde me alfabetizei. Aos professores Alcides Nascimento e Edna Lúcia que me ensinaram a escrever. E, por fim às minhas sobrinhas Júlia e Luísa que inspiraram meu uso da imaginação alongada.


Bicho-do-mato

  “Sinceramente... contar uma estória não é pouco”, dizia ele como se fosse qualquer coisa. Um interlúdio entre uma conversa e outra. Sua vi...